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Caminho de Santiago de Compostela - Uma Reflexão


Dylvardo Costa Lima (*)

Caminho de Santiago de Compostela - uma reflexão



Não nos cabe aqui fazer uma análise de caráter religioso em particular. Apesar da história do Caminho de Santiago ser de origem católica, ou mais especificamente templária, e ligada à retomada de Jerusalém pelos muçulmanos, hoje o Caminho é acima de tudo ecumênico, e praticantes ou curiosos das mais diversas crendices espalhadas pelo mundo inteiro, ou até mesmo de alguns desprovidos de qualquer crença religiosa, trilham por ele com a mesma desenvoltura. 

Também não quero aqui fantasiar sobre o Caminho de Santiago. Talvez por não ter sido um dos escolhidos, não tive a sorte de ver bruxas ou duendes, nem pude presenciar pessoalmente qualquer forma de milagre, mas ainda assim, posso afirmar com segurança, que o Caminho de Santiago é realmente mágico.

Não há de fato qualquer explicação lógica ou prova material para se confirmar este fato, mas a verdade é que durante o Caminho, se vivencia uma sensação de plenitude e bem estar constantes, que transcende a qualquer explicação racional ou científica imaginável. Sabe-se que, dentre outras coisas, esta sensação de permanente satisfação é decorrente do nível elevado de endorfina endógena liberada em nossa circulação, que faz com que o ato de caminhar seja sempre prazeroso, apesar de toda a dificuldade e sofrimento enfrentados. 

Mas também me parece claro que não é somente isto. O Caminho de Santiago, com seus 800 anos de existência e por onde já passaram alguns milhões de peregrinos(70.000 só no ano passado), que vão de santos a pecadores, de heróis a bandidos, ou apenas de simples mortais, absorveu ao longo deste tempo, um pouco de toda esta energia liberada por cada um de nós, o que tornou a sua atmosfera tão especial. 

Evidentemente que o fato de se estar afastado de todos os problemas de ordem pessoal ou profissional, pelo fato de se estar em contato próximo e direto com uma natureza bonita e diversificada, com uma cultura ao mesmo tempo estranha e atraente, e pelo fato de se caminhar grande parte do tempo de forma solitária, isso tudo faz com que cada um de nós canalize toda a sua energia disponível para um ato de introspecção individual e de auto-conhecimento, e passe a comungar com outros canais que extrapolam a nossa vontade ou consciência, o que funciona quase que como uma auto-análise existencial.

Situada abaixo da Via Láctea, Santiago de Compostela tem uma localização geográfica privilegiada, por ser um dos pontos de maior energia e vibração da Terra, e creio ser este, um dos fatores que a torna tão rica em mitos e lendas, de milagres e crenças. A Galícia, aonde ela se situa, foi terra da civilização Celta, uma das primeiras no mundo a dominar a arte da magia e do ocultismo e assim, não deve ter sido à toa que magos, bruxas e druidas da Idade Média elegeram esta região(assim como uma parte da Irlanda), o seu local preferido para habitar e desenvolver a sua arte.

É lógico que apenas estas justificativas não bastam, se cada peregrino não deixar o espírito aberto e estiver receptivo a compreender os sinais emitidos pelo Caminho. Porque somente assim, instintivamente vai se percebendo as coisas ao redor, e se “faz o Caminho” de verdade. De outro modo, só se anda. Fazer o Caminho de Santiago implica então, em se estar envolvido por toda esta atmosfera de compromisso, de solidariedade, de resignação, de coragem, de determinação e de respeito ao próximo e à natureza, enfim, de se deixar envolver por sentimentos de fraternidade e de fé absoluta na evolução espiritual da própria humanidade, pois somente desta forma, se consegue se despojar do individualismo e de sentimentos de egoísmo e intolerância, que possam estar presentes em nossos corações. 

Para finalizar, diria que fazer o Caminho de Santiago, é antes de tudo, um compromisso moral e espiritual de se lançar em uma busca interior e em uma possibilidade de crescimento pessoal, que pode propiciar uma melhoria na vida pessoal de cada um e em contrapartida, daqueles com quem compartilhamos as nossas vidas. E para este fim, todo e qualquer sacrifício valerá a pena.

Dylvardo Costa Lima, 43 anos, médico, de Fortaleza-Ceará
Peregrino em maio de 2003

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br