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3º dia – SANSEPOLCRO a CITTÁ DI CASTELO – 35 quilômetros


3º dia – SANSEPOLCRO a CITTÁ DI CASTELO – 35 quilômetros

Ninguém é suficientemente perfeito, que não possa aprender com o outro e, ninguém é totalmente estruído de valores que não possa ensinar algo ao seu irmão.” (São Francisco de Assis)





Em princípio, naquele dia, eu tinha a intenção de retornar até Montagna de ônibus, depois percorrer o pequeno trecho restante, de 11 quilômetros, que não completara no dia anterior.

Contudo, a previsão era de intensas chuvas para aquela data, o que acabou se confirmando.

Ademais, eu tomara conhecimento pelas redes sociais de que havia uma peregrina brasileira solitária no Caminho, que estava 2 jornadas à minha frente.

Assim, resolvi prosseguir adiante, na tentativa de alcançá-la, o que, graças ao bom Deus, felizmente, se concretizou.

Isto resolvido, parti às 5 h sob muito frio e até sair da zona urbana eu transitei por ruas molhadas e escuras, pois chovera abundantemente durante a noite.

Os primeiros quilômetros foram todos vencidos sob piso asfáltico, por uma imensa planície, e próximo do povoado de Torre del Guado, depois de percorrer 8 quilômetros, eu deixei a Província da Toscana para adentrar na da Umbria.

Mais adiante, já pisando em terra, teve início uma forte elevação que, ao seu final, me levou a transitar por Citerna, depois de caminhar 15 quilômetros.

Eu atravessei calmamente a bucólica cidadezinha, com suas ruas silenciosas e comércio ainda fechado.


CITERNA – Essa diminuta cidade medieval, fundada pelos etruscos, tem hoje cerca de três mil habitantes, e está situada em uma belíssima colina, que a tornou nos últimos anos uma popular estância de férias.

Em 1917, um grande terremoto derrubou a Igreja de São Giácomo, bem como o Albergue de Santo Antônio, que hospedava peregrinos a caminho de Roma.

Reza a tradição popular que, quando São Francisco parou ali, abençoou a colina, chamando-a “o Monte Sagrado”.


O descenso pela lado oposto foi sobre piso asfáltico e prossegui um bom tempo sob intensa cerração, entre imensos campos agriculturados onde o forte eram as plantações de trigo e tabaco.

Depois de transpor uma rodovia, voltei a caminhar em terra, por uma estrada larga, mas bastante lisa, face às recentes intempéries.

Em algum ponto acima, quando a estrada se empinou, principiou a chover e precisei vestir minha capa protetora.

Lutei muito para suplantar um outeiro, face ao piso escorregadio, que por várias vezes, quase me levou ao chão.

Na sequência, caminhei algum tempo pelo topo do morro, depois voltei a descender violentamente, mas por uma rodovia vicinal asfaltada.

O novo ascenso pelo lado oposto também foi realizado sob intensa chuva e por trilhas alagadas.

Novamente em descenso, eu caminhei algum tempo pelo acostamento de uma movimentada rodovia, depois voltei a fazer outro grande rodeio à direita e, pela terceira vez nesse dia, enfrentei outro forte ascenso que, em seu topo, me levou a transitar a 535 m de altura, o ponto de maior altimetria nessa jornada.

E logo transitei diante do Eremo de Buon Riposo, mas como não havia agendado visita, passei ao largo e prossegui adiante.


O EREMO DE BUON RIPOSO - Situado a poucos quilômetros de Città di Castello, fica escondido em uma colina, entre densas florestas de castanheiros.

Conta-se que em 1213, caminhando por esta região, Francisco o ganhou de um devoto cristão.

O primitivo ermitério foi durante muitos anos um local importante para os franciscanos. Aqui se hospedou São Francisco, e nos séculos seguintes vários outros monges considerados sagrados.

Em 1864 os frades se mudaram para outro mosteiro; o convento e a igreja foram fechados e posteriormente vendidos a particulares que ainda possuem o lugar.

Atualmente, é propriedade da família Rossi, que salvou-a do abandono.

Quando Francisco esteve ali, em 1224, as pessoas da região vieram vê-lo, e homens, mulheres e crianças se esforçavam para tocar e beijar suas mãos.

E, não podendo recusar a devoção do povo, Francisco enfaixou as palmas das mãos para esconder os estigmas, deixando apenas os dedos expostos.


Já em descenso, logo cheguei em zona urbana, embora a chuva não desse trégua em momento algum.

E sem maiores dificuldades, depois de ultrapassar o rio Tibre por uma ponte, me dirigi ao centro de Cittá di Castello, local de meu pernoite nesse dia.

Por sorte, a peregrina Cristina havia ficado na cidade se recuperando de uma lesão no joelho e estava hospedada no mesmo hotel em que fiquei.

Conversamos bastante, almoçamos numa Trattoria e de comum acordo, resolvemos seguir juntos a partir do dia sequente.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Caminho integralmente plano, mas sobre piso duro.


O sol até que tentou sair, mas logo desistiu...


Início do ascenso em direção a Citerna.


Chegando à periferia de Citerna.


Adentrando em Citerna.


Muita nebulosidade na descida pelo lado oposto.


Muita cerração no entorno.


De volta às estradas de terra...


Em liso ascenso.. início da chuva.


Descendendo sob forte garoa...


Transitando pelo topo do terceiro morro...


Quase chegando...


Almoço com a Maria Cristina Wu.

CITTÁ DI CASTELLO é uma cidade muito antiga, e acredita-se que ela foi fundada no primeiro milênio antes de Cristo, pelos umbros ou etruscos.

No século I d.C, Plínio, o Jovem, já vivia nela, numa casa situada em seus arredores.

Edificada na margem esquerda do rio Tibre, ela foi mais tarde destruída pelo godos, depois, reconstruída e fortificada pelo Bispo Florido.

Subjugada por Florença e, depois, por Perugia, no século XV tornou-se domínio da família nobre Vitelli, que valorizou a cidade com igrejas e palácios.

Sua arquitetura atual é típica da Idade Média e ela é, até hoje, circundada por uma vigorosa muralha do século XVI.

A Segunda Guerra Mundial teve efeitos devastadores sobre a cidade, que sofreu 11 ataques aéreos na semana anterior à sua libertação pelos aliados, em julho de 1944.

Foram destruídas pontes, ferrovias, obras hidráulicas, industriais e edifícios públicos.

Francisco sempre que passava por Città di Castello, quando a caminho do Monte Alverne, costumava se hospedar no convento de Buon Riposo.

População atual: 40 mil pessoas.


A praça central de Cittá.


Ruas molhadas, a chuva não cessou...


Igreja matriz da cidade.


Chuva constante...


Altar-mór da igreja matriz.


Festejando a passagem por Cittá...

RESUMO DO DIA - Clima: Nublado no início, depois chuvoso, variando a temperatura entre 7 e 16 graus.

Pernoite: Hotel Umbria - Apartamento individual excelente e com localização cêntrica. Preço: 30 Euros

Almoço: Trattoria Pizzaria Roma – Preço: 13 Euros.


AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma jornada de grande extensão, que abarca 3 elevações a ser vencidas. Para complicar, enfrentei chuva constante a partir do 18º quilômetro até o final do trajeto. Porém, na maior parte do tempo, caminhei sempre junto à natureza, onde o verde se fazia constante. Num dia ensolarado, com certeza, tudo seria diferente, embora haja pouca sombra em seu traçado. No global, outra etapa de incrível beleza, com vários tramos ermos e silenciosos. E, como nos trajetos anteriores, muito bem sinalizada.