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O XADREZ UNIDIMENSIONAL


O XADREZ UNIDIMENSIONAL

Por Carlos Cavallo

As páginas seguintes têm sua origem em leituras anteriores e presentes de e sobre H. Marcuse. Penso que algumas de suas formulações podem ser levadas ao mundo do xadrez e iluminar uma reflexão sobre aspectos substanciais do mesmo. 

A ideia de uma repressão cultural que transformou a capacidade de rejeição da arte, no sentido de que suas verdades e conteúdos, os quais historicamente representaram um desafio ao sistema de razão dominante em nome de um ideal, são assimilados e desvitalizados de sua função crítica. A existência de uma razão dominante, que não só transfigura a negatividade da arte em irrealidade, senão que ao assimilar seu conteúdo antagônico o põe, paradoxalmente, a serviço da coesão da ordem que questionava, são noções fecundas, que permitem ver ou formular um paralelo entre tal percurso e o do xadrez. 

Este, num paulatino acomodamento às necessidades do mercado, foi somando, por um lado, "louváveis finalidades", bons propósitos e utilitárias prestações, para ir perdendo, por outro, sua esfera privada de beleza e felicidade gratuita

O acomodar-se o xadrez a uma ordem de razão tem corroído o fato fundamental de ser um jogo capaz de deter o fluir do tempo, esse grande inimigo e destruidor da gratificação verdadeira. É condição da natureza conservadora do princípio do prazer lutar contra a finitude e a brevidade das coisas.

Outra ideia fecunda está no postulado de uma função estética que preserva a verdade dos sentidos e reconcilia a razão com o sentimento. Atualmente o xadrez se converteu num emaranhado de regulamentos e ritmos de jogo, onde impera uma velocidade irreflexiva e o ganhar de qualquer maneira. Uma vertigem que não se detém, que soma frustrações e euforia na infelicidade. Recuperar-nos desta viagem ao nada implica na necessidade de contribuir para uma educação estética que, sobre a base de uma sensibilidade liberada e reconciliada com a razão, estabeleça uma nova liberdade.

Refletir sobre isso é a tarefa deste artigo.

Xadrez. Para uma educação da sensibilidade.

Falamos em outra oportunidade sobre a possibilidade que tem o xadrez de ser entendido e abordado de diversas maneiras. Por mencionar algumas: esporte, jogo, arte, ciência. Diferenças que elaboraram corpos particulares de explicação do fato enxadrístico. No entanto, vemos que todos eles têm pontos comuns de entrecruzamento quando são requeridos desde o campo da educação. Um desses pontos é a necessidade de uma justificativa teórica que viabilize e legitime suas pretensões, acompanhada a mais das vezes de um conjunto de prognósticos e sugestões sobre os benefícios de sua instrução. Argumentos de variada índole, que apelam ao acréscimo de capacidades diversas em relação ao intelectual e ao mundo das emoções, foram ensaiados com mais ou menos talento e grau de plausibilidade. Esta necessidade de outorgar à atividade uma finalidade ou utilidade e de uma prospectiva foi uma constante sempre presente no xadrez educativo. No entanto, nada pôde evitar que o xadrez fosse o fato primário de uma partida jogada por contendores que aspiram ao triunfo. Uma finalidade bem mais prosaica, que às vezes tem seu reflexo numa tabela de posições. Uma concorrência que se dirime no ponto de encontro de duas subjetividades que sintetizam, através do movimento dos tabuleiros, tudo o que trazem e sofrem.

Muitos dos benefícios que se declamam do xadrez são aspectos colaterais a esta luta, que envolve bem mais do que o entendimento. Temor, ansiedade, euforia, desencanto, equilíbrio, harmonia, busca, esquecimento, um leque de sensações e processos mentais que põem em jogo toda a personalidade dos que ali debatem em busca de um resultado.

Esta volta ao xadrez como uma concorrência abonada pelo gosto à luta implica em resgatar a satisfação instintiva que tenta e pretende ser um ponto de partida para uma reflexão sobre o modelo de uma atividade que tem diversos planos de realização e de envolvimento, desde a informalidade de uma partida de passatempo ao cerimonial de uma partida de torneio. Um resgate que pretende revalorizar o fato básico de jogar, entendido como uma necessidade fundamental na vida dos homens. Não se trata de querer voltar a um estado de primitivismo na evolução do jogo, mas de subverter um estado de coisas, sobre a base de um capital enxadrístico já adquirido e consolidado, que previna contra um regresso a ideias superadas. Sobre esta base, a finalidade é chamar a uma nova racionalidade que, retomando os foros da sensibilidade ali onde foram abandonados, constitua o xadrez desde uma prática que englobe as categorias sempre intuídas e tantas vezes presentes, como tantas também esquecidas, sobretudo nestes últimos tempos, de ser uma "finalidade sem fim" e uma "legalidade sem lei", isto é manifestação acabada de beleza e liberdade.

Esta apreensão estética do xadrez implicaria em não captar nele nenhuma utilidade, finalidade ou propósito, senão assumi-lo como sendo livremente ele mesmo. Creio que se pudéssemos construir esta espécie de contra-racionalidade, que negasse a instrumentalização do xadrez, consequência de uma lógica repressiva a serviço dos mais variados interesses, que recusa o prazer de jogar, a satisfação gratuita de estudar, pesquisar e aprender, de comunicar e cooperar, entre outros, por uma super adaptação a um conjunto de falsas necessidades orientadas pela busca do sucesso, que diminui a riqueza do jogo e dos intercâmbios que nele se produzem, então teremos recuperado o prazer e a autorrealização das pessoas e reconstituído o jogo do xadrez. 

Sua vertente educativa será então simplesmente ser ele mesmo. De maneira que não terá dissociação entre o que se ensina e o que se pratica. Um âmbito não será a negação do outro. Terá coerência entre a formação e a produção.

Por isso pensamos que o xadrez tem outra possibilidade e outro caminho que o atual. Que não passa por mascarar o que é, evitar suas contradições, ou gerar um discurso de boas intenções e lugares comuns. Senão que, partindo do fenômeno concreto que se nos aparece, reescrever um texto que recupere sua importância histórica, sua construção de sentido, sua biografia, seu caráter não utilitário, a benefício de não ter que banalizar sua missão educativa. 

Devemos estar atentos a seu valor simbólico, pois os símbolos que tiveram e têm sua vida nos sonhos, nos mitos, na arte e no inconsciente, recordam-nos permanentemente o que há de verdadeiro no homem.

Em tal sentido o xadrez pode ser a porta de entrada a uma experiência inédita, singular e duradoura quanto à construção de um gosto estético, entendido como soma de sensibilidade e entendimento. Este devolver seus “foros” à sensibilidade pode constituir-se em todo um programa educativo que contribua para liberar as potencialidades criativas dos homens e para o estabelecimento de um mundo mais pacífico.

Anotações para uma existência mais humana.

Schiller, em suas " Cartas Sobre a Educação Estética do Homem", (1795), fala-nos da necessidade de reconciliar o princípio de razão e sensibilidade, com vista a fundar uma nova ordem, " uma civilização estética", onde a possibilidade de jogar permita ao homem "ser o que é" e viver uma existência em liberdade.

Schiller acreditava ver no acentuado racionalismo que caracterizou o desenvolvimento histórico da filosofia ocidental a causa pela qual se tinha relegado e subalternizado a função cognitiva da sensibilidade. Tinha-se o conhecimento sensível por confuso, equívoco e dubitativo. Era por isso que a imaginação somente tinha podido ter lugar, em ciência e filosofia, sob o império e domínio da razão. Só na arte prevalecia a satisfação e o gozo na beleza.

A originalidade de Schiller foi compreender que os infortúnios do homem na incipiente sociedade industrial de então provinham fundamentalmente da oposição destes dois princípios essenciais, o sensível e o formal, sendo o segundo, razão, ação e dominação. Sua superação estava numa reconstrução civilizada da sociedade sobre a base de uma função estética que priorizasse o jogo antes que o trabalho, e permitisse ao homem um desprendimento do real, entendido como o apego a uma vida conformista e servil, enquanto “a indiferença à realidade e o interesse pela aparência" seriam a manifestação de uma vida sem angústia, nem medo, a essência mesma da liberdade.

Correspondia ao jogo esta tarefa de reconstrução e reconciliação, de maneira que a vida humana pudesse superar o estado de coação e necessidade e resolver-se numa liberdade não meramente interior, senão de existência concreta. O instinto de jogo já não seria um mais entre outros, se transformaria num princípio de civilização que transformaria a natureza e o homem. Uma revolução cujo objetivo seria a beleza e cujo fim a liberdade. Os objetos perderiam seu caráter fetichista e de dominação e o homem deixaria de ser um instrumento o serviço de fins alheios, para desenvolver-se numa atividade livre. 

Jogo antes que trabalho, onde a coação seria substituída pela liberdade, e o homem viveria mais na aparência que na necessidade.

Na segunda metade do século XX, foi Herbert Marcuse quem chamou a atenção para as derivações fecundas do pensamento de Schiller. Havia uma clara convergência entre ambos autores. À exigência, em Schiller, de uma função estética que devolvesse à sensibilidade seus direitos arrebatados em benefício da razão, como prelúdio de cura da doença de civilização, corresponde-se em Marcuse a postura de reconciliação do princípio de realidade com o princípio de prazer, segundo a terminologia de Freud, em favor de uma sociedade não repressiva e carente de toda dominação, onde o instrumento de pacificação universal seria a imaginação, o canto órfico (a reconciliação dos antagonismos) e a contemplação narcisista (no sentido que nega a separação com o objeto amado). De maneira que esta sociedade não repressiva seria ao mesmo tempo estética.

Uma sociedade onde o valor útil dos objetos deveria ceder ante a beleza e desvanecer-se junto com os rasgos sublimados dos valores superiores e repressivos do princípio de realidade em sua formulação histórica atual.

Aqui vão surgir dois conceitos de sumo interesse. Ainda que Marcuse concorde com Freud em que há uma repressão fundamental dos instintos na criação de toda civilização, já que liberada a sua satisfação instintiva sem freio nem contenção o homem se destruiria, critica Freud por confundir e misturar o biológico desta repressão básica, com sua formulação histórica segundo as épocas. Este “plus” diferencial é o que Marcuse vai chamar "sobrerrepresión" e que em sua análise da sociedade industrial avançada adota a forma do "princípio de rendimento". É esta lógica do útil, do necessário, do seguro, do correto, do conforto, da prosperidade e da segurança, a que também invadiu o mundo do xadrez, institucionalizando um repertório de falsas necessidades, que plasmou uma prática e um programa de ação que tem como contrapartida o preço da coação, o sofrimento e a alienação.

Em resgate de Teodoro Ivanovich Duz-Jotimirsky: enxadrista
Moscou 1954

Jotimirsky  x  Bronstein  -  Moscou 1954 - Gambito de rei

Esta partida tem o valor de refletir um espírito de acordo com esta nota. Os comentários que seguem são de David Bronstein, tal qual foram publicados em seu livro: "200 Partidas Abiertas".

A todo verdadeiro enxadrista se lhe altera o ritmo do coração ao ouvir falar dos gambitos.

Assim que meu adversário fez 2. f4, ouvi a aborrecida voz: 

- Aceite este sacrifício sem renúncia de nenhuma classe! Se não toma o peão, deixo de jogar com você.

Desta maneira, tive de aceitar o gambito do mestre ancião. Decorridos uns movimentos, se apressou em mover uma peça, e, enquanto eu pensava a resposta, decidiu... voltar atrás a jogada.

Os espectadores proferiram expressões de espanto e os árbitros da competição quiseram parar o relógio, mas Teodoro Ivanovich alçou a voz contestando simultaneamente a todos.

- Anda, que por nada formais alvoroço! Volto atrás a jogada e faço outra melhor. O regulamento? Que o diabo o carregue, aqui estamos jogando xadrez! E dirigindo-se a mim: 

- Além disso, tem você algo a objetar?

- Nada em absoluto - contestei.

E o jogo prosseguiu como se nada tivesse acontecido.

1. e4, e5; 2. f4, exf4; 3. Cf3, g5; 4. h4, g4; 5. Cg5, d5; 6.exd; h6; 7. De2+, Be7; 8. Ce4, f5: 9.Cf2, Cf6; 10.d4, 0-0; 11. Bxf4, Cxd5; 12.Dd2, Cxf4; 13. Dxf4, Rg7; 14. Be2, Te8; 15. 0-0, Bd6; 16. Dd2, Dxh4; 17. Td1, f4; 18. Cc6, f3; 19. gxf3, Dh2+!
As brancas abandonaram.


Fonte: http://www.torre21.com/