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Itajubá/SP a Aparecida/SP


2021 – CAMINHO DE APARECIDA – ITAJUBÁ/MG a APARECIDA/SP - 95 QUILÔMETROS

É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!” (José Saramago)




Recentemente, eu percorrera o Caminho Sul-Mineiro desde Três Corações/MG, e depois de caminhar 200 quilômetros, por motivos relevantes, precisei retornar à minha residência.

Por obra divina, 40 dias depois eu regressei à cidade de Itajubá/MG, local em que eu sustara meus passos, em seguida, me hospedei no Hotel Oriente, e no dia sequente, ao lado dos amigos/parceiros Shirley e Vinícius, reiniciei meu périplo em direção à Basílica de Aparecida.


1º dia: ITAJUBÁ/MG a WENCESLAU BRAZ – 23 QUILÔMETROS

Explora novos caminhos e encontraras novas realidades.


A jornada seria de pequena extensão, assim, ingerimos calmamente o café da manhã e partimos às 6 h 30 m, já com o dia claro.

A primeira parte do percurso é integralmente urbana e minha velha conhecida, pois eu já a percorrera em 5 oportunidades.

Assim, sem maiores novidades, 12 quilômetros à frente, numa bifurcação, quando o roteiro “Passos de Padre Léo” segue à esquerda, nós giramos à direita, depois, atravessamos a rodovia MG-350, que vai na direção de Delfim Moreira, e logo adentramos numa estrada de terra, que seguiu paralela ao rio Sapucaí.

Mil metros adiante, atravessamos uma porteira e iniciamos forte ascenso em direção ao cume de um morro, praticamente, o único ponto de destaque nessa jornada em termos de dificuldade altimétrica, vez que a trilha exigiu muito cuidado, pois se encontrava extremamente erodida e lisa, pelo trânsito massivo de mototrilheiros.

Ultrapassado esse obstáculo, passamos a descender com ímpeto, depois, transitamos diante de uma grande fazenda de criação de gado, em sequência, atravessamos o belíssimo rio Bicas por uma ponte e, percorridos 16 quilômetros, acessamos a rodovia MG-459 que segue em direção a Wenceslau Bras.

E foi caminhando pelo acostamento, no sentido contrário ao fluxo de veículos, que atingimos nosso objetivo, quando o relógio marcava 11 h.

Na Pousada Castelinho, como de praxe, fomos muito bem recebidos pela Patrícia, minha velha conhecida, pois ali eu já houvera pernoitado em mais de 5 oportunidades.

À tarde, como previsto, a chuva chegou e seguiu noite a dentro, sem pausas.

Algumas fotos do trajeto desse dia:


No Portal do Caminho de Aparecida. Partindo!!


Na bifurcação, após 12 quilômetros percorridos. Nós seguimos à direita...


Após o bairro Santo Antônio, paisagens espetaculares...


Com a Shirley na trilha, seguindo firme em direção ao topo do morro.


Paisagens surreais na etapa desse dia..

Pernoite na Pousada Castelinho – Apartamento excelente! – Preço: R$60,00 p/pessoa;
Almoço e Jantar: Marmitex – Comida excelente! preço: R$15,00 por refeição;

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de pequena extensão, e, praticamente, sem nenhuma dificuldade em termos de altimetria. Salvo, é claro, a trilha que necessita ser vencida, após o trânsito pelo bairro Santo Antônio. Por experiência própria, eu não recomendo a passagem por essa senda em dias chuvosos, face ao perigo de algum acidente, pela agudeza do trajeto. Nesse caso, o percurso deverá ser feito pelo asfalto da rodovia BR-459, que segue em direção à Wenceslau Bras. No geral, os primeiros 12 quilômetros do percurso são urbanos e insossos, mas, depois do bairro Santo Antônio, o reencontro com a natureza bruta é agradável e gratificante.


2º dia: WENCESLAU BRAZ ao BAIRRO CHARCO (DELFIM MOREIRA) – 16 QUILÔMETROS

A gratidão é uma das emoções humanas mais poderosas. Uma vez expressa, muda a atitude, ilumina a perspectiva e amplia nosso horizonte.” (Germany Kent)



Seria uma jornada de diminuta extensão, porém, sempre em forte e perene ascensão.

Dessa forma, sem pressa, tomamos café que gentilmente a Patrícia nos ofertou e partimos às 6 h, já com o dia claro, porém, debaixo de renitente garoa.

Assim, deixamos o local de pernoite e seguimos à direita, pela rodovia BR-479, que vai em direção à cidade de Piquete/SP.

Mil e quinhentos metros percorridos, depois de passar diante do local onde funciona a Copasa - Águas Minerais de Minas S/A, acessamos uma estrada de terra, à direita, que seguiu em leve aclividade.

O trajeto prosseguiu com bastante cobertura vegetal, sempre em meio a grandes fazendas de criação de gado e cinco quilômetros depois, passamos diante da entrada para o bairro Quilombo, onde avistei uma placa afixada numa árvore, nos avisando que ainda restavam 10 quilômetros para a chegada.

A chuva não dava trégua, assim, prosseguimos ascendendo em ziguezague, por trechos clivosos, num caminho ladeado por pinheirais e extensos eucaliptais e, mais acima, transitamos diante da Fazenda Paiol, onde existe uma mina de água mineral puríssima, que é comercializada pela empresa BPS.

Sempre em ascensão, passamos diante da Fazenda Campo do Vento, que antigamente também abrigava peregrinos, onde visualizei alguns cavalos e muitos carneiros espalhados pela propriedade.

Finalmente, no 13º quilômetro, chegamos a 1.800 metros de altitude, o ponto de maior altimetria nessa etapa, então, adentramos em um local amplo e descampado, e, observando à nossa direita, detínhamos uma visão privilegiada, ainda que embaçada pela chuva, do grande vale por onde nós viéramos caminhando.

A partir desse marco, passamos a descender, lentamente, e logo avistamos, do lado esquerdo, uma pequena gruta, diante da qual existe uma fonte de água cristalina que nasce na serra, entretanto, o piso escorregadio impediu nossa visita ao local, onde há uma singela construção, dentro da qual está exposta uma bela imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Depois, prosseguimos adiante e logo adentramos ao bairro do Charco, cuja sede é a cidade de Delfim Moreira/MG.

Ali, nos hospedamos no Chalé da Suze, uma construção espetacular, gerenciada por uma pessoa maravilhosa, a Suze, que nos surpreendeu pela prestatividade e simpatia, algo que fez muita diferença nesse dia.

Pois a chuva que nos acompanhou em toda a jornada, só cessou às 17 h, impedindo nosso trânsito para conhecer o simpático bairro.

O bairro do Charco está localizado na serra da Mantiqueira, no município de Delfim Moreira/MG, num local com grande potencial para baixas temperaturas e geadas. Na verdade, o lugar está localizado a 1.720 m de altitude, bem no coração da maravilhosa serra da Mantiqueira, e ali há uma expressiva criação de trutas e salmão, com venda de congelados. Por ele transitam peregrinos e romeiros que tem como destino o Santuário de Aparecida e também é acesso para a Fazenda da Onça (acampamento do Exército de Itajubá/MG) e o Parque Estadual de Campos do Jordão/SP (Horto Florestal). ​Trata-se de um vilarejo, onde não há comércio, com residências de inverno, algumas casas de madeira, serralheria e uma igreja católica (sem torre). Uma paragem antiquíssima, cujas terras pertencem, desde o século XVII, à Família Faria, após mais de cinco gerações.

Algumas fotos do trajeto desse dia:


Em ascenso pela serra, debaixo de chuva, a cidade de Wenceslau Braz aparece abaixo e já ao longe.


O Chalé da Suze, localizado no bairro do Charco, onde nos hospedamos nesse dia.


A igrejinha existente no bairro do Charco.


Confraternização no interior do Chalé da Suze.

RESUMO DO DIA - Pernoite no Chalé da Suze – Excelente! – Preço: R$130,00 por pessoa, com pensão completa: café da manhã, almoço e jantar.

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de excelsa beleza, porém, de razoável dificuldade, pois todo o trajeto é em perene ascensão. No entanto, sempre em meio à exuberante natureza e ladeado por extensos bosques de eucaliptos e pinheiros. Um percurso fresco e hidratado, que culminou com o pernoite no bairro do Charco, localizado em pleno coração da serra da Mantiqueira. Porém, para complicar nosso trajeto, choveu o dia todo, então, enfrentamos muito barro, vento e baixa temperatura. Contudo, a Suze, proprietária do local onde nos hospedamos, fez toda a diferença, pois nos recebeu com extremo carinho e fantástica hospitalidade. Assim, recomendo esse local com efusão!


3º dia: BAIRRO DO CHARCO (DELFIM MOREIRA/MG) a PEDRINHAS (GUARATINGUETÁ/SP) – 34 QUILÔMETROS

A verdade não está no final do caminho, mas é a soma das ações que são realizadas para conquistá-lo.” (A. Jodorowsky)



Após o café da manhã que gentilmente a Suze, a proprietária da Pousada, nos serviu e, imediatamente, após os acertos monetários, iniciamos a jornada, seguindo por uma trilha extremamente lisa e embarreada, pois chovera fortemente ali nos dias anteriores.

O trajeto ermo, hidratado e silencioso nos levou, 4 quilômetros adiante, a enfrentar o primeiro dos 4 íngremes ascensos que se necessita vencer para atravessar a Mantiqueira e, percorridos 5 quilômetros, nós chegamos à divisa dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, onde está fincado um pedestal com a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

O descenso pelo lado oposto exigiu bastante atenção, pois o leito da trilha se encontrava extremamente revolvido, pela passagem constante de mototrilheiros, que concorreram, decisivamente, para assorear esse traçado.

Porém, com muito cuidado e fé em Deus, acabamos por sair na Estrada de Lavrinhas, depois de percorrer duros 9 quilômetros.

Na sequência, nós ultrapassamos o Fazenda dos Carneiros e, percorridos 17 quilômetros, nos enlaçamos com a Estrada de Pedrinhas, cujo início se dá diante do portão do Horto Florestal de Campos do Jordão.

A partir daí o trajeto se tornou nosso velho conhecido e sem grandes dificuldades nós transitamos pelo bairro Gomeral, depois, com muita tranquilidade, pois o clima se manteve nublado e fresco, aportamos à Pousada do Agenor, nosso destino nesse dia.

Algumas fotos do trajeto desse dia:


Despedindo-me da simpática Suze, uma pessoa espetacular!


Trecho inicial da trilha. O Vinícius segue firme à frente.


Divisa dos Estados e ponto mais alto do Caminho. Diante da imagem de N S Aparecida.


Descendo a serra de Pedrinhas. O bairro Gomeral aparecida abaixo.


A Shirley faz suas orações numa capelinha...

RESUMO DO DIA: Pernoite na Pousada do Sr. Agenor: Atendimento excelente! – Apartamento simples, com café da manhã e almoço – Preço: R$120,00.

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma jornada cansativa e com extremas variações altimétricas. No entanto, com trânsito pelo “coração” da serra da Mantiqueira, um trecho excepcionalmente belo, e onde a natureza se encontra integralmente preservada. No global, necessário vencer forte altimetria ascendente até aportar à Estrada de Pedrinhas. E, depois da Pousada Santa Maria da Serra, o perfil se inverte, sendo necessário muito cuidado e atenção para enfrentar o brusco descenso em direção ao distrito de Pedrinhas.


4º dia: PEDRINHAS (GUARATINGUETÁ/SP) a APARECIDA/SP – 22 QUILÔMETROS

"A vida é uma jornada sem fim. Toda vez que pensamos ter chegado, abrem-se portas que nos levam a novos destinos." (Simona Barè Neighbors)



Seria a derradeira jornada e, como era a 13ª vez que eu trilharia esse trecho, ela já era minha velha conhecida.

Assim, como nós precisávamos retornar nesse mesmo dia às nossas residências, depois de tomar o café gentilmente preparado pela Élen, exatamente às 5 h, e após fraternas despedidas, deixamos a Pousada do Sr. Agenor e seguimos em frente.

Com o dia clareando, passamos pelo distrito de Pedrinhas e, quinhentos metros à frente, observando à sinalização, adentramos à direita, em larga estrada de terra, por onde seguimos em bom ritmo, porquanto, face às chuvas recentes, o clima se apresentava fresco e extremamente hidratado.

A partir daí o trajeto é integralmente plano e, sem maiores novidades ou dificuldades, aportamos ao Santuário Mariano de Aparecida.

Algumas fotos do trajeto desse dia:


Nessa etapa derradeira, eu sigo conversando com o Vinícius...


Com as bênçãos divinas, chegamos! Obrigado ao Vinícius e a Shirley pela maravilhosa parceria.


Emocionado, o Vinícius agradece pela sua valorosa chegada ao Santuário de Aparecida.


Certificado referente ao meu 4º CAMINHO DE APARECIDA, um roteiro maravilhoso!

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma jornada plana, curta, e bastante agradável, em seus primeiros 11 quilômetros. Porém, quando ainda restam 9 quilômetros para a chegada, o trânsito pelo asfalto e zona urbana acabam por deslustrar o brilho dessa etapa. Porém, a certeza da chegada à “Casa da Mãe Aparecida” nos refortalece, afinal, são os últimos momentos no Caminho e, por isso mesmo, inesquecíveis e de forte emoção.


FINAL

"E então começa a grande viagem de volta da peregrinação. Aparentemente, tudo está terminado, mas é aí que começa a parte mais difícil. O objetivo desse regresso ao lar é o de incorporar ao antigo, ao conhecido e ao rotineiro, o que foi vivenciado. Toda a experiência pode se perder ou então renovar a vida e fazê-la transbordar de sentido e de paz."


Gratidão, Mãe Aparecida, por mais essa abençoada jornada.

Peregrinar é uma oportunidade ímpar para sentirmos aflorar a imaginação criativa que nos falta no dia a dia, e isso permite encontrarmos uma nova maneira de sair das situações que parecem complexas ou insolúveis.

Porque caminhar na natureza, nos revela que não estamos aqui só para trabalhar, ter sucesso ou consumir, mas, também, para contemplar, pois na vida, muitas vezes, somos uma inteligência que só calcula e mede.

Quando se anda, nossa mente aguça e nosso olhar se inebria, então só pensamos em agradecer a Deus pelas belezas que avistamos, seja um animal, uma pessoa, uma flor e tantos outros encantos inusitados.

Relativamente ao Caminho de Aparecida, diria que nele vivenciei dias de imensa alegria e profunda sintonia com o Criador, pois escalei serras colossais, revi amigos, confraternizei com meus parceiros de caminhada, conheci pessoas diferenciadas, transitei por locais de imorredouras belezas naturais e alicercei novas amizades.

Uma trajetória plena de louvores, que se encerrou no abençoado Santuário Mariano de Aparecida.

Assim, ao finalizar novamente esse maravilhoso roteiro, não poderia deixar de agradecer à Associação dos Peregrinos do Caminho de Aparecida, mormente, o Rodrigo, de Alfenas, assim como o Leandro e o “Kadu” de Itajubá, que fazem a conservação desse itinerário, pois sem eles, nada teria sido possível.

Por derradeiro, gratidão especial ao Vinícius e a Shirley, meus diletos parceiros de trilha que, como das vezes anteriores, demostraram coragem, garra, companheirismo e fé, enquanto labutávamos, diariamente, visando à consecução de nosso objetivo: aportar aos pés da MÃE MAIOR.

E, a Ela rogamos bênçãos e proteção a nós, família e amigos.

Bom Caminho a todos!

Novembro/2021