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06 – ALDEA DEL OBISPO a PINHEL – 36 quilômetros


06 – ALDEA DEL OBISPO a PINHEL – 36 quilômetros

A gratidão é a mãe de todas as virtudes.” (Cícero) 




Seria outra etapa de grande extensão e de dificuldades técnicas, pois haveria obstáculos altimétricos no percurso.

Assim, deixei Aldea Del Obispo às 6 h, seguindo por uma rodovia que se dirige a Portugal, e depois de um quilômetro encontrei o acesso ao Real Forte de la Concepción, segunda fortaleza abaluartada que há nesse caminho, uma autêntica joia da arquitetura militar, cuja construção se findou em 1758.

Atualmente, há um hotel em funcionamento no local, mas está permitida a visita ao seu recinto fortificado, embora eu tenha passado pela sua entrada em horário extemporâneo.

Ultrapassado o rio Turone/Tourões, adentrei em Portugal e logo transitei por sua primeira povoação: Vale da Mula, onde há bares e comércio em geral, mas claro, todos ainda fechados àquela hora.

Na trecho sequencial, o mais fácil seria utilizar a rodovia que vai reta em direção a Almeida, mas ela não contém acostamento.

Assim, para evitar o trânsito sobre piso asfáltico e seguindo as flechas amarelas, fiz um giro pela direita, depois segui por uma estrada de terra, integralmente plana e deserta, onde avistei muitos parreirais e extensas pastagens, a tônica nesse trecho.

Mais à frente eu ultrapassei o rio Seco por uma ponte, e seguindo adiante, depois de caminhar 12 quilômetros, passei por Almeida, a terceira fortaleza abaluartada que encontrei nesse caminho, sendo a quarta e última situada muitos quilômetros à frente, em Valença do Minho, já na divisa com a Espanha.

O caminho não passa pelo interior do “casco antigo” da cidade, assim, observando a sinalização, eu fiz um grande giro ao redor de suas muralhas, enquanto observava atentamente essa magnífica construção, palco de muitas disputas, guerras e intrigas.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Adentrando em Portugal! Viva!!


Um lindo amanhecer, já em terras lusitanas.


Caminho fresco e plano.


Ao longe, no alto do morro, a cidade de Almeida.

Almeida terá tido origem na migração dos habitantes de um castro lusitano, localizado a Norte do lugar do Enxido da Sarça, ocupado em 61 a.C. pelos Romanos, e depois pelos povos bárbaros. Dada a sua situação em planalto, os Árabes chamaram-na Al-Mêda (a Mesa), Talmeyda ou Almeydan, tendo construído um pequeno Castelo (séc. VIII- IX).
No período da Reconquista, os Cristãos tomaram-na definitivamente em 1190 e foi sucessivamente disputada a Leão, passando à posse portuguesa com o Tratado de Alcanizes em 1297.

Recebeu foral de D. Dinís (1296), que reconstruiu o Castelo, e foral novo de D. Manuel (1510). Junto ao Castelo de planta retangular e quatro torres circulares, cresceu o núcleo medieval limitado pelas muralhas, cujo vestígio se vê na Porta do Sol, traçado que a Rua dos Combatentes acompanha e que define o velho burgo. No Castelo havia a primitiva Igreja Matriz.

A explosão do Revelim do Paiol, em 1810, motivada pelas invasões francesas, arrasou grande parte da vila, sendo esta igreja transferida para a do Convento de N. Sra. do Loreto - que apresenta um portal barroco - tomando o nome de N. Sra. das Candeias, cuja procissão se realiza a 2 de Fevereiro. A religiosidade popular está também assinalada nos passos da via-sacra.

A importância desta praça defensiva levou à expansão urbana e institucional sendo dignos de nota os edifícios do antigo Quartel de Artilharia, Vedoria, Tribunal, bem como a Igreja e Hospital da Misericórdia, de portal clórico - exemplos da arquitetura seiscentista.

A sua qualidade de praça-forte marcou também o próprio urbanismo, com quarteirões destinados a alojar os militares, como o caso do antigo quartel de Cavalaria. De realçar, o Quartel das Esquadras, edificado em 1762/69 (em frente do qual se fazia a parada militar, zona hoje ajardinada), e a célebre Casa da Roda - instituição criada por Pina Manique em 1783, para recolhimento das crianças expostas. No lugar da Roda encontra-se uma janela.

A Praça Forte de Almeida (séc. XVII/XVIII), perfeito exemplar da arquitetura militar barroca, é uma fortaleza abaluartada com traçado hexagonal em estrela, ao estilo do engenheiro francês Antoine Deville. O acesso faz-se pelas portas duplas em túnel abobadado. Dispõe de seis baluartes, com suas casamatas - galerias subterrâneas onde a população se recolhia em caso de perigo e que também serviram de prisões miguelistas - e revelins, com fossos de profundidade média de 12 m, onde se construiu também um Hospital de Sangue, e se localiza o Museu Militar.

Durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) Almeida voltou à posse de Espanha, tendo retomado ao domínio Português em 1763.
Nas lutas liberais tomou partido por D. Miguel entre 1829 e 1832, acabando por capitular após duras lutas fratricidas, que de novo destruíram as muralhas - reconstruídas a partir de 1853. Em 1927 saiu de Almeida o último Esquadrão de Cavalaria perdendo, desde então, a atividade militar que, durante séculos, foi a razão essencial da sua existência.

População atual: 7300 habitantes



Para deixar a cidade, eu girei em torno da Fortaleza de Almeida.

Deixei Almeida caminhando por uma rodovia que vai em direção ao Santuário da Senhora da Barca, porém na altura da Quinta da Tasqueira eu abandonei o asfalto e descendi por um caminho empedrado de grande beleza, situado entre oliveiras, vinhedos e árvores.

Depois de longo e acidentado declive, mais abaixo, eu cruzei a rodovia N-340 e ultrapassei o rio Côa pela espetacular Ponte Grande para, em seguida, passar a recuperar parte da altura que eu havia perdido desde Almeida.

Enfrentei, então, na sequência, duro aclive por uma estrada de terra, onde logo encontrei grandes blocos graníticos, que adotam formas caprichosas, uma característica da região Beira Interior, fato que se repetiria nas etapas sequentes.

A paisagem, no entanto, se suavizou quando cheguei à bela ponte de Gaiteiros, que transpõe rio homônimo.

Pouco depois, passei por Vale Verde e, alguns quilômetros adiante, depois de enfrentar outro forte descenso, cheguei em O Pereiro.

Ali, fiz uma pausa no bar São Cristóvão para carimbar minha credencial e cumprimentar dona Maria Julieta, talvez, a pessoa mais emblemática desse roteiro, pois trata a todos peregrinos como filhos seus.

Conversamos um pouco, depois ela me deu 2 bananas, 4 mexericas e ainda repôs o estoque da minha água, isso tudo sem permitir que eu pagasse pelos mantimentos.

Pediu-me, apenas, que se lembrasse dela e de sua família quando chegasse a Santiago, promessa que cumpri, imediatamente, quando lá aportei.

Finalmente, ao partir, ela fez questão de me acompanhar até onde a aldeia se findava; ali me abraçou e me desejou um sonoro “Bom Caminho!”

Esse foi, sem dúvida, um dos momentos mais sublimes e emocionante que vivenciei, enquanto transitava solitário pelo Caminho Torres.

À Dona Maria Julieta, minha gratidão imensa pela sua acolhida e incentivo, na certeza de que a senhora permanecerá em minha memória para sempre, como exemplo de solidariedade peregrina.

No trecho final, aproximadamente 6 quilômetros, caminhei próximo do rumoroso e encorpado ribeirão das Cabras, mas sempre ladeado por imensos parreirais.

E nesse intermeio derradeiro, eu já divisava, ao longe, a cidade Pinhel e seu famoso castelo, fincados no alto de uma colina.

Tive alguma dificuldade para entender a sinalização no forte aclive que dá acesso à cidade, mas logo principiei a ascender por ruas empedradas, até ultrapassar a Porta de São Tiago, por onde adentrei no casco antigo.

O céu estava nublado, nuvens negras se formando, então, após banho, almoço e breve descanso, saí para passear pela cidade, mas quase, imediatamente, retornei ao local de pernoite, pois principiou a derramar uma forte garoa, que se prolongou noite adentro.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Forte descenso...


Ponte romana sobre o rio Côa.


Ascenso forte e empedrado pelo lado oposto.


Caminho solitário, junto à exuberante natureza.


Início do trecho de pedras...


Paisagem surreal nesse trecho.


Caminho lindo, deserto e a perder de vista...


Dona Maria Julieta, um amor de pessoa. Ela muito me emocionou, com seu carinho e hospitalidade.


Quase chegando em Pinhel. Caminho em ascenso.


A cidade de Pinhel já aparece à esquerda, fincada no topo do morro.

A origem da cidade de Pinhel é atribuída, sem grande certeza, aos Túrdulos, por volta do ano 500 a.C.

O concelho de Pinhel recebeu foral de D. Sancho I, em 1209, detendo funções de organização militar e jurisdição. Deve-se a D. Dinís a reedificação do Castelo de Pinhel, constituído por duas torres, e a construção da histórica muralha que rodeava a vila da época (atual zona histórica), constituída por seis portas: Vila, Santiago, São João, Marrocos, Alvacar e Marialva.

Tornou-se sede de diocese e cidade em 1770, durante o reinado de D. José I, por desanexação da Diocese de Lamego, mas em 1881 a Diocese de Pinhel foi extinta pela Bula Papal de Leão XIII e incorporada na Diocese da Guarda.


A praça principal da cidade de Pinhel. Já sob chuva...

Pinhel tem como símbolo o Falcão, presente também como distintivo no seu brasão. O falcão simboliza o patriotismo dos pinhelenses que lutaram pela defesa da independência nacional, numa altura em que estes aderiram ao movimento patriótico do Mestre de Avis e em que Portugal estava sob ataques de Castela, nomeadamente na Beira Alta. O falcão foi assim um talismã arrebatado ao rei de Castela por parte dos terços pinhelenses.

O concelho de Pinhel encontra-se entre os 350 e os 600 metros de altura em relação ao nível do mar e é banhado pelo rio Côa, pelo rio Massueime, para além da ribeira das Cabras e da ribeira da Pêga. Pinhel fica rodeado por paisagens vistosas: colinas, planaltos, montes e a notável Serra da Marofa. Pinhel foi outrora diocese e atualmente permanece o ponto focal de Terras de Riba Côa, dominada por planaltos, fortalezas, pelourinhos e os vastos horizontes, junto ao Vale do Côa.

A cidade possui monumentos tipicamente beirões, de beleza estética, de gastronomia e de vinho, além de salientar os frondosos pinheiros e bosques da Beira Interior.


Cidade de Pinhel... muito bonita!

O nome Pinhel deriva da grande quantidade de pinheiros existentes nessa zona. A proximidade de Pinhel a Espanha fez com que esta fosse um fulcro de um dos mais avançados centros fortificados até à assinatura do Tratado de Alcanizes.

Na parte setentrional (norte), situa-se o Parque Arqueológico do Vale do Côa, compartilhado com algumas municipalidades vizinhas, declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, em 1998.

População: 9700 pessoas.


Entrada do centro histórico de Pinhel.

RESUMO DO DIA: Clima: Frio de manhã, depois nublado, variando a temperatura entre 6 e 17 graus.

Pernoite no Residencial Skylab – Apartamento excelente, porém, com banheiro compartilhado. Preço: 15 Euros.

Almoço no restaurante do próprio residencial: Excelente! Preço: 7 Euros o “menu del dia”.


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de grande extensão e com desníveis importantes. Nela, passei por algumas povoações intermediárias, onde há comércio, como em Almeida, Vale Verde e O Pereiro. De se anotar, entretanto, que em vários pontos do roteiro eu avistei placas e flechas amarelas que não correspondem ao Caminho Torres, pois indicam direção contrária, até Salamanca, e podem induzir a equívocos. No global, uma jornada longa e difícil, contudo, de grande emoção e beleza, mormente, quando de minha passagem por O Pereiro, onde conheci a dona Maria Julieta, talvez, a pessoa mais calorosa e representativa desse magnífico roteiro.