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2º dia - PIEVE SANTO STEFANO a SANSEPOLCRO - 38 quilômetros


2º dia - PIEVE SANTO STEFANO a SANSEPOLCRO - 38 quilômetros

Que o senhor volte os olhos para ti e te dê tua paz. Que o senhor te abençoe.” (São Francisco de Assis) 




Minha intenção nessa jornada era pernoitar no povoado de Montagna, situado 27 quilômetros à frente, porém, quando fiz contanto com os proprietários dos dois B&Bs lá existentes, responderam-me que não teriam vagas em apartamento individual para aquele dia e o preço por um quarto duplo restava exorbitante.

Ainda assim, entendi que eu poderia negociar uma situação diferente quando lá aportasse.

Dessa forma, às 5 horas eu parti e deixei a cidade caminhando por uma rodovia asfaltada, mas, um quilômetro adiante, as flechas amarelas me remeteram à esquerda, por onde segui um forte ascenso, ainda sob piso asfáltico.

Por conta do clima frio e hidratado, não encontrei dificuldades para superar esse primeiro tramo, até chegar a uma encruzilhada, de onde se avista o Eremo de Cerbaiolo que, antigamente, acolhia peregrinos, mas, atualmente, não mais o faz, porque sua hospitaleira faleceu já a algum tempo.


O Eremo de Cerbaiolo foi construído pelos frades beneditinos no século oitavo e doado a São Francisco em 1216, quando ele passou por Pieve Santo Stefano, a caminho de La Verna.

Doze anos depois, os frades ali residentes receberam a visita de Santo Antônio de Pádua, que escolheu o lugar para um período de oração e penitência.

Sobre o leito de pedra onde ele repousava, se construiu uma capela, em 1700.

O ermitério foi severamente danificado durante a Segunda Guerra Mundial, devido a confrontos entre partidários locais e tropas nazistas, que tentavam usar o local como base de operações.

Atualmente, o Cerbaiolo está reformado e hospedou, desde 1967, a eremita Chiara, uma irmã franciscana, que dedicou sua vida a conservar o lugar e acolher peregrinos, vindo a falecer em 2010.

É um trabalho que ela realizou sozinha, contando com a ajuda eventual de amigos, parentes e admiradores.


A partir dali, seguindo à esquerda, a estrada se empinou de vez, e fui galgando degraus de pedra por algumas centenas de metros, até me encontrar com outro roteiro que também provém da cidade de Santo Stefano.

Então, a aclividade da trilha se tornou, realmente, impressionante, sempre imersa em bosques e clareiras, até a passagem Viamaggio, onde sob o telheiro do restaurante Imperatore, atualmente, fechado, eu fiz uma pausa para descanso e ingestão de uma banana.


Situado a 983 m de altitude, o Passo de Viamaggio é conhecido e utilizado desde os tempos memoriais, porquanto, era atravessado por trilhas de mulas que uniam Sansepolcro e Pieve Santo Stefano, ainda hoje parcialmente rastreáveis.

Muito conhecido desde a antiguidade romana, por ser uma importante via de comunicação “Ariminensis” (Arezzo – Rimini), ele tem seu nome derivado da tradução latina, de “Via Maior”, o que sugere a importância que os romanos atribuíam a essa passagem, considerada estratégica do ponto de vista militar.

Por ela transitaram grandes nomes da história como, por exemplo, Júlio César e Marco Antônio.


Prosseguindo, o caminho ascendeu, abruptamente, através de várias cercas farpadas, sob a copa um belo prado, com imponentes vistas para o vale abaixo.

Esse, infelizmente, foi um dos piores trechos do roteiro, porque tudo estava liso e embarreado, dificultando, sobremaneira, meu perigoso deslocamento.

Urge, em minha opinião, como forma de salvaguardar a higidez dos peregrinos, a colocação de degraus de madeira e corrimões laterais, ou, até mesmo, cordas, nesse crítico intermeio, a fim de facilitar o passo dos caminhantes, porque, em dias de chuva, duvido que alguém consiga transitar por esse local.

Por sinal, sobre o assunto, o Guia da Ângela sugere, no caso de intempéries, prosseguir por asfalto, enlaçando com o roteiro original mais à frente, lembrando que tal desvio acresce 4 quilômetros ao percurso dessa etapa.

Prosseguindo, em vários ascensos eu precisei me agarrar à vegetação lateral, como forma de catapultar minha trajetória ascendente, mas há lugares em que isto era impossível e o jeito foi mesmo, engatinhar ladeira acima.

Depois de um terrível e derradeiro, mas curto aclive, eu alcancei o cume do Monte Verde, a uma altitude de 1147 m.

Dali eu podia avistar uma imensa área verde ao meu derredor e, inclusive, o lago de Montedoglio, que é formado pelo represamento do rio Tibre, o mesmo que corta a cidadezinha de Pieve Santo Stéfano.

A descida pelo lado aposto, graças à lama e às folhas podres, também foi deveras insidiosa, e nela sofri duas quedas espetaculares, felizmente, sem danos físicos.

Ainda em forte descenso, acessei uma estrada de terra e em contínuo declive, em meio a verdejantes bosques, prossegui até Pian delle Capanne, onde há uma pequena cachoeira, ponto de refrigério dos peregrinos no verão.

Dois quilômetros abaixo, cheguei a Spinella, onde girei à esquerda, adentrando em outra perigosíssima trilha que, sempre em forte declive, utiliza o leito seco de um rio para descender a montanha.

Depois de um tempo, o caminho atravessa uma área de deslizamento de terra, onde se caminha sobre um piso irregular, feito de lajes de pedra.

Nesse sentido, fiquei a imaginar que em dias de chuvas torrenciais, o trânsito por esse local seja proibitivo e arriscado, porque o caminhante não terá como saber onde estará pisando.

Mas, o trajeto nesse trecho é realmente fantástico, permitindo que você se misture com a natureza, ouvindo apenas canções de pássaros e folhas sussurrantes.

Apesar da beleza, é necessário prestar muita atenção onde se coloca os pés, pois o terreno acidentado é formado por seixos e um soalho terrivelmente instável.

Os encontros mais casuais nesse tramo ocorrem com animais ou outros peregrinos que percorrem esse caminho, porque ele é integralmente ermo.

A chegada a Montagna captura quase que, inesperadamente, pequenas casas de construções antigas, que dão vida a essa minúscula vila.

Ali confirmei que não haveria acomodação para mim nesse dia, embora me fosse oferecido pernoitar no interior da casa paroquial, situada junto à igreja que ali existe, mas como eu não portava saco de dormir, precisei repensar outra alternativa, já que me encontrava alquebrado pela dificílima jornada que superara naquela ocasião.

O remédio foi tomar um ônibus circular que, 20 minutos mais tarde, me deixou junto à muralha que envolve a cidade de Sansepolcro, local de meu pernoite nesse dia.

Foi uma decisão frustrante, porque nesse percurso final, deixei de conhecer o Santuário de Montecasale, de grande importância histórica quanto à vida de São Francisco, já que ele pernoitou nesse local várias vezes.

Porém, conforme pude constatar, o trecho final da jornada torna-se um tanto frustrante, aproximadamente 5 quilômetros, porque é percorrido sobre piso asfáltico, numa estrada vicinal de expressivo trânsito e que não contém acostamento.


Francisco se hospedou em Montecasale pela primeira vez em 1212, por ocasião de uma de suas muitas viagens.

O convento, doado no ano seguinte para Francisco pelo bispo de Città di Castello era, na ocasião, um hospital e albergue para peregrinos.

Este convento abrigou São Francisco diversas vezes. Vários milagres e histórias edificantes se passaram ali, sendo a mais famosa a história dos três assaltantes que se converteram e abandonaram o mau caminho.

Contam os biógrafos medievais, que certa ocasião alguns ladrões da região apareceram no eremitério pedindo comida. Os frades, indignados, os expulsaram dali. Tão logo soube do ocorrido, Francisco censurou os
companheiros. E, a título de penitência, e de lição, mandou-os procurar os ladrões e lhes oferecer pão e vinho.

Os ladrões ficaram sensibilizados com tal atitude, e passaram a viver pelo trabalho das suas próprias mãos. Um deles, inclusive, acabou se tornando frade.

No convento também estão as selas onde dormiram Santo Antônio de Pádua e São Boaventura. E a caverna, com um leito de pedra, onde São Francisco orava.

Algumas fotos de percurso desse dia:


Em ascenso, em direção ao Eremo de Cerbaiolo.


Trilha acidentada e íngreme.


Informações fincadas no topo do morro.


Caminhando pelo topo do morro, estrada gramada.


Locais desertos e silenciosos...


O antigo restaurante Imperatori, hoje fechado. Em caso de chuvas, o correto é seguir pelo asfalto, em frente.


Trilha lisa, suja e em ascenso.


Do topo do Monte Verde, vista do lago de Montedoglio, formado pelo rio Tibre.


Sinalização excelente, também nessa etapa.


Em contínuo descenso...


Belo bosque, quase chegando em Montagna.


Um dos B&B existente em Montagna.

SANSEPOLCRO - Segundo a tradição, a cidade foi fundada por volta do ano 1000, por dois peregrinos (Arcanus e Aegidius), que instituíram um oratório (onde hoje está na catedral), quando retornavam de Jerusalém.

O local da capelinha tornou-se espiritualmente importante e começou a atrair pessoas, dando origem à cidade.

As primeiras menções históricas datam de um pouco mais tarde, referindo-se à abadia beneditina construída nesse período.

Uma série de desastres naturais como terremotos e pestes, quase a fizeram desaparecer, mas a reconstrução na época do Renascimento, na ocasião do domínio dos Médici, a tornou uma cidade pequena mas muito imponente, que lembra Florença.

O município é cercado por planícies férteis, onde o tabaco é uma cultura importante.

E foi em Sansepolcro que se construiu a primeira fábrica de massas da Itália, a Buitoni, que foi fundada por Giulia Buitoni, em 1827.

Das coisas que mais me atraíram nesse périplo medieval italiano, destaco os portais das igrejas, as portas em geral, as janelas, os brasões e as aldravas das portas.

As igrejas em si são um caso especialíssimo à parte, tal a beleza estrutural com que foram construídas e adornadas com imagens, afrescos, esculturas, etc.

Também pudera, o Renascentismo foi o período mais rico da história da cultura ocidental e se deu todo na Itália, onde mestres famosos nasceram e lá implantaram suas obras primas.

Como, dentre outras, Luca Pacioli, frade franciscano, matemático e economista, que foi um grande colaborador de Michelangelo.

Dentre outras obras, ele publicou a “Summa De Arithmética, Geometria, Proportioni e Proportionalitá e della Divinna Proportionie”, demonstrando toda sua capacidade intelectual.

Mundialmente, Sansepolcro é conhecida como a cidade natal do pintor renascentista Piero della Francesca, sendo que algumas de suas obras podem ser vistas no Museu Municipal.

Ela presenciou um acontecimento importante no retorno de Francisco a Assis, após ter recebido as chagas no Monte Alverne.

Francisco, que nessa altura já era considerado um santo vivo, foi ali recebido por uma multidão de devotos e as pessoas se atropelavam na ânsia de ouvi-lo e vê-lo.

Nessa ocasião, foi cercado por muitos doentes, que tentavam, ao menos, tocar-lhe a barra da túnica.

População atual: 16 mil habitantes



Um dos prédios mais antigos de Sansepolcro.


A igreja matriz da cidade.


Dedicada a Santa Maria dei Servi.


Uma das praças existentes na cidade.


Uma das portas que dá acesso ao centro velho da cidade.


Igreja de São Francisco em Sansepolcro.

RESUMO DO DIA - Clima: Nublado e frio de manhã, depois, ensolarado, variando a temperatura entre 6 e 15 graus.

Pernoite: Apartamento alugado pelo Airbnb - Preço: 30 Euros – Localizado fora do centro histórico. Não aconselho!

Almoço: Bar La Piazza – Preço: 20 Euros.


AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma jornada extremamente bela, contudo, de imensas dificuldades técnicas, uma das mais difíceis que já trilhei em minha trajetória peregrina, por sua agudeza altimétrica, aliado ao fato de que encontrei sendas extremamente lisas e que não devem ser percorridas com tempo chuvoso. A transposição que se faz após o “Passo Viamaggio” foi, sem dúvida, um dos maiores empecilhos que enfrentei em todo o roteiro. A trilha sequente, após Spinella, oferece imensos riscos à saúde do peregrino, pela instabilidade que o leito do trajeto apresenta. No entanto, necessário destacar que a sinalização dessa etapa, como a da anterior, também se mostrou excelente.