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4º dia: CASA GRANDE a LAGOA DOURADA – 31 quilômetros


4º dia: CASA GRANDE a LAGOA DOURADA – 31 quilômetros


Vencer não é competir com o outro. É derrotar seus inimigos interiores.” (Roberto Shinyashiki)




Saída às 4 h 15 min, depois de ingerir um farto e delicioso café da manhã que Dona Madalena fez questão de preparar, mesmo tendo que levantar de madrugada.

Por sinal, essa hospitaleira é digna de todos os elogios pela lhaneza e alegria com que trata seus hóspedes.


Café da manhã com Dona Madalena. Pessoa Especialíssima!

Na jornada desse dia, o trajeto da Estrada Real e do CRER também são coincidentes, mas, apenas até o 18º quilômetro.

Depois eles se separam, conforme relatarei mais adiante.

1ª parte: Casa Grande ao Distrito de Catauá: 12,5 quilômetros, em aproximadamente 2 h 45 min.

A parte inicial do roteiro mescla grandes retas com alguns ascensos e descensos, mas nenhum de grande extensão ou forte aclividade.

Quase sempre se caminha pelo alto da montanha, com belas vistas do entorno.

O forte nesse trecho são enormes plantações de milho e cana-de-açúcar, entremeadas com fazendas de pecuária leiteira.

Após a passagem diante da Fazenda do Vau, no 10º quilômetro, há um forte ascenso.

No topo do morro, o caminho flete 90º à direita e segue em direção ao distrito de Catauá, cuja sede é Lagoa Dourada.

Quando ali cheguei, meu relógio marcava, exatamente, 7 h.

Segundo a história, nesse pequeno povoado ainda vivem remanescentes dos temíveis índios Cataguases, que habitavam essa região por volta do ano de 1.769.

E, em seus arredores, ainda subsistem trilhas que serviam de roteiro para os silvícolas, em tempos remotos, onde podem ser observados vestígios de tocas e tabas pertencentes a um grande aldeamento.

Ali, tudo praticamente se encontrava fechado, inclusive a igreja dedicada a Santo Antônio.

Aproveitando o frescor do horário, pois o sol ainda não havia despontado, fiz uma pausa para hidratação e fotos em frente ao salão comunitário da localidade, antes de seguir adiante.

Algumas fotos desse trecho:


Longos retões planos e silenciosos, tudo que o peregrino quer.


Caminho fresco e arejado, pois o sol ainda não nasceu.


Descendendo do topo do morro, com amplas vistas do entorno.


Paisagens exuberantes...


Passagem diante da Fazenda do Vau.


Igrejinha de Catauá, com os marcos da ER e do CRER à sua frente.

2ª parte: Distrito de Catauá a Lagoa Dourada: 18,5 quilômetros, em aproximadamente 4 h 30 min.

Percurso tranquilo, salvo raras exceções, e apresenta sombra em boa parte do trajeto.

Os grandes retões voltaram a suceder e voltei a caminhar pelo topo da montanha, com amplas vistas de ambos os lados da estrada.

Também nesse trecho avistei enormes campos arados aguardando chuvas para a semeação.

Depois de caminhar, aproximadamente, 18 quilômetros, os roteiros se separaram: A Estrada Real seguiu à direita, por um tramo que eu já havia percorrido em 2010, quando por ali passei.

Já o CRER segue em frente, faz uma grande curva à esquerda e, mais adiante, principia a descender

Já no plano, passei diante da secular Fazenda do Engenho, famosa por seu interessante acervo de objetos do século XVIII, além de ser o berço do jumento da raça Pêga, reconhecida oficialmente e difundida em todo o território nacional.

Como mencionado no histórico desse patrimônio, após vários anos de persistência e estudos, essa raça foi desenvolvida pelo Coronel Eduardo José de Rezende, então, proprietário da fazenda.

Foi nela, também, que o Imperador D. Pedro II se hospedou, por várias vezes, inclusive, em sua derradeira visita à região.

Em sua parte frontal, há um muro pesado, de pedras negras, que se transforma, em seu final, na fachada da linda e centenária herdade.

Em frente sua sede, observei um grande rancho, todo feito de pedras, com telhado rústico.

Ali, antigamente, era uma senzala e hoje faz parte da história do Brasil, apesar disso sensações nada agradáveis me veio à mente.

O trajeto sequente apresentou alguns ascensos importantes, quase sempre dentro de mata nativa.

No final do percurso enfrentei forte descenso e, no final deste, acabei por sair na rodovia MG-275, que liga Lagoa Dourada à cidade de Carandaí.

Em sequência, segui caminhando mais 2 quilômetros sobre piso asfáltico, até acessar a zona urbana.

Algumas fotos desse trecho:


Novamente os retões, agora com sol.


Caminho ermo e com escasso trânsito de veículos.


Locais belíssimos...


Caminho com vegetação lateral.


Descenso forte...


Descendendo e sem sombras..


A famosa do Fazenda Engenho.


Lindos exemplares da raça Jumento "Pêga".


Depois da Fazendo do Engenho, caminho plano e arejado.


Flores na trilha, sempre bem-vindas...


Descenso forte sob pedras "pé de moleque".


Ainda em descenso. Lagoa Dourada já aparece do lado direito, ao longe.

Na cidade fiquei hospedado na Pousada das Vertentes, um enorme casarão construído há mais de 200 anos, localizado na praça principal, integralmente reformado, que oferece ao viajante amplas e confortáveis instalações.

O local foi um antigo colégio de freiras e é considerado um marco importante no contexto histórico da cidade. 


Com Dona Aidê, proprietária da Pousada das Vertentes, uma simpatia de pessoa.

Seus atuais proprietários, Sr. Pedro e Dona Aidê, são extremamente agradáveis e solícitos.

Enfim, um local simples mas hospitaleiro, de forma que me senti, literalmente, em casa.


Pousada das Vertentes, onde pernoitei nesse dia.

Lagoa Dourada foi fundada por volta de 1.625, quando a Bandeira comandada por Oliveira Leitão descobriu ouro nas águas de uma pequena lagoa.

Ao encontrarem ouro de aluvião na lagoa, os primeiros mineradores a chamaram de "ALAGOA DOURADA".

Então, nasceu o povoado e as casas foram subindo a colina. Em 1832, o nome original foi alterado para Lagoa Dourada, uma referência à lagoa ali existente, muito rica em ouro.

De seu passado colonial, a cidade preserva, na sede, alguns casarões e igrejas com expressivos fragmentos da arte colonial mineira. O acervo de imaginária é notável.

A Igreja Matriz de Santo Antônio e a Igreja do Senhor Bom Jesus compõem o tradicional cenário urbano das românticas cidades do interior de Minas.


Igreja matriz de Lagoa Dourada.

A Estrada Real corta o município em seu perímetro urbano.

Mas, é na zona rural que o município conserva preciosos marcos de seu passado. Com tantas fazendas históricas, sobressai seu grande potencial no segmento do Turismo Rural.

A Fazenda do Engenho Grande dos Cataguases, por exemplo, é famosa pelo seu interessante acervo de objetos do século XVIII e XIX e utensílios indígenas.

Também, por ser o berço do jumento da raça Pêga, reconhecida oficialmente e difundida em todo território nacional por gerar animais resistentes e dóceis.

O município, atualmente com 13.100 habitantes, possui a maior pecuária leiteira da região do Campo das Vertentes e é forte produtor de hortigranjeiros.

Altitude: 1110 m.



Igreja matriz de Lagoa Dourada, de outro ângulo.

Quase ao anoitecer, fiz uma visita à famosa doceria “O Legítimo Rocambale” que, incrivelmente, funciona no mesmo lugar desde 1907.

Foi para comprovar a fama dos rocamboles feitos na cidade, pois segundo os moradores locais, é o melhor no gênero do Brasil.

E a comunidade é habilidosa na produção de licores, vinhos e doces caseiros, que recheiam esses afamados acepipes.

De fato, os deliciosos pães de ló recheados de sabores variados fazem jus à fama, pois essa receita, passada de geração a geração, tem algum segredo guardado a sete chaves, o que lhe garante um irresistível paladar.


Provando do fruto de 
“O Legítimo Rocambale”.

Sobre esse decantado estabelecimenteo, conta a história que o libanês Miguel Youssef casou-se com a lagoense Dolores e começaram a vender guloseimas em um bar da cidade, inclusive, o rocambole.

Mais tarde, com o falecimento de Miguel, o filho Paulo teve a ideia de inserir o doce em caixinhas para que os viajantes pudessem levar para casa, alavancando as vendas.

Anos depois, Ricardo, filho de Paulo, assumiu os negócios e começou a afixar plaquinhas nas estradas, anunciando a iguaria e aguçando a curiosidade e o paladar dos viajantes.

Hoje, a avenida onde se situa a Confeitaria se chama Miguel Youssef do Líbano, em homenagem ao precursor da receita, que fez a cidade famosa, nacionalmente.


A bonita história do rocambole de Lagoa Dourada.
RESUMO DO DIA:

Tempo gasto, computado desde a Pousada Casa Grande, em Casa Grande/MG, até a Pousada das Vertentes, em Lagoa Dourada/MG: Aproximadamente, 7 h 15 min.

Pernoite na Pousada das Vertentes - Apartamento excelente! A simpatia e a preocupação de Dona Aidê, a proprietária do estabelecimento, são dignos de extremados elogios. Um dos melhores locais de hospedagem no CRER.

Almoço no Restaurante Italieno - Ótimo! – Preço: Por R$16,00, pode-se comer à vontade, no sistema self-service.


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de razoável extensão, mas sem grandes dificuldades altimétricas. O trânsito pelo cimo dos morros me proporcionou momentos de agradável introspecção, face ao silêncio vivenciado, aliado ao ínfimo tráfego de veículos automotores. No global, um trajeto bastante interessante, muito bem sinalizado, sempre em terra batida, por estradas largas e bem definidas, com alguns trechos arborizados e composto por subidas e descidas leves. A dificuldade ficou por conta da razoável distância a ser vencida, bem como pelos derradeiros 5 quilômetros, onde não existem sombras.