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Caminho em Família



Adriano Ebenriter (*)

Caminho em Família


Taty, Adriano e Mateus
Fiz o Caminho, pela primeira vez, em abril/maio de 2000. Sozinho. Meu filho de 5 anos queria a todo custo me acompanhar nessa aventura. Ponderei com ele que seria melhor eu ir sozinho, primeiro, a fim de conhecer o Caminho e poder decidir se ele teria condições de me acompanhar. Visto o Caminho e tomada a decisão, comecei a planejar a nova empreitada. Convidei minha esposa que na hora topou a loucura. Marcamos para abril/maio 2001.

O problema era: quanto ele conseguiria caminhar? Já havíamos feito caminhadas de 10 km e ele havia aguentado bem. Mas 25/30 km por dia? Pensei em fazer de bike, levando-o em uma cadeirinha. O problema é que, com 5 anos, já não havia "cadeirinha" que desse conta do marmanjo. Folheando um livro sobre o Caminho que eu havia comprado no ano anterior, em Santiago, vi uma foto de um casal com uma criança, um pouco menor que meu filho, em um carrinho para bebê. Esse carrinho tem 3 rodas de bike, cobertura para chuva, freios manuais (como os de bike), enfim, um carro de luxo. Estava definido o meio de transporte.


O meu equipamento já estava pronto. Botas mais do que amaciadas, mochila (70 litros), cantil, etc... Resolvemos que minha esposa iria com uma mochila menor (40 litros). Meu filho iria sem nada. Em Madri compramos o carrinho, os casacos impermeáveis para os dois, tocas, mantas e luvas.

Madri - Pamplona - Roncesvalles de ônibus. Em Roncesvalles deixei reservado um hotel, para o dia seguinte, onde deixamos a mochila maior e o carrinho, levando apenas o básico para a subida dos Pirineus, já que o Mateus não abria mão de fazer essa travessia. Fomos de táxi até St. Jean. Chovia muito e fazia muito frio. Mdme. Debrill já não estava mais lá e agora existe uma Associação do Caminho que cuida das credenciais e do alojamento. Já começamos "bem" o Caminho, pois apesar de eu fazer questão de pagar uma credencial (500 pesetas) para meu filho, eles não queriam dá-la de jeito nenhum. Diziam que não era preciso. Para que uma credencial para uma criança? A mesma visão bitolada que encontrei em Santiago, mas, felizmente, totalmente diferente do que encontrei no resto do Caminho, onde as pessoas viam o Mateus como uma "pessoinha" muito especial.

Infelizmente, pela manhã, o tempo piorou e não foi possível atravessar os Pirineus, pois todos me aconselharam a não fazê-lo. E não era só pelo Mateus. Esse era o conselho que estavam dando a todos os peregrinos. Muita chuva, vento e frio.

Para não perdermos mais um dia, pegamos um táxi até Roncesvalles, onde buscamos nossas coisas e iniciamos, finalmente, o Caminho, por volta das 11hs de uma manhã muito fria e chuvosa. Resolvemos ir pela carretera pois não havia condições de irmos pelos lindos, mas enlameados, caminhos de Navarra.

Assim foi nossa rotina. O percurso era definido dia-à-dia. Dependendo do clima e das informações obtidas no refúgio, na noite anterior, definíamos o trajeto (carretera ou trilha) e o quanto andaríamos naquele dia. Como no ano anterior, procurei fugir das paradas especificadas no Guia, evitando ter que "correr" para conseguir onde dormir, até porque nosso ritmo era muito lento. Fazíamos, em média, 25 km por dia, sendo que, desse total, o Mateus estava andando uns 10 km. Quando a trilha permitia ele ia no carrinho para descansar. Quando havia subida ele ia andando. Por sinal essa era sua maior reclamação: "Por que nas subidas eu tenho que andar??"

Subindo O Cebreiro


Por termos iniciado o Caminho na semana de Páscoa, pegamos alguns refúgios cheios. Em função de nosso ritmo mais lento, estávamos chegando sempre por volta das 19 hs. Em Los Arcos já não havia lugar nem no refúgio, nem em hotéis. Tivemos que dormir no chão, em uma casa particular. Em Viana o mesmo problema. Só que dessa vez não havia nem chão para dormir. Depois de 18,5 km empurrando um carrinho com 25 kg em cima, mais uma mochila com 10 kg, nas costas, resolvemos ir até Logroño (mais 10 km). Saímos de Viana por volta das 17 hs e chegamos em Logroño perto das 20 hs. Mais mortos do que vivos!!

Depois, Navarrete, Azofra (ah, Dna Maria Tobia), Grañon, Belorado, San Juan de Ortega (ah, Marcela) e, por fim, Burgos. Aqui nosso Caminho mudou completamente. Desde Belorado o carrinho já vinha dando sinais de "esgotamento", "tendinite", etc... Em resumo, como diziam os espanhóis, estava "estropiado". Em Burgos ele quebrou definitivamente (abro um parênteses para dizer que fui até o El Corte Inglés, a fim de sondar a possibilidade de um possível conserto por conta da garantia. Para minha surpresa me disseram que não havia nenhuma assistência técnica e que nessa filial - de Burgos - não tinham desse carrinho para me dar outro em troca e que por isso, se fosse satisfatório para mim, eles me devolveriam o valor do carrinho - isso depois de mais de 10 dias usando o carrinho em condições extremas de uso!! Se fosse aqui no Brasil, eu ainda seria processado por mau uso do carrinho!! (risos)

Sem carrinho, fizemos uma reunião para decidir o que fazer: desistir e gastar os dias restantes em turismo? Seguir a pé? Fizemos as contas e vimos que ainda tínhamos 20 dias até o embarque para o Brasil. O que significava que poderíamos "quebrar" as últimas 10 etapas em duas, ficando, assim, uma média de 12 a 15 km para andarmos todos os dias. Colocamos isso para o Mateus que prontamente aceitou. Resolvemos, assim, ir de ônibus até Astorga e reiniciar o Caminho dali.

O problema é que, já no primeiro dia de reinício, teríamos que andar 20,6 km, de Astorga até Rabanal del Camino, pois não havia opções de paradas no meio (o refúgio de Sta Catalina estava fechado e o de El Ganso não tem nem banheiro nem água).

A noite em Rabanal foi ótima e, como sempre, o Mateus foi o centro das atenções. Quando saímos pela manhã, vimos que o tempo havia mudado. O frio continuava, mas somado a isso, havia um vento fortíssimo e uma chuva intermitente. Foi o pior dia de caminhada. Somado a tudo isso a subida até a Cruz de Fierro, passando por Foncebadón. O vento batia de frente em nossos rostos e era tão forte que eu tinha medo de largar a mão do Mateus. Antes de chegarmos à Cruz de Fierro, nossas capas já estavam em verdadeiros farrapos. Para se ter uma ideia das condições climáticas nesse dia, havia um frances à cavalo que havia dormido em Rabanal, também. Ele passou por nós assim que saímos. Em Foncebadón ele estava dentro de um celeiro com o cavalo, dizendo que o animal estava com a musculatura endurecida e que ele não sabia se teria condições de continuar por causa do frio e que esperaria algumas horas até o tempo melhorar.

Decidimos continuar, sem parar, até El Acebo (mais 10 km). Achamos melhor continuar andando para não congelar. Chegando em Manjarín, resolvemos parar para nos proteger do frio. O termômetro na porta do refúgio, marcava 5 graus negativos. A sensação térmica, com certeza, era de mais de 10 graus negativos. Depois de mais ou menos uma hora de descanso, um bom chocolate quente e uma rápida secada nas roupas e corpo, decidimos continuar de uma vez. Ainda faltavam 7 km até El Acebo. Continuamos a subida, até que, pela primeira vez, o Mateus pediu arrego. Disse que não aguentava mais andar, que estava com as pernas doendo, estava com frio... Fiquei com muita pena dele, pois havia andado 10 km sem parar, num ritmo muito forte pois estávamos, literalmente, fugindo do tempo. Coloquei ele sentado em meus ombros e, assim, acrescentei mais uns 22 kg aos 10 kg da mochila. Depois de uns 3 ou 4 km, já começando a descida até El Acebo, quem não aguentou mais fui eu. Minhas pernas pareciam ter virado gelatina. Expliquei à ele que estava muito mal e ele prontamente continuou caminhando. Chegamos encharcados, morrendo de frio, mas cheios de admiração uns pelos outros. Principalmente por essa criança maravilhosa e forte que é meu filho. (mais tarde, em Arca, reencontramos um italiano que já havia feito o Caminho umas 5 vezes - ida e volta - que nos disse que nunca havia enfrentado um clima tão hostil quanto o desse dia).

No outro dia recomeçamos com mais chuva, mas com a temperatura um pouco mais amena, por volta dos 4 graus positivos. De El Acebo fomos até Ponferrada (16km); de Ponferrada a Cacabelos (15,3); de Cacabelos a La Portela (15,3).


Refúgio de San Juan de Ortega

De La Portela subimos O Cebreiro. E mais uma vez o Mateus nos surpreendeu com sua força e alegria. Chegando ao O Cebreiro, visitamos a Igreja e ele pode, pela primeira vez, matar sua vontade de "comer" neve, pois havia nevado no dia anterior e ainda havia resquícios nos cantos do refúgio, apesar do sol que havia feito durante todo o dia. Comemos algo (eram 16 hs) e resolvemos continuar até Hospital, completando, assim, 20,2 km nesse dia. Nesse dia, meu heroizinho se superou. Andar 20 km incluindo a subida do O Cebreiro...

De Hospital fomos até Triacastela (15 km). Ali começaram os inconvenientes. Era uma sexta-feira que antecedia o feriadão de 1º de maio (caía em uma terça-feira). Ainda havia o agravante que em Madri era feriado na quarta-feira, também. O que significava que o pessoal tinha, em média, uns 4 ou 5 dias para andar. Como já estávamos perto dos 100 km necessários para receber a Compostelana, o tráfego de peregrinos aumentou de maneira absurda.


De Triacastela fomos à Sárria (18,6 km). Muitas pessoas iniciando alí o Caminho. Incluindo grupos com "coche de apoio" e 3 escolas que estavam fazendo com micro-ônibus. O resultado disso foi refúgios lotados e algumas brigas.

De Sárria fomos à Portomarin (22 km) e de Portomarin à Eirexe (16,9 km) onde ficamos em um refúgio da Xunta, muito simples, mas com uma hospedeira maravilhosa: Maria Paz. Uma criatura encantadora e simpática que se desdobrava em três a fim de ajudar a todos.

De Eirexe fomos até Melide, onde o Mateus pode, finalmente, comer o "pulpo". Coisa que ele vinha me atormentando desde que viu uma foto minha, do ano anterior, comendo polvo em Portomarín.

De Melide à Arzúa (13,6 km). Um bom descanso para o dia seguinte onde pretendíamos chegar até Arca (18,8 km).

Em Arca tivemos mais alguns probleminhas. Já havíamos sido ultrapassados pela horda de estudantes (eram mais ou menos 100, com idade variando de 15 a 18 anos), o que significava que haveria poucos lugares sobrando no refúgio. Faltando uns 200 metros para chegarmos ao refúgio, vimos 3 japoneses descerem de um carro, pegarem as mochilas no porta-malas e, com a maior cara de pau, saírem andando (e mancando) em direção ao refúgio, como se tivessem feito o percurso a pé. Me subiu o sangue e saí em disparada, deixando o Mateus e a Taty para trás, dizendo: Não vou ficar sem lugar para dormir por causa de pessoas que estão chegando de carro!! (risos).

Cheguei primeiro que eles e a hospitaleira, com pena de nós, nos deu um quarto separado dos quartos coletivos (cheio de estudantes). O problema é que nosso quarto ficava bem em frente à cozinha e ao lado do salão de jantar. Por volta das 21hs, desceu todo aquele povo para fazer uma janta coletiva. A algazarra foi até umas 22 hs, quando resolveram iniciar uma "fiesta". E quem disse que nós conseguíamos dormir? Até que um garoto resolveu abrir a porta de nosso quarto para ver o que tinha lá dentro. Fiquei quase louco e saí de dedo na cara dele, perguntando se ele tinha perdido alguma coisa. Nisso passa um dos "responsáveis" pelos estudantes, na maior alegria por toda aquela festa. Eu lhe pergunto, em tom irônico, até que horas iria "la fiesta". Ele, inocentemente, diz: "No hay hora para acabar". Como disse minha esposa, nessa hora me baixou o Santiago Matamoros, peguei-o pelo braço e lhe mostrei que estávamos "tentando" dormir ali, inclusive com uma criança e que era bom eles pararem com aquilo até às 23 hs, que era o horário de silêncio do refúgio. Resultado: em 10 minutos não se ouvia nem a respiração deles!!

Pela manhã, combinamos que iríamos até o Monte do Gozo e deixaríamos os últimos 5 km para o dia seguinte, a fim de chegarmos antes das 12, para a missa. Nisso o Mateus perguntou quando chegaríamos em Santiago. Eu lhe disse que somente no outro dia, porque faltavam ainda 20 km e era muito para ele (isso era o que nós pensávamos pois ele já tinha andado quase 20 km no dia anterior e ficaria muito puxado dois dias seguidos com a mesma quilometragem). Ele pergunta: "Quanto é 20 km? É mais do que andamos ontem?" Eu respondi: "É a mesma distância de ontem." Resposta: "Ah! Então vamos hoje mesmo!!"

E chegamos em Santiago naquele mesmo dia, por volta das 15 hs.

Em Santiago tivemos um contratempo com a instituição "Igreja". Não quiseram dar a Compostelana ao Mateus, pois segundo as "regras", a Compostelana só pode ser concedida à pessoas com mais de 9 ou 10 anos, depois de fazer a Comunhão. Perguntei porque e o rapaz me disse que até os 10 anos a criança não tem "razão" para compreender o sentido religioso do Caminho de Santiago.

"O Descanso do Guerreiro" - entre Estella e Los Arcos


Havia no balcão, um grupo de 5 espanholas que encontrávamos de vez em quando nos refúgios e trilhas e uma delas saiu em defesa do Mateus dizendo: " Meu amigo, você está muito enganado. Em primeiro lugar, estou com quase 40 anos e posso te garantir que quando eu tinha a idade dessa criança, eu compreendia muito melhor a essência de Deus, estava muito mais próxima Dele do que estou hoje. Em segundo lugar, essa criança merece essa Compostelana mais do que muitas pessoas para quem vocês entregaram esse papel hoje. Seja por terem feito apenas os últimos 100 km, seja por terem feito de carro, enquanto ele está andando desde St. Jean. Além disso, você não faz ideia do bem que essa criança fez à muitas pessoas. Muitas das quais, inclusive eu, não estaríamos aqui hoje. Você não sabe o que é chegar quase morta em um refúgio, querendo jogar tudo para cima e voltar para casa correndo, e ver esse menino chegando com seus pais, alegre, sorrindo e depois de um banho ainda ter disposição para brincar nos beliches, fazer desenhos para todos e ainda sair conosco para visitar igrejas (sem os pais), confiando em nosso carinho e amizade."

Aquilo me tocou profundamente pois eu acreditava que apenas nós, por estarmos em contato diário com ele, estávamos usufruindo daquilo tudo. Foi muito emocionante ver o quanto o Mateus estava significando para outras pessoas que, muitas vezes, o viam apenas nos refúgios.

Só tenho que agradecer a Deus e a Santiago por essa maravilhosa oportunidade que recebi de poder voltar a fazer o Caminho de Santiago com pessoas tão maravilhosas e especiais como minha esposa e meu filho.



Buen Camino a todos!


(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br