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1º dia: PONFERRADA a PUENTE DE DOMINGOS FLORES – 39 quilômetros


1º dia: PONFERRADA a PUENTE DE DOMINGOS FLORES – 39 quilômetros

A verdade é que ninguém está completamente pronto, não existe o "momento certo". Chega uma hora em que a pessoa simplesmente espera pelo melhor, segura o nariz e mergulha no abismo.” (Clarissa Pinkola Estes)




A jornada seria longa, desgastante e, além disso, fazia um frio de rachar para a época, temperatura na marca de 8°C, quando deixei o local de pernoite, às 6 h 30 min, e dei início à minha peregrinação em direção a Santiago de Compostela.

Rapidamente, abandonei o núcleo urbano, depois, por uma ponte, atravessei o rio Boeza que, quinhentos metros abaixo, tributa suas águas no importante rio Sil, o famoso balizador desse itinerário, ao menos, até o final da sexta etapa.

Ali, girei à direita e segui caminhando por uma rodovia e quando a iluminação urbana e o piso asfáltico se findaram, percorridos 3 quilômetros, acendi minha lanterna de mão e prossegui adiante, intimorato e extremamente animado, quase sempre, entre árvores que crescem nas margens do rio, situado no interior do amplo vale berciano.

No 6º quilômetro eu passei pela povoação de Toral de Merayo, onde tudo se encontrava silencioso, nada se movimentando pelas suas ruas desertas e frias.

Ali, girei à esquerda, depois, por caminhos em terra, caminhei ao lado de imensas plantações agrícolas e, percorridos 10 quilômetros, eu passei por Villalibre de la Jurisdición, outra minúscula vila, onde também encontrei tudo fechado e deserto.

A partir dali, primeiramente, sobre piso asfáltico, depois em terra, eu principiei a ascender, ainda que lentamente, e dois quilômetros acima, eu transitei por Santalia del Bierzo, onde cumprimentei uma senhora que jogava milho às suas galinhas e patos, o primeiro ser humano que encontrei até ali.

Na sequência, por caminhos de terra batida, largos e bem delimitados, mas profusamente neblinosos, eu segui em frente e, logo acima, ultrapassei a rodovia N-536, depois de percorrer 15 quilômetros.

A partir desse marco, o roteiro se empinou de vez e passei a caminhar por uma trilha funda e pedregosa, que seguiu em penoso e difícil aclive, montanha acima.

Em contínuo ascenso bordejei o monte Pajariel e quando atingi o patamar máximo, situado a 263 m de altitude, depois de caminhar 17 quilômetros, fiz uma pausa para descanso, ingestão de carboidratos e hidratação.

Prosseguindo, passei a descender e logo transitei por Villavieja, um vilarejo que me pareceu estar situado em outra dimensão sideral, com casas antigas, feitas de pedra, a maioria fechada, num local onde imperava um silêncio sepulcral e intrigante, pois o local é extremamente ermo e cercado por rochedos.

Mais abaixo, eu fiz um grande giro à direita e prossegui em ascenso pelo outro lado, em meio a milhares de castanheiras, todas com frutos maduros, pois era época de colheita e, por sorte, mais acima, encontrei algumas pessoas trabalhando nessa lida, que avistei à distância, pois se encontravam na encosta do morro a uns 50 m do caminho.

No topo da elevação, a 335 m de altitude, passei próximo do Castelo de Cornatel, uma fortaleza templária, construída entre os séculos IX e XVI, situada num promontório rochoso, que servia de proteção às explorações auríferas envidadas em Las Médulas, à época, sendo que a visita é gratuita para os peregrinos, que lá também podem “sellar” sua credencial.

Na sequência, agora sobre piso asfáltico, iniciei uma grande descendência, e mais abaixo, obedecendo à sinalização, eu girei à esquerda e, na sequência, depois de caminhar 22 quilômetros, transitei por Borrenes, um pequeno povoado onde vi bares em funcionamento.

O trecho sequente, já em ascendência, me levou por caminhos rurais, depois, em sua fase derradeira, por asfalto, até Las Médulas, onde cheguei depois de percorrer 29 quilômetros, um local obrigatório para um descanso e contemplação das espetaculares estruturas arqueológicas de origem romana.

Las Médulas é um pequeno e turístico "pueblo", a principal porta de entrada ao espaço natural de Las Médulas, declarado Patrimônio de Humanidade.

Trata-se de uma singular formação de montículos de terra roxa, restos de uma enorme mina de ouro a céu aberto, existente nos tempos do Império Romano, valendo dizer que o sistema de exploração por eles utilizados é surpreendente.

As covas abertas para conseguir o mineral e os pináculos de terra roxa surgidos pelo desmanche da montanha, emergindo entre os verdes castanheiros, oferecem uma estampa inigualável.

Na cidade pode-se conhecer o Centro de Interpretação de Las Medulas e os canais romanos, alguns com mais de 100 quilômetros, por onde se conduzia a água até as Médulas para poder extrair com sua força o ouro das minas.

Diz-se, historicamente, que se constituíram na maior exploração aurífera da Península Ibérica, com que se nutriam as arcas imperiais romanas e, recentemente, foram declaradas Patrimônio da Humanidade.

Eu estava animado em conhecer esse emblemático enclave, porém, estávamos num sábado e o local se encontrava, apinhado de turistas, inúmeros ônibus chegando, outros partindo, carros, motos, etc..

Já passava das 14 h, eu estava cansado, com fome e ainda me restavam percorrer mais 9 quilômetros até meu destino desse dia, então, desisti da visita, comprei água e tomei café num bar, depois, segui em frente.

Sobre uma larga estrada de terra, prossegui em ascensão por, aproximadamente, dois quilômetros, depois, passei a descender desabaladamente, sempre por serpeantes e lisas estradas rurais, situadas entre imensos pinheirais, que apesar de discorrer por uma inóspita zona montanhosa, me surpreendeu por sua amplitude, silêncio e paz.

E sem grandes novidades, cheguei a Puente de Domingos Flores, mas precisei atravessar toda a povoação para chegar ao hostal onde havia feito reserva.

Na verdade, a cidade é pequena, mas suas casas estão esparramadas e distribuídas ao longo da margem esquerda do rio Sil, então, mesmo após almoçar e descansar um pouco, não tive forças para retornar até seu centro histórico/igreja matriz, pois a jornada fora extensa e me deixara bastante estafado.

Durante o percurso não avistei nenhum peregrino e sobre a sinalização desse trajeto só tenho elogios.

Algumas fotos dessa etapa:


No inicio, caminho bem demarcado e com neblina.


Em leve ascenso. Paisagens espetaculares..


Sinalização excelente!


Vista do bosque situado à minha direita.


No topo da primeira elevação. 


Em descenso para Villavieja.


Castelo de Cornatel.


Transitando por Borrenes.


Paisagens surreais..


Vista de Las Médulas..


Patrimônio da Humanidade.


Ainda, vista dos pináculos de terra em Las Médulas..


Em forte descenso..


Descenso final, por estradas ótimas e bosques de pinheiros, a perder de vista.


Quase chegando...


Em Puente de Domingos Flores.

O primeiros vestígios de presença humana nesse município datam da época romana, pois dela se encontraram moedas cunhadas, assim como ruínas de uma fábrica de metais, indício que ali, antigamente, se situava a povoação de “Métola Asturum”.

Não obstante, a fundação de Puente de Domingo Flórez e das outras localidades vizinhas se referem à Idade Média, quando se integraram ao Reino de León.

Situada na zona limite de León e Galícia, seu clima é oceânico, com tendências à mediterranização, sendo que sua temperatura média anual é de 13°C.

Puente de Domingos Flores é considerado um dos municípios da Galícia exterior, quer dizer, da área de cultura galega que fica fora dos limites dessa comunidade autônoma, portanto, sua língua própria é o português, da variedade galega.

População: 1.852 pessoas.



Hostal La Torre, onde pernoitei nesse dia.

RESUMO DO DIA - Clima: Nublado e frio o dia todo, variando a temperatura entre 8 e 15 graus.

Pernoite: Hostal La Torre – Apartamento individual excelente - Preço: 34 Euros;

Almoço: Restaurante do próprio hostal – Ótimo! Preço: 10 Euros o “menú del dia”.


AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma jornada de grande extensão, com dois ascensos a serem vencidos, de razoável exigência. Ela transcorre pela comarca leonesa del Bierzo, com paisagens onduladas, entre vinhedos, pequenos povoados e mostras da arquitetura tradicional. A parte mais dura e, também, a mais bonita da etapa, é o ascenso a Villavieja, no qual se ganha 240 m de desnível em 3 quilômetros. Ainda, caminhei por sendas flanqueadas de castanheiros centenários e observei as formações geológicas de Las Medulas, fruto de sua exploração por mineradores, durante a dominação romana. No global, trata-se de uma etapa belíssima, com vários trechos desertos e silenciosos, bastante exigente em termos físicos.


2º dia: PUENTE DE DOMINGOS FLORES a A RÚA DE VALDEORRAS – 32 quilômetros