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Caminho de Santiago de Compostela


Inácio Teixeira Neto (*)

Caminho de Santiago de Compostela


A primeira vez que ouvi algo sobre o Caminho de Santiago, foi quando da publicação do livro do escritor Paulo Coelho. Depois disso, ouvi comentários de pessoas que haviam feito essa caminhada.

No final de 2000 e inicio de 2001, fiz pesquisas através da internet, sobre o Caminho de Santiago e descobri a Associação dos Amigos do Caminho, aqui em São Paulo, onde é possível obter informações importantes. Ao lado da Associação, existe também uma loja que vende os materiais necessários para a caminhada e que também fornece "dicas" importantes.

A minha primeira providência foi adquirir o guia "El Camino de Santiago a Pie". Esse guia é importante para programar a viagem e também como orientação durante a caminhada.

Analisando as informações do guia, montei algumas premissas básicas para realizar a caminhada:

1. Faria o percurso partindo de Saint Jean Pied de Port (Caminho Francês);
2. Utilizaria somente hotéis para pernoites;
3. Estabeleci um percurso com duração de cerca de 30 dias;
4. Caminharia sozinho ou pelo menos, manteria o meu ritmo de andar.

Uma vez decidida à viagem, saímos de São Paulo (eu e minha esposa) no dia 23.04.01, com destino a Pamplona, passando antes por Madri. Chegamos a Pamplona no dia 24.04.01 e, imediatamente, tomamos um táxi para chegar a Saint Jean Pied de Port (França). O custo do táxi foi de $ 9.500 pesetas, o que representou cerca US$ 50.

Chegamos em Saint Jean por volta das 12 horas e pernoitamos no Hotel Central.

Tínhamos conosco apenas as mochilas, uma vez que havíamos despachado, pelo correio de Pamplona, uma outra mala com roupas, a qual retomaríamos quando da chegada em Santiago.

No dia 25.04.01, pela manhã, foi iniciada a caminhada que, conforme o guia, seria de 774 kms. Cheguei a Santiago de Compostela no dia 22.05.2001.

Não vou entrar nos detalhes diários da caminhada, uma vez que isso está muito bem descrito no guia.

Vou mencionar apenas a minha impressão geral desse evento.

Não tenho muita intimidade com aspectos religiosos e assim, o meu objetivo para essa caminhada era muito mais voltado para o aspecto esportivo e cultural.

Sem duvida, iniciar a caminhada é algo que causa uma certa ansiedade e foi isso que eu senti na noite que passei em Saint Jean. Transpor os Pirineus foi algo importante, até para se avaliar as condições de se executar a missão. Ao terminar o primeiro dia de caminhada, com a chegada a Roncesvalles, eu já podia ter algumas conclusões importantes:

· Não é possível realizar a caminhada, sem ter um condicionamento físico adequado. Pessoas que nunca tiveram atividade física, não vão conseguir realizar a caminhada;

· Não é recomendável assumir riscos demasiados durante a caminhada. Em caso de dúvida sobre a resistência em se cumprir uma etapa, talvez seja melhor um repouso maior ou então fazer o percurso pela rodovia, onde é mais fácil conseguir uma ajuda.

O primeiro dia de caminhada é quase todo de subida e o mais gratificante é chegar ao ponto mais alto (1.400 metros) é vislumbrar toda a paisagem abaixo. Em Roncesvalles é muito interessante assistir à missa realizada diariamente (às 20 horas).

Depois de Roncesvalles e até Santo Domingo de La Calzada (cerca de 190 kms), a caminhada oferece uma paisagem bastante agradável, já que o caminho atravessa bosques, pequenos rios e campos de diversas culturas. Nesse trecho, a cidade mais importante é Pamplona, mas para o caminhante isso não é propriamente algo interessante; é mais agradável passar e conhecer pelos pequenos povoados existentes ao longo do caminho. Nesse trecho, conclui que não é necessário levar lanches na mochila, já que existem bares onde é fácil fazer-se pequenas refeições.

A partir de Santo Domingo de La Calzada, o caminho passa a não apresentar nada de especial no que se refere aos aspectos de natureza. Em geral, há muitas planícies, onde prevalece a cultura do trigo e por isso, o que se vê são grandes quantidades de canais de irrigação.

Para poder chegar a um local onde houvesse hotel, eu fiz um percurso de 50 kms num dia, indo de Belorado a Burgos. Foram cerca de 11 horas de caminhada, inclusive passando por locais aonde a altitude chega acima de 1.000 metros. Depois desse trecho, fiz um descanso em Burgos, onde permaneci um dia sem atividade.

Em Santo Domingo de La Calzada, nos hospedamos num Parador. Nessa cidade, uma pessoa circula diariamente (às 18 horas) pela cidade, batendo um tambor para convidar as pessoas para a missa. Também às 4 horas da manhã esse tambor é tocado e para esse horário eu não descobri a razão. Talvez seja para acordar as pessoas.

Em Rabanal del Camino, existe uma cerimônia religiosa realizada em canto gregoriano, algo que merece ser visto e ouvido.
As cidades mais importantes nesse trecho são Burgos, Leon e Astorga, que oferecem aspectos turísticos bastantes interessantes. Em Burgos, existe uma catedral muito bonita, onde pode ser visto o túmulo do "El Cid". Astorga é uma cidade que ainda guarda os murros feitos pelos romanos, aliás, a principal marca histórica de todo o percurso, são as pontes românicas, existentes em todos os rios.

O trecho mais difícil de ser vencido é a subida do Cebreiro (1.300 metros de altura). Calculo que são cerca de 10 kms, sempre em subida, onde a velocidade da caminhada cai muito em relação aos trajetos plano ou não tão inclinado. Por falar em velocidade, calculo que a minha caminhada, em condições de pouca dificuldade, era de 4 a 5 kms por hora. Na subida do Cebreiro, não consegui ir a mais do que uns dois quilômetros por hora. Outra dificuldade desse trecho é o fato de que uma grande parte do caminho se faz pela rodovia, onde o trafego de grandes caminhões é muito intenso. Outra dificuldade grande é realizar a descida da montanha onde está a "Cruz de Ferro" até El Acebo, pois o terreno de descida é bastante inclinado, exigindo muito dos pés e dos joelhos.

A partir de Triacastela, quando faltam uns 130 quilômetros para o final, a paisagem volta a ser agradável, pois novamente temos os bosques, os pequenos rios e o visual de montanha.

Nessa fase final do percurso, aparece a ansiedade de se terminar a caminhada, o desejo de acelerar o ritmo e também de se fazer percursos maiores. É algo que precisa ser dominado, para se evitar problemas físicos que possam comprometer o término da jornada, justamente quando ele está próximo de ocorrer.

Chegar a Santiago de Compostela é algo que provoca um alivio bastante grande, pois existe a satisfação de se ter realizado todo o percurso, totalmente a pé. De outro lado, senti também uma certa decepção, pois a minha expectativa era bem maior do aquilo que vi e senti durante a caminhada.

No meu entender, os pontos positivos do caminho de Santiago, são: a estrutura existente (albergues, restaurantes, bares, sinalizações do caminho, etc.), a forma simpática com que as pessoas residentes nos povoados atendem aos peregrinos, a possibilidade que ocorre de se conhecer e conviver com pessoas de outros países e também brasileiros, o potencial turístico que a região oferece e a paisagem (inicial e final) muito agradável.

Por duas vezes eu errei o caminho e imediatamente fui alertado pelas pessoas, de que não estava na direção correta.

O principal problema que enfrentei foram as tendinites e dores na sola dos pés. Para as tendinites existe uma pomada espanhola (radio salil), que tem um efeito bastante positivo e ajuda muito na recuperação para as etapas seguintes. Apesar de não ter tido bolhas nos pés, esse é um problema que a maioria dos peregrinos enfrenta. Para esse caso, existe um adesivo (compeet), que também é muito bom.

É importante destacar que o "compeet" só deve ser usado quando se pressente a formação da bolha; depois que ela se instala ele não deve ser usado e nesse caso, o que os peregrinos fazem é "costurar" a bolha e deixar que ela desapareça.

No percurso do caminho é possível ver cruzes marcando locais onde faleceram alguns peregrinos.

A alimentação durante todo a caminho é muito boa e não se encontra nenhum problema nesse sentido. Em quase todos os restaurantes é oferecido um menu do peregrino, a um custo de cerca de $ 1.200 pesetas (US$ 7).

Vale ressaltar também que grande parte dos peregrinos não faz o caminho a pé em sua totalidade. Muitos fazem percursos intermediários, utilizando ônibus ou outro meio de transporte.

Quando da chegada em Santiago de Compostela e com a apresentação da credencial carimbada nos diversos locais em que se passa, é concedido ao peregrino a "compostelana". No meu caso e como eu disse que o objetivo não era religioso, recebi apenas um certificado diferente da "compostelana". No meu entender isso é uma discriminação que não faz nenhum sentido. Em todo caso, não realizei essa aventura com o objetivo de ter a "compostelana" e sim pelo prazer do aspecto esportivo e cultural.

Das pessoas que conhecemos durante o percurso não vamos nos esquecer do casal carioca (Eduardo e Cristiane), duas pessoas muito simpáticas e animadoras para uma aventura dessa natureza. Tivemos o prazer de comemorar com eles a realização do nosso objetivo, com um almoço no Hostal Reys Católicos, em Santiago de Compostela. Espero manter contato com os dois, mesmo tendo terminado o caminho de Santiago o que, aliás, já estamos fazendo.

No trecho mais difícil (Belorado > Burgos) tive também a companhia de um senhor australiano que foi importante como companhia para vencer os 50 quilômetros que percorri.

Existem peregrinos que fazem o trajeto em partes, ou seja, a cada ano percorrem um trecho, outros vão a Santiago e retornam a pé para as suas origens, o que significa caminhar por até 1.500 quilômetros, outros partem de lugares mais distantes e caminham cerca de 2.000 quilômetros. Encontrei uma pessoa, que estava indo para Roma a pé, o que significa caminhar por cerca de 4 meses. Há também pessoas que realizam a caminhada por mais de uma vez e também outras que levam seus cachorros.

Na preparação da nossa viagem, ouvimos muitas pessoas dizerem que o caminho poderia ser feito sem dificuldade, mesmo para pessoas que não tivessem preparo físico. Isso não é verdade, e quem se arriscar dessa forma, com certeza não vai conseguir o seu objetivo. Outra informação incorreta é a de que existem máquinas de bebidas espalhadas pelo caminho, até existem máquinas, mas a maioria delas não funciona.

Na minha visão, poderia existir nos diversos povoados existentes no caminho (são cerca de uns 200), atividades culturais para os peregrinos (musica, teatro etc.).

Os peregrinos, sobretudo os europeus, fazem o caminho de forma a se gastar muito pouco dinheiro. Para isso, eles levam muita coisa em suas mochilas, pernoitam somente em albergues (a maioria não cobra nada e aceita doações), alimentam-se daquilo que os demais peregrinos deixam como sobras. É preciso destacar que os albergues dispõem também de cozinhas, onde os peregrinos fazem as suas próprias refeições. Durante a caminhada, tive por companhia um senhor francês que sempre se aproveitava de parte do meu sanduíche para se alimentar.

Quando terminei a caminhada, conclui que aquela seria a única vez em que realizava tal aventura. Hoje, até já sinto vontade de uma nova caminhada, naturalmente por um trajeto diferente, portanto, não é descartável a possibilidade de eu enfrentar de novo esse desafio.

Acho que é importante ao se planejar uma aventura pelo Caminho de Santiago, ter como objetivo principal e fundamental chegar ao final. Para que isso seja alcançado é preciso caminhar dentro dos próprios limites e nunca exigir do corpo mais do que ele pode suportar. Durante a época que fiz a caminhada, o sol nasce por volta das 07 horas e se põe por volta das 22 horas, o que significa pelo menos 15 horas de dia claro, assim, e mesmo que uma pessoa caminhe a 3 quilômetros por hora, (ritmo bastante tranqüilo e seguro) ela pode percorrer cerca de 25 kms por dia, o que vai permitir cumprir a jornada de 774 kms em 30 dias, aproximadamente.

Com relação ao equipamento a ser levado, as "dicas" existentes nos "sites" da internet são perfeitas. Considero que a bota "treking" seja efetivamente o calçado mais adequado para a caminhada.

Com relação à temperatura, ela variou muito no período em que realizei a caminhada: no inicio fazia um frio razoável e no dia em que sai de Burgos fazia zero grau. No entanto, no final, a temperatura já chegava aos 25 graus. Quando passamos por Madri, havia mais calor ainda (35 graus).

Com relação aos hotéis em que pernoitei, vale destacar que eles são bem simples, exceto os Paradores que são de um nível bem melhor. A vantagem dos hotéis, ainda que simples, é que eles têm banho quente e privacidade, indispensável, para o meu caso especifico. O custo dos hotéis varia entre $ 4.000 a $ 7.000 pesetas (entre US$ 20 a US$ 40). Os Paradores tem um preço mais alto, sendo que o de Santiago de Compostela custa cerca de US$ 150.

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br