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EPÍLOGO


EPÍLOGO


Um dos mais alegres momentos na vida humana, penso eu, é a partida para uma viagem distante para terras desconhecidas. Lançando fora, num impulso vigoroso, os grilhões do Hábito, o peso de chumbo da Rotina, o mando de muitas preocupações e a 

escravidão do Lar, a pessoa se sente novamente feliz. O sangue corre com a rapidez da infância. Uma viagem, de fato, fala à Imaginação, à Memória, à Esperança – as três irmãs Graças de nosso ser moral”. (Richard Francis Burton)



DEPOIMENTO!

Por Helder Moraes

Que, com um grupo seleto e, em várias etapas, percorreu a ER entre 2005/2011, desde a cidade de Gouveia/MG (localizada muito próxima de Diamantina/MG) até Parati/RJ

Um desafio de mais de 1.000 quilômetros, a ser cumpridos em, exatos, 30 dias.

Uma contenda que ele(s) cumpriram a risca. Um exemplo para todos que gostam de caminhar!

Para tanto, estabeleceram alguns critérios: jamais aceitar uma carona, toda a trajetória teria que ser feita exclusivamente a pé, a distância total seria dividida em etapas e programaram caminhar uma semana a cada mês de janeiro.

Compromisso que foi honrado!

Tiro meu chapéu para esse pessoal! Parabéns a todos!



Não é fácil resumir o que ocorre com alguém que adota o verbo peregrinar sem ser "beato".

Sabemos que alguma experiência se soma em nossa consciência, mas não sabemos qual nem como ela nos afeta. Sabemos isso sim, que ela gera uma fome de repetir, de continuar indo.

Sabemos que nossa memória ganha dilatação, nossa cor pigmentação e nossa irresponsabilidade ganha prioridade, pois a aventura é, dizem, uma experiência religiosa.

Hoje, quando lembro da imagem de Aparecida do Norte, em frente, a poucos quilômetros, fico arrepiado, pois sabia naquele momento que a gigantesca Mantiqueira havia ficado para trás.

Na verdade, vontade mesmo dá é de chorar, pois a emoção é estupenda.

Mais que isso, sentimos o cheiro da loucura, ou seja, uma vontade de sair por aí sem rumo, a pé, claro, sem dia para voltar, aliás, quando se volta à vida fica monótona, fria, sem sentido.

Uma vez caminhante, sempre marinheiro, senão pirata...

Isto é, aquele que invade outras águas, nesse caso, as novas águas são as ‘praias desconhecidas’ de nós mesmos, nosso lado de dentro fluído, indo.

Nosso prazer, este estranho sentimento descobre que gosta da dor, da chuva, da fome e do calor em demasia. Descobrimos que o prazer gosta do escuro, do perigo, da noite.

Percebemos que Paraty é linda, sua praia nosso destino. Assim como Diamantina, Paraty é lugar de Colônia, de almas inquietas, viajadeiras...

Fonte: http://afranio-caminhantesdegouveia.blogspot.com.br/2011_05_22_archive.html


FINAL


A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro.” (John Lennon)




Se inteirar sobre um lugar remoto pode ser uma satisfação em si, e você pode ficar grato por percorrer essa viagem ruim sem a poeira em seu nariz, nem o sol queimando sua cabeça, sem ter que suportar os estorvos poucos proveitosos e os atrasos na estrada.

Mas ler também pode ser um forte estímulo à viagem.

Foi o que ocorreu comigo desde o princípio.

A compulsão e a inquietude – uma irritação em ficar em locais fechados e uma ideia de que o mundo real estava em outra parte – fizeram de mim um peregrino.

Se a internet fosse tudo aquilo que se considera, permaneceríamos em casa e seríamos brilhantes e perspicazes.

Mas, com tantas informações contraditórias disponíveis, existem mais motivos para viajar do que antes; para olhar de perto, investigar mais profundamente, separar o autêntico do falso; para verificar, para cheirar, para tocar, para provar, para ouvi, e às vezes – o que é importante – para sofrer os efeitos da curiosidade.

Na verdade, a paisagem das Alterosas tem um forte poder sobre mim.

Quando se revela em toda a sua glória, sou apanhado num estado contraditório de desejo de viajar e meditar.

As montanhas me incitam, e logo percebo que a vida é mais sadia se a gente tenta enxergar essas grandes massas como deuses desafiadores, à maneira ocidental.

Foi isso, exatamente, que me levou a jornadear novamente em direção à Estrada Real naquele dia quente de final de verão.


Estrada Real, me aguarde, pois breve estarei de volta...

E, não me arrependi em momento algum, conquanto tenha me exaurido bastante em face do sol forte e calor opressivo que suportei no caminho.

Em termos anímicos, o caminhar ou andar é uma experiência primordial que permite ao ser humano sair e libertar-se de algumas realidades e alcançar outras metas e dimensões, especialmente no campo espiritual.

E nós que vivemos sob grande pressão nas cidades, à mercê da violência e de toda espécie de perigos, sempre que nos dispomos a entrar em contato com a natureza, percebemos que somos acolhidos com carinho, revelando, imediatamente, a grande mãe que é.

E essa dose de aventura junto a ela é que fui buscar ao percorrer mais um trecho do Caminho Velho da ER e, posso afirmar, não me decepcionei.


Trecho localizado na etapa de São João del Rei/MG a São Sebastião da Vitória/MG.

Henry David Thoreau escrevera em seu ensaio “Caminhando”: Acredito na floresta, na pradaria, no caminho, nas quimeras, nas realizações, e na noite na qual o milho cresce.

Eu também creio nessas verdades.

Porquanto, percorri estradas históricas, sendas diminutas, ermas e silenciosas, conheci cidades diferentes, conquistei novas amizades, enfim, caminhei por locais onde o tempo parece ter estacionado e o mundo deixado de girar.

De minha parte voltei renovado e, em breve, pretendo prosseguir em direção ao meu sonho, qual seja, chegar pelas minhas próprias pernas em Parati/RJ, ponto final da Estrada Real.


Bom Caminho a todos!

Março/2016

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