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01- SALAMANCA a ROBLIZA DE COJOS – 34 quilômetros


01- SALAMANCA a ROBLIZA DE COJOS – 34 quilômetros

"Toda experiência que nos obriga a enfrentar o medo cara a cara nos torna mais fortes, aumenta nosso valor e nossa confiança." (Eleanor Roosevelt)




Levantei bem cedo, me preparei adequadamente para a jornada, depois, animado e expectante, às 5 h 30 min, sob um frio intenso, temperatura na casa de 2 ºC, deixei Salamanca, a cidade de Don Diego de Torres Villarroel.

Em descenso, transitei por ruas ventosas e vazias e, mais abaixo, quase deixando a urbe, eu atravessei o majestoso rio Tormes por sua ponte romana, cuja construção data do ano 100 d.C, época do governo do imperador Trajano, na certeza de que meu predecessor seguiu esse mesmo itinerário, no ano de 1737.

A partir desse ponto, é necessário clarificar que o caminhante do século XXI, para reprisar os passos de Don Diego, deverá se esquivar de rodovias, autopistas e vias férreas que cruzarão o seu caminho para, da forma mais linear possível, chegar até Ciudad Rodrigo, a primeira grande povoação que encontrará depois de quase 90 quilômetros.

Para isto e como bom peregrino, que tentará caminhar o mais longe possível do asfalto, e quer que sua bota vá acumulando poeira e barro de caminhos ancestrais ainda preservados, o mais adequado é percorrer a Cañada Real de Extremadura que, como era habitual nesse tipo de via, não transita por lugares povoados e que, milagrosamente, se preserva em muito bom estado na província de Salamanca, atravessando imensas pastagens pertencentes a Campo Charro e a Comarca de Ciudad Rodrigo.” (Extraído/traduzido do site oficial desse caminho)."

Nesse sentido, os primeiros 10 quilômetros foram trilhados sobre piso duro, enquanto o dia lentamente clareava, embora a ameaça de chuvas estivesse presente, face às nuvens carregadas que avistava à leste.

Depois, mais adiante, passei pela urbanização Peñasolana e, na sequência, caminhei algum tempo ao lado das vias férreas.

Então, depois de transpor a rodovia A-62 por uma passagem elevada, pude desfrutar de todo o esplendor da Cañada Real, um caminho ancestral, utilizado para o pastoreio de gado que, como era habitual nesse tipo de via, não perpassa em zonas habitadas.

A partir desse ponto, só encontrei 3 pequenas fazendas de exploração agropecuária: Rodillo, Carnero, com sua preciosa igreja da Virgem da Candelária, e El Tejado, com sua igreja de São Silvestre e a torre do castelo, do século XV.

Nesse intermeio, pude desfrutar de silêncio e ermosidade, enquanto eu transitava entre suas extensas pastagens, onde abundam as encinas, árvores típicas da região, que me acompanhariam durante as três primeiras jornadas.

Seguiram-se, durante todo o trajeto, grandes estirões retilíneos, integralmente desertos e silenciosos, que fui vencendo sem maiores atropelos.

O piso, quase sempre em terra e com poucas pedras, passava agradavelmente sob meus pés.

Infelizmente, fazia muito tempo que não chovia na região, então, encontrei, salvo raras exceções, tudo muito seco, já que a primavera ainda não se fazia presente, com flores e verdes em muitos matizes.

E, embora o sol brilhasse forte a partir das 8 horas, o clima prosseguiu frio, ideal para minha expectante caminhada.

Na metade do percurso desse dia, ao passar diante “Finca” de Calzadilla de Valmuza, pude fotografar uma ponte em ruínas, de origem romana, testemunha milenar da existência desse antigo caminho que unia Salamanca a Ciudad Rodrigo.

Quase no final da etapa, num cruzamento com a estrada que vai em direção a El Tejado, há uma rodovia à direita, que me levaria, depois de quatro quilômetros, à povoação de Calzada de Don Diego, onde Torres Villarroel pernoitou no final de sua primeira jornada, porém, como essa localidade não oferece abrigo aos peregrinos, continuei em frente pela Cañada Real.

Assim, durante mais três quilômetros, desfrutei da sombra de algumas azinheiras, mas depois o trajeto seguiu entre campos áridos.

E quatro quilômetros à frente, cheguei a Robliza de Cojos, uma agradável vila, com sua igreja matriz recentemente restaurada, dedicada a Santo Domingo de Guzmán.

Algumas fotos do percurso desse dia:


O dia, lentamente, amanhece...


Início da Cañada Real de Extremadura.


Longos trechos retilíneos, a tônica nessa jorada.


Trânsito pela Fazenda Rodillo.


Trânsito entre pés de encinas, árvore típica da região.


Carvalhos podados, típicos da região.


Trechos ermos e silenciosos...


Perdido no meio do nada, pausa para foto...


Tudo muito seco, fazia tempo que não chovia na região...


Longos retões....


Finalmente, adentrando em Robliza de Cojos. Sinalização excelente!

A fundação de Robliza de Cojos e dos povoados cercanos ocorreu no processo de repovoação daquela região, empreendido pelos reis de León, durante a Idade Média.

Em 1833, com a criação das atuais províncias espanholas, a cidade se integrou à de Salamanca, dentro da região Leonesa.

População: 230 habitantes.

Sua igreja matriz é dedicada a Santo Domingo de Guzmán.



Meu local de pernoite nesse dia.... bastante improvisado.

O “Ayuntamiento” de Robliza de Cojos habilitou um local para pernoite dos peregrinos, que se encontra instalado na velha escola, vizinha à antiga residência do médico.

As chaves devem ser retiradas numa casa amarela, situada no número nove da Calle Escultor Venancio Blanco, com a sra. Puri.

No local de pernoite eu encontrei somente 2 colchões colocados sobre toscos estrados de madeira, além de três banheiros, porém não há calefação, cobertores, lençóis, travesseiros, cozinha, água quente e nem duchas para banho.

Na pequena vila, há um bar situado próximo das piscinas municipais, que oferece um cardápio de lanches variados, embora também possa preparar pratos combinados, porém ele só abre à tarde, e foi nele que fiz minha refeição noturna.

Aproximadamente, a 1.500 m de distância, existe um Posto de Gasolina 24 horas, edificado junto à rodovia A-62, onde há um restaurante e outros serviços como cafeteria, restaurante e uma “tienda”.

Foi ali que almocei nesse dia um delicioso “menu del dia”, por 10 Euros. 


Igreja matriz de Robliza de Cojos.

RESUMO DO DIA: Clima: Frio de manhã, depois ensolarado, variando a temperatura entre 2 e 13 graus.

Pernoite no albergue local – Preço: donativo.

Almoço no Restaurante Robliza: Ótimo! – Preço: R$10 Euros o “menú del dia”.


IMPRESSÃO PESSOAL: Inicialmente, um alerta: a preparação física antes de iniciar o Caminho Torres é relevante, já que a distância a ser percorrida nessa primeira etapa é extensa e não há possibilidade de pausas intermediárias para lanches/café, pela ausência de povoações e comércio no percurso. Por isso, antes de deixar o local de partida, esse pormenor deve ser previsto e, especialmente, no verão, é essencial levar água suficiente para todo o trajeto. No geral, trata-se de uma etapa de grande extensão, contudo, não apresenta obstáculos altimétricos significativos. Os primeiros quilômetros, até deixar a civilização, são monótonos, porém, após o peregrino acessar o campo tudo muda e as paisagens se sucedem magníficas e inéditas. A recordar que o pernoite desse dia se dá em local improvisado, mas o calor humano emanado pelos habitantes de Robliza, compensou o enorme sacrifício.