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Carta Aberta a Oswaldo Buzzo - por Walter Jorge

Comentários Peregrinos - Carta Aberta a Oswaldo Buzzo - por Walter Jorge
    Sou um leitor e escritor inveterado, leio até propagandas em jornais, ao tomar conhecimento através do Portal dos Peregrinos de nosso amigo Zé de mais um artigo de Oswaldo Buzzo, não podia deixar de ler, pois os seus trabalhos são magníficos, e lá estava escrito o seu titulo “O Centro do Caminho II”, queria saber do porque daquele título.

    Ao iniciar sua leitura fiquei preso ao mesmo, passei a andar ao seu lado, era a sua sombra, sentia suas angustias e suas preocupações, senti a chuva cair sobre a minha capa e o frio enregelar os meus ossos.

    Em dado momento um pouco depois do seu início, li uma frase escrita pelo mesmo, parei, refleti e tornei a ler, lá sem deixar margens a dúvidas, Oswaldo Buzzo escreveu:

    “Muitas vezes, apesar de basilar desvelo, planos diligentemente elaborados podem num minuto se esboroar, como, por exemplo, diante de uma simples gripe, ou mesmo, de uma queda inesperada. Visto que, apesar de não se admitir, sabe-se que o vigor físico é uma dádiva aleatória atribuída pela natureza em consignação e confiscável sem aviso prévio.”

    Senti no meu ser o aviso da consignação, pois não sou nenhum garoto, os meus 80 anos se aproximam inexoravelmente e com ele à proximidade de um aviso prévio.

    Penetrei com o mesmo mais uma vez na Catedral de Burgos, a terceira maior da Espanha, visitamos o sepulcro de El Cid, tudo nela é grandioso, nos extasiamos perante a imagem do Santo Cristo de Burgos, que se diz atribuída a Nicodemus. É uma imagem impressionante, tem o corpo coberto de pele animal que alguns asseguram que é pele humana, impressiona realmente observar que os cabelos e as suas unhas são também naturais (dizem que os seus cabelos crescem).

    Seguimos em frente, durante nossa caminhada uma conhecidência se revelou quando o mesmo passou por aquela fonte em Rabé de los Calzadas “tentando colocar em ordem os pensamentos que insistiam em fugir do padrão metódico e organizado, aplicados em todas as minhas atitudes”, pensei com os meus botões: - será que ele é virginiano como eu?

    Continuei a leitura e mais uma vez ele ao conseguir abrir um dos escaninhos de sua mente abordou uma passagem do nosso escritor Máqui no seu capítulo 20: “De Burgos a Castrojeriz”, parei e pensei: - que conhecidência, o livro do Máqui foi o 2º. Livro que li quando pretendia efetuar a minha peregrinação ao Túmulo do Apóstolo Santiago, pois o primeiro foi do nosso querido Paulo Coelho, ao Oswaldo ele relembrou a famosa fonte em Rabé de las Calzadas e a mim ele me fez parar na “Puente de Órbigo” e relembrar aquele acontecimento de uma maneira poética, quando, em seu pensamento, relata através de uma ficção o oitavo combate do dia, entre Don Suero Quiñone e um outro cavaleiro desafiante.

A Ponte de Órbigo

    Seguimos em frente, pois o tempo urge, ele não para e na nossa caminhada, quer seja a real a do Oswaldo, e a outra em pensamento a minha; mas algo estava para acontecer a qual não previa.

    Ao chegar no último parágrafo do seu relato li, não invento, está lá escrito com todas as letras:

    “No amplexo derradeiro, a certeza de que era um adeus definitivo, e só nós dois sabíamos disso. Mas, não tinha nenhuma importância. Porque cada um carregaria o outro, para sempre, em local privilegiado, dentro do coração.”

    De início não compreendi a frase: “era um adeus definitivo e só nos dois sabíamos disso”, quando o escaninho da minha memória abriu, meu corpo tremeu e lembrei-me do que ele escrevera no início da sua narração.

    Quedei-me pensativo sobre o “aviso prévio”.
 

 
Enviado por Water Jorge - Publicado no site: http://www.caminhodesantiago.com.br