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7º dia: RODEIRO a LALÍN – 23 quilômetros


7º dia: RODEIRO a LALÍN – 23 quilômetros

Vá confiantemente na direção de seus sonhos. Viva a vida que você imaginou.” (Henry Thoreau)




A meteorologia previa chuvas torrenciais para esse dia, o que de fato aconteceu, posto que caiu água a noite toda e quando eu parti, às 7 h, foi sob uma intermitente e fria garoa, que vertia de um céu plúmbeo e ameaçador.

Mas, vida de peregrino é assim mesmo, de forma que, obedecendo à sinalização, acessei uma rodovia que seguiu à esquerda e percorridos 1.600 m eu cruzei o rio Arnego por uma ponte, depois, trezentos m à frente, finalmente, eu adentrei à direita e acessei larga estrada de terra, extremamente lisa e embarreada.

Segui sempre entre pastagens, campos cultivados e extensos bosques nativos e nesse tramo cruzei, novamente, por duas vezes, o rio Arnego, utilizando pequenas pontes.

Então, percorridos 5 quilômetros, eu passei pela pequena vila de Penerbosa, depois, por outra estrada de terra, pela quarta vez nesse dia, ultrapassei o rio Arnego por outra singela ponte e logo cheguei em A Penela, outra povoação que não possui estabelecimentos comerciais.

A chuva que caía em forma de garoa recrudesceu e precisei me esconder num abrigo existente num ponto de ônibus até ela amainar, o que ocorreu 15 minutos mais tarde.

Caminhados 10 quilômetros a duras penas, transitei por A Eirexe de Pedroso onde, como curiosidade, pude fotografar a entrada de um cemitério, cujos nichos dos túmulos dão para a rua.

Em Puente de Pedroso, 1.500 m adiante, por uma ponte medieval, eu cruzei pela 5ª e derradeira vez o rio Arnego.

Nesse local, há um grande mojón sinalizando a entrada em terras de Lalín, por onde se ascende a locais como Coto de Anta e Coto de Mamuela.

Na sequência, caminhando entre culturas de milho e girassóis, enfrentei suaves ascensos e descensos, todos lisos e, quase no final de brusco declive, escorreguei com força e torci o joelho esquerdo, um acidente inesperado.

Segui mancando e com muita dor até uma pequena vila à frente onde, em outro abrigo existente num ponto de ônibus, pude fazer vigorosas massagens no local, utilizando uma pomada analgésica que eu carregava na mochila.

Depois de proteger o local com uma joelheira, ingeri um relaxante muscular e me sentindo melhor, prossegui em frente.

O restante da jornada mesclou trechos silenciosos e desertos, com outros sobre piso asfáltico, mas por rodovias vicinais, onde não havia tráfego de veículos.

Então, depois de passar por Palmaz, percorri bosques nativos, mas logo adentrei em zona urbana e caminhando por uma calçada existente numa larga avenida, cheguei ao centro de Lalín, minha meta nesse dia.

Na verdade, quase na entrada de Lalín, depois de um ligeiro descenso, se passa ao lado de uma fonte e, em seguida, se desvia à esquerda, por um caminho de terra, que segue até a igreja monarcal.

Antes, contudo, há uma praça, com uma fonte feita de pedra de "canteria", um cruzeiro do século XVII e um grande portão que se abre na Casa de Moure.

Nos arredores do antigo monastério, do qual só resta a igreja, é que teve início a povoação de Lalín, constituindo-se, na atualidade, em seu casco antigo.

Eu passei por esses locais debaixo de forte chuva e não tive ânimo e nem condições físicas para intentar uma visita ao lugar.

Meu joelho estava inchado e dolorido, mas eu tinha certeza de que após repousar à tarde, uma boa noite de sono e massagens no local lesionado, tudo se resolveria e eu estaria melhor na manhã sequente, como de fato aconteceu.

À tarde, apesar da chuva não dar tréguas, ainda consegui fotografar e conhecer a igreja matriz da cidade, bem como visitar a bela estátua que homenageia “O Porco”, existente na rua Colón.

Algumas fotos dessa etapa:


Caminho molhado, chuva constante.


Bosques sombrios nesse dia..


Ultrapassando o rio Arnego pela primeira vez.


Um hórreo suspenso..


Prosseguindo, sob garoa...


Trecho campestre e arejado.


Um curioso cemitério, com túmulos de frente para a rua.


Quase no final, outro ermo trecho pelo campo.


Monumento situado no centro de Lalín.

Lalín é uma cidade com um pouco mais de 10 mil habitantes e capital de concelho homônimo.

Seu monumento mais importante é a igreja de Lalín de Arriba, uma construção do século X, de origem românica, que formava parte de um conjunto monarcal e está situada na entrada da cidade, a 50 m do caminho, do lado esquerdo.

Já sua igreja matriz, situada no centro urbano, é uma construção do século XX.

Na cidade se celebra, anualmente, a famosa “Feira do Cozido” e, por conta disso, há uma escultura de bronze conhecida como “O Porco”, situada na rua Colón e ainda que não seja do gosto de todos os seus habitantes, se converteu no “souvenir” mais fotografado pelos turistas.

A localidade conta, também, com um festejado albergue privado de peregrinos, situado em pleno centro urbano, o qual é acessado pelas galerias Colón, ainda que o habitual seja passar, primeiramente, no bar e restaurante Casa do Gato para registro, pagamento e recebimento das chaves.


Ao fundo, a igreja matriz de Lalín.


A escultura da rua Colón, que homenageia "O Porco".


Ainda "O Porco", de outro ângulo e sob chuva.

RESUMO DO DIA: Clima: chuvoso o tempo todo, variando a temperatura entre 12 e 16 graus.

Pernoite: Hotel Palácios – Excelente! Preço: 30 Euros;

Almoço: Restaurante do próprio hotel – Ótimo! Preço: 15 Euros o “menú del dia”;

IMPRESSÃO PESSOAL: Boa parte dessa etapa de pequena extensão discorreu por um belo entorno rural, com paisagens onduladas. Seu traçado percorre as terras do Condado de Dez e apresenta extensas pradarias, zona onde o forte é a criação de gado. Os numerosos riachos que desaguam no rio Arnego, regam essas terras, onde é fácil ver abundante gado bovino se movimentando pelos campos em plena liberdade. Mas há também um inconveniente, já que o caminho corta por 5 vezes o rio Arnego, é frequente encontrar trechos encharcados que chegam a ficar, algumas vezes, intransitáveis. Por sinal, em Puente de Pedroso, se dá o derradeiro ponto em que se cruza esse belo curso d'água, um marco nessa etapa. Infelizmente, enfrentei chuva em, praticamente, toda a jornada, o que contribuiu para que eu olhasse mais para o local onde poria meus pés, do que para o belo entorno a me circundar. No entanto, com tempo bom e sob sol abundante, certamente, o peregrino desfrutará de um percurso pleno de raras belezas naturais e perpassará introspectivo por locais ermos e desabitados, a tônica nesse trajeto.


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