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12 – MESÃO FRIO a AMARANTE – 32 quilômetros


12 – MESÃO FRIO a AMARANTE – 32 quilômetros

É uma experiência comum, que um problema difícil à noite, é resolvido de manhã, depois que a comissão do sono trabalhou nele.” (John Steinbeck) 




Choveu durante a noite toda, contudo, quando me levantei, caía apenas uma finíssima garoa.

Seria outra jornada longa, estávamos num domingo e a primeira parte seria sempre em aclive, por isso, deixei o local de pernoite às 6 h, seguindo em direção à saída da cidade.

O início da etapa, já em ascenso, vai na direção de Portela e, depois, para Graça, rodeando o monte de Volta Grande.

Depois se sucederam outras pequenas povoações como Venda, Estrada e as aldeias de Pedrinha, Fojo e Águas Mortas, todas desertas e silenciosas, de onde iniciei um forte ascenso, até chegar ao ponto mais alto do Caminho Torres, situado a 925 m de altitude, nas proximidades de Chá das Arcas.

Trata-se de uma planície povoada por imensas torres de captação eólica, de onde eu deveria ser premiado por uma privilegiada visão da famosa Serra do Marão, situada do meu lado direito, porém tudo ali se encontrava coberto por espessa cerração.

Então, teve início continuado descenso que me levou a cruzar a rodovia N-101, depois continuei paralelo a ela, caminhando pela interminável Rua Marquês de Pombal, integralmente asfaltada, onde transitei por 9 quilômetros, atravessando, tranquilamente, um grande número de pequenas povoações como Outeiro, Reboreda, Bailadouro, Corujeiras e Vinhateiro.

Foi, na verdade, um agradável passeio junto às margens dos rios Carneiro e Fornelo.

Depois de Cavalinho, caminhei por um local empedrado agradável, depois prossegui por uma rodovia asfaltada, mas sem acostamento, até atravessar a ponte sobre o rio Ovelha, já na zona urbana de Amarante, minha meta para esse dia.

Encontrei o Residencial Estoril, situado junto à ponte que atravessa o rio Tâmega, próxima do convento e igreja de São Gonçalo.

No Caminho de Santiago Francês, Santo Domingo de la Calzada e seu discípulo San Juan de Ortega, foram os construtores de grande número de infraestruturas, que facilitaram o trânsito de peregrinos até Santiago de Compostela.

Nesse caminho, a figura emblemática é a de São Gonçalo, que no século XIII reconstruiu uma antiga ponte romana sobre o rio Tâmega, possibilitando a união de Trás-os-Montes com a cidade do Porto, assim como o trânsito de peregrinos para Santiago.

A ponte atual, que eu utilizaria para deixar a cidade, é uma construção do século XVIII.

São Gonçalo tem fama de casamenteiro e a tradição popular diz que a mulher que toca com qualquer parte do seu corpo no túmulo do santo, com certeza, se casará em menos de um ano.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Próximo de Águas Mortas, serra do Marão integralmente nublada.


Em descenso, dia nublado, frio e escuro.


Início da rua Marquês de Pombal.


Descendendo entre belíssima paisagem.


Uma rumorejante cascata situada ao lado da rua por onde eu descendia.


Rua empedrada, tempo enfarruscado.


Cascata no rio Ovelha.


Próximo do final da etapa, flores à beira da rodovia.


Já em zona urbana, flores maravilhosas.


Ponte medieval e, ao fundo, a igreja de São Gonçalo.

A presença da grande Serra do Marão que a partir de Amarante começa a elevar-se em paisagens majestosas e o rio Tâmega, o mais extenso afluente do Douro nascido na Galiza, que corre no coração da cidade realçando o pitoresco casario que se ergue sobre ambas as margens, são dois factores da natureza que impressionam quem visita Amarante.

Alguns historiadores atribuem a fundação desta cidade de transição entre o Minho e Trás-os-Montes a um centurião romano de nome Amarantus. No séc. XIII chegou ao local São Gonçalo, monge beneditino que aqui se fixou depois de peregrinar por Itália e Jerusalém e que ficaria o seu santo padroeiro. A ele é atribuída a construção de uma robusta ponte sobre o Tâmega no mesmo sítio onde se encontra a atual.

A ponte de Amarante perpetua a memória da heroica resistência da população às forças de Napoleão que, em inícios do séc. XIX, invadiram Portugal. A cidade, importante ponto de passagem para a região de Trás-os-Montes, foi sediada pelo exército do marechal Soult mas encontrou feroz oposição dos amarantinos que resistiram ao cerco durante 14 dias, até finalmente se renderem quando os franceses lhes lançaram barris de pólvora.


A igreja de São Gonçalo, de outro ângulo e debaixo de chuva.

Os famosos doces de Amarante são fáceis de encontrar nas muitas pastelarias da terra. Fixe alguns nomes: Papos de Anjo, Brisas do Tâmega, Toucinho do Céu, bolos de São Gonçalo, Galhofas. No 1º Sábado de Junho realiza-se uma festa em honra de São Gonçalo, a quem as mulheres solteiras recorrem para encontrar marido.

É imprescindível dar um passeio pela Serra do Marão para contemplar a paisagem. Perto, no formoso vale de Ansiães, a visita aos viveiros de trutas, na margem direita do rio Ovelha, é um bom pretexto para passear por entre os densos bosques que os rodeiam.

A aldeia de Travanca da Serra, acessível pela estrada que conduz a Peso da Régua, é um local extremamente pitoresco, com uma vista magnífica, num raio de 360º. Em dias limpos, é possível ver as serras do Marão, do Gerês e da Cabreira. Na aldeia destaca-se a Casa da Levada, pertença da família de Teixeira de Pascoaes (atualmente adaptada a turismo de habitação). No pátio, chamam a atenção dois enormes espigueiros em granito, usados para secar o milho. Em Chão de Parada situa-se um dólmen muito completo.

População: 57 mil habitantes



A famosa ponte sobre o rio Tâmega.

RESUMO DO DIA: Clima: Frio e chuvoso de manhã, depois nublado, variando a temperatura entre 5 e 16 graus.

Pernoite no Residencial Estoril- Apartamento individual excelente! Preço: 25 Euros

Almoço no Restaurante do próprio Residencial: Ótimo! – Preço: 12 Euros o “menu del dia”.


IMPRESSÃO PESSOAL: Etapa de larga extensão, com um pronunciado ascenso na primeira parte da jornada, onde se alcança o ponto de maior altimetria do Caminho Torres, sendo que há bares e comércio nas povoações intermediárias, contudo, sendo um domingo, encontrei todos ainda fechados. O trajeto restante, em contínuo descenso, foi tranquilo e extremamente agradável, já que o dia permaneceu nublado. O trajeto final, localizado entre Padronelo e Amarante, foi tenso, porque realizado por uma rodovia sem acostamento e em face da data, um domingo, extremamente movimentada. Mas, no global, foi um dia de festa e gratidão, pois nele eu completava mais um aniversário, e embora caminhasse solitário e em terras estranhas, eu me sentia abençoado, pois estava com saúde e sentia que Deus e Santiago estavam comigo, me dando forças e proteção.


13 - AMARANTE a FELGUEIRAS - 22 quilômetros