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9º dia: BANDEIRA a SANTIAGO DE COMPOSTELA – 35 quilômetros


9º dia: BANDEIRA a SANTIAGO DE COMPOSTELA – 35 quilômetros


Não faças de ti um sonho a realizar. Vai! Sem caminho marcado. Tu és de todos os caminhos.” (Cecília Meireles)




Seria a derradeira jornada e, por isso, como de costume, plena de emoções contraditórias.

Saí cedo, próximo das 6 h da manhã, porque os primeiros quilômetros seriam, basicamente, por rodovias vicinais asfaltadas.

No primeiro trecho, percorridos 5 quilômetros, passei por Dornelas, sob intensas pancadas de chuva.

Mais cinco quilômetros vencidos, transitei por San Miguel de Castro, ainda sob clima frio e chuvisquento.

Então, iniciou-se um descenso endemoniado e 3 quilômetros abaixo, por uma ponte, atravessei o rio Ula e adentrei no povoado de Ponte Ulla, deixando a província de Pontevedra para trás, e acessei a de A Coruña.

A cidade conta com variado comércio, desde hotéis até bares e restaurantes, mas, para minha decepção, estávamos num domingo e encontrei tudo fechado, obstando minha vontade de ingerir algo quente e reanimador.

Prosseguindo, logo enfrentei duro ascenso que, em seu final, meu levou até Outeiro, onde há um excelente albergue de peregrinos; ali tentei carimbar minha credencial, mas encontrei o edifício fechado, escuro e silencioso.

Prosseguindo, o caminho mesclou trechos urbanos com outros matosos, mas, de uma maneira geral, os espaços estão quase sempre urbanizados.

Nesse trajeto passei pelas pequenas vilas de Rubial, Lestedo, Boqueirón, A Piconta, Busacos e A Susana, onde fiz outra pausa para hidratação e ingestão de uma banana.

Seguindo adiante, passei por Outeiro de Morrazo, Cañoteiras de Marrozos e Aldrei, minúsculas vilas desertas.

E num leve ascenso, ao ultrapassar um peregrino espanhol chamado Francisco, cumprimentei-o e seguimos juntos conversando, pois logo descobrimos empatia mútua, visto que detínhamos visões convergentes sobre o caminho.

Depois de cruzar as vias férreas, adentramos em Vixoi que já pertence ao município de Santiago.

Na sequência, pelo Caminho Real de Piñeiro, chegamos em Angrois, um local de tristes lembranças, pois em 24/07/2013, houve ali o descarrilhamento de um trem, que matou 79 passageiros, muitos dos quais se dirigiam à celebração das festividades do Santo Apóstolo, que ocorreriam no dia seguinte.

Ao cruzar as vias férreas por uma passarela, pudemos fotografar um local que está sempre coberto de flores, lembranças daqueles que tristemente não chegaram ao seu destino.

Prosseguindo pelo Caminho Real de Angrois, por uma ponte medieval do século XIII, nós atravessamos o rio Sar, deixando a Colegiata de Santa Maria de Sar à nossa esquerda.

Depois de rápido e duro ascenso, adentramos ao casco antigo de Santiago de Compostela pela “Puerta de Mazarelos”, a única que ainda existe das 7 que compunham o recinto amuralhado da cidade, também denominada de “Porta do Vinho”, porque era por onde entrava na cidade o vinho procedente de O Ribeiro.

Mais algumas ruas ultrapassadas, entre vivas, sorrisos e ótima conversa, finalmente, chegamos à Praza do Obradoiro, diante da Catedral Compostelana, nossa meta para aquele dia.

Ali nos abraçamos, depois batemos algumas fotos para eternizar tão gratificante momento.

Mais tarde, após recebermos a Compostela, nos despedimos alegremente e cada um seguiu para o seu local de pernoite, com a promessa de nos reunirmos à noite para comemorar a vitória, porém à tarde a chuva retornou com violência e obstou nossos planos para esse dia.

Algumas fotos dessa etapa:


Igreja em San Miguel, sob forte chuva.


Ultrapassando o rio Ula, em Ponte Ulla.


O tempo melhorou.. caminho plano e reto.


Bosques hidratados...


Alberque de peregrinos de Outeiro, fechado quando ali passei.


De volta aos bosques...


Trecho maravilhoso! Deserto e silencioso!


Trecho em campo aberto.


Igrejinha solitária.


Em Angrois, lembranças dos que faleceram em 24/07/2013...



Finalmente, na Praça do Obradoiro! Obrigado Santiago!!


Minha 16ª Compostela e o Certificado de Distância do Caminho de Inverno.

RESUMO DO DIA - Clima: Chuvoso no início, depois, nublado, variando a temperatura entre 11 e 17 graus.

Pernoite: Hostal Mapoula – Cêntrico – Apartamento individual excelente - Preço: 33 Euros;

Almoço: Restaurante Gaiola – Ótimo! Preço: 12 Euros o “menú del dia”;

AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma jornada de grande extensão, porém, depois de Outeiro, com desníveis moderados. Inicialmente, avancei por cômodas pistas de asfalto e terra, situadas num planalto, exceção feita ao forte declive, por asfalto, ao vale do rio Ulla, e posterior ascenso, de aclive menos pronunciado, até Outeiro, onde há um excelente Albergue de Peregrinos. No geral, esse itinerário é mais agradável do que se pode esperar, pela proximidade de uma grande urbe. No trajeto há bosques, zonas rurais, povoados e urbanizações disseminadas, culminando por um tramo urbano até a Praça do Obradoiro. De se ressaltar que eu percorri os agradáveis e derradeiros 10 quilômetros ao lado do Francisco, um peregrino espanhol, com quem mantive agradável e profícua troca de experiências e, nesse diapasão, minhas dores desapareceram e aportei defronte à Catedral Compostelana alegre e renovado.



FINAL