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1º dia: CONGONHAS a SÃO BRÁS DE SUAÇUÍ – 26 quilômetros


1º dia: CONGONHAS a SÃO BRÁS DE SUAÇUÍ – 26 quilômetros


Querer vencer significa já ter percorrido metade do caminho.” (Paderewsky)




Deixei o local de pernoite 4 h 45 min e segui por ruas frias e vazias, afinal, estávamos no início do horário de verão.


O Santuário de Matosinhos, ainda de madrugada, no escuro.

No percurso desse dia, tanto a Estrada Real como o CRER percorrem o mesmo roteiro.

1ª parte: Congonhas a Alto Maranhão: 8 quilômetros, em aproximadamente 2 h.

Há um ascenso forte na saída da cidade, depois, o restante do percurso é todo plano.

O trajeto, após abandonar o perímetro urbano, é percorrido sobre blocos hexagonais de concreto, num percurso que transcorre por locais arborizados e frescos.

Chegando ao distrito de Alto Maranhão, cuja população gira em torno de 500 pessoas, é possível ver ruínas de uma antiga cadeia pública.

Essa antiquíssima localidade era conhecida por Arraial do Redondo.

Foi mencionada no livro “Rio de Janeiro até as Minas do Ouro”, de autoria de Francisco Tavares de Brito, uma obra publicada em 1.732.

Sobre ela, há uma nota esclarecedora, que merece destaque:

“O arraial do Redondo, dos mais antigos de Minas, surgiu no início do séc XVIII. No censo de 1831, tinha 1.077 habitantes. A Lei n.723, de 30.9.1918, mudou a denominação para Alto Maranhão. (Op. Cit.). O nome de Redondo, usado também para outras localidades no Brasil, provavelmente foi herdado da grande cidade de Redondo até hoje com o mesmo nome em Portugal. (Nota de Flaviano Trindade)

Algumas fotos desse trecho:


Um dos primeiros marcos do CRER que encontrei nesse trecho do Caminho.


Roteiro lindo, mas sobre piso duro.


Paisagens exuberantes... dia nublado.


Ruínas de uma antiga cadeia pública, em Alto Maranhão.

2ª parte: Alto Maranhão a Pequeri: 7,5 quilômetros, em aproximadamente 1 h 30 min.

Entre Alto Maranhão e Pequeri, predomina uma estrada larga e plana.

A maior parte do trecho encontra-se em excelente estado de conservação e tem pouco movimento de veículos, sendo que alguns trechos são de matas fechadas.

Durante o trajeto, o peregrino pode apreciar ao seu lado direito a belíssima Serra do Gambá, de 1.274 m de altitude.

Às 8 h 15 min, depois de percorrer um total de 15,5 quilômetros, cheguei à Pequeri, um diminuto distrito pertencente à cidade de Congonhas, onde encontrei tudo deserto e silencioso.

Ali não existe nenhum comércio que possa favorecer o peregrino.

No entanto, pude admirar uma graciosa igrejinha tingida da cor salmão, fincada num outeiro.

Porém, apenas pelo lado externo, pois um muro alto com grades circundava todo o templo.

Algumas fotos desse trecho:


Paisagens exuberantes...


No caminho para Pequeri...


Trajeto plano e belíssimo..


Muita mata nativa nesse trecho.


Igrejinha em Pequeri.

3ª: Pequeri a São Brás do Suaçuí: 10,5 quilômetros, em aproximadamente 2 h 30 min.

Este trecho começa dentro de uma fazenda de livre acesso.

Na primeira parte, o percurso é feito em uma trilha de 2 quilômetros, que atravessa um espesso bosque nativo, integralmente preservado, um dos pontos mais interessantes e belos do CRER.

Depois de transpor o rio Paraopeba, por uma ponte de concreto, o caminho segue à direita, por uma larga e bem cuidada estrada de terra.

Mais acima, atravessa-se um pasto, depois transita-se junto à entrada do Condomínio Copaíba.

Em sua parte final o trajeto passa pelo bairro Capela do Capão, pertencente a São Brás, e o restante do percurso, algo em torno de 2 quilômetros, é feito sobre piso asfáltico.

Algumas fotos desse trecho:


Entrada da fazenda que dá acesso à trilha.


Caminho belíssimo.


Mata nativa integralmente preservada.


Um dos locais mais belos do CRER....


Momentos indeléveis na trilha...


A trilha começa a se abrir, já com sol forte.


Depois, transitando por locais abertos e arejados.

A cidade, fundada em 1.713, está situada na zona dos Campos das Vertentes, possui uma população atual de 4 mil pessoas.

Localizada na microrregião da Serra do Espinhaço, mais especificamente na margem esquerda do Rio Paraopeba, que é afluente pela margem direita do Rio São Francisco, apresenta uma altitude média de 1.000 m.

O nome do lugar foi emprestado do ribeirão existente na região, Suaçuhy.

Segundo relato de historiadores, é derivado do idioma indígena, çuaçu, cervo grande, e hi, água ou rio (Arthur Álvares de Alcântara Campos e outros) resultando sua compreensão em “aguada de cervos”.

Há que ser objeto de pesquisa o nome do padroeiro agregado ao de Suaçuí.

A hipótese mais razoável, refere-se a uma homenagem ao governador Dom Brás Baltazar da Silveira.

No entanto, ainda carece de maior verificação.

A localidade, como um todo, apresenta uma vegetação bastante variada, indo de típicos cerrados a pequenos bosques que abrigam, além de plantas exóticas, a fauna local composta dos tradicionais veadinhos, que embora raros, ainda habitam a região.

Além destes, existem ainda as raposas, lobos, gatos selvagens, jaguatiricas, capivaras, pacas, coelhos, furões, tamanduás, esquilos e, entre outros, os macaquinhos e os brincalhões micos-estrela, que costumam buscar sua alimentação nos quintais das residências, também frequentados por uma diversidade de pássaros, sendo mais comuns os tico-ticos, sabiás, tizius, sanhaços, gaviões, maritacas, andorinhas, pombas e pardais. 


Marco da Estrada Real na entrada da cidade.

Esta paisagem natural, que cerca o município, regado pelo frescor das fontes e cascatas, é como um ninho a abrigar a população local, apesar do perigo que ronda os cerrados e os bosques, representado por uma grande quantidade de cascavéis e urutus, o que coloca em risco a vida dos incautos visitantes de passagem sobre regiões virgens.

John Luccock, comerciante inglês, que havia chegado ao Brasil em meados de 1808, em viagem empreendida a Minas, passando por Suaçuí em direção a São João d’el Rey, em seu livro “Notes on Rio de Janeiro and the Southem Parts of Brasil”, Londres 1820, conta sobre o que viu:

“Suá-suí é uma povoação que fica em sítio sêco e exposto, contendo cêrca de cinqùenta casas dispostas à maneira dos jesuítas. Nenhuma delas era caiada, nem mesmo rebocada, prova de que estávamos penetrando em região de outros minerais. De novo aqui encontramos algumas manchas de terra amarela, resquícios do revestimento primitivo que mencionamos como provavelmente tendo já recoberto o cume da Mantiqueira.

O vendeiro do povoado informou-me de que na véspera, na estrada de Barbacena, havia passado à frente de um cavalheiro que por muitos meses estivera nos “sertões”, ou florestas inhabitáveis, à cata de plantas.

Exprimiu seu pasmo, com a naturalidade de seus apoucados conhecimentos, de que um homem se abalançasse da Europa, sòmente a-fim-de reùnir e levar para casa tais ninharias, perguntando-me se não possuíamos plantas em nossa própria terra e se converteríamos aquelas que colhíamos em mèzinhas.

Pelo que se disse desse estrangeiro, pensei que bem podia tratar-se do Sr. Sello, algo conhecido do público como botânico, ou, então, o Sr. Friesrice, outro viajante, que já enviou inúmeros espécimes da história natural para a Universidade de Upsala. Descobri mais tarde, que esse cavalheiro era dinamarquês, e não tinha relação nenhuma com nenhum daqueles. Levava consigo catorze bestas inteiramente carregadas de volumes que espero tenham alcançado Copenhague a são e salvo.

Pela madrugada, quando deixámos Suá-suí, a limpidez da atmosfera fazia com que avistássemos nìtidamente objetos mui remotos. Erguia-se o Itacolomí para norte-nordeste e, para sudoeste, as montanhas que se esbatiam, descortinando extenso panorama. Estávamos evidentemente viajando pelas cabeceiras dos rios e transpusemos uns poucos regatos que caíam para norte e nordeste; mas a bacia maior ficava para sul e sudoeste.

Algumas das casas por que na estrada passámos, apresentavam aspecto de confôrto e opulência; numa delas pedimos água, que nos foi hospitaleiramente concedida pela dona.

Tendo meu guia, conforme casualmente escutei, descrito a minha pessoa de maneira a tornar-me ridículo para ela, isto é, como de quem transpôs os mares, gastou seu dinheiro e submeteu-se à fadiga e privações sem outro propósito que pudesse ele descobrir a não ser o de pasmar ante a montanhas do Brasil, flanar pelos arredores de suas vilas e atirar passarinhos, acrescentou ainda, como que para definitiva prova de algo de fronteiriço da aberração mental, que eu estivera em Vila-Rica e dali não trouxera nem ouro em pó nem jóias.”


A igreja matriz de São Brás de Suaçuí.

São Brás, realmente, tem histórias para contar. A exemplo, R. Walsh, (que segundo Manuel Bandeira no seu “Guia de Ouro Preto” passa por ter injuriado o prestígio britânico no Brasil, tais coisas espalhou de nós), em seu diário de viagem “Notices of Brazil in 1828 and 1829 ”, Londres, 1830, nos relata:

“Ao cair da noite chegamos ao arraial de Sua Suci. Trata-se de um lugarejo comprido e espalhado, situado num morro, com cerca de quarenta casas miseráveis e sujas; possui, contudo, duas igrejas brancas, que o tornam visível de longe. Paramos numa espécie de estalagem mantida por um senhor idoso que todos chamavam de major; tinha uma longa barba grisalha e era tão prestimoso que não nos deixou sozinhos um segundo sequer.

Sabia uma porção de lendas sobre os paulistas na época em que haviam descoberto a região - fato esse de que ele quase poderia ter sido contemporâneo. Falou-nos que o nome “Sua-suci” significava, no dialeto da província, “grande viagem e pequena viagem”, sendo a seguinte a sua origem: dois grupos rivais de aventureiros, um de Taubaté, outro de Piratininga, desejando por fim às suas disputas resolveram estabelecer certas fronteiras.

Com esse propósito os dois grupos partiram de rumos opostos e vieram caminhando na direção um do outro, tendo ficado combinado que o local onde os dois se encontrassem seria aceito como o limite das terras de ambos. Um dos grupos viu-se forçado a dar uma longa volta, ao passo que o outro veio de uma estrada direta; o encontro dos dois ocorreu naquele lugar, dando assim origem a seu nome. Essa é uma variação da história de Sallust – arae Philenorum – embora eu não tenha observado qualquer indício de cultura clássica no major.

Fomos informados, por outras pessoas, de que sua-suci, ou sussuy, era o nome de um grande pássaro existente outrora nessa região, mas cuja espécie já se tornara extinta. 


A avenida principal de São Brás de Suaçuí.

O lugarejo parecia ter tido mais importância no passado do que agora. A estalagem tinha nada menos do que quatro camas, um número muito maior do que havíamos encontrado em qualquer outro lugar.

Eram feitas de couro de boi fortemente esticado sobre uma armação de madeira, e se mostravam não só tão elásticas mas também tão sonoras como um tambor.

O velho major era um dos muitos exemplos da notável salubridade da região, tendo preservado a saúde e o vigor até uma idade avançada. Tinha mais de noventa anos e uma penca de filhos à sua volta, não havendo o mais velho completado ainda dez anos.

Os relâmpagos e trovões continuaram pela noite adentro, acompanhados de uma chuva torrencial; nossa esperança era que, tendo assim descarregado toda a sua força, estaríamos livres deles ao amanhecer o dia.

Antes de partirmos, uma velha negra, que nos servira, aproximou-se de mim e, depois de olhar cautelosamente à sua volta para ver se era observada, juntou o polegar e o indicador, formando com eles um círculo. Percebendo que eu não entendia o significado desse seu gesto, ela correu novamente os olhos ao redor e em seguida levou um dedo à boca e se pôs a mascá-lo. Compreendi então que ela queria dinheiro para comprar fumo; dei-lhe uma moeda de cobre, que ela recebeu com alegria, escondendo-a cuidadosamente no cinto.

Não é costume no país dar dinheiro aos serviçais, que são sempre escravos e costumam utilizá-lo – ao que se diz – unicamente para comprar cachaça, o que é inteiramente condenado por seus amos. Entretanto, não conheço nenhuma outra classe que seja mais merecedora dessas pequenas dádivas do que a dos escravos. Muitos deles, segundo fui informado, guardam esse dinheiro, juntando-o para comprar a sua liberdade. Uma pequena parcela das quantias desperdiçadas com os insolentes criados ingleses representaria uma importante aquisição para esses pobres, humildes e prestimosas criaturas.

Deixamos o venerável patriarca sentado em sua varanda, com um menino e uma menina em seus joelhos, sendo ele o pai dos dois, embora parecesse haver um intervalo de três gerações entre eles.”


Ponto de apoio do CRER em São Brás de Suaçuí.

RESUMO DO DIA:

Tempo gasto, computado desde o Hotel dos Profetas, situado em Congonhas/MG, até o Hotel Muralha, em São Brás do Suaçuí/MG: Aproximadamente, 6 horas.

Pernoite no Hotel Muralha - Apartamento excelente, onde o conforto disponibilizado é compatível com o valor cobrado.

Almoço no Restaurante e Pizzaria Gueles - Ótimo! – Preço: por R$18,90 pode-se comer à vontade no sistema self-service.


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de média extensão, que não apresenta grandes dificuldades altimétricas. Em variados locais transita-se sob mata frondosa, porém o trecho mais belo do trajeto se situa logo depois do distrito de Pequeri, quando se atravessa um esplendoroso bosque nativo, integralmente preservado. No global, um percurso tranquilo, agradável, silencioso, bastante arborizado e quase sempre plano, um dos mais fáceis e bonitos dentre todos que trilhei nessa aventura.


2º dia: SÃO BRÁS DE SUAÇUÍ a ENTRE RIOS DE MINAS – 23 quilômetros