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A VIAGEM


A VIAGEM



A aventura iniciou-se num sábado de manhã quando, juntamente com a Célia, uma amiga peregrina vinda de Recife em um voo noturno, tomamos um ônibus da Viação Cometa no Terminal Rodoviário do Tietê, que partiu às 8 h.

Após paradas intermediárias nas cidades de São José dos Campos, Taubaté e Aparecida, todas localizadas no Estado de São Paulo, aportamos em Passa Quatro, já no Estado de Minas Gerais, às 13 h, após cinco horas de viagem.


Igreja matriz da cidade de Passa Quatro/MG.

Infelizmente, eu não conseguira reservar pernoite nos hotéis dessa magnífica cidade turística, tendo em vista que vivenciávamos o feriado prolongado de Corpus Christi.

Assim, conforme adredemente planejado, tomamos um táxi que, depois de 30 minutos, nos deixou em Itamonte, mais especificamente, no Hotel Thomaz, estabelecimento onde havia feito reserva.

Depois de almoçar na churrascaria existente nas dependências do próprio hotel, eu fiz uma pausa para descanso e estudo da jornada que encetaria na manhã seguinte.

Em seguida, dei um passeio pela cidade, aproveitando a ocasião para contratar o Hugo, um taxista indicado pela proprietária do hotel, para nos levar na manhã seguinte até Passa Quatro, local onde iniciaríamos o Caminho dos Anjos.

À noite, optei por singelo lanche num bem sortido barzinho localizado na praça central da urbe, depois me recolhi, já focado no percurso do dia sequente.


O ESTADO DE MINAS GERAIS



Embora não seja banhado pelo mar, o Estado de Minas Gerais, cuja superfície é de 584.000 quilômetros quadrados – maior que a França e a Suíça juntos, desfruta de inúmeros privilégios como o de ter sido a Capitania do Ouro nos tempos do Império e de ser regada por rios portentosos como o São Francisco, o Paraíba, o Grande, o Doce e o Jequitinhonha.

Muitas de suas casas ainda dos tempos do Brasil colônia são caiadas de branco e apresentam seus tetos envelhecidos pelo tempo, escuro e recoberto de musgo.

A maioria das cidades espalhadas pelas serras foram surgidas das minas de ouro e diamante.

Estava adentrando à velha Minas de Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho – mestre da escultura barroca; a surpreendente Minas do santo do pau oco, assim elaborados para ocultar em seu interior o ouro, burlando a fiscalização do Quinto que era arrecadado pela coroa de Portugal nos tempos do Brasil Colônia.

Nela também nasceu, na pequenina Palmira, o brasileiro que deu asas ao homem – Alberto Santos Dumont, o inventor do voo mais pesado que o ar!



Entretanto, o que mais de impressionante gravei em mente das coisas que se contam dessa fabulosa região, refere-se aos nababos que ela produziu nos tempos do apogeu de seu extrativismo mineral.

Um deles foi João Baptista Ferreira de Souza Coutinho que, em curto espaço de tempo foi guindado de simples e pobre sacristão que era, a proprietário das históricas minas de Gongo Socco, Macaúbas e outras, que produziram mais ouro do que os tinha a própria Coroa de Portugal.

Esse homem construiu em suas terras inúmeros palácios onde recepcionava seus convivas que, cada vez mais, se maravilhavam com seus caprichos e extravagâncias nababescas.

Seus banquetes eram servidos diuturnamente em baixelas de ouro maciço.

E os cristais, vindos da Europa, após serem utilizados, eram por ele ostensivamente atirados contra as paredes para que se estilhaçassem; e não somente os utilizados por ele como também pedia para que seus convidados o imitassem nessa orgia de desperdícios!

No próximo banquete, entretanto, eram substituídos por outros mais requintados ainda.

A fim de se deliciar com a estupefação de seus comensais fazia servir pratos de almôndegas que eram disfarçadamente recheadas com avelãs e nozes de puro ouro e que, após as refeições, eram levadas pelos seus convivas como pequenas lembranças...



Dizem até que os cavalos de sua comitiva tinham nos cascos ferraduras de ouro que se desprendiam nas caminhadas, quando eram loucamente disputadas pelos seus acompanhantes nas poeirentas estradas.

Quando o Imperador D. Pedro I esteve no Brasil, em Minas, recebeu desse argentário uma baixela toda de ouro, só porque durante um banquete D. Pedro a achou muito bonita.

Nesse mesmo jantar o Imperador elogiou o sabor das bananas que lhe foram servidas, juntamente, com outros frutos e doces locais.

João Baptista não perdeu a oportunidade.

Poucos dias depois, presenteou a D. Pedro, agora no Rio de Janeiro, com um enorme cacho de bananas... de ouro maciço!

Sem saber como retribuir tanta amabilidade, D. Pedro I ofereceu-lhe o título nobre de Barão das Catas Altas.


Barão das Catas Altas

Como a estatura desse magnífico anfitrião era bem abaixo da normal, o referido título o deixou extremamente feliz, pois veio a compensar de forma inesperada sua altura física.

Dizem ainda os mineiros mais idosos que apesar dessa inesgotável fortuna, sua sorte, cansada de seus esbanjamentos, abandonara seu perdulário pupilo.

Ao morrer, em 1839, esse homem, cuja fortuna foi considerada maior que a do rei de Portugal, deixa para sua família, ironicamente, apenas a pobreza...

Muitos outros extravagantes milionários existiram nas terras abençoadas das Minas Gerais.

Um deles, entretanto, também faço questão de mencionar.


Chica da Silva

Seu nome é João Fernandes de Oliveira, duplamente famoso: primeiro, pela sua incalculável fortuna; depois por ter sido amante da célebre Chica da Silva, uma humilde mulata de traços grosseiros, arrancada da senzala e transformada, graças ao dinheiro de seu marido, na mais influente mulher de seu tempo, esmagando até o acentuado preconceito racial existente naquela época.

Foi tão expressiva a fortuna desse contratador de diamantes, que a própria corte portuguesa preocupou-se com ele, somente ele, pudesse tornar o Brasil inteiro independente de Portugal.

Fizeram o que puderam os portugueses, aos tempos do severo Pombal, ministro de D. José, para ofuscar seu poderio, ameaçando-o de todas as formas.

Até enviaram, para prendê-lo, se necessário fosse, o conde de Valladares, homem de confiança do rei português.

O máximo que conseguiram foi convidá-lo, gentilmente, para ir a Portugal.

E apenas aceitou o convite porque quis, vez que se não quisesse, com a fortuna que tinha, não haveria força capaz de arrancá-lo do Brasil.

Mas acabou indo e, lá chegando, foi mal recebido por toda a realeza que já estava preparada para massacrá-lo, alegando que ele violara normas contratuais, e que iria receber uma altíssima multa por todas as falhas constatadas e... não constatadas.




Uma multa assombrosa que levaria à ruína qualquer milionário da época, porquanto o valor era de 11 milhões de cruzados!!!

Todos esperavam que aquele nababo brasileiro fosse tremer e ruir como um velho casarão.

Entretanto, diante dos olhares estupefatos da nobreza, João Fernandes, calmamente, meteu a mão no bolso, pegou um talão de cheques e, com uma única folha, sem demonstrar a mínima preocupação, pagou a dívida!

Porém, João Fernandes nunca mais retornou ao nosso país, posto que não o deixaram voltar.

Sua fortuna multiplicou-se, não somente no Brasil como também no exterior.

Suas propriedades são incontáveis, e ao morrer estava ainda mais rico do que quando o levaram à Portugal.



Foi, enfim, mais um nababo extravagante da velha Minas Gerais.

(Extraído do livro YUKON – A Última Fronteira – Autor: Miragaia René Angelino)


PASSA QUATRO



Remonta ao tempo da bandeira de Fernão Dias Paes Leme em 1674 a origem dessa cidade encravada na Serra da Mantiqueira, no sul do Estado de Minas Gerais.

Situada logo após um marco geográfico bastante notável na Serra, a Garganta do Embaú, por onde passou a expedição liderada por aquele bandeirante, teve sua localização descrita em documentos que dão origem ao nome da cidade.

Consta também expedições de Jacques Felix, fundador de Taubaté, e seu filho de mesmo nome, em expedições anteriores pela região, datadas de 1646, que podem ter dado origem ao povoamento mais antigo.

Este caminho ficou conhecido, mais tarde, como Caminho Velho da Estrada Real.

No caminho descrito por André João Antonil, consta o nome do Ribeirão do Passatrinta, logo após a descida da serra da Amantiqueira, mas segundo nota de Andrée Mansuy Diniz Silva, o nome atual desse afluente do Rio Verde é Passaquatro, ou Passa Quatro.

A região começou a ser povoada mais ativamente na segunda metade do século XIX após ser elevado a Distrito em 1854, servindo de parada para quem atravessava a Mantiqueira e se dirigia à cidade de Pouso Alto pela Estrada Real (Caminho Velho).

Em 1884, a antiga Estrada de Ferro Minas-Rio, construída pelos ingleses, contribuiu decisivamente para aumentar o povoamento e desenvolvimento da região, tendo tido em sua inauguração a presença do governante de então, o Imperador D. Pedro II.


Cidade de Passa Quatro/MG. Ao fundo, o maciço da Serra Fina.

Em 1888 é separado de Pouso Alto e emancipado como município de Passa Quatro pela Lei 3.657 de 1° de setembro, passando esse dia a ser feriado municipal em comemoração do Dia da Cidade.

A cidade teve como autor de seu projeto inicial de saneamento e coleta pluvial o engenheiro sanitarista Paulo de Frontin, que hoje dá nome uma das praças da cidade, localizada no largo da estação ferroviária.

Em 1912 a cidade abrigou uma expedição científica internacional que veio estudar a ocorrência de um eclipse solar.



Na ocasião, cientistas de diversos países, chefiados pelo astrônomo Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional, compareceram junto com uma comitiva presidencial, onde estava o Marechal Hermes da Fonseca, Presidente da República.

O fenômeno foi pouco observado devido às más condições atmosféricas naquele dia.

Foi palco de dois episódios militares do século XX, as revoluções de 1930 e 1932 (em tal Revolução, atuou como médico no hospital municipal o futuro presidente Juscelino Kubitschek).

Em 1941 foi considerada Estância Hidromineral pelas propriedades medicinais de várias de suas fontes de águas óligo-minerais, radioativas na fonte, principalmente devido à grande concentração de radônio e torônio.

Sua população atual é de 16.000 habitantes.

(Fonte: Prefeitura de Passa Quatro)



Passa quatro vezes o mesmo rio, e terás um repouso tranquilo".

Essa foi a frase deixada por Fernão Dias aos visitantes posteriores e que deu o nome a cidade e ao trajeto da Estrada Real.


Cidade de Passa Quatro/MG- vista parcial.

A cidade possui um rico acervo arquitetônico e urbanístico formado por construções que datam da virada do século 19 para o 20: A Matriz de São Sebastião, a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, em estilo gótico, o calçamento em paralelepípedos formando faixas claras e escuras, as fontes de água mineral presentes em todas as praças e jardins, o conjunto da estação ferroviária e o clima, que no verão varia entre 16 e 22 graus e, no inverno, chega a 0 grau durante as geadas da madrugada, dão um toque especial e aconchegante a essa pequena urbe.

Entre suas belezas naturais, destaca-se o Pico da Pedra da Mina, com 2797 metros de altitude — que fica no trecho da Mantiqueira chamado de Serra Fina e é o 4º ponto mais alto do Brasil — o Pico dos Três Estados, com 2665 metros, localizado no encontro entre as divisas de SP, MG e RJ, e o Pico do Itaguaré, com 2308 metros, onde nasce o ribeirão Passa Quatro.


O trem Maria Fumaça da cidade de Passa Quatro/MG.

Uma ótima opção para o turismo histórico é a viagem de Maria Fumaça em vagões do século 19, que parte da estação da cidade todos os sábados às 10 h e às 14 h 30 min e, aos domingos, às 10 h.

Antes do embarque e no retorno, os turistas ouvem as músicas do acordeom tocado por um típico personagem do Brasil: seu José Rodrigues, de 59 anos.

O passeio termina na estação de Coronel Fulgêncio, próximo ao túnel de 1 quilômetro de extensão que separa Minas Gerais de São Paulo, que foi cenário de sangrentas e decisivas batalhas da Revolução Constitucionalista de 1932, com a presença do então jovem médico mineiro Juscelino Kubitschek.

No local, foram gravados os últimos capítulos da minissérie “Mad Maria”, da TV Globo.

(Fonte: site do Caminho dos Anjos)


Estação Ferroviária da cidade de Passa Quatro/MG.

Desde que viajo na Capitania de Minas, talvez nada visse de mais belo do que a região hoje atravessada.

Seguimos um vale bastante largo, cercado de montanhas pitorescas e coberto de árvores no meio das quais se destaca sempre a majestosa araucária. Este vale é regado por um rio que dá mil voltas e pelo qual passa quatro vezes para chegar aqui, donde lhe vem o nome de Passa Quatro.

Suas margens apresentam, alternadamente, pastos, capões de mato pouco elevados, terrenos cultivados entre os quais se vê de distância em distância grupos de pinheiros.

Pequenas casas ainda acrescentam nova variedade à paisagem.

À nossa frente tínhamos a Serra da Mantiqueira, a cujos cumes, bastante diferentes pelo formato, veste sombria floresta.

Nada melhor lembra os vales da Suíça do que este de que acabo de fazer a descrição.

Passa Quatro, 14 de março de 1822 - Auguste de Saint-Hilaire.”


1º dia: PASSA QUATRO à ITAMONTE – 24 quilômetros