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10ª etapa – ZARAGOZA à ALAGÓN – 32 quilômetros


10ª etapa – ZARAGOZA à ALAGÓN – 32 quilômetros



Já tive medo, hoje tenho história.


A jornada, em princípio, não seria de grande dimensão.

Porém, como toda chegada a uma cidade grande é complicada, a saída também o é.

Pelos mapas que portava, deixar Zaragoza parecia simples, mas o Guia, impresso em 2006, alertava que o roteiro do Caminho possivelmente fora modificado, em face das construções viárias que haviam sido feitas, por conta da Expo 2008, realizada nessa cidade.


Ponte de Santiago, sobre o rio Ebro, que está no Caminho do Ebro.

Eu deixei o local de pernoite às 6 horas, seguindo pela larga e bem iluminada avenida que transcorre junto ao Ebro.

A partir de certo ponto, o caminho segue à beira do rio, por um parque muito bem cuidado, mas como ainda estava escuro, optei por seguir pela zona urbana.


Mais um dia amanhece sobre o rio Ebro e Saragoza.

Trabalhando com meu GPS, já na saída da cidade, passei diante da Estación de Trem de Delícias e, então, me encaminhei para um passeio situado junto ao Ebro.

Logo à frente, encontrei a primeira flecha estilizada e pude seguir mais tranquilo.


A primeira concha estilizada que encontrei nesse dia.

Porém, ocorre um grande cruzamento de rodovias numa rotatória criada com a duplicação das rodovias e, por conta disso, o caminho faz uma grande curva à esquerda, passa sobre duas passarelas, para depois, finalmente, se enlaçar com o roteiro antigo.

Quando ali cheguei, depois de caminhar por mais de uma hora, percebi que as modificações implementadas em 2008, acresceram ao roteiro oficial, nesse trecho, mais 3 quilômetros.


Caminho arejado e belíssimo.

Bem, ultrapassada essa fase inicial tensa e complicada, pude relaxar e seguir tranquilo por uma estradinha asfaltada e plana, que seguiu sempre entre imensos campos onde a tônica eram as plantações de alfafa e maiz.


Flores para alegrar o dia.

Em alguns locais, encontrei flores junto ao caminho, sinal de que a primavera já ia avançada.

Nesse trecho, também vi uma plantação de canola que, com seu manto amarelo, dava intensa beleza ao entorno.


Uma plantação de canola do lado direito.

E por esse caminho arejado e bem definido, depois de caminhar 12 quilômetros, adentrei na pequena vila de Monzalbarba que é, na verdade, um bairro rural de Zaragoza.

De origem incerta, porém, claramente influenciada pelos países árabes, seu nome provém de Manzil Barbar.


Adentrando em Monzalbarba.

A arte mudéjar realizada pelos descendentes de muçulmanos, que ficaram na Península Ibérica, após a reconquista cristã, destaca-se em toda a área do alto vale do Ebro, como eu observaria nos trechos futuros.

Por sinal, os canais de irrigação, que encontrei daquele patamar em diante, são todos de herança muslim, para a utilização da água nos campos cultivados.


Atravessando a cidade/bairro, por uma avenida retilínea.

Eu atravessei a pequena povoação em linha reta, utilizando uma bela avenida guarnecida por olmeiros.

E logo deixei a zona urbana, para seguir por um caminho de terra, plano e agradável.


No caminho, em direção à cidade de Utebo.

Logo fui ultrapassado por 4 moças jovens, pertencentes a Brigada de Incêndio da região, que faziam seu “footing” matutino.

Todas foram unânimes em desejar bom dia, como externar um sonoro “Bom Caminho”!


Quatro moças correm à minha frente...

Prosseguindo, mais 3 quilômetros caminhados em bom ritmo, sob tempo nublado e fresco, adentrei em Utebo.

Seu nome provém da oitava milha da calçada romana, entre Cesaraugusta e Asturica, cujas marcas ficaram em alguns restos de cerâmica e mosaicos encontrados em seu núcleo urbano.


Interessante escultura fincada na praça matriz de Utebo.

O caminho, muito bem sinalizado nesse trecho, me levou a passar diante da igreja matriz da cidade, dedicada à Nossa Senhora da Assunção, que exibe uma belíssima torre mudéjar, datada do século XVI.


Torre da Igreja matriz de Utebo.

Sua característica principal é que, ainda que de planta quadrada, ela se transforma em octogonal em sua parte superior, com uma decoração detalhista em azulejos.

A cidade é grande para os padrões do caminho, pois possui cerca de 13 mil habitantes.


Retornando ao campo e ao verde...

Porém, o roteiro do Caminho do Ebro discorre rapidamente pela parte velha da povoação e logo adentra novamente ao campo, pleno de verde e ar puro.

Uns dois quilômetros adiante, transitei por enormes galpões e prédios industriais, infelizmente, todos fechados e em ruínas.


Polígono industrial em ruínas..

Pelo que observei, ali existia o enorme polígono industrial, e a razão de sua decadência eu desconheço.


Trilha belíssima e arejada..

Prosseguindo, eu atravessei a Autovia Nacional por uma ponte e, já do outro lado, prossegui caminhando por uma belíssima trilha, localizada ao lado da rodovia.

Mais alguns quilômetros fáceis e agradáveis, adentrei na cidade de Sobradiel, que já pertence a Comarca da Ribeira Alta do Ebro.


O prédio do Ayuntamiento de Sobradiel e, ao fundo, a igreja de Santiago.

Sua igreja matriz é dedicada a Santiago e está situada próximo do antigo palácio dos Condes de Sobradiel, onde hoje funciona o Ayuntamiento.

Eu transitei rapidamente pela minúscula vila e logo voltei aos campos agriculturados.


Nesse trecho, há uma coincidência de trajetos com a Rota Cervantina.

Nesse primeiro tramo, o roteiro do Caminho do Ebro coincide com a Rota Cervantina, um caminho recentemente inaugurado, para comemorar os 400 anos do falecimento do grande escritor espanhol Don Miguel de Cervantes, ocorrido em 22 de abril de 1616.


Caminho silencioso e arejado.

O caminho seguiu plano, entre grandes trigais e sempre ao lado de um canal de irrigação.

Nesse tramo transitei por locais desertos e silenciosos, onde não avistei vivalma ou animais.


Ao fundo, os Montes de Castelar, mas ele não está no roteiro do Caminho.

Uma grande serra aparecia à minha direita, os Montes de Castelar, mas, eu não travaria contato com eles nas jornadas futuras, o que muito me tranquilizava.

Em determinado local, fiz uma pausa para ingerir uma barra de cereal e me hidratar, enquanto admirava o belo entorno que me rodeava.


O roteiro prossegue silencioso e belíssimo.

Depois, segui adiante e logo adentrei em Torres de Berrellén, um amontoado de casas de campo para moradia daqueles que laboram na agricultura.


Torres de Berrellén já está a vista, no horizonte.

Sua fundação remonta o século XII e em seus tempos áureos chegou a ter mais de 6.000 habitantes.


O Ayuntamiento da cidade.

Hoje, no entanto, não conta mais de 1.500 almas.


Igreja matriz da cidade.

Eu passei diante de sua igreja matriz, transitei por ruas estreitas, e logo deixava a minúscula vila.

Ali, como nos povoados anteriores, também vi bares e comércio abertos e, se acaso necessitasse, poderia comprar mantimentos ou água.


Uma das ruas de 
Torres de Berrellén, por onde transitei.

Mas, não era o meu caso, pois estava bem fornido, de forma que segui adiante.

Na sequência, enfrentei outro trecho plano, deserto e extremamente agradável, em meio a um clima fresco e propício para caminhar.


Ponte sobre o rio Nalón.

Mil metros depois, por uma ponte de pedra, eu cruzei o rio Nalón que, mais adiante, vai desaguar no Ebro.


Caminho verde e arejado.

O percurso seguinte, também se mostrou rico em belezas naturais, mas lentamente voltei a me acercar da Autovia Nacional.

Próximo dela, nasceu um caminho de terra, que seguiu paralelo à rodovia, por onde caminhei uns 1.500 metros.


Muito verde no entorno..

Então, por uma ponte metálica, passei para o lado oposto e logo adentrava em zona urbana.

No centro da povoação, tomei informações com um transeunte e logo chegava ao Hostal Baraka, onde havia feito reserva.


Monumento que homenageia os peregrinos em Alagón.

Ali, por 27 Euros, pude dispor de um confortável e espaçoso apartamento.

Para almoçar, utilizei os serviços do restaurante existente no térreo do edifício, onde paguei 10 Euros pelo “menu del dia”.

Depois, deitei para a necessária soneca.


Igreja matriz de Alagón.

Alagón se identifica com a povoação ibérica Alaun, depois Alabona romana, situada na calçada Astúrica-Cesaraugusta, e se encontra fincada numa suave colina, protegendo-se das possíveis enchentes dos rios que lhe flanqueiam.

Os árabe se instalaram no local em 714 e o rei Alfonso “El Batallador” reconquistou o lugar em 1119, sem que isso acarretasse a saída da população muçulmana e judia, que ali vive há séculos.

Com vocação agrícola, teve um sistema de irrigação desde tempos imemoráveis, como se prova pelo conhecido “Bronce de Contrebia”, do ano 87 a.C, que atendia os territórios de Alaun e Salduie, através da construção de um depósito de água chamado La Almozara, que subsiste até hoje.


Casa da Cultura de Alagón.

Situada a 25 quilômetros de Zaragoza, a cidade foi edificada na desembocadura do rio Jalón no rio Ebro e, não por acaso, ela concentra uma extensa malha hídrica, onde abundam os canais de irrigação.

Por seu município também discorre o Canal Imperial de Aragón, criado no século XVIII, que atravessa o rio Jalón por cima, graças a construção do Aqueduto do Jalón.


A cúpula da igreja de Nossa Senhora del Castillo, em estilo muçulmano.

Em sua parte alta, estão localizadas as igrejas de Nossa Senhora del Castillo e a igreja matriz de São Paulo, do século XIV, que conserva em seu campanário o minarete de uma antiga mesquita árabe.

É uma pena que o traçado jacobeu não discorre pelo centro da localidade, já que ela foi um lugar importante dentro das peregrinações e das comunicações.

População atual: 7.200 habitantes


A simpática Sra. Pilar.

À tarde, fui até a Casa da Cultura da cidade, para carimbar minha credencial peregrina, e ali fui muito bem atendido pela funcionária responsável, a simpática Sra. Pilar.

Depois, fui apenas fotografar a igreja matriz, dedicada a São Pedro Apóstolo, vez que, como de hábito, não pude adentrar em seu interior, pois a mesma se encontrava fechada.


Igreja matriz de Alagón, fotografada de outro ângulo.

Pude ainda admirar e fotografar a belíssima cúpula da igreja da Virgem del Castillo, situada no “casco viejo” da belíssima povoação.


O prédio onde funciona o Ayuntamiento de Alagón.

Em seguida, como o caminho adentra em zona urbana e logo flete à direita, fui até a saída da cidade para conferir o local por onde eu seguiria na manhã seguinte.

Aproveitei, ainda, para fotografar outra bela igreja, cujo padroeiro é Santo Antônio de Pádua.


Igreja de Santo Antônio de Pádua.

À noite, optei por fazer um lanche no quarto e logo fui deitar, pois a temperatura havia diminuído sensivelmente e eu sentia muito frio.


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