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EUSTÁQUIO PALHARES - Presidente da ABAPA/ES

        Prezado Oswaldo, 

        Só hoje, 19 de junho de 2009, tive oportunidade de conhecer seu belo relato da peregrinação pelos Passos de Anchieta

        Sou o presidente da Abapa, meu nome é Eustáquio Palhares; você esteve em contato com o Carlos Magno, o Lilico, nosso diretor de Trilhas e gerente operacional da ONG.

        
        Eu idealizei os Passos de Anchieta em 1996 quando, nos preparativos para a comemoração do IV Centenário da morte do padre, que se daria em junho de 1997, deparei-me com a informação de que ele preferira passar os seus dez últimos anos de vida na Vila de Rerigtiba, no litoral Capixaba, hoje cidade de Anchieta, porque ela lhe evocava San Cristobal de Laguna, de Tenerife, nas Ilhas Canárias, de onde ele viera depois de passar alguns anos em Coimbra, tendo sido designado para o Brasil em busca do suposto clima tropical que faria bem à sua tuberculose óssea. Quando foi dispensado das funções formais da Companhia de Jesus ele escolheu morar no Espírito Santo.
 
        Também sou peregrino por vocação. E quando me deparei com este dado, o insight foi imediato: o caminho está pronto porque o rigor histórico nos favorece: Anchieta andava sempre pela praia ou trilhas paralelas. Daí juntei um grupo de amigos, inclusive o Carlos Magno e fomos testando a  viabilidade da caminhada que depois se tornou conhecida naturalmente.
 
        Pela grandeza de sua experiência e sua preciosa atenção em narrar com poesia e erudição as percepções do caminho, permito-me avançar um pouco mais: antes de pensar em resgatar do limbo da história o Caminho de Anchieta – ele escolheu passar seus últimos anos no Espírito Santo por especial empatia com essa terra – eu já experimentara percepções transcendentais de uma boa caminhada. E atinei para o fato de que o caminhante contempla duas paisagens: a externa, do cenário que o rodeia, e a interna, dos sentimentos e reflexões que raramente são visitadas atropelados que somos pelas contingências do cotidiano.
 
        Descobri, enfim, que o caminho verdadeiro costuma ter 25 cm , a distância entre o intelecto e o coração, e toda caminhada oferece essa bela oportunidade de ensimesmamento, introspecção, recolhimento, quando então a gente permite que o mestre que dormita em nosso interior aflore. Aí, as reflexões sobre os nossos tantos papéis na vida nos fazem rever esses papéis, tornarmo-nos juízes de nós mesmos, nós que somos quase sempre juízes dos outros.
 
        Tratei uma longa depressão caminhando sobre o sol de maio a setembro (o mais bonito do ano, pra mim). E desde então descobri que o caminho está dentro de cada um. Depois andei na Espanha, no Caminho dos Filósofos, na Alemanha e culminei, com mais quatro amigos – exatamente os que me ajudaram a construir Os Passos de Anchieta,  percorrendo os passos de Jesus na Palestina, andando de Nazaré até Belém, incluindo contornando todo o Mar da Galiléia. A caminhada, pra mim, é a melhor metáfora do viver.
 
        As dificuldades, a vontade de desistir, o desalento, a alegria pelo triunfo sobre os próprios limites, o regozijo pela superação, a experiência de alternar  paisagens e companhias, ora ao lado de alguém  ora o ritmo do caminhar nos proporciona outras companhias, enfim, quem gosta de caminhar sabe porque gosta.
 

        Bem, devo acrescentar que a partir da divulgação nacional, virtualmente em todos os cantos do país, Os Passos de Anchieta operaram uma façanha admirável: inspirou o surgimento de outros e muitos caminhos já que as pessoas que aqui acorriam e acorrem viram a possibilidade de replicar em seus lugares, até com motivos diferentes, a experiência de  reproduzir caminhos que então proliferaram: Caminho da Luz, Caminho das Missões, Caminho do Sol, Rota do Imigrante, etc....inclusive a rota que não estimula a caminhada ´porque é percorrida de veículos, a Estrada Real, de Minas ao Rio, claramente inspirada nos Passos de Anchieta.

        Foi estimulante e gratificante colher o seu depoimento. Espero que você tenha nosso DVD com as imagens da caminhada anual que se realiza todo ano a partir do dia de Chorpus Cristi quando uma multidão de três a quatro mil pessoas enfileira-se ao longo de todo o trecho percorrido por você oferecendo uma fantástica visão. Se não tem vamos providenciar como uma lembrança dos Passos. Aliás, os Passos, por tudo que um caminho nos mostra, estará sempre dentro de você.

       Com o afeto andarilho,

       Eustáquio Palhares