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O VALE SEM FIM – Autor: John Steinbeck


O VALE SEM FIM – Autor: John Steinbeck





Seus contos se desenrolam nos cenários rurais da Califórnia, que ele tanto ama e em que situa os seus heróis, quase todos párias ou desesperados, no centro de paisagens desérticas e ásperas como as suas almas, que aspiram apenas um pouco de paz, piedade de parte da natureza madrasta e compreensão da parte dos homens.

Por isso mesmo, os seus contos, impregnados de dramaticidade e de angústia, não podem ser puramente anedóticos como os de outros mestres do gênero. Se é uma fatia de vida que Steinbeck nos apresenta, é uma vida amarga, sofrida e sem esperança, ainda que colorida pela sua visão magnífica e consciente das paisagens e das almas.

Nos doze contos que compõem o volume, John Steinbeck dá sempre às suas figuras o melhor de sua ternura e, ainda que não atenue os aspectos inclementes da natureza ou a implacabilidade das forças humanas hostis, nos faz compreender e amar essas suas criaturas, baseadas, evidentemente, em figuras da vida real que povoam as suas páginas em momentos de revolta, de dúvidas, de ansiedade e de luta. Talvez por isso mesmo os seus personagens exijam a nossa adesão e sejam amados como se ama este escritor incisivo e seco, áspero e lúcido como os lugares e as pessoas de que escreve.



RESENHA extraída do site: www.posfacio.com.br


O vale sem fim é uma coletânea de contos de autoria de John Steinbeck publicada em 1938. Nessa coletânea é possível identificar traços marcantes de várias de suas obras, tanto as que antecederam o livro de 38 como as que o sucederam. O vale sem fim é a última publicação literária de Steinbeck antes de sua grande (e segundo alguns, última) obra, As vinhas da ira.

Tendo desenrolado suas outras obras no vale de Salinas, a região rural no sudoeste dos Estados Unidos, no estado da Califórnia; Steinbeck mantém-se nesse domínio: O vale sem fim é uma espécie de declaração de amor pelo amado vale de Salinas. O “sem fim” do título vem por conta da riqueza infinita que Steinbeck consegue dele extrair.

A maioria dos contos presentes no livro não são de grande valor literário, há muita coisa nele que ainda estava sendo lapidada: a quantidade de detalhes, o apreço pelas descrições das paisagens, o ritmo da narrativa, a construção da trama etc., porém, a idiossincrasia que melhor caracteriza sua obra, e que foi lembrada na ocasião de sua láurea com o Nobel, a simpatia pelos “dispossessed”, está presente em cada uma de suas obras.

Assim, em O vale sem fim temos contos por demais prosaicos e desprovidos de uma maior elaboração, como Os crisântemos, A perdiz branca, Arreios, Cobra e Café da manhã; ao lado de contos mais significativos, tanto por sua expressão literária quanto por sua contribuição para a (divertir-se com os links com outras obras suas) compreensão dos demais títulos de sua obra através da percepção de seu amadurecimento enquanto escritor.

Dentro dessa última safra, temos Fuga, história sobre um rapazola que passa para a vida adulta de forma abrupta e dura: tendo que enfrentar um homem que o insultou. O caminho de sua provação se metaforiza no cenário árido e seco de Salinas. A perseguição é dramática e lembra as boas e velhas emboscadas de western e a fuga de Kino e sua família em A pérola.

Em O ataque dois homens preparam um galpão para uma reunião panfletária que reunirá trabalhadores. Um deles está temeroso da interferência da polícia e o outro, aparentando mais experiência, procura tranqüiliza-lo. Ao chegarem ao balcão, com livros revolucionários embaixo do braço e cartazes exortando a revolução, eles são desbaratados e violentamente repreendidos pelos “agentes do sistema”. Uma crítica contra a repressão aos movimentos reivindicatórios e a liberdade de manifestação e organização. Se assimila muito ao tom e ao clima de tensão vigiada de Luta incerta.

Johnny Bear também se ambienta em uma região do vale onde trabalhadores se ocupam com a dragagem de um pântano. Como moram nas proximidades do lugar, se encontram nas noites quentes, úmidas e modorrentas no Buffalo Bar, onde ficamos conhecendo Johnny Bear, um grandalhão semi-retardado que imita vozes. A narrativa assume as vestes de conto de terror, já que um mistério ronda o gigante.

Johnny Bear lembra Lennie, de Ratos e homens, porém de um jeito mais mórbido e menos carismático. Embora o alcance da história não seja tão grande, Steinbeck consegue descrever com perfeição a força que emana dessa região e a tortuosa marcha para o progresso do que seria propagandeado posteriormente como american way of life.

Em um livro que parece ser por demais prosaico e desinteressante, surge um panorama, (em menor magnitude do que As vinhas da ira), da região agrícola californiana, que apesar da aparente demasiada particularidade, serve de palco para o desenvolvimento de histórias que versam sobre a condição e experiência humanas em alguma medida.

Se esse livro não alcançou o patamar de “alta literatura”, ao menos deu fôlego para que Steinbeck mergulhasse fundo nas entranhas do capitalismo e no melhor de sua arte narrativa.



Opinião Pessoal: Entre os mestres da literatura moderna, Steinbeck, mais que nenhum outro, continua ele mesmo independente por sua posição e por sua obra. Há nele uma tendência e um humor macabro que, até certo ponto, compensa seus temas muitas vezes cruéis. Sua simpatia se dirige sempre para o oprimido, o inadaptado, o infeliz; gosta de opor à alegria simples da vida à sede brutal e cínica do dinheiro.

Minha Avaliação: Excelente!

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