Home‎ > ‎Relatos Peregrinos - II‎ > ‎

Caminho de Santiago de Compostela


CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

Autor: Carlos Alberto Alves Marques (*)


Artigo publicado em Jornal do Rio Grande do Sul e na Revista Literária da AJURIS (Associação dos Juízes do RS)




Na preparação para o caminho, além dos cuidados físicos, é importante o contato com a literatura especializada. Nela encontram-se curiosidades muito interessantes sobre o Caminho de Santiago de Compostela. É o caso da observação de Goethe, de que a Europa se fez caminhando em direção a Santiago. Ou de Dante, na Divina Comédia, fazendo sua amada Beatriz revelar Santiago no Paraíso, explicando ser o homem pelo qual a Galícia é visitada.

Outra curiosidade, esta de particular interesse para profissionais do direito, é saber que os peregrinos medievais voltavam para seus vilarejos e cidades com status pessoal diferenciado, muitas vezes até isentos de suas obrigações tributárias. Havia regras jurídicas medievais impondo a peregrinação a Compostela como sanção penal, de que há, ainda hoje, segundo dizem, vestígios no ordenamento jurídico belga.




A caminhada, ademais, já foi imposição de penitência eclesiástica. De interesse para amantes da magia da palavra, é saber que a rota compostelana era pelos campos - per agrum -, daí serem chamados de peregrinos os que a faziam, tal como de romeiros os que iam a Roma, e de palmeiros os que demandavam Jerusalém, os três grandes pólos de peregrinação da cristandade no medievo.

A tradição de peregrinar a Santiago de Compostela é mais que milenar. Adquiriu um aspecto mitológico que não facilita falar de sua gênese com rigor histórico. Seja como for, é sabido que iniciou em época de choque civilizatório entre muçulmanos e cristãos no final do primeiro milênio da cristandade, fenômeno que de alguma forma está se repetindo nesta virada do segundo para o terceiro milênio, permitindo interessante exercício de analogia e de reflexão sobre o fenômeno atual do grande incremento da peregrinação jacobeia.




A realidade geopolítica da Europa no início do século IX mostrava a invasão muçulmana consolidada na Península Ibérica, sob a invocação unificadora de Maomé, contra a qual pouco podiam fazer os pequenos reinos cristãos do norte peninsular, aos quais faltava semelhante fator de aglutinação.

Nesse cenário, em 813, sob o reinado de Alfonso II, o Casto (789-842), em Astúrias, e imperando Carlos Magno no que é hoje, grosso modo, espaço geográfico francês, germânico e italiano, um pastor da Galícia, Pelayo, acredita ver algo como uma chuva de luz de estrelas incidindo sobre determinado lugar, que viria chamar-se campus stellae, originando Compostela.

Chegando a notícia ao bispo de Iria Flávia, ordena o prelado Teodomiro averiguação no local, onde é descoberta uma arca de mármore. Nela estariam os restos do apóstolo Tiago, irmão mais velho de João Evangelista, que havia evangelizado aquela região no primeiro século do cristianismo, restos que para lá haviam sido levados por discípulos, após resgatarem o corpo em seguida a martírio perpetrado por Herodes Agripa, em Jerusalém.




Aí nasceu o mito. Nas batalhas contra os invasores, passou a ser invocado como Santiago Matamoros, nelas cumprindo para os cristãos o papel unificador e aglutinador de Maomé para os muçulmanos, até a expulsão destes, séculos depois, pelos reis católicos Fernando e Isabel.

Há algo de enigma ou loucura no impulso de alguém para distanciar-se de suas referências de família, profissão, meio social, e embrenhar-se caminhando centenas de quilômetros em terras da Espanha, não raro em situações extremamente adversas. As motivações para isso podem ser as mais variadas, de natureza religiosa, devocional, espiritual, ou mesmo por modismo, ou simplesmente para vencer o desafio de repetir uma das tradições mais antigas do Ocidente.

Seja como for, uma coisa é certa: é imenso o prazer experimentado em reduzir a vida à sua expressão mais simples, porque no Caminho de Santiago tudo o de que se precisa está na mochila levada às costas, e as relações humanas estabelecidas ao sabor do acaso e do fortuito são da mais pura gratuidade, companheirismo e solidariedade. Não é coisa pouca se comparada com o modelo de vida atual, complexa e muitas vezes complicada, com as relações sociais em geral condicionadas pela necessidade e a conveniência.

Razões assim, somadas a certa inquietação de natureza espiritual e à vontade de vencer desafio pessoal num roteiro cultural e histórico responsável pela formação de boa parte da velha Europa, levaram-me à ideia de fazer a caminhada de quase 800 quilômetros em terra estranha com uma mochila às costas.




Iniciei a jornada saindo de Porto Alegre, coincidentemente, no fatídico 11 de setembro, em meio a muitas inquietações e incertezas. O resultado foi uma experiência única, certamente uma das melhores coisas que fiz na vida, e que procurei documentar com anotações disciplinadas e diárias para revisitas periódicas. Eventual curiosidade em torno dessa vivência poderá ser satisfeita no endereço eletrônico http://www.caminhodesantiago.com.br/diario_carlos_alberto.htm.

Por fim, cabe salientar haver quem afirme o caráter metafórico do Caminho de Santiago, cuja experiência apenas aceleraria as transformações que, em última análise, se operam em cada um no curso da existência, o VERDADEIRO CAMINHO.


*Juiz aposentado - Secretário-Geral da Corregedoria-Geral da Justiça do RS


(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br