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FINAL


EPÍLOGO

"A parte mais peculiar no caminho, pelo menos para mim, foi que nele eu me sentia em um universo paralelo no qual o tempo parou e a vida cotidiana não parecia existir. Caminhando um passo de cada vez pude experimentar de uma forma muito rica tudo que acontecia ao meu redor. Cada dia era cheio de sons, paisagens e pensamentos. Formei uma nova família ao longo do caminho: me cumprimentavam no café da manhã, ao longo do caminho ou no albergue, no final do dia; e isso me trazia conforto e me fazia sentir amparado. Foi a experiência mais emocionante e mágica da minha vida." (Vicente de Almeida) 




O PRIMEIRO CAMINHO SERÁ SEMPRE INESQUECÍVEL!

Autoria: Osvaldo Lira (peregrino)

Você chega na estação Atocha e um simples aguardar da plataforma do trem se transforma em: Será que tá certo? Você começa a andar pelo trem afim de passar logo o tempo. Desembarca em Pamplona e o pensamento: todos os contatos combinados estarão perto? E o Juan (taxista), será que está nos esperando? Pouco mais de duas horas até SJPP ... Passando por trechos que passaremos entre 1 e 3 dias .... Pensando no quanto teria que andar até ali ... E no trem? Vendo as pessoas fazendo caminho e você pensando: passarei por aqui! Estarei bem? Terei conseguido os Pirineus?

Você chega em SJPP, torcendo pro albergue ser fácil de localizar... E é, são todos perto ... Credencial? Onde é? Em frente praticamente amigo .... (No meu caso, em frente ao albergue que fiquei, Beilari).

Anda um pouco pela cidade, sente a dificuldade de se comunicar com os franceses... Busca o comum desesperadamente.... Ouve boatos sobre o dia seguinte... Previsão do dia... Reservas em Roncesvalles porque tem poucas vagas e pensa: faço ou não reserva?? Não fiz....

Vence os Pirineus... No fim do dia só pensa, serão assim todos os dias?

Roncesvalles... Fila... Cheio de gente iniciando... Muitos atores fingindo tranquilidade mas a maioria está lidando com o desconhecido... Estão todos no mesmo barco...

Passados os 3 primeiros dias, ultrapassando Pamplona... Onde você viu pessoas quando ainda estava no trem e pelo caminho, no táxi... A partir daqui... Não sei mais nada....

Começa a se planejar em manter contatos por perto, diminuir o passo pra deixar pessoas seguirem e intercalar o gargalo ou aumentar o passo pra ficar um pouco a frente... Tudo pra evitar ficar sem albergue...

Enfim, toda e qualquer decisão terá um preço. Aumentar ritmo, talvez arriscado ao corpo. Diminuir, talvez complicar tempo no futuro. Manter comboio, risco de albergue cheio também....

Você percebe que todo seu treino valeu apenas pra te dar melhor preparo, mas é naqueles 100-200 km que você estará realmente se preparando, principalmente a mente... Você luta todos os dias consigo mesmo.

Com o tempo, você descobre que qualquer decisão estaria certa...

O que vale para a próxima vez? Caminhar apenas.... Ouvir o caminho, ouvir seu corpo... Ouvir seu coração... Sinta a vida no caminho.

Tem dor, pare mais cedo. Não quer parar em algum lugar? Não pare. Siga.... Siga seu coração e modele sua mente.

Como foi dito a mim próximo a Astorga: o caminho se faz em 40 cm, da cabeça ao coração. O corpo é só uma ferramenta adicional.

No fim, você termina no prazo tranquilo pra sua volta, talvez até antes... Isso depende do quanto antes você viverá realmente o caminho.



FINALIZANDO...

Peregrino é todo aquele que tem um espírito livre, uma bagagem leve, uma alma solitária e segue espontaneamente o caminho de seus sonhos, colocando amor em cada passo...” 




Em 2013, quando percorri o Caminho Central Português, desde Lisboa, ao final da minha 19ª jornada, eu pernoitei em Ponte de Lima, cidade onde o Caminho Torres se encerra.

Então, o percurso sequente, até Santiago, já era meu velho conhecido e eu não tinha a intenção de reprisá-lo naquele momento.

Dessa forma, no dia seguinte, embarquei num ônibus e, posteriormente, num trem que, depois de 4 horas de viagem, me deixou em Pontevedra/Espanha, onde no dia sequente dei prosseguimento à minha peregrinação utilizando, para tanto, a Variante Espiritual do Caminho Português. 


Em Salamanca, ponto de partida do Caminho Torres.

Contudo, quanto ao Caminho Torres, posso afirmar que esse roteiro foi um dos mais belos e tranquilos que já percorri.

Além do mais, salvo algumas exceções, perfeitamente justificadas, ele se encontra muito bem sinalizado.

No global, trata-se de um itinerário que transcorre por locais de grande paz e serenidade, pleno de paisagens esplêndidas e que passa por inúmeras localidades escassamente povoadas.

Agradeço, imensamente, aos autores da identificação, sinalização e criação do site/guia do Caminho Torres, um trabalho minucioso e de qualidade, sem o qual seria impossível eu poder relatar minha experiência nesse itinerário jacobeu.

Ainda, minha gratulação ao grande amigo Aurélio Simões, residente em Lisboa, que me proveu de preciosas dicas sobre o roteiro, especialmente, para o trecho situado em terras portuguesas, sem as quais eu não teria alcançado o sucesso em meus objetivos.

Por fim, um obrigado especial àquelas pessoas que, de alguma forma, me auxiliaram no trajeto: a elas, minha profunda gratidão, na certeza de que foram lembradas em Santiago de Compostela. 


Em Ponte de Lima: um ano mais velho, dois quilos mais magro, festejando o final do Caminho Torres! Mas, já com múltiplos projetos na cabeça...

Finalizando, transcrevo um pensamento que se coaduna, integralmente, com o que penso e busco, enquanto peregrino:

Nunca será demais repetir: não é necessário ir muito longe para caminhar. O verdadeiro significado da caminhada não está em rumar para outros mundos, outros semblantes, outras culturas, outras civilizações, está em ficar à margem dos mundos civilizados, quaisquer que sejam. Caminhar é pôr-se a caminho: ocupar uma posição marginal com relação aos que trabalham, marginal às autoestradas de alta velocidade, marginal aos produtores de lucro, de miséria, aos exploradores, aos trabalhadores esforçados, posição marginal com relação aos indivíduos sérios que sempre têm coisa melhor para fazer do que dar boa acolhida à pálida suavidade de um sol de inverno ou ao frescor de uma brisa primaveril.” (Henry David Thoreau)


Bom Caminho a todos! 

Abril/2019