Home‎ > ‎Caminho Torres - Espanha‎ > ‎

07 – PINHEL a TRANCOSO – 33 quilômetros


07 – PINHEL a TRANCOSO – 33 quilômetros

Que os teus dias sejam muitos e os teus problemas sejam poucos. Que todas as bênçãos de Deus desçam sobre você. Que a paz esteja dentro de você, que o seu coração seja forte. Que você encontre o que está buscando onde quer que você caminhe.” (Bênção irlandesa) 




Seria outra jornada de grande extensão e, como a anterior, permeada de ascensos e descensos de razoável complexidade.

Assim, deixei o local de pernoite ainda no escuro, às 6 h, e segui por ruas vazias e silenciosas em direção à saída da cidade.

Por sorte, a chuva havia se findado na madrugada, mas deixara o clima fresco e hidratado.

Caminhando pelo acostamento de uma rodovia, por uma ponte metálica eu ultrapassei a ribeira da Pêga, o segundo rio que, juntamente com a ribeira da Cabras, rodeia Pinhel e a converteram numa fortaleza inexpugnável.

Na sequência, abandonei a via asfaltada e me internei numa estrada de terra, situada entre pinheiros, oliveiras e vinhedos, todos muito bem cuidados que, depois de 8 quilômetros, me levaram a transitar pela cidade de Valbom, onde há comércio.

À medida que adentrava à vila, observava atentamente o conjunto formado pela ponte medieval e a igreja matriz da povoação.

Seguindo adiante, depois de alguns quilômetros por asfalto, fleti à esquerda, caminhei sobre terra e em suave descenso, e logo passei por Póvoa d'El-Rei.

Nesse trecho transitei entre imensos parreirais e, também, surpreendentemente, avistei plantações de marmelos.

Depois, caminhei pelo vale da ribeira de Massueime, num belo e surpreendente rincão solitário.

Na sequência, atravessei uma ponte medieval, depois segui quase um quilômetro desfrutando da sombra proporcionada por um agradável bosque situado em suas margens.

Em algum lugar o caminho girou à direita e a sinalização, misteriosamente desapareceu, então, me guiei pelo traçado salvo no aplicativo Wikiloc, que levava gravado em meu celular.

Notei, nesse trecho, árvores esturricadas, fruto de recente incêndio ocorrido nessa região e que, certamente, apagou os sinais jacobeus existentes.

Assim, pelos próximos 4 quilômetros caminhei integralmente solitário, pois não avistei vivalma, nem animais, nesse ermo e soturno itinerário.

Contudo, antes de chegar a foz da ribeira de Vale do Mouro, mudei de direção e logo passei por Ameal e, em seguida, por Falachos, mas quase nada avistei nessas pequenas e silenciosas vilas.

Depois de ascender por um empedrado aclive, do alto do outeiro, eu tive uma visão do que me restava até o final da jornada, podendo avistar ao longe, no cimo de um morro, o castelo de Trancoso.

Na sequência, transitei por São Martinho, quando restava 4 quilômetros para o final da jornada.

Ali fiz uma pausa para descanso, antes de afrontar o difícil e derradeiro ascenso, que me levou até Trancoso, onde adentrei pelas Portas do Carvalho, aberta em sua muralha medieval, e ainda perfeitamente conservada, que rodeia todo o casco antigo da cidade.

Algumas fotos do percurso desse dia:



Chegando na cidade de Valbom.


O trecho sequente foi por asfalto.


De volta aos campos... Em leve e contínuo descenso.


Ponte romana sobre a 
ribeira de Massueime.


Trecho sem flechas onde, recentemente, houve um grande incêndio.


Depois, caminho fresco e deserto.


Outro trecho integralmente solitário.


Um forte e pedregoso ascenso.


Visão desde o alto da serra, podendo-se ver Trancoso ao longe, à esquerda, sobre um morro.


Derradeiro ascenso em direção à cidade de Trancoso, sobre pedras.


Portas do Prado, por onde adentrei nas muralhas.

Localizado no topo de um planalto, de onde se avista um vasto território entre a serra da Estrela e o vale do Douro, Trancoso desenvolveu-se em torno do seu castelo, fundado nos sécs. VIII-IX.

Ao longo de toda a Idade Média, foi um lugar estratégico-militar extremamente importante, instalado numa região de fronteira instável, onde ocorreram vários conflitos e batalhas, primeiro entre cristãos e muçulmanos e, mais tarde, entre Portugal e os reinos vizinhos.

Com Foral outorgado por D. Afonso Henriques (1162-65), nos primórdios da nacionalidade, Trancoso era já uma das principais povoações da região. Seria, também, um relevante centro mercantil, onde a partir de D. Afonso III (1273) se passou a realizar uma das mais antigas e concorridas feiras francas do reino, perpetuada nos nossos dias pela afamada Feira de S. Bartolomeu.


Praça central, pelourinho e igreja matriz de Santa Maria.

No reinado deste monarca e/ou no de seu filho, D. Dinis – que aqui celebrou as suas bodas com a Rainha Santa, D. Isabel de Aragão, em 1282 – Trancoso foi objeto de uma profunda reforma urbanística, que pautou todo o seu desenvolvimento urbano até meados do séc. XIX. Procedeu-se, então, à ampliação da primitiva cerca amuralhada da vila e, no seu interior, desenhou-se uma malha urbana que tendia para a ortogonalidade das ruas e quarteirões.

Durante a crise dinástica que se sucedeu à morte de D. Fernando, Trancoso foi palco de uma das mais fascinantes páginas da História de Portugal: a 29 de Maio de 1385, um pequeno exército liderado por Gonçalo Vasques Coutinho, alcaide de Trancoso, derrotou o poderoso exército castelhano junto à vila, contribuindo para consolidar a autoridade do Mestre de Avis, D. João, e para reforçar a viabilidade da causa portuguesa nele personificada.


O Castelo de Trancoso, século XIII.

Mais tarde, em 1510, a povoação recebeu Foral Novo de D. Manuel I, adaptando-se, assim, às novas exigências dos tempos modernos.
Com a instalação da Inquisição em Portugal (1536), a vila de Trancoso, que albergava uma das mais numerosas e importantes comunidades judaicas das Beiras, viveu tempos de enorme agitação social, que se prolongaram pelos sécs. XVII e XVIII. Apesar de tudo, estes foram igualmente tempos de grande dinamismo, em que se assiste a uma intensa renovação do conjunto edificado da vila.

Mais recentemente, Trancoso não passou ao lado dos muitos outros acontecimentos que marcaram a História de Portugal, de que são exemplo, já no séc. XIX, as Invasões Francesas e as lutas entre liberais e absolutistas.


Vista panorâmica, desde o alto da torre do Castelo de Trancoso.

Com um distinto e ilustre passado, a vila destacou-se, também, por estar associada a inúmeras figuras históricas e lendárias, como: João Tição, Gonçalo Vasques Coutinho, o Magriço, Gonçalo Annes Bandarra, Gonçalo Fernandes Trancoso, Fernando Isaac Cardoso, entre outros.

Fonte: http://www.aldeiashistoricasdeportugal.com/trancoso



"Cantinho dos Arcos", local de meu almoço nesse dia.

RESUMO DO DIA: Clima: Frio de manhã, depois nublado, variando a temperatura entre 6 e 17 graus.

Pernoite no Residencial Dom Diniz - Apartamento individual espetacular! Preço: 18 Euros.

Almoço no Restaurante Cantinho dos Arcos: Ótimo! – Preço: 10 Euros o “menu del dia”.


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de grande extensão, uma das mais difíceis desse roteiro, que passa por várias povoações, mas, apenas em Valbom existe estabelecimentos comerciais. O itinerário permeia trechos integralmente ermos e silenciosos, onde notei ausência de sinalização em alguns locais estratégicos, com passagens por pequenas vilas, onde também não avistei vivalmas. O ascenso final a Trancoso se faz por uma via milenar, utilizada por pastores, porém, com grande erosão em seu leito, e as pedras soltas nele existentes representam um grave perigo para os pés e joelhos do peregrino. No global, talvez tenha sido, até o momento, a etapa mais difícil que enfrentei, face aos seus obstáculos altimétricos, alguns, de forte intensidade.