Home‎ > ‎Relatos Peregrinos - II‎ > ‎

22.ª ETAPA - 19 de setembro - PONFERRADA a VILLAFRANCA DEL BIERZO


Roberto Fernandez (*)
22.ª ETAPA - 19 de setembro - PONFERRADA a VILLAFRANCA DEL BIERZO

Dormir em Ponferrada exigiu o exercício do equilíbrio e da tolerância.

Alguns espanhóis e brasileiros encontravam-se no pátio situado na parte central do albergue, promovendo uma animada algazarra, conversando e cantarolando até altas horas da noite.

Mais que esforço, restava-me compreender que não estávamos num templo de monges budistas e sim numa comunidade com mais de cinqüenta peregrinos, em que se exacerbam os sentimentos de júbilo e de arrebatamento, voluntariamente ou não.

Num repente a manhã chegara. Passava pouco das seis horas. Raios teimavam em riscar a escuridão dos céus a todo instante. Nada mais ameaçador para um peregrino.

O café já estava à mesa que avançava por quase todo o espaço da grande cozinha. Delfina e José, os hospitaleiros, num frenético vaivém, ocupavam-se de que nada faltasse.

Em pouco minutos o salão ficara completamente tomado por peregrinos. O tempo enfim dera uma trégua, dando-nos a impressão de que não choveria.

Era hora de caminhar. E os soldados de Santiago puseram-se a marchar os últimos quilômetros em campos Leoneses.

Vinte minutos ziguezagueando pelas ruas de Ponferrada. À minha frente uma dezena de romeiros já revestidos com suas capas protetoras de chuva. Um verdadeiro séquito de corcundas seguindo confiantes em meio à madrugada e mais uma vez liderados pelo grupo de franceses.

Desde à saída do refúgio encontrava-me taciturno. A escuridão e a ameaça de chuva completavam o quadro de tristeza e melancolia que comumente me acomete nessas horas.

A chuva que até então apenas nos espreitava, passa a cair torrencialmente, forçando-nos a abrigar sob a cobertura de um posto de combustível.

"Pai, você é a melhor coisa que existiu para mim. Te amo. Conrado".

Mal sabia eu que este pequeno pedaço de papel amassado, caído ao retirar a capa plástica protetora da mochila, seria o elemento transformador e inspirador do meu dia.

Contive o choro mas não as lágrimas. Meu coração foi tomado de sentimentos adormecidos, uma explosão de prazer e de gratidão.

Era apenas um texto ingênuo mas que compreendia a maravilhosa sinceridade de uma criança, o que bastava para exaltar minha alma e dar-me força para transpor montanhas, cruzar por desfiladeiros, desafiar demônios e tempestades.

Passava das sete horas quando finalmente deixamos a cidade sobre o rio Sil em direção a Fuentes Nuevas e Camponayara avançando por férteis campos de hortaliças e de cultivo de cereais. O exuberante verde das paisagens contrastava com a aridez dos desertos que me acompanharam por um bom pedaço de tempo nas terras da província de Léon.

O que se via agora era um claro prenúncio de que a Galícia e seus campos verdejantes estava muito próxima. Vales, montanhas e vinhedos estão a rodear Cacabelos uma cidade reedificada no inicio do século XII após ter sido destruída por um terremoto.

Eram pouco mais de dez horas quando cruzamos a cidade pela "Calle de los Peregrinos", ou rua dos peregrinos. À esta hora, tarde para os nossos padrões, quase nenhum movimento pelas estreitas ruelas a não ser um ou outro morador movimentando-se vagarosamente, além de alguns automóveis estacionados.

Não tenho pressa. Villafranca está logo à frente, pensei.

Um pequeno arbusto fincado no alto de uma monte foi por alguns momentos minha sala de reflexão. Minha mente vagava serena e calmamente sobre os acontecimentos que marcaram o amanhecer. Gozava nesse instante de absoluta paz.

Em meio a um misto de êxtase, de euforia e de arrebatamento eu constatara que os raios do sol haviam inundado meu coração antes mesmo que se fizesse dia.

Fiz tão pouco por meus filhos e ainda assim eles me eram tão generosos.

Somente corações magnânimos entregam-se ao amor sem nada pedir em troca.

Agradeci profundamente a Deus pelo privilégio de ter pessoas tão especiais, pedras preciosas, tesouros da minha alma.



A eles pedi perdão pelas tantas vezes que insensivelmente os havia magoado;

- pelas vezes que eles só queriam brincar com seus amiguinhos e eu imperativo dizia não!
- pelas vezes que eu obriguei-os a desconectar o computador para que eu pudesse telefonar!
- pelas vezes que ao ouvir um simples "pai" durante o Jornal Nacional, me faziam colocar o dedo em riste, frente à atônitos rostinhos;
- pelas tantas vezes que mudei o canal que assistiam sem nem sequer pedir-lhes licença;
- pelas tantas vezes que neguei minutos do meu tempo para ajudá-los a arrumar um brinquedo ou para jogar bola no jardim de casa;
- pelas vezes que disse "não" quando nem sequer ouvia o que diziam;
- pelas tantas vezes que neguei-lhes um afago, um pequeno olhar de aprovação, um sorriso que fosse.

Não posso perder mais tempo meus filhos, pensava tomado de angústia.

Quero amá-los profundamente a cada dia de nossas vidas, da maneira que vocês quiserem.

Esperar pelo amanhã poderá ser tarde demais.

Tarde demais para pedir-lhes perdão;
tarde demais para abraça-los;
tarde demais para darmos gostosas gargalhadas;
tarde demais para podermos falar sobre sonhos, sobre o porque da tristeza, o porque da alegria...
Quero estar aos seus lados brincando sob a chuva;
quero dispor de tardes do meu trabalho para simplesmente sairmos por aí, descalços, despretensiosamente e deliciar-nos com um cachorro quente, com um sorvete, e talvez nem isso vocês me peçam.

Esperar pelo futuro, pelo amanhã, poderá ser tarde demais.

Sabe filhos, quando o crepúsculo da vida chegar, quero a sensação de sonhos realizados. Não importa se à época tão sem importância, tão tolos pudessem parecer.

Não desejaria que o tempo voltasse para corrigir erros passados.

Compreendi que a vida vivida, o tempo que passou, são como cenas gravadas de um filme. Não podem ser mudadas.

Quem sabe filhos, implorando numa súplica silenciosa, enquanto não se rodar a ultima cena, ainda haja tempo para mudar o roteiro, mudar a história da vida.

Fui "acordado" por um buenas tarde de um peregrino que se aproximara sem que me apercebesse.

Villafranca del Bierzo desponta repentinamente aos meus olhos e está fincada nos baixos vales de Del Bierzo, rodeada de montanhas e pelos rios Burbia e Valcarce. É a ultima cidade em terras leonesas, fundada no século X a partir de um assentamento de francos.

A Iglesia de Santiago está logo à entrada de Villafranca. Uma magnifica porta de entrada ou "Puerta del Perdón". Ali peregrinos impossibilitados de prosseguirem o caminho até a terra do apóstolo, alcançavam suas indulgências por concessão do Papa Calisto III.

Logo ao lado, o albergue da Família Jato e de que muito ouvira falar ao longo do caminho. Simples e despojado. No andar térreo, balcão de recepção, bar, mesas e cadeiras, e uma infinidade de souvenirs sobre o caminho. No canto direito um amontoado de mochilas, talvez umas cinqüenta, chamara-me a atenção. Eram de peregrinos que cedo partiram. Elas seguiriam ainda hoje de "furgoneta" até o refugio de El Cebrero, levadas pelo próprio Jésus Jato, para poupar o caminhante desse fardo e do sacrifício imposto pela temível subida do Cebreiro.

No andar superior de uma construção de madeira que rangia a cada passo, sessenta leitos apinhados completavam a "desorganização sob controle" daquela pousada.

Falando alto, quase exaltado, rapidamente e abaixando-se sob as camas, foi recolhendo uma a uma, todas as botas e calçados que pela frente encontrava e dizendo que deveriam ficar próximas aos banheiros, situados no andar térreo. Dizia em voz alta para que todos ouvissem, e que só fazia isso para que não houvesse barulho ao caminhar.

- E é também para evitar o mau cheiro, completou rindo e quebrando aquela aparente sisudez.

Era Jesus Jato, cabelos grisalhos, bigodes espetados, magro, ágil como um gato, e também como este, tinha o fôlego.

O dia, chuvoso e melancólico prolongara-se até a noite. O albergue de Jato contrariava esse manto de tristeza, transformando-se numa ruidosa e alegre família. Caldos, pães e vinhos nas mãos hábeis de sua esposa e filhas cruzavam o salão ao encontro de esfomeados andarilhos. Não tinha dúvidas de que o salão do refúgio Ave Fênix estava sob as estrelas, sob a via láctea.

Recolhi-me ainda cedo.

Embora tivesse caminhado pouco aquele dia, sentia-me fatigado. Passado o estado de euforia encontrava-me agora completamente relaxado pelo "encontro interior" com meus entes queridos.

Um oceano nos separava, porém nunca os senti tão perto.

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br