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12ª etapa – GALLUR à TUDELA – 39 quilômetros


12ª etapa – GALLUR à TUDELA – 39 quilômetros



Troque o medo do que você não conhece por curiosidade.


A jornada seria longa e, para variar, eu tinha um problema adicional, pois não conseguira reservar o pernoite no único hostal existente em Tudela, que é uma cidade grande, a maior existente no caminho depois de Zaragoza.

Claro, lá havia vários hotéis, mas o preço e a localização não eram o ideal que eu almejava para aquele domingo.

Dessa forma, como a primeira parte seria bem tranquila, deixei o local de pernoite às 5 h 45 min, subindo em direção à igreja de São Pedro.

Eu já estivera no local no dia anterior, de forma que não tive problemas para encontrar a saída da cidade.


Mais um dia amanhecendo...

Ali, acessei uma rodovia vicinal em pronunciado descenso e segui em frente com minha potente lanterna na mão.

O dia se apresentava frio e ventoso, e o sol ainda demoraria para aparecer.

Apesar disso, segui sem maiores problemas, pois a estrada era plana, larga e, em alguns locais, arborizada.


Caminho plano e piso asfático.

Foi o momento propício para colocar minhas orações em dia, além de agradecer a Deus por minha disposição e saúde.

Lentamente, o dia foi clareando e logo pude desligar e guardar minha lanterna.

O roteiro seguiu fresco e agradável, e quase nem senti o tempo passar.


Ponte sobre o Canal Imperial.

Depois de caminhar 7 quilômetros, por uma ponte, atravessei o Canal Imperial que estava à minha esquerda, e logo acessei uma larga estrada de terra.


Quase chegando a Mallén.

Mais à frente, por um túnel, atravessei sob a ferrovia e logo adentrei em zona urbana.

Por ruas bem sinalizadas, logo cheguei no casco antigo da cidade de Mallén, cuja população atual é de 3611 habitantes.


Sinais Jacobeus na entrada da cidade.

Seu passado antiquíssimo, remete aos celtiberos e aos romanos que nela estiveram, quando era um local estratégico, por estar situada junto à divisa das Províncias de Aragón e Navarra.


Igreja matriz de Mallén.

Logo passei diante de sua igreja matriz, cuja padroeira é Nossa Senhora dos Anjos, uma construção do século XII, com sucessivas modificações nos séculos XIII e XVIII.


Curiosa escultura...

Pude fotografar, ainda, uma curiosa escultura existente no jardim fronteiriço ao templo, formada por três leões, que guardam uma fonte de água.


Calçadão lateral, rumo à Cortes de Navarra.

Prosseguindo, mais abaixo, eu acessei um calçadão lateral, protegido por um alambrado, localizado junto à rodovia, e logo adentrei à Província da Navarra.


Em Navarra, finalmente.

Um quilômetro depois, transitei por Cortes de Navarra, onde residem 3240 pessoas.

Antiquíssima vila, de origem romana, foi reconquista dos muçulmanos em 1119, pelo rei Alfonso I “El Batallador”.

A cidade me pareceu belíssima, com ruas largas, jardins bem cuidados e casas recém-pintadas.

Pessoas bem agasalhadas passeavam com seus cães, enquanto outras se dirigiam à igreja para a missa dominical.


Igreja matriz da cidade.

Seguindo as flechas, no casco antigo eu passei diante da igreja matriz da cidade, cujo padroeiro é São João Batista, uma construção do século XIII.

Logo adiante, pude admirar o fabuloso Castelo de Cortes, uma construção do século XII, declarado Bem de Interesse Turístico e Cultural.


O fabuloso Castelo de Cortes.

Ele serviu de residência para inúmeros reis navarros, que aprovaram sucessivas reformas em seu interior, acabando por modificar, em parte, seu estilo militar, imprimindo-lhe um estilo mais residencial.

Prosseguindo, eu transitei por uma grande praça arborizada, depois acessei uma larga e plana estrada de terra, orlada por imensos barracões, onde a criação de porcos era a tônica.


Estrada plana e retilínea.

E esse tipo de criação era fácil identificar, pois o cheiro que provinha do ambiente era simplesmente, nauseabundo.

Venci o primeiro trecho sobre pedras de tamanhos variados, que magoaram sensivelmente meus pés.

Depois o piso mudou, o terreno era plano e de terra socada, ingredientes certos para um passeio.


Vento fortíssimo, de frente, nesse trecho.

Porém, outro grande entrave surgiu nesse trecho: um vento fortíssimo me fustigava de frente, zunindo alto nos meus ouvidos, quase impedindo meu deslocamento.

Vento de arrancar etiqueta que fica fora da roupa, como aconteceu com meu boné, que precisei retornar correndo para resgatá-lo.

Inclinado para a frente, para ganhar aerodinâmica, eu dilatava as veias do pescoço para alcançar míseros 2 km/hora, ou menos. 


As vias férreas estão do lado esquerdo.

Era como se duas mãos postas no meu peito dificultassem o avanço.

E como eu caminhava por uma imensa planície, nada havia à minha frente que pudesse amenizar esse flagelo.

Além disso, eu estava me desgastando em termos físicos, sem conseguir antever uma solução para o problema.


Caminho plano, silencioso e ventoso.

Por sorte, o caminho foi derivando lentamente à esquerda e logo eu passei a caminhar à beira da ferrovia.


Muito verde no entorno.

Como o leito da via-férrea estava edificado num plano superior, meu problema não cessou, mas, ao menos, decaiu pela metade.

Não fosse esse furacão avassalador, eu estaria muito bem, pois o caminho era largo e eu tinha extensos trigais e grandes plantações de hortaliças a me ladear pelo lado direito.


Uma grande plantação de alcachofras, do lado direito.

Uns 8 quilômetros depois, próximo de um viaduto, eu derivei à direita e, logo depois, transitei por um extenso Polígono Industrial, trajeto extremamente desgastante.


Derivando à direita, em direção a um Polígono Industrial.

Como era domingo, tudo ali estava fechado, e o caminho faz várias curvas até deixar esse grande complexo industrial.

E no final, após superar um sem número de voltas e contravoltas, acabei por sair junto à via-férrea, do outro lado do viaduto.


De volta à beira da ferrovia.

Sinceramente, se eu tivesse conhecimento do percurso, não teria feito o roteiro oficial, simplesmente avançaria por debaixo da rodovia e, cem metros à frente, reencontraria o caminho.

Bem, a partir desse local, abriram-se novamente a minha frente, longos estirões retilíneos.


Reta interminável..

Nesse tramo derradeiro, encontrei com algumas pessoas caminhando em sentido contrário, todas residentes em Ribaforada, para onde eu me dirigia.

Mas, para eu atingir a zona urbana, demorou bastante.


Tempo fechando a minha frente.. haveria chuva?

Creio que caminhei ainda uns 4 quilômetros, até encontrar o asfalto.

E apesar do derradeiro esforço empregado, só adentrei a cidade propriamente dita quase uma hora depois.

Esse é o problema com os relevos pouco acidentados, de longe você vislumbra a povoação, mas anda, anda e não se aproxima do alvo.


Adentrando à zona urbana de Ribaforada.

Bem, finalmente adentrei em zona urbana e seguindo as flechas, logo estava no centro de Ribaforada, que tem quase 3700 habitantes.

Praticamente similar, em termos populacionais, às povoações que eu ultrapassara nesse dia, ela foi fundada em 1157 por cavaleiros templários.


Igreja matriz da cidade.

Mais abaixo, eu transitei próximo de sua igreja matriz, dedicada a São Brás, uma construção do século XII.


De volta ao campo. O Canal Imperial está a esquerda.

Seguindo as flechas amarelas, eu atravessei toda a localidade até encontrar uma ponte, por onde passei sobre o Canal Imperial.

Então, girei à esquerda, e segui adiante, por uma esplêndida estrada de terra, tendo o famoso canal de irrigação à minha esquerda, numa distância máxima de 100 metros.


Caminho solitário e silencioso.

O trajeto se tornou extremamente agradável, pois o vento passou a soprar lateralmente e não afetava mais, de forma contundente, meu desempenho.

Imensas plantações de trigo se abriam do meu lado esquerdo.


Muito verde no entorno.

Eu seguia tranquilo, cadência compassada e sem pressa.

Foram aproximadamente 5 quilômetros vencidos em bom ritmo, e nesse tramo não vi e nem encontrei ninguém.


Do lado esquerdo, mais uma plantação de alcachofras.

As plantações localizadas em ambos os lados variaram bastante, desde alcachofra, até uma imensa plantação de pêssegos, o forte nessa zona.

As retas eram intermináveis, mas o clima estava agradável, temperatura na casa dos 13 graus, apesar do sol brilhando num céu azul e praticamente sem nuvens.

Com meu rádio ao ouvido, segui ouvindo música espanhola e foi um trecho agradável de ser vencido.


Nesse trecho, o forte são os pessegueiros.

Finalmente, ultrapassei um pequeno bosque de pinheiros e, na sequência, adentrei em El Bocal, onde se localiza o início do Canal Imperial, desde a represa que foi projetada pelo Imperador Carlos V.

Na verdade, El Bocal é um bairro da cidade de Foncillas, mas esse local tem uma história bastante interessante.


Adentrando em El Bocal.

Gil de Morlanes, em 1528, construiu uma represa para remansar as águas do Ebro e serem desviadas para canais de irrigação.

Ramón de Pignatelli elevou o nível das águas com a construção de uma nova represa, que alimentaria o Canal Imperial de Aragón, de cuja obra participaram centenas de trabalhadores e, por isso, foi necessário construir edificações para acolher tantas pessoas, quanto oficinas, refeitórios, armazéns, etc..

Nesse sentido, represa, Palácio de Carlos V, restaurante e um parque fazem parte da estrutura deste lugar.


Caminho florido..

Eu segui por uma avenida florida e arborizada até alcançar um mirador situado ao lado da represa, de onde tinha uma vista estupenda do embalse.


O rio Ebro represado.

Seguindo as flechas, fiz uma curva à esquerda e passei ao lado de uma casa de máquinas, onde ficam as comportas que controlam o fluxo das águas desviadas do Ebro para o Canal Imperial.


Casa das Máquinas e início do Canal Imperial.

Seguindo adiante, ultrapassei um canal por uma ponte e prossegui indefinidamente ao lado da ferrovia, novamente.

O tempo estava se fechando, nuvens escuras correndo céleres pelo céu, parecia que um dilúvio estava próximo.


Novamente à beira da ferrovia.

Resolvi estugar meus passos para fugir de um possível temporal e, quatro quilômetros vencidos em boa marcha, adentrei em zona urbana.

Então, seguindo à sinalização, prossegui pela Avenida Zaragoza, que me levou até a entrada do “casco viejo” da localidade.

Tudela me impressionou favoravelmente por suas construções, limpeza e solidariedade de seus habitantes.

Próximo da Plaza de las Três Culturas, eu tomei informações com um senhor de idade e ele fez questão de me levar até o Hostal Remígio, onde fiquei hospedado nesse dia.


Plaza de Los Fueros.

Ali paguei salgados 36 Euros por um quarto individual, mas fiquei junto à Plaza de Los Fueros, onde se localiza o centro comercial e cultural da cidade que, por sinal, estava movimentadíssima nesse dia.

Depois do banho e massagens nos pés, bastante doloridos, pós a longa jornada, saí para almoçar.

E, debalde tenha adentrado em mais de 6 restaurantes, encontrei todos lotados e não estava a fim de aguardar nas filas existentes, pois sentia muita fome.

Então, improvisei e fiz minha refeição num restaurante paquistanês, onde gostei do sabor da comida, porém tive que me adaptar aos costumes desse povo, qual seja, eles não servem carne de porco e nem bebida alcoólica.

E eu que estava doido por tomar uma garrafa de vinho tinto, tive que me conformar com uma insossa coca cola.

Depois, voltei ao quarto para descansar.


Catedral de Santa Maria.

Grande centro econômico e comercial da Ribera de Navarra, é também o segundo município mais povoado dessa Província, atrás apenas da capital Pamplona.

Tradicionalmente, se acreditava que o topônimo Tudela tinha origem na palavra latina “Tutela” e que fazia referência a divindade romana de mesmo nome, mas isso não foi comprovado.


Ponte sobre o rio Ebro, que também banha Tudela.

Fundada em 802, por Amrus Ibn Yusuf-al-Muwalad, a mando de Al-Hakan I, os árabes a converteram em uma das cidades mais importantes da “Marca Superior”.

Depois de sua reconquista em 1119, por Alfonso, “El Batallador”, ela foi incorporada a Coroa Aragonesa, e nela conviveram, por mais de 400 anos, cristãos, muçulmanos e uma importante população judia.

Contudo, a expulsão dos judeus em 1498, e dos moriscos em 1516 e 1610, ocasionou um sério retrocesso no desenvolvimento dessa urbe.


Fabulosa Catedral de Santa Maria.

Sua catedral, declarada Monumento Nacional, foi recentemente restaurada.

Iniciada em 1168, era uma Colegiata em seu início, e foi edificada sobre a mesquita maior de Tudela.

A igreja de La Magdalena, edificada no século XII, sobre as ruínas de um antigo tempo mozárabe, possui estilo românica.

Próximo dali se encontra o prédio do Ayuntamiento, construído no século XVI, localizado na cêntrica Plaza de los Fueros.

População atual: 35 mil pessoas.


Restam apenas 685 quilômetros até Santiago...

Mais tarde, após uma reconfortante soneca, fui conhecer o centro antigo da cidade, e pude fotografar a igreja matriz da cidade: a fabulosa Catedral de Santa Maria.

Depois, segui as flechas amarelas por um bom tempo, como forma de me inteirar do itinerário que faria na manhã seguinte, para deixar a cidade.


Plaza de Los Fueros, muito movimentada nesse dia.

Em seguida, fiz demorada visita a Plaza de Los Fueros, local belíssimo e que estava bastante movimentado, apesar do horário vespertino.

Posteriormente, passei pelo Mercado de Abastos, onde adquiri víveres e água para a jornada seguinte.


O Mercado Municipal de Tudela.

Para jantar, optei por um singelo lanche num bar das proximidades, regado a dois copos de vinho tinto, pelos quais paguei apenas 6 Euros.


Comemorando o final de mais uma jornada, com muita saúde e disposição.

E logo fui dormir, pois estava deveras cansado, em face da longa jornada do dia.

Acrescendo que a chuva tão prometida, acabou por desaguar em outras plagas, pois na cidade não caiu uma gota d'água sequer.

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