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Como eu vi O Caminho de Santiago de Compostela


Alexandre Dorneles (*)

COMO EU VI O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA



Não sei bem que dia era, mas era entre 25 e 31 de dezembro de 1997, aproximadamente 9 horas da manhã. Eu caminhava com a Lia na praia de Guaibim, perto de Morro de São Paulo, BA, já voltando na direção do hotel, ela entre eu e o mar, aquele sol maravilhoso, quando de repente, depois de trocar idéias sobre o que fazer em 1999 eu disse que quando fizesse 50 anos tinha vontade de fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Havia visto o Globo Repórter sobre o tema e aquilo bateu com uma vontade antiga que eu tinha de fazer uma viagem a pé. Lia disse com naturalidade que eu deveria fazer logo no ano seguinte, já que em 2004 não seria possível ter certeza das minhas condições e que agora tudo seria mais fácil. Foi, portando, na Bahia que para mim começou o Caminho de Santiago.

Usei 1998, já que não seria possível ir naquele ano, para dar uma estudada no assunto, a Internet foi uma super mão na roda, e me preparei para ir em maio de 1999, ultimo Ano Santo Compostelano do século XX. O Ano Santo Compostelano acontece todos os anos em que o dia 25 de julho cai num Domingo. Só mais tarde, para espanto de quase 100% das pessoas que conheço, exatamente às 7 horas de 11 de setembro passado, embarquei para a Espanha, tendo a caminhada começado efetivamente às 9 horas do dia 13, na cidade francesa de San Jean Pied-de-Port, acompanhado pela Fátima, ex-colega de ginásio, e que desde os 15 anos tinha vontade de fazer o caminho.

A primeira observação é a rapidez com que se pode adaptar a uma nova forma de viver. Em questão de horas você sai do seu mundo e entra num mundo novo, de albergues, mochilas, roteiros, bolhas, tendinites e filas de banheiro. De paisagens, roncos, gente e camas diferentes todos os dias. De Menu do Peregrino, de bocadillos, de almoçar em banco de praça ou à sombra de uma árvore, de fazer macarrão na cozinha do albergue. Ah, e de pão e (muito) vinho, pois com pan y vino se hace el camino! De expectativas e reações diferentes a cada passo dado. O único laço que não foi desatado por mim foram as saudades de casa, amenizadas por algumas ligações telefônicas a cada 4 ou 5 dias. Todo o resto, conscientemente ou não, O Caminho se encarregou de apagar.

Logo no primeiro dia são 27 duros quilômetros ultrapassando os Pirineus, uma prova de fogo para sua vontade e para os músculos de sua perna. Maravilhoso primeiro dia, chegar cansado e dolorido num albergue enorme e cheio de gente, descarregar a adrenalina de meses de planejamento, ver a reação das pessoas e seus procedimentos, entrar no saco de dormir e pensar: que legal, agora só faltam 29 dias! Durante esses dias peguei albergues muito cheios - dormi no chão uma vez - outros vazios, fiquei um dia em hotel, peguei chuva, manhã com geada, ventos de 50 km/h (contra), dia de sol, dia encoberto, conversei com gente que nunca tinha visto e que nunca mais vi, ou seja, tudo que transforma O Caminho no melhor programa de índio que existe.

Com o passar do tempo todas as particularidades vão sendo aprendidas. Como e quanto caminhar, a hora de iniciar, a hora de andar em grupo ou sozinho, com quem é bom andar, a melhor hora de ir ao banheiro (às vezes há apenas um para umas 40 pessoas...), como subir e como descer morro, como coordenar as passadas com o movimento do cajado. Você se torna uma maquina de andar. Muitas vezes a máquina funciona sem o comando explícito do cérebro, que pode, assim, dedicar-se a tarefas mais nobres como, por exemplo, pensar. E ai, é por conta de cada um.

Todos os tipos de pessoas, com varias motivações diferentes, fazem El Camino. Muitos também são os pontos de inicio. Como para ganhar o certificado, que se chama Compostela e esta escrito em latim, o peregrino tem que ou andar os últimos 100 km ou pedalar os últimos 200 km, o número de peregrinos vai aumentando depois que se passa da metade do trajeto. Muita gente madura, diria que na faixa de idade de 35 a 55 está a maior concentração de peregrinos. Brasileiros de montão, quase todos começando em San Jean ou em Roncesvalles. Muitos ciclistas, mas só vi 5 peregrinos a cavalo. Os extremos foram um garoto espanhol de uns 10 anos acompanhado da mãe (iriam fazer só os últimos 100 km) e um brasileiro de 75. Muitos fazem seu caminho com carros de apoio, outros andam de ônibus, outros só dormem em hotel. Cada um tem seu modo particular de atingir Santiago de Compostela, o campo das estrelas. Muitos fazem O Caminho mais de uma vez., alguns não o completam como um peregrino que foi morto por um caminhão no verão deste ano quando faltavam uns 40 km para chegar.

Eu elegi Jean Garnier, 61 anos, francês de Isle d`Oleron, perto de La Rochelle, o peregrino típico. Jean, um grande praça e possuidor de um humor mais brasileiro do que francês, trabalhou a vida toda criando ostras. Depois vendeu tudo e passou um tempo na Bolívia cuidando de meninos de rua. Ano que vem vai fazer o mesmo em algum país africano. Quando vier ao Brasil vai repetir a dose. Prometeu que se seu pai não morresse de uma doença do esôfago - achavam que era câncer, mas não era - iria até Santiago de Compostela. Pois bem, o velho se recuperou, ele então encheu uma mochila com 14 kg (a minha tinha 8 kg) e partiu da sua casa a pé rumo a Santiago a uns 1.300 km. Separei-me dele, com um abraço e um convite para conhecer o Brasil, em Villafranca del Bierzo, pois ele parou cedo para tratar de uma dor nas canelas.

Existem outras pessoas que peregrinam sem caminhar. São os hospitaleiros, pessoas que voluntariamente utilizam seu tempo livre paras cuidar dos albergues e dos peregrinos. Como em todo grupamento humano, existem os chatos, os competentes, os indiferentes e os carismáticos. Nesse ultimo grupo poderia incluir o basco Jorge, hospedeiro de Villarcazar de Sirga, que paga até a despesa do gás para o aquecimento da água do seu bolso e deixa por conta do peregrino deixar alguma contribuição para a manutenção do albergue. Deu-nos uma aula sobre os países bascos, sobre a historia de Villarcazar de Sirga e sua igreja com poço d'água que permitiu que a vila não sucumbisse a um cerco árabe e, obviamente, sobre o Caminho. Incluiria, também, o madrilenho Antônio, hospedeiro de Bersianos, que quando cheguei estava preparando cimento para melhorar piso externo do albergue. Ele pede para cada peregrino datar e colorir com caneta hidrocor uma pedrinha branca retirada de um rio, para no fim do ano colocar todas as pedras do ano no muro do albergue. Assim, ao final de uns 50 ou 100 anos os peregrinos que pernoitarem no albergue poderão sentir a força dos que por ali já passaram. Não poderia me esquecer também do templário Tomás, figura das mais conhecidas em todo o Caminho, com seu rústico albergue em Manjarin, que funciona o ano inteiro, mesmo estando coberto de neve. Tomás, depois de fazer um ritual com sua espada e pedir proteção aos que ali pernoitam, faz a comida dos peregrinos. Foi o único dia que comi arroz, que aliás foi feito junto com frango, legumes e alguns temperos, resultando numa bela e gostosa gororoba da qual comi 3 pratos. Foi também o único dia em que não tomei banho, pois só havia água fria, aliás muito fria, e à noite a temperatura baixou bastante. Ossos do oficio.

Motivações à parte, fazer o caminho tem um lado físico intenso. Eu percorri os 765 km d`O Caminho em 26 dias, fazendo uma media diária de 30 km, mínimo de 18 e máximo de 40 km. Andar todos os dias de 25 a 35 km com mochila mexe com seu corpo. É preciso uma preparação de longas caminhadas com o calçado escolhido para amaciar o seu veículo, de preferência com mochila e com alternância do tipo de piso e de inclinação da trilha. Isso pode fazer a diferença entre curtir tranquilamente O Caminho ou ter que dividir o tempo para tratar de ferimentos nos pés e pernas. Vi muita gente com bolhas enormes e/ou muitas bolhas (uma mulher tinha 15 nos 2 pés!), com tendinite no tendão de Aquiles, no tornozelo e no joelho, ou muito cansado a ponto de se perguntar o que está fazendo ali. O que se toma de anti-inflamatório e de relaxante muscular é quase tanto quanto o que se toma de vinho... A verdade e que a fé não faz com que o quilômetro tenha 750 metros nem diminui a inclinação da trilha nos Pirineus, nem a da subida d `O Cebreiro.

Constatei que não existe misticismo algum no Caminho. O Caminho é fundamentalmente religioso e/ou espiritual e também turístico. Sendo brasileiro, é óbvio que o assunto Paulo Coelho sempre vinha à tona, já que ele é um tremendo sucesso na Europa. Seu livro sobre o Caminho é muito discutido, pois quase a totalidade das pessoas que foram motivadas pelo livro a fazerem o Caminho não reconhece, no dia a dia do caminho, o caminho descrito no livro. Muitos, muitos mesmo, acreditam que ele não fez o caminho, pelo menos o caminho todo. Embora eu não tenha lido o livro, creio que ele não tenha a pretensão de ser um guia, existem bons guias, mas sim, um romance ou uma ficção ambientada no Caminho de Santiago.

Passo a passo vão passando as províncias com suas cidades históricas e seus pueblos de, às vezes, não mais do que 150 habitantes. Navarra, a primeira província com sua beleza típica, La Rioja e seus vinhedos, Leon e Castilha com suas intermináveis planícies e a belíssima região da Galícia e seu espanhol que mais parece português. Finalmente, o ultimo pernoite. Santiago de Compostela esta a irrisórios 19 km! O tempo passou e você não sabe se a sensação é de que você começou a andar ontem ou se está andando a vida toda. A ordem é acordar cedo para chegar antes do meio-dia e assistir a missa dos peregrinos na Catedral de Santiago, com o tradicional botafumeiro.

Cheguei em Santiago numa sexta-feira. A cidade estava totalmente lotada de turistas e de peregrinos, mais daqueles do que destes. A cidade é muito bonita e agradável e está super bem preparada para receber os turistas, pois são inúmeras as atracões, artistas populares se apresentando nas ruas, museus, bares onde tudo é festa. Tem sido assim o ano todo. Ano que vem deverá continuar pois além de ser o ano 2000, uma espécie de marco, Santiago será a capital européia da cultura. Obtive a Compostela, assisti à missa, dei um giro pela cidade e constatei que não havia onde dormir. O albergue, hotéis e pensões todos lotados. A opção era ir para o gigantesco albergue para 2000 pessoas em Monte do Gozo, 5 ou 6 km antes de Santiago. Quando já me preparava e tentava descobrir a melhor maneira de ir para Monte do Gozo, uma senhora me viu com aquela cara de quem acaba de chegar e perguntou se eu queria um quarto. Claro, por 2000 pesetas (cerca de vinte e tantos Reais ), uma boa cama, um bom banho, era tudo que eu queria. Alem disso me permitiria conhecer melhor a cidade.

As grandes lições do caminho são, primeiro, que os homens são realmente iguais, muda só a capa. Isso pode ser constatado nos albergues, onde praticamente não existem capas, pelos sons que são produzidos no banheiro e que todos escutam, pelo cansaço e pela fome de fim de dia, pelas bolhas, pelo sono pesado, pelos roncos e pela vontade de chegar. Aprende-se também que é preciso respeitar as pessoas, inclusive a você próprio, e as coisas, e que se todos fizerem isso em doses normais, grande parte dos problemas estarão resolvidos ou nem serão problemas. Aprende-se, ainda, a ter paciência e entender que para andar o 750º quilômetro, você precisa andar o 1º, o 2º, o 3º...

Como, minha senhora? E quanto a mim? Bem, dizem que o caminho de cada um começa realmente quando se retorna para casa, teoria aparentemente abraçada pelo poeta-peregrino que escreveu o seguinte poema, que encontrei no albergue de Manjarin:

Peregrino que subes montes para ver horizontes
Alma errante y dolorida com hombre de verdades
Que busca solidades para tener compania.
Mente vagabunda peregrina
Que vuela mas que camina
Que aun que lhega, y ya se va.
Tu camino va a Santiago, y tu...
A donde vas?

ULTREYA!

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br