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Caminho Nascente - Pt


CAMINHO NASCENTE - PORTUGAL



Eu aportara à cidade de Fátima depois de caminhar desde Lisboa e, em princípio, pretendia prosseguir pelo Caminho do Poente, em direção à cidade de Nazaré, situada na orla marítima, um percurso de 54 quilômetros, também conhecido como “Caminho de Finesterre Português”.

No entanto, como não consegui reservar o local de pernoite, estrategicamente, situado na metade do trajeto, acabei por aceitar o conselho do meu nobre amigo português, o Aurélio Simões, e optei por percorrer o Caminho Nascente, um percurso de 30 quilômetros, a ser vencido em apenas uma etapa.

Isto decidido, levantei bem cedo na manhã sequente, ingeri um frugal desjejum e logo dava início à etapa desse dia.



PEQUENA DISSERTAÇÃO SOBRE ESSE CAMINHO


O Caminho Nascente, que liga a cidade de Tomar ao Santuário de Fátima (30 km), foi marcado, georeferenciado e aberto em abril de 2015, pela Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima.

Com início em Tomar, seu traçado prevê visita à Igreja de São João Batista, passagem junto ao Convento de Cristo, aqueduto dos Pegões (obra com de 6 kms de extensão, construída com a finalidade de abastecer de água o Convento de Cristo em Tomar), Fungalvaz, Lagoa do Furadouro, Alveijar e Fátima.

Chama-se "Caminho Nascente" por rumar na direção este, onde o sol nasce.

Este pequeno roteiro foi criado pensando nos peregrinos de Santiago de Compostela que vão a Tomar e querem visitar o Santuário de Fátima ou vice-versa.

Ao longo do trajeto o caminhante vai deparar-se com diversos tipos de terreno, com desníveis acentuados, que representam um desafio.

Sua marcação é bidirecional, para auxiliar os peregrinos de Santiago que vão a Fátima para retomarem ao Caminho Original de Santiago, em Tomar.

Dessa forma, ele não é “Caminho de Santiago”, mas um caminho “para” Santiago.

No sentido da cidade de Fátima, ele está sinalizado com setas azuis, e na direção da cidade de Tomar, com setas amarelas.

Em Tomar a sinalização desse novel roteiro tem seu “marco zero” na Praça da República, numa caixa de eletricidade, situada do lado esquerdo de quem olha para a fachada da Câmara Municipal da cidade.

A sinalização em Fátima começa num poste elétrico, situado no lado “este” do Santuário, na Praceta de Santo Antônio, junto às pequenas lojas de artigos religiosos.

Ao longo do percurso existe uma grande diversidade de geografias, porque seu traçado atravessa regiões de montanha (com alguma exigência física), muito ricas em fauna e flora.

Além disso, cruza cidades e aldeias com tradição peregrina, cultural e histórica.

Nesse sentido, seu traçado contempla essencialmente percursos bucólicos, e permite contato com um Portugal onde ainda existe tempo para parar e refletir.

Um alerta final para o perigo de caminhar no aqueduto dos Pegões, dada a altura de seus arcos e a ausência de proteção.

Fonte: web





MINHA VIVÊNCIA NESSE ROTEIRO


O trajeto seria de média extensão, contudo, vivenciávamos uma época de forte calor, mormente, após às 10 horas da manhã.

Então, como de hábito, levantei cedo e às 6 h deixei o local de pernoite, seguindo em direção ao Santuário de Fátima.

Aproximadamente, cem metros percorridos, passei diante da “Capelinha das Aparições” onde, para minha surpresa, estava se realizando uma missa bastante concorrida, apesar do horário matutino, já que o sol somente nasceria depois das 7 h 30 min.

Defronte ao templo, fiz orações, pedi proteção em minha jornada, depois segui adiante, por avenidas frias e ventosas, já que Fátima esta situada no coração da Serra de Aire, a cerca de 350 metros de altitude, no Maciço Calcário Estremenho, e se situa na confluência de três antigas zonas geográficas e administrativamente diferentes: o Ribatejo, a Estremadura e a Beira Litoral,

Os primeiros metros do percurso foram percorridos por avenidas largas e bem iluminadas, porém, depois de 2 quilômetros, deixei a famosa urbe e adentrei em terra, agora, lá em franco descenso.

Sem maiores problemas, porque a sinalização também está excelente nesse caminho, com o dia amanhecendo, percorridos 7 quilômetros, eu transitei pela vila de Alveijar, onde tudo ainda era silêncio.

Ultrapassada uma avenida e algumas ruas intermediárias, voltei a caminhar por estradas de terra e, percorridos mais 4 quilômetros, atravessei Outeiro das Matas, um bonito povoado que ainda despertava.

Ali, pude fotografar uma igreinha, depois, prossegui por uma estrada asfaltada e levemente ascendente, que me levou a bordejar o povoado de Lagoa do Furadouro.

Ultrapassadas as derradeiras casas, enfrentei um pequeno outeiro, praticamente, a única dificuldade altimétrica da jornada.

Já no topo do morro, passei a caminhar por um terreno agreste e seco, onde a única plantação existente eram oliveiras.

Então, percorridos 16 quilômetros, observando a sinalização, abandonei a estrada por onde eu caminhava, para adentrar numa trilha estreita e pedregosa, situada entre árvores nativas, que seguiu em franco descenso.

Foram 5 quilômetros caminhando por locais ermos e silenciosos, onde o único barulho audível era uma brisa constante, que soprava da direção noroeste.

Trata-se de uma senda bastante técnica, com vários e dificultosos desníveis, que venci com muita atenção, pois o perigo de cair ou sofrer uma torção sempre esteve presente.

Na verdade, eu estava caminhando pelo interior da Fõrnea Fungavaz, um parque de vida selvagem, onde a natureza se encontra integralmente preservada.

Nesse intermeio não avistei vivalma e quando emergi dessa zona preservada, transitei pelo povoado de Fungalvaz, o único onde encontrei comércio aberto em toda a extensão desse caminho.

Então, num bar ali existente, tomei café, adquiri água, ingeri uma banana, depois, segui adiante, pois o sol e o calor já agrediam com vigor.

O trecho restante mesclou, como tônica nesse roteiro, asfalto e estradas de terra bem delineadas.

Quase no final da jornada, transitei ao lado do Aqueduto de Pegões, obra monumental, cuja construção foi iniciada em 1593, no reinado de Filipe, sob a direção de Filipe Terzio, (arquiteto-mór do reino), e concluída por Pedro Fernando de Torres, em 1614.

Uma construção fantástica que vale a pena ser admirada e visitada com calma.

Vencida mais outro pequeno ascenso, passei a descender com força e logo transitei diante do Convento de Cristo, um dos mais importantes monumentos do Patrimônio Mundial Português, onde merecem especial referência a “Charola Templária” e a célebre “Janela Manuelina do Capítulo”.

Eu já visitara suas instalações em 2 ocasiões, de forma que prossegui em desabalado descenso que, em seu final, me deixou diante da igreja matriz de Tomar, cujo padroeiro é São João Batista.

Trata-se de um templo construído dos finais do século XV, que possui portal manuelino e a torre, com coruchéu, é de formato octogonal, como se impunha numa época marcada pelos templários.

No centro da praça central, destaca-se a estátua do mestre templário Dom Gualdim Pais, fundador da cidade de Tomar.

Nela, me hospedei no Residencial União, cêntrico, dotado de excelentes acomodações, com diárias diferenciadas para peregrinos.

Para almoçar, eu utilizei os serviços do restaurante Lusitânia, que recomendo com louvor.

Algumas fotos do percurso desse dia:


O Santuário de Fátima, às 6 h da manhã.


O caminho em terra, logo após a passagem por Alveijar.


O sol, finalmente, nascendo...


Igrejinha situada em Outeiro das Matas.


Forte ascenso, logo após a passagem por Lagoa do Furadouro.


Caminhando pelo topo da serra.


Início da trilha, no 16° quilômetro percorrido.


Muitas pedras no leito da trilha.


Um estranho rochedo, localizado ao lado da trilha.


Sinalização do lado esquerdo da trilha.


A cidade de Fungalvaz já aparece no horizonte.


O fabuloso Aqueduto de Pegões.


Transitando diante do Convento de Cristo, outra obra monumental.


Igreja matriz de Tomar.

Tomar faz parte da seleta relação das cidades monumentais de Portugal, e está situada à beira do rio Nabão, um importante tributário do rio Tejo, na esquina onde a região do Ribatejo se funde com a da Alta Extremadura.

Trata-se de uma vila histórica, vinculada a Ordem de Cristo, a irmandade dos monges guerreiros que em Portugal tomou como espelho a Ordem dos Templários, uma vez que esta foi dissolvida em 1314, pelo papa Clemente V.

Foram eles que levantaram no alto da colina o convento de Cristo, em 1160, passando este à Ordem de Cristo em 1319, pela dissolução dos Templários.

Trata-se de um conjunto de edifícios com sete claustros em torno de um corredor semicircular entre o corpo da igreja e o altar-mor, charola central de planta octogonal e ares bizantinos, que recorda o templo do Santo Sepulcro de Jerusalém.


Uma das ruas do centro velho de Tomar.

É certo que entre essas paredes foram urdidas boa parte da história de Portugal.

Nesse local residiu Enrique, “El Navegante”, o rei que deu um império colonial a Portugal.

Também foi aqui que as cortes portuguesas aclamaram como novo monarca Felipe II, da Espanha, em 1581.

Mais abaixo, nas ruas medievais que rodeiam a Praça da República e a Igreja de São João Batista, a vida segue seu curso, sob uma atmosfera do século XII, com um envoltório do século XXI, quase tão pausada e tranquila quanto àquela que rodeava os Cavaleiros de Cristo quando estavam acima do morro, em sua fortaleza.


O interior da igreja matriz de Tomar.

O turismo constitui hoje a principal atividade monetária dessa urbe, já que o Convento de Cristo, principal Monumento da cidade, foi considerado Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1983.

Porém, ela é também um centro industrial, com fábricas de papel, derivados de madeira e outras, comercial, e agrícola, porquanto suas terras são férteis e produzem frutas, azeite e vinho.


Estátua que homenageia o fundador da cidade de Tomar.

Para visualizar ou baixar essa trilha, acesse o link: https://pt.wikiloc.com/trilhas-trekking/fatima-a-tomar-29432045




IMPRESSÃO PESSOAL: Uma jornada de razoável extensão, com alguns entraves importantes a serem superados, e onde não encontrei fontes de água para abastecimento. Em termos altimétricos, diria que esse caminho não apresenta obstáculos expressivos, mas seu grau de dificuldade poderia ser mensurado entre o moderado e o difícil. O trajeto mescla asfalto e estradas de terra, com trechos de expressiva beleza. O ponto alto do percurso foi a trilha que enfrentei entre o 16º e o 21º quilômetro, de raro encanto paisagístico, mas com forte inclinação e trechos extremamente técnicos, que exigiram a máxima atenção para eu me manter em pé. No global, diria que foi um caminho exigente em alguns intermeios, mas que não me exauriu em termos físicos, pois gastei 6 h 30 min para percorrê-lo, integralmente. Contudo, no sentido inverso, fisicamente falando, ele é bem mais rigoroso.

Bom Caminho a todos!

Outubro/2018