3º dia – CACONDE a DIVINOLÂNDIA – 24 quilômetros


3º dia – CACONDE a DIVINOLÂNDIA – 24 quilômetros

Quebre as regras. Encontre sua liberdade. Viva sua vida!




Embora esse trajeto, também, me fosse inédito, já sabia que ele seria de média extensão e apresentaria uma forte aclividade a ser vencida, após 8 quilômetros de caminhada.

Assim, optei por sair as 5 h 30 min, com o dia já no nascedouro, na certeza de que as dificuldades não seriam de grande monta; ledo engano, como mais à frente explicarei.

Isto resolvido, levantei cedo, fiz alongamentos, orações, ingeri frutas, uma barra de chocolate e no horário aprazado, deixei o local de pernoite, seguindo por ruas vazias e ainda um tanto molhadas, em face da chuva que vertera durante a noite.

Esse trecho inicial e citadino está muito bem sinalizado, de maneira que não tive problemas para encontrar o meu rumo.

Um quilômetro vencido sob piso duro, finalmente, adentrei em terra, seguindo em leve descenso, entre grandes fazendas de criação de gado, uma tônica na região.

Sem quaisquer novidades, percorridos 4 quilômetros, por uma ponte, eu atravessei o rio Pardo, depois, do outro lado, fleti à direita, e segui paralelo ao seu curso, num percurso hidratado e de paradisíaca beleza.

Nesse trajeto, passei diante de belas e bem-cuidadas casas e chácaras, situadas ao lado do caminho.

Percorridos 8 quilômetros, obedecendo a sinalização, eu fleti, radicalmente, à esquerda, num ângulo de 90 graus, então, teve início forte aclive, que fui vencendo, pausadamente.

Nesse trecho inicial, passei diante de casas de sitiantes, depois, mais acima, transitei em meio a extensos cafezais.

Quanto mais eu ascendia, mais a visão da paisagem que ficara à minha retaguarda se tornava imorredoura e bela.

Quase na metade da montanha, conversei com um sitiante que tangia seu gado para um curral e, dentre outros assuntos, ele me disse que eu estava escalando o Morro do Rosseto, mas que o trecho final era conhecido como Morro do Cigano.

Morador daquele local há mais de 50 anos, não sabia quem os nominara e, como confessou, muito menos, a origem daqueles nomes “batismais” para a serra que eu enfrentava.

O tramo final foi trilhado sob frondosa mata nativa, onde tive a feliz oportunidade de observar um bando de tucanos se banqueteando numa fruteira.

Foram exatos 3 quilômetros vencidos em ríspida inclinação, até o topo do morro, situado a 1.170 m de altitude.

Prosseguindo, o descenso que seguiu, pelo lado oposto, foi cumprido com extremo cuidado, porque um simples escorregão poderia redundar numa queda espetacular e até fatídica.

Superados 13 quilômetros, eu transitei pelo bairro Boavista, que já pertence a Divinolândia, onde pude fotografar uma graciosa igrejinha e conversar, ainda que rapidamente, com 3 moradores locais.

A partir desse marco, houve uma sucessão de aclives e descensos, alguns de forte intensidade.

Nesse intermeio, observei culturas de cenoura, milho, batata e cafezais, além de extensas pastagens.

O trajeto seguiu sempre em perene ascenso, com um entorno magnífico, até que, percorridos 18 quilômetros, no topo de um morro, cheguei a 1269 m, no ponto de maior altimetria dessa etapa.

Os 2 quilômetros sequentes foram vencidos em leve declividade, até que, em determinado patamar, quando me restavam 4 quilômetros para a chegada, principiei a descender com violência.

Diria que esse trecho final foi vencido com extrema dificuldade, pois continha muitas pedras soltas no leito da estrada.

No sentido de preservar minha higidez, bem como não sobrecarregar os joelhos e tornozelos, meu cajado teve papel decisivo, para que pudesse manter meu precário equilíbrio até o final.

Já em zona urbana, segui caminhando, sem maiores novidades, até o centro de Divinolândia, minha meta final.

Por sorte, o dia se manteve, quase sempre nublado ou com sol tímido, facilitando, sobremodo, meu deslocamento.

Algumas fotos do trajeto desse dia:


Ponte sobre o rio Pardo.


Muito verde no entorno, a tônica nesse ramal.


Em ascenso, pelo morro do Rosseto. Cafezais a frente...


Paisagem que se descortinava à minha retaguarda...


Ainda em perene ascenso..


O trecho final da montanha, já no morro do Cigano...


Restam só 380 quilômetros até Aparecida.


Descendendo em direção ao bairro Boavista, que aparece abaixo.


Ainda em forte descenso...


Capelinha existente no bairro Boavista.


Outro aclive a ser vencido.


Novo descenso forte. O caminho prossegue em ascenso, já do outro lado do vale.


Paisagens de grande beleza e bucolismo.


Caminhando em direção ao tope final.


Em fortíssimo descenso. Divinolândia já aparece abaixo.

Antes do surgimento da primeira capela nas terras da atual Divinolândia, toda a região se cobria de intrincadas matas que se estendiam por serras, vales e planícies, intermináveis, perdendo-se no horizonte distante.

Os homens passavam, em viagem, cavalgando pelos caminhos estreitos que avançavam para dentro das selvas, cortando-as com um golpe de adaga nas ondas do oceano. Os primeiros aventureiros iam chegando, ressabiados, para ficar.

Erguiam ranchos e choças e demarcavam as terras, que eram de ninguém, desmatavam-nas e exploravam-nas, praticando a agricultura de subsistência. Outras famílias iam chegando, estabelecendo-se, deitando raízes pela terra generosa, encorajada pela presença bem-sucedida dos outros agricultores assentados nas terras já há muito tempo.

Por volta de 1850, Divinolândia se resumia na referida capela e num pequeno rancho à margem do Rio do Peixe, que servia de abrigo aos tropeiros que por ali pernoitavam, provenientes de Caconde, com destino à vila de Casa Branca.

De repente, um incêndio de causa ignorada, provavelmente causado por fogo caseiro esquecido a um canto do rancho, por um tição qualquer que ficou aguardando um sopro do vento após a partida dos tropeiros. E o rancho foi consumido, alastrando-se o fogo por toda a área circulante. Novo rancho foi erguido e o local recebeu a denominação de POUSO DO SAPECADO.

Em 1881, Joaquim Pio de Andrade e sua esposa, D. Francisca Maximiniana da Costa, também doaram duas partes de terras à Capela Nossa Senhora do Rosário, fundada em 1879 por Manoel Pereira da Silva. O Sr. Manoel Pereira da Silva, fundador da Capela, também fez importante doação de terras ao Divino Espírito Santo. Doou terras à margem do Rio do Peixe, numa extensão de 20 e tantos alqueires.

Quanto à economia o Distrito produzia uvas, pêssegos, maçãs e marmelos, que era natural do Distrito, daí ficando conhecido como “Terra do Marmelo” em 1929. Essas terras produziam muito café devido ao clima, relevo e a mão de obra era escrava. O negro escravo produzia o máximo entre 18 e 30 anos, após era considerado velho, pela péssima alimentação que recebia e trabalho altamente pesado.


Igreja matriz de Divinolândia/SP.

A 30 de novembro de 1938, pelo decreto 9.775, o distrito recebeu a denominação oficial de SAPECADO, nome pelo qual já era conhecido há muito tempo, desde o incêndio do primeiro rancho, quando o local recebeu o nome de Pouso do Sapecado.

Por volta de 1950, famílias espanholas iniciaram o plantio de batatas, que se tornou o principal produto em virtude de terras boas para esse plantio e também da decadência da lavoura cafeeira, em termos de mercado e relevo muito acidentado, que dificultava o seu plantio e sua colheita.

Divinolândia ficou conhecida como “Capital da Batata”.

Politicamente emancipado SAPECADO recebeu o nome de Divinolândia, na comarca de São José do Rio Pardo (Comarca com sede na vila de igual nome), pela Lei 2.456, de 30 de dezembro de 1953. Por que Divinolândia?

A harmoniosa denominação Divinolândia em um equilíbrio fônico admirável e pode-se dizer, sem espírito bairrista, que é um nome bonito. Seu significado é TERRA DO DIVINO (ESPÍRITO SANTO) e corresponde à denominação anterior “ESPÍRITO SANTO DO RIO DO PEIXE”, surgida em consequência da edificação da primeira capela nas nossas terras, sob a invocação do Divino Espírito Santo. LÂNDIA é o aportuguesamento do vocábulo LAND (“terra”, em alemão, cuja pronúncia é “láand”). DIVINO vem do latin DIVINUS e significa “pertencente à divindade, de Deus”.

Poder-se-ia, também, atribuir a essa denominação DIVINOLÂNDIA o significado de TERRA DE DEUS.

Gostaria de chamar a atenção do internauta para um fato interessantíssimo: A primeira capela erigiu-se sob a invocação do Espírito Santo; o povoado passou a denominar-se ESPÍRITO SANTO DO RIO DO PEIXE; mais tarde, com a emancipação política do distrito de Sapecado, recebeu ele o nome de Divinolândia, que é TERRA DO DIVINO (ESPÍRITO SANTO).

Hoje é uma grande produtora de café de qualidade. População atual: 12 mil habitantes

Fonte: http://www.divinolandia.com.br/



A cidade já vivia clina natalino, vestindo decoração apropriada. Ao fundo, a igreja matriz da cidade.

RESUMO DO DIA: Clima: Frio e ventoso de manhã, depois, nublado/levemente ensolarado, variando a temperatura entre 16 e 24 graus.

Pernoite na Pousada Triângulo - Apartamento individual excelente! Preço: R$70,00!

Almoço no Restaurante da Dora - Ótimo! – Preço: R$39,90 o kg, no sistema self-service.


Altimetria da etapa.

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de média extensão e que apresenta vários obstáculos altimétricos, mormente a escalada pela encosta do morro Rosseto/Cigano, de grande intensidade. No intermeio, também há vários topes a serem sobrepujados, numa sequência bastante excruciante. Mas, em minha opinião, os locais de maior risco estão alocados nos ríspidos descensos existentes no percurso, com ênfase, para o que dá acesso ao bairro Boavista, bem como os 4 quilômetros derradeiros, por conterem pedras soltas em seu leito, um pérfido risco para os joelhos/pés do caminhante. Em compensação e para a minha sorte, o clima se manteve fresco e nublado. No global, diria que se trata de um trajeto que envolve intenso desgaste físico, com ascensos desafiadores e entraves bem mais rudes do que eu, inicialmente, supunha. Contudo, pleno de beleza ímpar e paisagens imorredouras. Com certeza, uma etapa inesquecível!