12ª Jornada - SANTILLANA DEL MAR a SAN VICENTE DE LA BARQUERA

12ª Jornada – Santillana del Mar a San Vicente de la Barquera - 35 quilômetros: “O asfalto persiste!”  


                A jornada seria longa e, novamente, a meteorologia prognosticava um dia de muito sol, porém, com temperaturas baixas.

            Assim, levantei às 6 h, calmamente me vesti, tomei meu desjejum e, às 7 h, deixei a pensão caminhando em direção à saída da cidade.

            Na sequência, primeiramente passei pela “plaza” de Ramón Pelayo, onde estão localizados o Parador de Turismo, o “Ayuntamento” e as centenárias torres de Don Borja e del Menino.

            Em seguida, acessei a rua de los Hornos e mais acima passei bordeando o Camping Municipal e, ainda subindo, atravessei uma estrada vicinal asfaltada que se encontrava em obras e prossegui até um outeiro que dominava todo o vale em frente.

            Segui, então, por uma rodovia ondulada, com pequenos bosques e campos de pastagem, alternando em suas margens.

   Em certo ponto, pude observar ao fundo, pela direita, uma belíssima vista panorâmica do mar cantábrico, a uns 5 quilômetros de distância.

            Mais abaixo atravessei a aldeia de Arroyo e prossegui descendo até Orenã, um povoado que cortei no sentido norte/sul, por ruas de pequeno movimento, ascendendo depois por uma rodovia de escasso tráfego, localizada entre prados de horizonte infinito.




            Mais acima, passei junto à igreja de São Pedro de Orenã, uma bela ermida do século XVI, solitária no alto de um morro e distante uns 500 m de sua sede, o que não deixa de ser um tanto inusitado.

            Logo depois acessei uma estrada de terra e prossegui em descenso até atravessar um pequeno riacho, agora, já no bairro de Caborredondo, um local onde avistei algumas pousadas e vários bares, todos ainda fechados, àquela hora da manhã.

            Segundo o guia que eu portava, dessa povoação eu conseguiria divisar os “Picos de Europa”, contudo, debalde meus esforços, nada consegui distinguir na direção apontada, por um morador local, que trabalhava em sua horta.

            Pude notar, no entanto, um bela igreja romântica, do século XII, dedicada a São Bartolomeu.

            Afora esse conterrâneo madrugador, tudo por ali persistia silencioso, o sol já brilhava forte e um vento frio varria a campina ao meu redor.

            Na sequência, obedecendo a competente sinalização, segui por uma rodovia vicinal e mais acima, através de uma moderna ponte metálica, atravessei a rodovia CA-131, extremamente movimentada de carros e caminhões pesados, apesar do horário matutino.

            Prossegui, ainda por asfalto, agora, já baixando em direção a um plácido vale, donde se alternavam bucólicos prados, grandes milharais e algumas casas campestres, contudo, esparçadas.

            Ao final de grande descenso, defronte um hospital geriátrico, eu dobrei à direita, caminhei no meio de um grupo de “casonas cantábricas” e, após transpor um encorpado riacho, passei em frente à portentosa igreja de San Martín de Tours.


Igreja de San Martín de Tours

            Diz a história, que esse belo templo, com ar colonial, foi erigido no século XVIII, com doações feitas por um “indiano” desse povoado que, quando criança, emigrou ao Peru e lá chegou a ser um alto funcionário do vice-rei, à época, Don Juan Antonio de Tagle Bracho.


            Sua intenção era fazer uma cópia da igreja das Capuchinhas de Lima, e para isso remeteu as plantas e os fundos necessários à realização da obra.

  Contudo, faleceu antes de poder retornar a esse “pueblo e ver sua obra terminada.

            Porém, a construção que hoje se avista ali é, realmente, digna do mais profundo louvor.

            Prosseguindo, logo adiante, atravessei uma belíssima ponte medieval e, na sequência, após voltear por trás de uma grande chácara, segui subindo por uma rodovia asfaltada, em meio a um imenso bosque de eucaliptos.

            Dois quilômetros depois, sempre em ascensão, cheguei à Cóbreces, pequena Villa localizada ao Norte da Cantábria, num ponto de razoável altitude, com o povoado espalhado ladeira abaixo.

            Desse modo, observando a sinalização, segui por um labirinto de ruas em bruscas subidas e baixadas, até aportar defronte suas construções mais emblemáticas: a Abadia de Santa Maria e, contíguo a ela, a igreja de São Pedro Advíncula, pintada em cor avinagrada.




            Ambas foram construídas em 1.891, porém têm origens distantes, posto que a Abadia Trapense, atualmente dirigidas por monges procedentes de Trapa, França, foi uma doação de D. Antônio e D. Manuel Bernaldo de Quirós, dois irmãos que quiseram engrandecer o povoado onde nasceram.

            É uma das primeiras construções do país em concreto armado, destacando-se pela beleza de suas formas, que reproduzem fielmente as linhas góticas, características da arte cisterciense.



            Já a igreja de São Pedro, uma construção em estilo neogótico afrancesado, foi financiada pelos irmãos Villegas, também originários daquele povoado, que não quiseram ser menores que seus vizinhos.

            Após fotos e uma pausa para hidratação, prossegui adiante, agora em brusco descenso, por uma rodovia vicinal asfaltada.

            Depois de um quilômetro, segui à esquerda, por uma estrada de terra bastante prejudicada pelas recentes chuvas, pois em vários locais encontrei profundos atoleiros.

            Depois de uns quinhentos metros, sempre em ascensão, em meio a muito verde, constituído por um grande bosque de pinheiros e carvalhos, saí novamente em asfalto e fiz uma grande volta para vencer um profundo vale.

            E no final de uma extensa reta, acessei a rodovia CA-131 novamente e, então, resolvi abandonar o traçado oficial do Caminho, que perambula por vales e montanhas, atravessando os povoados de La Iglesia e Pando, por asfalto.

            Dessa forma, resolvi seguir diretamente pela “carretera”, sempre em descenso e depois de 5 quilômetros caminhados, aportei em Comillas, uma cidade emblemática, sinônimo de realeza e alta sociedade, cuja origem data ao ano de 1.547.

            Sua fama deve-se a um de seus filhos, Antonio López, que após emigrar para Cuba, em 1.831, retornou com uma das fortunas mais sólidas na época.

   Embora tenha se estabelecido em Barcelona, geria suas companhias navais à distância.

            Porém, como todo bom “indiano”, enobreceu sua terra natal com inúmeros edifícios, entre os quais se destacam o Seminário da Universidade Pontifícia, o Palácio Sobrellano, residência oficial do Marquês de Comillas e, ainda, o famoso “El Capriccio de Gaudi”, uma obra de 1.885, assinada pelo genial arquiteto catalão.


Igreja matriz de Comillas

            O dia estava ensolarado, contudo frio, a temperatura beirava os 11 C°, propício para caminhar, de forma de após um giro pela praça central, onde acontecia uma animada feira, entrei num bar próximo para tomar café e comprar água.

            Segui, então, caminhando pela Avenida del Marqués de Comilla e logo abaixo acessei uma ciclovia que segue paralela à rodovia CA-131, em direção ao bairro de Rubárcena e, depois de ultrapassá-lo, prossegui em direção à La Rabia.

            Na sequência, depois de andar um 500 m sobre uma perigosa rodovia, adentrei à esquerda, em ascenso, e logo estava caminhando pelo fabuloso parque natural de Oyabre, uma imaculada reserva de biosfera, um espaço natural protegido de imenso valor ecológico, integrado por praias, dunas, bosques, “ría” e rochedos, que albergam fauna e flora de grande importância.

            Mais à frente, deixei esse paraíso natural e prossegui, agora por asfalto, em direção a ermida de Santa Maria de El Tejo, uma construção do século XIII, onde pude avistar os imemoráveis “Picos de Europa”.

            Em seguida, acessei uma pista de pedestres que seguiu beirando a rodovia e mais abaixo adentrei ao campo de golfe de Santa Marina, que foi “point” da nobreza espanhola na década de 20, porém, hoje está em ruínas.

            Na sequência, passei por Maza e por sua famosa ponte de 32 arcos, que um dia foi a maior do reino da Cantábria e, finalmente, às 14 h 15 min, adentrava em San Vicente de la Barquera, minha meta para aquele dia.

            A cidade, uma antiga vila marinheira, não possui origens bem demarcadas, no entanto, alguns historiadores a situam como herdeira de Esencia, uma povoação romana, que estava conjugada a “Portus Vereasuesca”.

            Alfonso I, “El Católico” (século XIII), repovoou e fortificou essa vila, que conseguiu um notável desenvolvimento graças aos privilégios conseguidos por meio de “los Fueros”, outorgados por Alfonso VIII, no ano de 1.210.

            Sua história marinheira segue paralela às famosas quatro “Villas de la Costa” a que pertencia, destacando entre suas obras a participação na reconquista de Sevilla, bem como expedições à Terranova, para a pesca do bacalhau.



            No alto de um grande rochedo, dominando toda a urbe, situa-se a igreja de Santa Maria de los Angeles, uma construção do século XV, localizada junto às ruínas de um antigo hospital de peregrinos pertencente à ordem de Malta.

            No outro extremo do recinto murado se encontra “El Castillo del Rey”, construído no início do século XIII, hoje convertido em Museu de História dessa localidade e está aberto ao público, para visitação.

            Ali fiquei hospedado no Hotel El Canton, de excelente qualidade.

            Após um belo almoço e uma breve soneca, fui até o albergue de peregrinos “El Galeón”, para carimbar minha credencial, bem como para conhecer os hospitaleiros que, segundo o Guia que portava, acolhiam os peregrinos com muito carinho.

            Contudo, infelizmente, não foi isto com que me premiaram, ao contrário, fui discriminado, conforme relatarei em seguida.

            Antes de requerer o “sello” em meu documento peregrino, me apresentei e, depois, solicitei do Sr. Luís Isquierdo, o responsável por aquele “refúgio”, notícias ou novidades sobre o roteiro que cumpriria no dia seguinte.

            Porém, ele ao saber que eu estava hospedado numa pensão, imediatamente começou a me ofender, dizendo que o peregrino autêntico tem que, necessariamente, pernoitar em albergue, bem como  que brasileiros ali eram exceção, e que se ele fosse aguardar pelos meus conterrâneos, poderia cerrar suas portas, pois nós não prestigiávamos esse tipo de habitação coletiva.   

            Não contente, fez um breve discurso sobre os “falsos” caminhantes, nominando-me como tal e, na sequência, recomendou-me buscar informações sobre a jornada que eu faria no dia imediato, no local onde eu pernoitaria.



            Em seguida, deu-me as costas e foi revolver alguns papéis num mesa próxima, enquanto sua esposa, Dona Sofia, que estava ao telefone, rapidamente desfez a ligação e acorreu para me atender.

            Primeiramente, fiquei pasmo ante a reação do meu interlocutor, posto que isto jamais me ocorrera em localidade alguma.

            Depois, aguardei um instante, acalmei minha raiva e indignação, e me dirigi ao hospitaleiro dizendo-lhe, de maneira calma, porém firme:

            Eu vim aqui para conhecê-los, em princípio, porque prezo a boa educação, além do mais, embora fosse dormir em local diferente daquele, o próprio país onde me encontrava vivia em intensa democracia, assim, cada um tem o direito de fazer o seu “Caminho” como melhor lhe aprouver, desde que respeite os demais.  

            Ademais, eu nem pedira carimbo em minha credencial, pois estava apenas visitando “amigos”, mas agradecia pela acolhida e buscaria informações com moradores da urbe, certamente, pessoas melhor preparadas para tratar com “estrangeiros”.

            Isto posto, deixei o estabelecimento, desci longas escadarias e retornei à parte baixa da cidade, indo até a Oficina de Turismo, onde obtive todas as instruções necessárias para seguir no dia imediato, bem ainda o indispensável “sello”, comprovando minha passagem por aquela urbe.

            Mais tarde, já no local de pernoite, relembrando o fato ocorrido, depreendi que podia ter encontrado o hospitaleiro num momento difícil e, nesse sentido, lembro-me que no dia anterior havia contado 25 peregrinos hospedados no albergue de Castillana del Mar, sendo que vira apenas 6 pessoas no estabelecimento que visitei.

            Sua frustração pelo número ínfimo de pernoitantes naquela data, pode ter sido a causa de seu destempero verbal e, por conta disto, eu acabei sendo a vítima.

            Na verdade, esse invulgar entrevero foi um fato isolado, porquanto durante todo o tempo em que permaneci na Península Ibérica, conversei seguramente com mais de 200 pessoas, e nenhuma me destratou, ao reverso, fui extremamente bem acolhido em todos os lugares por onde passei.

            Fica, no entanto, esse registro, principalmente para os brasileiros que, eventualmente, se aventurem a se hospedar naquele refúgio.


            

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa longa e, salvo por pequenos trechos, quase toda cumprida em asfalto, pois isso mesmo, dura de trilhar. Em compensação, abarcando cidades estupendas e diferenciadas no percurso, como Colombres, Comillas e San Vicente, sem falar na beleza parasidíaca vivida quando transitei pelo Parque Natural de Oyambre.


13ª Jornada - SAN VICENTE DE LA BARQUERA a EL PERAL