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SEM PERDÃO – Autor: Frederick Forsyth


SEM PERDÃO – Autor: Frederick Forsyth


“Em dez histórias, o livro revela as diversas facetas dos homens. Desde os mais impulsivos até os mais abnegados. Mas o que o autor enfatiza é que muitos vão às últimas consequências para conseguir o que querem.”


 

Nestes dez contos, Frederick Forsyth nos oferece histórias interessantes, cujos personagens variam de magnatas poderosos a velhos que perderam tudo, de pessoas comuns que decidem mudar sua vida a trapaceiros que tiveram um dia daqueles…

Os contos são muito bem escritos, com o estilo característico de Forsyth, que preza pelos detalhes minuciosos, resultado de muita pesquisa, com uma escrita ágil e envolvente, e gostosa de ler. Uma característica peculiar destes contos são os finais surpreendentes, com reviravoltas na trama ou surpresas reveladas que nos farão sorrir ou parar, estupefatos.

Frederick Forsyth nasceu em 25/08/1938 em Ashford, na Inglaterra. Foi um dos pilotos mais jovens da Royal Air Force aos 19 anos e mais tarde trabalhou na Reuters e na BBC, como correspondente diplomático assistente. Ele vive hoje em Hertfordshire, Inglaterra. Seu primeiro livro, The Biafra Story, foi publicado em 1969 e seu romance mais recente é O Afegão (2006).

Forsyth usou técnicas de pesquisa jornalística para escrever seus romances, incluindo os sucessos O Dia do Chacal e O Dossiê Odessa, ambos transformados em filmes. Seus livros sempre envolvem assuntos atuais, política, conspirações, assassinatos, suspense, com tramas meticulosas e detalhadas, apoiadas por uma extensa pesquisa factual.

A visão moral de seus livros é cruel: o mundo é composto de predadores e presas, e apenas os fortes sobrevivem. Como nestes contos, em geral há uma reviravolta na trama no final do romance, revelando surpresas que o leitor não suspeitava, e que explicam motivos e fatos.

Em uma entrevista para o Times em 2006, ele explica: “Não tenho nem uso computador. Uso uma máquina de escrever eletrônica e Tipp-Ex (corretor). Datilografo do mesmo modo desde que era um repórter iniciante: dois dedos e o dedão para a barra de espaços. Não tenho celular, mas umas 12 vezes por ano eu realmente preciso de um - mas sou cara-de-pau o suficiente para abordar um estranho e pedir: “Pode discar este número para mim?” A maioria responde: “Claro, meu chapa”.

Transformei o andar superior da queijaria em uma longa sala para escrever, onde mantenho as cortinas fechadas. A preparação para escrever um romance é um processo demorado. Passo um ano pesquisando e criando os personagens e a trama dentro da minha cabeça antes de escrever a primeira palavra. Para meu novo livro (O Afegão) fui a Washington, Kabul, Islamabad e Peshawar. Normalmente eu tenho um contato, um amigo ou o amigo de um amigo, que pode arranjar os encontros com pessoas com as quais tenho de falar: o chefe de polícia, o diretor da prisão, o chefe das forças especiais.”

Alguns contos de Sem Perdão (No Comebacks, 1982, com tradução excelente de Pinheiro de Lemos) se passam na Irlanda, onde o autor vivia na época em que escreveu o livro. Apesar de bem diferentes entre si, as histórias têm em comum o cuidado com os detalhes, um certo tom moralista e o final surpreendente. É um livro para se ler e saborear, com histórias que ficarão na memória. Uma ótima sugestão de leitura!



Crítica/Mídia: Veja abaixo a análise dos dez contos insertados no livro, feita pelo site: http://atimais.blogspot.com.br/2013/04/leitura-sem-perdao.html)



Sem Perdão: O bilionário Mark Sanderson podia ter tudo o que quisesse… menos Angela Summers. Como não há nada que o dinheiro não possa comprar, ele achou que era uma simples questão de remover os obstáculos para conseguir o que queria. Mas ele não contava com uma chuva inesperada.

“Mark Sanderson gostava das mulheres. Da mesma forma como gostava dos steaks do gado de corte Aberdeen Angus, sempre ao ponto, acompanhados por uma salada de alface. Consumia a ambos com igual prazer, se bem que passageiro. E cada vez que se sentia um pouco esfomeado, por uma coisa ou outra, telefonava para o fornecedor apropriado e encomendava o que precisava no momento, a ser enviado para a sua penthouse. Podia se dar a esse luxo, pois era várias vezes milionário. E em libras esterlinas, diga-se de passagem, o que sempre é válido destacar nestes tempos conturbados, pois custam cada uma pelo menos dois dólares. “


Não há cobras na Irlanda: O capataz irlandês Big Billie Cameron não imaginava que pudesse ser vítima da vingança da deusa hindu Shakti; mesmo um plano cuidadoso pode estar sujeito aos caprichos do destino e da deusa vingativa, com consequências desastrosas.

“No instante em que pronunciava a última palavra, Big Billie desferiu um golpe violento, a mão aberta indo acertar no lado do rosto de Ram Lal. O rapaz foi lançado ao chão, a alguns metros de distância. A cabeça zunia. E ouviu Tommy Burns dizer:

- Fique no chão, rapaz. Big Billie vai matá-lo, se você se levantar.

Ram Lal levantou os olhos para a claridade do sol. O gigante estava parado diante dele, com os punhos cerrados. Ele compreendeu que não tinha a menor possibilidade numa luta contra aquele irlandês do Ulster. E foi invadido por sentimentos de vergonha e humilhação. Seus ancestrais haviam cavalgado, empunhando lanças e espadas, por planícies cem vezes maiores que aqueles seis Condados, conquistando a tudo o que encontravam.

Ram Lal fechou os olhos e ficou imóvel. Depois de vários segundos, ouviu o gigante se afastar.”


O Imperador: Ao ganhar uma semana de férias do banco onde trabalhava, Roger Murgatroyd viveu a aventura de sua vida ao enfrentar o gigantesco marlin conhecido como Imperador; aquela pescaria mudaria toda a sua vida.

“Em sua cadeira, o pequeno gerente de banco contraiu-se todo no esforço, apertando os dedos doloridos sobre a cortiça úmida, sentindo as correias se comprimirem contra a sua carne, como se fossem arames em brasa. E agüentou firme, observando a linha de náilon ainda molhada correr diante de seus olhos. Cinqüenta metros se foram rapidamente e o peixe continuava a mergulhar.

- Ele terá de subir novamente - comentou Kilian, observando por cima do ombro de Murgatroyd.”


Há certos dias…: Um simples vazamento de óleo pode alterar tanto os planos de um simples motorista de caminhão quanto os de um criminoso inexperiente; há certos dias em que tudo dá errado… Esta comédia de erros nos leva de um incidente a outro, envolvendo motoristas de caminhão, contrabandistas e bandidos desastrados.

“- Murphy? - indagou ele.

Murphy assentiu e o homem acrescentou:

- Está com a minha mercadoria?

- Fresquinha, saída da barca que chegou hoje da França - respondeu. - Ainda está no caminhão, dentro do estábulo.

- Se abriu o caminhão, vou querer examinar todas as caixas - ameaçou o homem.

Murphy engoliu em seco. Estava satisfeito por ter resistido à tentação de contemplar o saque.”


Dinheiro sob ameaça: Sam Nutkin não poderia imaginar que a descoberta fortuita de uma revista pudesse trazer tanta dor de cabeça; depois de algumas décadas de uma vida e um casamento monótonos e sem alegria, ele decide viver uma pequena aventura, que o colocará em uma situação delicada. O final desta história traz uma revelação inesperada, que surpreende o leitor.

“Seguiu a pé para o banco. No caminho, vasculhou o cérebro à procura de uma solução, recordando as descrições que já lera sobre julgamentos de casos de chantagem. Como era mesmo a expressão legal? Exigir dinheiro com ameaças. Isso mesmo. Uma bela frase legal, pensou Nutkin amargamente, mas não adiantava muito para a vítima.”


Usado como prova: Este é o meu conto preferido do livro; esta história criativa mostra como às vezes, é melhor ficar calado, pois tudo o que disser pode ser usado contra você como prova.

Um simples procedimento de despejo para a construção de um shopping center e seu estacionamento acaba revelando surpresas escondidas em uma velha casa. O velho Larkin é o último morador do antigo conjunto de casas da Mayo Road, agora todas demolidas, exceto a sua. Depois do viúvo ter sido retirado da casa começa a demolição, que revela um ‘tesouro’ escondido ao lado da lareira…

“Na casa, todo o trabalho cessara. Os homens da demolição, em suas capas amarelas e capacetes, estavam agrupados num círculo, nos escombros da casa. Hanley saltou do seu carro e foi avançando entre as pilhas de escombros até o lugar em que os homens estavam.

Por trás dele, entre o que restara da multidão, alguém murmurou:

- É o tesouro do velho. - Houve um murmúrio de assentimento e a mesma voz acrescentou: - Ele tinha uma fortuna enterrada na casa. Por isso é que não queria ir embora.

Hanley chegou ao centro do grupo e olhou para o que atraía a atenção de todos. A base da chaminé demolida ainda estava de pé, com cerca de dois metros de altura, cercada por pilhas de destroços. Ainda se podia ver a lareira enegrecida. Ao lado, cerca de um metro da parede externa da casa ainda estava de pé. E ali, no lado de dentro da casa, havia uma pilha de tijolos caídos, da qual sobressaía, encolhida e mirrada, mas ainda reconhecível, a perna de um ser humano. Um farrapo do que parecia ter sido uma meia de náilon ainda estava preso no joelho.”


Privilégio: Bill Chadwick foi vítima de um jornalista incompetente e descuidado, que citou seu nome em um artigo sobre uma empresa falida, insinuando que ele estivesse envolvido em fraude. Após solicitar uma retratação do jornal, sem sucesso, ele estuda as leis inglesas relacionadas a calúnia e percebe que, se processasse o jornalista, acabaria levando a pior. Chadwick então começa a imaginar um modo de esclarecer publicamente o caso. O tema deste conto lembra muito a estrutura do livro QB VII, de Leon Uris, que também trata de um processo de calúnia.

“É justamente o ponto a que estou querendo chegar. Hoje em dia, somente os ricos podem processar os ricos. E nunca no campo da calúnia, em que um homem pode vencer o caso, mas ser obrigado a pagar as próprias custas. Depois de um processo prolongado, para não falar de uma possível apelação, as custas podem ser dez vezes maiores do que a indenização concedida.

“Os grandes jornais, assim como as grandes editoras e outras empresas do ramo, sempre têm seguro contra os processos de calúnia. Podem contratar os melhores advogados.

Assim, quando enfrentam… se me permite a expressão… um homem sem maior importância, não lhe dão a menor importância. Com um pouco de habilidade, pode-se protelar o julgamento de um processo até por cinco anos. E, durante todo esse tempo, as custas legais para os dois lados vão subindo incessantemente. Somente o preparativo do processo pode custar milhares e milhares de libras.”


Dever: Conforme explicado por Forsyth antes do conto, apesar desta história destoar das outras, ele resolveu incluí-la no livro por ter sido contada a ele por um amigo irlandês, que lhe jurou ser uma história verdadeira. É o único conto narrado em primeira pessoa.

Por uma estranha coincidência, um casal irlandês em férias na França encontra um participante acidental de um evento marcante de sua história familiar, e também da independência da Irlanda.

“Bernadette remexeu-se ao meu lado. Ela estava rígida, imersa em seus pensamentos.

E eu sabia quais eram esses pensamentos. Estava se recordando daquelas manhãs frias de maio, quando as botas dos pelotões de fuzilamento ressoavam, ao marcharem dos alojamentos para a cadeia, na escuridão que antecedia o amanhecer. Dos soldados esperando pacientemente no pátio grande da prisão, até que o prisioneiro era levado para a estaca no muro do outro lado.”


Um homem cuidadoso: Este conto também ficou na minha memória por muitos anos; até que ponto um homem cuidadoso pode ir para evitar que sua fortuna caia em mãos indesejadas? Um milionário tem apenas seis meses de vida e não quer que sua detestável irmã e sua família herdem sua fortuna, muito menos deseja deixá-la para o governo. Ele toma todas as providências necessárias, e a solução criativa encontrada por Hanson só é revelada após seu funeral.

“Timothy Hanson era um homem que enfrentava todos os problemas da vida com uma atitude calma e objetiva. Orgulhava-se desse comportamento habitual, a análise serena seguida pela seleção da opção mais favorável e finalmente a consumação determinada dessa opção.

Chegara assim, no vigor da meia-idade, à riqueza e proeminência de que agora desfrutava.

Naquela manhã fria de abril, ele parou por um momento no alto da escada da casa de Devonshire Street, o coração da elite médica de Londres, enquanto a porta preta reluzente se fechava às suas costas, com toda deferência.”


O trapaceiro: Um inocente jogo de pôquer durante uma viagem de trem; um padre que não sabe jogar e uma doação para o orfanato; tudo parecia muito inocente, até que uma coincidência revelou ao Juiz Comyn que o joguinho daquela tarde não havia sido tão inocente assim….

“O homem magro parou de jogar paciência e começou a dar mãos de cinco cartas, que examinava antes de tornar a juntá-las ao baralho. Finalmente, largou as cartas e suspirou.

- Falta muito tempo para chegarmos a Tralee - murmurou ele, ansiosamente.

Recordando posteriormente os acontecimentos, o Juiz Comyn nunca pôde determinar exatamente quem fora o primeiro a mencionar a palavra pôquer. Mas desconfiou que podia ter sido ele próprio. O fato é que pegou o baralho e distribuiu algumas mãos de cinco cartas para si mesmo. Ficou satisfeito ao constatar que uma das mãos era um fullhand, de valete e dez.”



Opinião Pessoal: Um dos mais sensacionais e criativos livros que já li até hoje, quiçá, o melhor de todos!

Minha Avaliação: Imperdível!

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