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1º dia: INDAIAL à TIMBÓ – 30 quilômetros


1º dia: INDAIAL à TIMBÓ – 30 quilômetros


 

“Aceite o seu caminho com todas as suas muitas curvas e sinuosidades. A aventura está na jornada, não no término da viagem.” ( Lisa Engehardt)

 


“O primeiro dia de caminhada dá uma boa referência de como será todo o circuito, tanto em termos de beleza quanto de dificuldades. A saída do circuito é na cidade de Indaial que irá lhe conduzir por estradas de calçamento, passando pelo comércio da cidade, pontos turísticos, muitos bares, lanchonetes e até por algumas verdureiras. Ao atravessar a BR 470 você já estará caminhando em estradinha de terra por um longo percurso. Esta localidade pela qual está passando é o bairro Arapongas, de típica colonização alemã. As casas apresentam o estilo arquitetônico enxaimel, com jardins floridos, onde as paisagens bucólicas lembram as cidades do interior europeu. Este trajeto têm elevações e caminhos sinuosos. Chegando a Timbó encontrará, novamente, muitos bares e lanchonetes. À noite é interessante conhecer o centro da cidade e, quem sabe, tomar uma bebida e jantar em um dos restaurantes da cidade.” (Extraído do livro guia do roteiro, que é entregue ao caminhante quando da retirada da credencial, em Indaial/SC)


A primeira flecha branca do Caminho Circuito Vale Europeu, pintada num poste, logo depois da transposição da Ponte dos Arcos.

A previsão metereológica indicava para aquele sábado sol alternando com pancadas de chuva, durante todo o dia.

Como de praxe, resolvi sair bem cedo, de forma que às 4 h eu já estava acordado, fazendo alongamentos e, na sequência, ingeri frutas e uma barra de cereal.

Depois, passei a me paramentar e, dentre os artefatos a serem utilizados na “viagem”, estava inclusa uma joelheira que havia comprado recentemente.

Porém, por segurança, também levara a velha, já frouxa e esgarçada, mas que me acompanhara em inúmeros caminhos anteriormente, sempre cumprindo o seu papel de tutorar meu joelho.

E na hora de vestir tal proteção, acabei ficando em dúvida entre as duas, mas o coração falou mais alto, afinal tratava-se de um talismã para mim, um voto de boa sorte.

Nesse sentido, e segundo Platão, todas as coisas tem que exercer primeiro a sua função, assim a questão da beleza e da estética deve ser considerada em segundo lugar, vez que são valores secundários que, às vezes, tem que ser deixados de lado, posto que vale mesmo é acudir às nossas necessidades maiores.

Assim, meu coração falou mais alto, e caminhei o percurso todo com minha velha, mas eficiente companheira.

 


Enquanto me preparava psicologicamente para a jornada, me dei conta que, na verdade, o momento da partida, para uma grande caminhada, é sempre muito forte.

Lembrei-me, à propósito, de um dia em 2001, quando passei, também a pé, sob o arco de Saint Jean Pied-de-Port, na França, para atravessar os Pirineus, rumo à Espanha, na rota do Caminho de Santiago de Compostela.

Na noite anterior a temperatura havia chegado aos dois graus negativos e eu tinha pela frente mais de 800 quilômetros de desafios e fortes emoções.

Atravessaria montanhas, vales, planaltos desérticos, enfrentaria sol, chuva, frio, poeira, vento e calor, tudo movido pela fé, desejo de superar meus limites e de encontrar-me comigo mesmo.

Por ali passou, em peregrinação, São Francisco de Assis, em 1213.

Minhas pegadas se confundiram também com as de El Cid, do imperador Carlos Magno e de Napoleão Bonaparte.

Teria como guia as estrelas da Via Láctea, e como companhia, peregrinos de todas as partes do mundo.

Alguma coisa me dizia que eu chegaria ao “Campo das Estrelas”, o que aconteceu 28 dias depois.

E com esta “viagem” não será diferente, conquanto seja um autêntico “tiro curto”, tenho certeza que no dia em que retornar à Indaial, no final de minha aventura, ao me olhar no espelho, vou certificar-me que estou mais forte do que quando parti.

Então, creio, esse será outro momento especial.

 


Exatamente às 5 h 30 min eu deixei o hotel Fink, seguindo por ruas desertas e silenciosas em direção ao centro da cidade.

Dois quilômetros percorridos em bom ritmo, eu me reencontrei novamente com a Ponte dos Arcos, local onde tem início, oficialmente, o Circuito Vale Europeu.

Após transpor o rio Itajaí-Açu, já do outro lado, eu girei à esquerda, e encontrei a primeira flecha branca do Caminho.

Segui, então, por ruas urbanas calçadas com paralelepípedos e intensamente iluminadas, até que, depois de 2 quilômetros, iniciou-se uma larga estrada de terra situada na periferia de Indaial, onde encontrei casas simples em ambos os lados.

Mais dois quilômetros vencidos, eu ultrapassei a Rodovia BR-470, e aí então o percurso tornou-se ermo e belo.

Na sequência, transitei diante de uma grande subestação de energia elétrica e uma antiga olaria, ainda em plena operação, num caminho orlado por imensas residências, quase sempre com jardins e floreiras bem cuidados, que surgiam a todo instante.



Logo passei diante de uma igrejinha, e depois de 8 quilômetros caminhados, adentrei ao Bairro Arapongas, onde existe uma escola estadual, uma igreja e algumas casas.



Ali, obedecendo a sinalização, eu girei à esquerda e passei a caminhar num local arejado, cercado por imensas plantações de arroz.

No décimo quilômetro, há uma placa convidando o caminhante para uma visita à casa Duwe, uma grande construção em estilo enxaimel, situada a 150 metros do caminho, e que foi tombada pelo patrimônio histórico nacional.

Trata-se de portentosa edificação, situada atualmente em meio a duas colinas cobertas pela mata nativa, integralmente preservada, e um grande milharal.

O Enxaimel, ou Fachwerk (originário de "Fach" assim denominavam o espaço preenchido com material entrelaçado de uma parede feita de caibros), é uma técnica de construção que consiste em paredes montadas com hastes de madeira encaixadas entre si em posições horizontais, verticais ou inclinadas, cujos espaços são preenchidos geralmente por pedras ou tijolos.


A famosa Casa Duwe, ao fundo, que festá situada no centro de um fértil vale.

Os tirantes de madeira dão estilo e beleza às construções do gênero, produzindo um caráter estético privilegiado.

Outras características são a robustez e a grande inclinação dos telhados.

Na adaptação do enxaimel às características climáticas da região, foi necessária a implantação, por conta da elevada umidade local, de uma estrutura feita de pedra que sustenta as construções evitando que a madeira se molhe.

Ainda que normalmente se faça uma ligação natural entre o Enxaimel e a Alemanha, a verdade é que o estilo não possui uma origem propriamente determinada.

Embora seu desenvolvimento maior tenha sido, sim, neste país europeu e regiões vizinhas, especialmente no período renascentista, sabe-se que o povo etrusco, habitante da região da península itálica, já praticava a técnica no século VI a.C.

Segundo havia lido na internet, na Casa Duwe ainda residem os membros da mesma família, desde sua construção em 1935: os Brehmer.

Eles recebem visitantes, porquanto o interior da residência permanece como um “museu vivo”, pois ainda estão lá o mobiliário inicial, trajes e utensílios alemães, fechaduras antigas e inscrições germânicas em placas e paredes, etc.

Eu tinha curiosidade em fazer rápida incursão ao local, porém como era um sábado e meu relógio marcava apenas 8 h, duvidei que eles estivessem de bom humor para conversar com estranhos naquele horário.



Assim, depois de breve pausa para hidratação e fotos, à distância, eu prossegui adiante e logo adentrei em mata fechada, o trecho mais aguardado da etapa desse dia, agora em franco ascenso.

A estrada estava bastante úmida e lisa em face da chuva torrencial que desabara na noite anterior, assim segui com muito cuidado, pois um escorregão ou um tombo poderiam me fazer desistir da empreitada.



A vegetação era exuberante, plena de grandes árvores como araucárias, pinheiros, bananeiras e, em alguns trechos, bosques de eucaliptos.

Foi, efetivamente, um passeio dentro da floresta nativa, que nesse trecho está integralmente preservada e onde observei grandes áreas de reflorestamentos.



Dava, até, para imaginar um universo inteiro de pequenos seres fervilhando naquele local, entre bromélias, raízes e orquídeas.

Embora me sentisse razoavelmente preparado fisicamente, eu transpirei muito nesse trecho, pois o grau de inclinação da trilha era bastante íngreme.



Então, em apenas 2 quilômetros de caminhada, eu saí do patamar de 80 metros para alcançar quase 400 metros, isto no 13º quilômetro, o ponto de maior altimetria dessa jornada.

A partir dali, com larga visão do horizonte, já num local aberto, de onde um tinha uma imensa visão do horizonte, principiei a descender bruscamente e, quando no plano, passei pela comunidade de Rio Belo.

Já deixando o pequeno e simpático povoado, principiei a ascender e, novamente, em meio a mata fechada, que deixava tudo fresco e hidratado ao meu redor.



Em alguns trechos eu podia divisar abaixo, um grande vale, onde sobressaiam imensos arrozais, pois o terreno era plano e dotado de grandes mananciais.



No 18º quilômetro eu passei diante da Fazenda Sacramento, onde funciona uma pousada rural, que também atende caminhantes.



Então, segui novamente em forte declividade e, depois de enfrentar uma grande reta por um caminho integralmente plano, acabei por sair em rodovia, seguindo, então, à direita, em sentido inverso ao tráfego de veículos.

Esse é um trecho tenso e perigoso, pois a estrada não possui acostamento, e o trânsito naquele horário se mostrava intenso em ambos os sentidos.

Quinhentos metros à frente, eu acessei o Bairro Rodeio 12, onde existe uma imponente capela dedicada a Santo Antônio.

Na sequência, passei por um centro de eventos de uma igreja luterana, que também oferece acomodação a caminhantes.

Infelizmente, o cenário rural passou a dar lugar a trechos urbanos, e nesse trajeto transitei diante da Sociedade Salão Alegria.



Prosseguindo, depois de mais 2 quilômetros caminhados, eu adentrei à direita, e logo chegava à Ponte Pênsil Artur Ostrowiski, pela qual eu transpus o rio dos Cedros.

Em seguida, transitei defronte ao Museu de Música, localizado em um local estratégico, mas eu estava bastante cansado e, além disso, o prédio se encontrava fechado.

Então, dobrei à esquerda e prossegui caminhando primeiramente por asfalto, depois por movimentadas ruas urbanas, até aportar à Praça da Thapyoka, já no centro da cidade de Timbó.

Ali tomei informações com um transeunte e, quando meu relógio marcava exatamente 12 horas, eu adentrei ao Timbó Park Hotel, local onde fiquei hospedado.

 


A cidade de Timbó foi fundada por imigrantes alemães, liderados por Frederico Donner, que se estabeleceram na confluência dos rios Benedito e dos Cedros, em meados de 1869, vindos da Colônia de Blumenau.

Posteriormente, chegaram também imigrantes italianos, sendo que hoje essas duas etnias representam quase que 50% da população local.

A maioria dos imigrantes que chegaram à Timbó vieram de Pomerânia e Hamburgo, na Alemanha, e de Chiavenna e Trento, na Itália.

Foi necessário construir tudo, desde as casas, os campos para a lavoura e as estradas, até as igrejas, clubes e salões de festa para agitar a vida social.

 


Mais tarde, depois de um revigorante banho, fui almoçar no Restaurante e Choperia Roda D’Água Tapyoka, e o prédio, onde está situado o estabelecimento, foi construído por volta de 1880, sendo que, na época, funcionava um moinho de farinha de milho.

Enquanto degustava minha refeição, podia apreciar ao fundo uma bela represa, cuja construção ocorreu entre 1918 e 1922, utilizada para reter as águas do rio Benedito e usá-las para movimentar as duas rodas d’água existentes ali.

Por sinal, o destaque da povoação é a Praça da Tapioca, situada num terreno em vários níveis, tendo ao fundo uma portentosa cachoeira.

Nesse sentido, o prédio localizado no lado oposto do rio Benedito, abrigava entre 1919 e 1960, uma fábrica de derivados de mandioca, e dessa atividade originou o nome Thapyoka.

 

Rio Benedito e ponte para pedestres localizados no centro da cidade de Timbó/SC

Depois de um bom descanso, saí dar uma volta pela cidade, embora caísse uma fina e fria garoa.

De se ressaltar que essa urbe me surpreendeu positivamente, pois ela possui ruas largas, povo educado e gentil, residências com pintura recente, floreiras em todos os cantos, praças limpas, igrejas impecáveis e, imaginem, não vi pichação em nenhum lugar.



As religiões predominantes são o protestantismo e o evangelismo, sendo que o templo da Igreja Luterana é considerado o maior da América Latina.

Após verificar cuidadosamente por onde deixaria a urbe na manhã seguinte, fui até um banco sacar dinheiro, depois segui até um supermercado onde me abasteci de víveres para o lanche noturno e para o café da manhã do dia imediato, pois pretendia partir o mais cedo possível.

À noite a chuva recrudesceu e optei em ficar no meu quarto fazendo anotações e assistindo TV.


 A belíssima Praça da Tapioca, referência da cidade de Timbó/SC.

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de razoável extensão, bastante técnica em termos de desgaste físico, porém muito bela em seu trecho central. De se lembrar, que os primeiros 4 quilômetros do trajeto são percorridos sobre piso duro/asfáltico, bem como os derradeiros 10 quilômetros, o que magoa sensivelmente os pés do caminhante. No entanto, a cidade de Timbó, com suas ruas largas e povo hospitaleiro, encanta o turista com sua beleza, e acaba por compensar todo o esforço físico despendido na jornada.