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3º dia – AZAMBUJA a SANTARÉM - 34 quilômetros


3º dia – AZAMBUJA a SANTARÉM - 34 quilômetros

Ó Santíssima Virgem Maria, saúde dos enfermos e amparo dos aflitos, que movida pelo rogo dos pastorinhos, fizestes já curas em vossas aparições em Fátima, e haveis convertido este lugar, santificado por vossa presença, em oficina de vossas misericórdias maternais em favor de todos os aflitos; ao vosso coração maternal acudimos cheios de filial confiança, mostrando as enfermidades de nossas almas e as aflições e doenças todas de nossa vida. Deixai sobre elas um olhar de compaixão e as remedíeis com a ternura de vossas mãos, para que assim possamos servir-vos e amar-vos com todo nosso coração e com todo nosso ser.




Estava bastante escuro ainda, quando deixei o hotel onde me hospedara, exatamente, às 5 h.

Com minhas pernas em fase de aquecimento, eu desci por uma rua fria e silenciosa e, ao seu final, dobrei à esquerda, e acessei as escadarias de uma grande passarela coberta, na qual eu atravessei o complexo das vias férreas.

Ao descer do lado oposto, eu passei ao lado da Estação Ferroviária, fleti à esquerda, e adentrei em uma rodovia asfaltada, que seguiu por um bom tempo paralelo a um grande canal de irrigação, visto do meu lado direito.

Dois quilômetros à frente, eu ultrapassei por uma ponte de ferro, o imenso Canal de Azambuja, cuja obra foi realizada a mando do Marquês de Pombal, traz as águas do Tejo para distribuí-la em novos canais de irrigação, em terras situadas mais abaixo de onde eu me encontrava.

Então, obedecendo a sinalização, eu dobrei à esquerda e prossegui por uma estrada de terra, que seguiu paralela ao canal que eu acabara de transpor.

Nesse local foram encontrados fragmentos da antiga calçada romana que por ali passava.

Foi um percurso silencioso e tranquilo, até que, depois de passar diante da Quinta das Quebradas, saí numa larga estrada de terra.

Na sequência, passei ao lado de um aeródromo, e logo acessei uma rodovia vicinal asfaltada que, depois de 2 h de percurso, 11 quilômetros percorridos, me fez transitar pela cidade de Reguengo, enquanto o dia clareava.

Calmamente, atravessei a pequena vila utilizando uma pista que segue acima do dique de contenção do rio Tejo.

Mais 3 quilômetros caminhados em bom ritmo e cheguei à cidade de Valada, onde Dom Pedro I teve seu palácio real.

Trata-se de uma pequena povoação, que atravessei por sua avenida principal, seguindo paralelo ao dique de contenção do Tejo.

A imensa variação desse grande rio, que pode passar de 23 m3 na época de seca, para 11.000 m3 no inverno, tem sido uma maldição secular para essas terras ribatejanas, mas, também uma fonte de riqueza.

A lama que ele deixa agregada ao solo, tal qual um Nilo em miniatura, tem fertilizado essas planícies desde tempos imemoráveis, convertendo-as em uma das terras mais férteis de Portugal.

Através de métodos proativos, hoje os embalses e as represas regulam o ritmo do curso d’água e evitam o alagamento das áreas cultivadas e dos povoados.

Contudo, antigamente, a única defesa existente ante o crescimento das águas, eram os diques de contenção, como este por onde agora discorre o Caminho.

O roteiro seguiu por 12 quilômetros, sempre ao lado de um grande muro de proteção, que vai margeando o rio, tendo eu pelo meu lado esquerdo imensas áreas cultivadas, onde o trabalho no campo era intenso, com tratores fazendo aração ou colheita de víveres ali plantados.

A paisagem variou bastante, contudo, somente após atravessar a Quinta das Burras, é que voltei a caminhar em terra.

Posteriormente, transitei por uma pequena vila chamada de Porto de Muge e, na sequência, sob a grande ponte Dona Amélia, que transpõe o rio Tejo e vai em direção a Cartaxo.

O trajeto prosseguiu em terra e, extremamente bucólico, nesse trecho eu caminhei sempre junto ao dique pela estrada rural que o acompanha, passando pela Quinta do Pedroso, Quinta das Varandas, Quinta do Malpique e Quinta da Caneira.

No horizonte, sobre um morro, eu já podia avistar a cidade de Santarém, mas ainda me restavam uns 10 quilômetros para lá aportar.

Mais adiante, surpreendentemente, eu encontrei um grupo de 10 jovens, que havia partido de Vila Franca de Xira e que também seguia para Fátima.

Eles estavam lanchando junto ao carro de apoio quando passei, nos cumprimentamos, conversamos um pouco, soube que eles pernoitariam naquele dia em Azoia de Baixo, trocamos informações sobre a jornada sequente, depois, segui o meu caminho.

Meia hora mais tarde, eu deixei o belíssimo casarão da Quinta do Carqueijo, à minha esquerda, e logo a seguir, o piso em terra por onde eu vinha caminhando se converteu em asfalto, quando acessei uma rodovia vicinal.

Por ela eu passei ao lado de um Aeródromo, e logo teve início uma penosa e íngreme aclividade, já na rua denominada Calçada da Junqueira, que fui vencendo lentamente, em face do sol quente, brilho intenso, num céu azul e sem nuvens.

Esse trecho final, em duro ascenso, foi um bom teste para a minha resistência física, porque depois de ter caminhado 33 quilômetros, precisei de muita tenacidade para suplantar os metros derradeiros.

Finalmente, às 12 horas, eu adentrei em Santarém, minha meta para aquele dia, bastante alquebrado.

Para pernoite eu utilizei o Residencial Beirante, de excelentes acomodações, situado próximo do Mercado Municipal, no Caminho que vai em direção à Fátima.

Depois do necessário banho e lavagem de roupas, saí para almoçar.

Algumas fotos da etapa desse dia:


Adentrando em Reguengo.

uengo
O dia, lentamente, amanhecendo...


Transitando por Valada. O rio Tejo está do lado direito.


"Monjón" explicativo... As distâncias vão caindo...


Imensas plantações me ladeiam pelo lado esquerdo.


Caminho deserto e silencioso..


A cidade de Santarém já aparece no horizonte, do lado esquerdo, no alto..


Estamos chegando..

Santarém, uma cidade muito antiga, teria sido contatada por Fenícios, Gregos e Cartagineses, porquanto sua fundação se reporta à mitologia greco-romana e cristã, reconhecendo-se nos nomes de Habis e de Irene, as suas origens míticas.

Os primeiros vestígios documentados da ocupação humana remontam ao século VIII a. C.

A população do povoado teria colaborado com os colonizadores romanos, quando estes aportaram à cidade em 138 a. C. e a designaram como Scalabis.

Durante este período se tornou o principal entreposto comercial do médio Tejo, e num dos mais importantes centros administrativos da província Lusitânia.

Dos romanos recebeu o nome de Scalabi Castro.

Com as invasões dos Alanos e dos Vândalos passou a ser designada por Santa Irene.


Cidade belíssima!

Passou para a posse dos mouros em 715 até que D. Afonso Henriques a conquistou definitivamente em 1147.

Num golpe audacioso, perpetrado durante a noite, a cidade caiu na posse de um escasso exército reunido pelo Rei de Portugal.

A cidade, capital do gótico português, um baluarte estratégico sobre o leito do rio Tejo, foi sede das cortes portuguesas, posição desejada por todos os reis, e freio estratégico a todos os avanços dos muçulmanos e castelhanos.

Dizem que em tempos de revolução, na idade medieval, apareceu próximo à cidade um cadáver de uma donzela que se defendeu, até a morte, à tentativa de ultraje de um monge.

A jovem virtuosa se converteu em Santa Irene (ou santa Eira), e a cidade passou, a base de contradições, a adquirir o topônimo atual.


O Mercado Municipal de Santarém.

Após uma soneca rápida, saí passear pela cidade, e pude visitar a igreja da Sé, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, edificada sobre o solar do antigo palácio dos reis portugueses.

Depois me dirigi à Igreja de Santo Agostinho da Graça, edificada em 1380, um grande monumento gótico, onde se encontra enterrado Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, mas, infelizmente, talvez por ser um sábado, o templo se encontrava fechado.

Em seguida, retornei uns cem metros e fui visitar as Portas do Sol.


As imperdíveis Portas do Sol.

Na verdade, o valor estratégico de Santarém só se compreende quando o peregrino chega nesse local, onde estão presentes os restos de uma antiga fortaleza que ali existiu, e que recentemente foi convertido num belo parque urbano.

Um mirador exclusivo foi colocado à disposição dos visitantes, e dali se tem uma vista privilegiada de todo o vale por onde moureja o rio Tejo, bem como de toda a área circunvizinha.

À noite, preocupado porque teria outra acidentada jornada no dia imediato, optei por fazer um singelo lanche no quarto.

E logo fui dormir, pois me encontrava bastante cansado, em razão da dura jornada vivenciada naquele dia.


Vista do rio Tejo e região, desde as ruínas da Fortaleza.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto, computado desde o Residencial Flor de Primavera, em Azambuja, até o Residencial Beirante, em Santarém: 7 h.

Clima: Ensolarado, variando a temperatura entre 12 e 25 graus.

Pernoite: Residencial Beirante: Excelente! – Apartamento individual - Preço: 30 Euros.

Almoço: Restaurante Taberna do Quinzena: Excelente! Preço 8 Euros.


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada toda plana, contudo, de grande extensão, feita praticamente 50% em terra, o restante em piso asfáltico. Porém, o percurso transcorre sempre em meio a muito verde, com imensos espaços cultivados ladeando o peregrino. A dificuldade maior situa-se na chegada a Santarém, pois no derradeiro quilômetro, é preciso sobrelevar uma elevação de 100 metros, algo bastante sofrível, para quem já venceu 33 quilômetros, e necessita encontrar forças extras para superar mais esse difícil obstáculo.