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CAMINHOS NO BRASIL


CAMINHOS NO BRASIL

Peregrinação em Rotas Brasileiras - Mônica B. Campos

Incorporando o Espírito do Caminho






Nas últimas décadas, houve um 'boom' de circuitos para peregrinação no Brasil: Caminho do Sol (SP), Caminho da Luz (MG), Caminho da Fé (MG/SP), Caminho das Missões (RS), Passos de Anchieta (ES), Nos Passos do Padre Ibiapina (PA). É um fenômeno que tem suas raízes no descobrimento que os brasileiros fizeram da rotas do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, a partir da leitura do livro O Diário de um Mago de Paulo Coelho. São várias rotas possíveis no Caminho à Santiago de Compostela: Caminho Francês, Caminho Português, Via de la Plata, Caminho do Norte, Caminho Aragonês etc. O Brasil é o país de fora da Europa que mais envia peregrinos a Compostela. Há até uma Associação dos Amigos do Caminho de Santiago (AACS-Brasil) com sede no Rio de Janeiro e regionais em todo o Brasil que ajuda na preparação de quem vai peregrinar na Espanha realizando reuniões, caminhadas, palestras e depoimentos de quem já foi para partilhar a experiência.

E parece que a experiência de caminhar pelas rotas de fé "jacobeas" (Jacob=Tiago) incorporou-se à espiritualidade das pessoas que por lá foram, a ponto de muitos criarem associações e rotas de peregrinação no Brasil.

Passos de Anchieta é o nome do roteiro que reconstitui a trilha habitualmente percorrida pelo Padre Anchieta nos seus deslocamentos da Vila de Rerigtiba, atual cidade de Anchieta, à Vila de Nossa Senhora da Vitória onde cuidava do Colégio de São Tiago. São 4 dias caminhando ao longo de uma extensa faixa litorânea de Anchieta a Vitória no total de 100km, com uma jornada média de 4 a 5 horas de caminhada. 




O Caminho das Missões, no Rio Grande do Sul, é relacionado ao mito indígena da Terra Sem Males e as missões jesuíticas que foram utilizadas para catequizar e colonizar a América Latina. Há 3 roteiros para caminhadas, que depende da cidade por onde começa a peregrinação: 3 dias a partir de São Miguel das Missões, percorrendo 72km, 7 dias a partir de São Nicolau, totalizando 170km e por fim, 13 dias, saindo da cidade de São Borja perfazendo 325km. Todos finalizam na cidade de Santo Ângelo.

O Caminho do Sol é fundamentalmente inspirado no Caminho de Santiago. A cidade de Águas de São Pedro fundada no dia 25 de julho, dia Santiago, e local onde termina a peregrinação, tem como padroeiro o santo e apóstolo Tiago, em decreto promulgado por Dom Moacyr Vitti em 2003, bispo da diocese de Piracicaba. Em matéria do "Mais Você", programa de Ana Maria Braga na rede Globo, o Caminho do Sol foi descrito como "a versão paulista do Caminho de Santiago".

O idealizador do Caminho da Luz, Albino Neves, depois de peregrinar em Santiago, Palestina, Roma, Jordânia e Fátima (Portugal) foi intuído a criar o Caminho da Luz, uma rota de peregrinação que tem início em Tombos (Portal de Minas), onde está situada a quinta maior cachoeira em volume de queda d'água do país, e é concluído no Pico da Bandeira, o terceiro mais alto do país e o primeiro mais alto acessível. "São 195 quilômetros percorridos pelas montanhas de Minas em 7 dias de caminhada (ou em menos, se de bicicleta ou a cavalo), passando por fazendas centenárias, matas, cachoeiras, santuários e antigas estações ferroviárias."

O Caminho da Fé termina no Santuário de Aparecida do Norte, padroeira do Brasil e é a rota mais extensa dos caminhos brasileiros, alcançando 497km a partir da cidade de Descalvado no interior do estado de São Paulo, num circuito que também passa pelo território mineiro.

Nos Passos do Padre Ibiapina é o caminho mais recente, desenvolvido a partir e outubro de 2003, implementado com o aporte financeiro do Sebrae-Paraíba. Padre Ibiapina é exemplo de fé e obras, com as próprias mãos e ajuda do povo nordestino construiu escolas, casas, igrejas, hospitais, cemitérios, açudes, obras de assistência, entre outras coisas. São 4 roteiros ou percursos de 1 a 3 pernoites, dependendo da rota escolhida.


Assim como não existe um único Caminho de Santiago, "senão uma rede de caminhos que levam a Santiago, alguns mais conhecidos e por isso mesmo melhor estruturados, outros menos divulgados e com pouca ou nenhuma oferta de albergue de peregrinos", conforme indica Paulo César Giordano, mestre em Ciências da Religião e estudioso sobre o Caminho de Santiago de Compostela, assim também no Brasil concretiza-se uma "rede de caminhos" ou "rede de peregrinações" formada por aqueles que foram caminhar na Espanha. Este parece ser um fenômeno brasileiro, relacionado principalmente a classe média e média alta da população brasileira.

Vários peregrinos que vão a Compostela também percorrem os caminhos do Brasil e concordam que há diferenças entre caminhar lá e aqui: "O Caminho de Santiago é o grande sonho de um peregrino", diz Djair do Rio de Janeiro. Djair também é experiente em caminhos brasileiros, já foi 4 vezes ao Caminho da Luz, 2 vezes ao Caminho da Fé e 1 vez ao Passos de Anchieta:

"Caminhar nos caminhos brasileiros também é muito bom. A gente conhece o povo do lugar. A simpatia e a hospitalidade de quem vive no interior deste Brasil. Vê como é o dia a dia desta gente que retira da terra o seu sustento. Tenho o prazer de ter uma prosa com o pessoal destes rincões. Tomamos uma cachacinha, tomamos um café, comemos um pedaço de aipim, etc.etc.Tudo colhido ali mesmo.Quando estou nos caminhos brasileiros procuro sempre conversar muito com o pessoal do lugar. Fiz muitos amigos com os sitiantes que moram à beira do caminho. Quando volto, em alguns lugares sou convidado para o almoço."

Mas nem tudo são flores pelos caminhos. Uma peregrina que prefere não se identificar, percorreu dois caminhos do Brasil: do Sol e da Luz. E faz críticas quanto à organização dos caminhos brasileiros:

"Os caminhos brasileiros quase sempre têm "donos". A gente precisa pedir autorização para fazê-los. O Caminho do Sol tem que se pagar pela autorização de caminhar, além da despesa com hospedagem e comida. A infra-estrutura é precária e não se pode caminhar o quanto o caminhante quer ou pode e sim o quanto é necessário para chegar até o ponto onde tem lugar para dormir e comer. Os "hospitaleiros" não são peregrinos e visam, antes de tudo, ao lucro. Nos dois caminhos a decepção foi maior que o prazer de caminhar. Depois disso, fiquei muito reticente quanto a voltar a caminhar por aqui."

Independente das contradições que existem peregrinar é uma experiência marcante carregada de símbolos. O padre Armindo dos Santos Vaz exprime a experiência da peregrinação da seguinte forma:

"A peregrinação amplia e enriquece com uma experiência de Deus mais intensa, festiva e emotiva, os limites da nossa habitual visão do mundo. Pessoas de várias culturas, etnias, línguas, idades e procedências, marcadas por múltiplas situações humanas de sofrimento e de esperança, convergem para um ponto comum, ao encontro do outro, para partilhar pedaços de vida e procurar na peregrinação algo que está para além do ordinário e finito da existência humana. Assim antecipam a humanidade ideal e a fraternidade universal, reunida no Espírito do único Deus. A peregrinação exprime simbolicamente a grandiosa realidade do povo de Deus, que se mobiliza na procura do Deus vivo".




Paulo César, depois de pesquisar os livros publicados pelos peregrinos brasileiros, revela algumas peculiaridades:

"Em vários momentos se observa com clareza os elementos próprios do discurso da Nova Era e dos novos movimentos religiosos. Expressões como "energia" e "sinais do Universo" são muito recorrentes nos relatos, e aparecem para explicar, sempre de maneira muito subjetiva, uma experiência de ordem transcendental, por exemplo. É interessante notar que, se formos fazer uma comparação com relatos de peregrinos estrangeiros, por exemplo, de peregrinos espanhóis, veremos claramente que existe uma maneira bastante peculiar de escrever sobre a experiência jacobea entre os peregrinos brasileiros, indicando, possivelmente, um reflexo de como os brasileiros se relacionam com sua espiritualidade."

É certo que o milenar Caminho de Santiago foi o grande propulsor dos novos ou redescobertos caminhos brasileiros. O tempo "dirá" se isto é só uma moda ou um modo de viver espiritualidade.


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