29ª Jornada - SOBRADO DOS MONXES a O PINO

29ª Jornada – Sobrado dos Monxes a O Pino - 37 quilômetros: “Os Caminhos se unem!”  


               Seria meu penúltimo dia de caminhada, e novamente tinha um grande desafio a vencer, porquanto o percurso seria de grande amplitude e expressivo desgaste, posto que ele discorreria, praticamente em toda sua extensão por asfalto.

            Eu havia estudado com bastante carinho essa jornada e novamente, resolvi sair o mais cedo possível, pois o sol estava brilhando com muita intensidade após as 10 h, além do que, a umidade relativa do ar depois desse horário principiava a cair rapidamente, obrigando-me a uma constante hidratação.

            Assim, levantei bastante “temprano” e, às 5 h, sob um intenso frio e bastante cerração eu deixei o local de pernoite, seguindo por uma estrada vicinal, de inexpressivo tráfego, em meio a intermináveis bosques de eucaliptos.

            No límpido céu a me acompanhar pelo lado direito, brilhava a lua crescente em sua última fase, de maneira que raramente precisei lançar mão de minha lanterna de bolso, posto que a claridade se fazia presente de forma consistente.

            O caminho iniciou-se em breve descenso, porém depois de 2 quilômetros enfrentei suave ladeira que, já no topo, me deixou em Castro, uma pequena aldeia situada à beira da “carretera”, onde encontrei tudo no mais completo silêncio.

            Na sequência, acessei a rodovia AC-232 e prossegui adiante, agora em franco descenso e depois de uma hora de profícua caminhada, ultrapassei o rio Batán e logo adentrei em Corredoiras, cidadezinha edificada num local onde ocorre o cruzamento de várias “carreteras” vicinais.

            Ali eu acessei a rodovia AC-234 e logo à frente, ultrapassei a pequena vila de Boimil, onde constatei a existência de alguns bares, porém todos com as portas cerradas àquela hora matutina.

            Em alguns trechos, visualizei flechas me indicando atalhos por terra, porém em face do horário e como forma de não me perder na mata fechada, optei por seguir sempre pelo asfalto.

            Às 7 h, depois de haver percorrido 12 quilômetros, finalmente adentrei em Boimorto, uma progressista vila, de razoável dimensão, se comparada com aquelas que eu ultrapassara anteriormente.

            A cidadezinha está dispersa ao redor da rodovia e, por um bom tempo, tive casas a me ladear por ambos os lados, até que, no final do povoado, defronte o Centro de Saúde local, observei a bifurcação dos caminhos.

            Se seguisse à esquerda, iria caminhar por mais 11 quilômetros, e chegaria à Arzúa, já no Caminho Francês, cidade que eu conhecera anteriormente, pois ali pernoitara em minhas jornadas pretéritas, nos anos de 2.001 e 2.004.

            Porém, conforme eu havia planejado, e como forma de encurtar a jornada do dia seguinte, prossegui à direita pela rodovia CP-0603, e logo comecei a caminhar em meio a um grande bosque de eucaliptos, que se prolongou uns quatro quilômetros, num trajeto fresco e extremamente agradável.




            Depois de percorrer mais mil metros, passei defronte ao bar Regueiro, o único ponto de apoio ao peregrino nesse trecho, porém, como todos os demais estabelecimentos comerciais encontrados antes, este também se encontrava fechado.

            O roteiro prosseguiu silencioso, tranquilo e deserto, posto que praticamente nenhum veículo trafegou por aquela “carretera” até às 8 h 30 min, quando passei defronte a Capela da Mota, situada num local ermo e silencioso.



            Ali também não avistei vivalma, apenas observei a existência de uma fonte para abastecimento de água e um banco que poderia servir para um merecido descanso, no entanto, como me encontrava animado e bem disposto, resolvi seguir caminhando.

            

            Depois de 9 quilômetros percorridos, por uma rodovia plana e de escasso tráfego de veículos, cheguei a um minúsculo povoado denominado O Alto, porém, antes de adentrar em perímetro urbano, e obedecendo as flechas amarelas, derivei à esquerda por outra rodovia vicinal, que seguia em direção à Arzúa.

            Quinhentos metros mais abaixo, as flechas me direcionaram à direita, para outra pista pavimentada, que seguia à “Parróquia de Oins”.

   Importante ressaltar, que todo esse trecho, embora pertença a uma variante relativamente nova do Caminho, está muito bem sinalizado.

            O roteiro prosseguiu sempre plano e em meio a inúmeros bosques de pinheiros e eucaliptos, que se alternavam, às vezes, com imensas pradarias, onde vi muito gado leiteiro no pasto.

            Na sequência, eu passei pelos povoados de Ferradal e Oins, e cheguei a um cruzamento onde havia a indicação da direção do povoado de Loureiros.

   Então, eu segui à direita e, 800 metros depois, ao passar por uma placa relativamente à vila de Beiz, finalmente, às 11 h, saí na rodovia AC-234, já no Caminho Francês.




            

Ali, depois de emocionado reencontro com o roteiro que havia percorrido em 2.001 e 2.004, prossegui à direita e, eu que viera caminhando muito solitário naquele dia, imediatamente avistei à minha frente mais de 15 pessoas seguindo firmes e decididas, como eu, em direção à Compostela.

            

            Daquele ponto específico me restavam ainda 27 quilômetros até Santiago, porém, eu pernoitaria bem antes, de forma que segui em ritmo de final de jornada.

   E como forma de demonstrar que eu me encontrava bem fisicamente, logo ultrapassei inúmeros caminhantes, observando com atenção especial aqueles que se deslocavam com dificuldade, certamente por conta de bolhas nos pés e outras enfermidades de mesma natureza.

            Na verdade, a grande maioria parecia estar, literalmente, “pisando em ovos”, já que seguiam com as pernas curvadas, andar claudicante, e apoiando com extremo cuidado seus pés no chão, naturalmente, fruto do desgaste proporcionado pela longa jornada até ali vencida.

            Porém, sem dúvida, o regresso a essa Rota Milenar, fez com que eu repensasse minha odisseia até aquele marco, já que ali também desfocava todo o misticismo dos solitários caminhos da “Ruta del Norte”.

   Posto que, estava me inserindo na aguerrida plêiade que viera caminhando desde San Jean de Port e, nesse sentido, como os demais, já antevia o grande momento de meu aporte final à Santiago.




            O roteiro se tornou familiar e extremamente agradável, porquanto depois de mais dois quilômetros caminhados, num local onde foi construída uma área de descanso para os peregrinos, pude travar contato com dois conterrâneos, um baiano e outro carioca, e assim matar a saudade de “hablar” em português.



            Mais alguns quilômetros percorridos debaixo de intenso sol, aportei na vila de O Pino, onde encontrei uma grande leva de peregrinos se movimentando pelo simpático povoado.

            Ali fiquei hospedado na Pensão Maribel, com excelentes instalações, e para almoçar utilizei um dos inúmeros restaurantes espalhados pela avenida principal dessa magnífica vila.

            À tarde, após um reconfortante sono, fui até o albergue municipal carimbar minha credencial, lembrando que nessa cidade existem vários refúgios, embora apenas um gratuito, os demais são de propriedade particular e, por isso mesmo, estipulam um montante a ser pago para o pernoite.

            Conversando com o simpático hospitaleiro, Sr. Pablo, fiquei sabendo que das 120 camas disponíveis naquele local, 115 já estavam ocupadas e, como pude observar no exíguo espaço de tempo em que eu ali estive, muitos peregrinos continuavam a aportar.

   Como pude constatar, os caminhantes eram das mais variadas procedências, cuja nacionalidade se distinguia, a exemplo de quatro coreanos que encontrei num bar bebendo, cantando e brindando alegremente.

            Depois, fui até um “Cyber Café” acessar a internet e ali conheci o Rogério, um paulista alegre e festeiro com o qual mantive agradável parlamentação.

   Isto, antes de nos aproximarmos do balcão para a ingestão de uma garrafa de vinho, onde pudemos brindar inúmeras vezes nosso feliz encontro em local tão importante, logisticamente falando.

            À noite, como nas ocasiões pretéritas, optei por um simples lanche no quarto e logo me recolhi, já prelibando o feliz reencontro com o Santo Apóstolo no dia seguinte.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa difícil, de grande amplitude, afora os seis derradeiros quilômetros percorridos no Caminho Francês, toda feita em asfalto, um tormento para os pés, já deteriorados pela longa distância percorrida até esse marco. É bom lembrar, no entanto, que o percurso, a partir de Sobrado dos Monxes transcorre sempre entre muito verde, com inúmeros locais sombreados, que propiciam a devida retemperação e conforto para o exaurido caminhante.


 30ª Jornada - O PINO a SANTIAGO DE COMPOSTELA