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Encontrei Jesus de Carne e Osso



Estevan Negrão Moreira (*)

Encontrei um Jesus de carne e osso em um albergue do caminho...


Fiz minha peregrinação a pé no Caminho de Santiago, saindo de SJPP em 22 de abril e chegando à Santiago em 16 de maio de 2001. Durante a caminhada foi surgindo a idéia de retribuir um pouco do que o caminho me dera, uma oportunidade de ter a experiência de ser um “ hospitaleiro voluntário”, de servir em vez de ser servido, não sei bem ao certo o que me levou a querer faze-lo, talvez o espírito peregrino que adquiri no caminho ou até mesmo o contato diário com os hospitaleiros dos albergues. Estava terminando o caminho e ainda me restavam mais de 40 dias até o dia marcado para o retorno ao Brasil.

Mas para ser hospitaleiro deveria ter feito um curso em Grañon, com o padre José Inácio e não havia nenhum programado para essa época. A saída era procurar um albergue privado, mas então qual escolher ? Pelo que eu havia lido em muitos livros, não tive dúvidas, seria o “Ave Fênix”, da família Jato, em Villafranca Del Bierzo.

O Jesus Jato é uma pessoa muito querida do caminho e ainda por cima tem a fama de ser um “bruxo”. Mas quando por lá passei, ainda eram poucos os peregrinos no albergue e pensei que ainda não estavam precisando de ajuda. Acabei nem falando sobre a minha intenção, só comentei com uma peregrina que gostaria de trabalhar ali. Surpresa !!!... no dia seguinte, já no Cebreiro, a Claudine , uma peregrina gaúcha , disse que de manhã, antes de sair do albergue, tinha contado para o Jesus que eu queria ser hospitaleiro, e ele dissera que precisava, sim ! Telefonei para Villafranca e combinei que depois que chegasse a Santiago, voltaria para trabalhar no albergue.

Terminado o caminho ainda fiquei 3 dias em Santiago, para descansar e conhecer a cidade. No sábado, 19/05, fui para o meu novo destino, depois de uma viagem de trem até Ponferrada e um curto trajeto de ônibus, cheguei ao albergue. Final de tarde, encontro na porta a Maricarmen, esposa do Jesus, me apresento, e ela me diz : - guarda tua mochila e vem atender os peregrinos que estão chegando !. A partir desse momento eu já estava no desejado posto de hospitaleiro voluntário, em poucos dias já me sentia em casa.

Também trabalhava no bar/restaurante do albergue, foi uma experiência bem variada. Começava as 6 da manhã e ia até as 10 da noite, isso porque parei de participar do ritual da “queimada”, senão iria dormir perto da meia noite. E lá não tem folga, não !... é de segunda a segunda... E a cada dia que passava, com a proximidade do verão, aumentava muito o número diário de peregrinos no albergue. Uma verdadeira torre de babel, peregrinos de vários países, e uma das maiores dificuldades, era ler ou pelo menos, tentar decifrar o que estava escrito em certas credenciais. Algumas tinham uma caligrafia linda, bem legível e outras eram quase indecifráveis, bem piores do que a letra de médico com pressa. Isso sem contar que estava entrando em contato, com culturas diferentes da minha, com nomes de pessoas e de lugares que nunca tinha ouvido falar. Mas tinha que preencher uma folha com os dados do peregrino, que iam desde o nome, país de origem, passaporte, endereço, cidade onde iniciou o caminho, profissão, idade, se vinha a pé ou bicicleta, e se ia dormir ou só carimbar a credencial. Alguns se recusavam a me passar certos dados, enfim, esse momento era meio complicado. Houve um dia que quase apanhei de uma francesa quando lhe perguntei a idade.

 

Jesus Jato 

Passaram peregrinos de todo os tipos, desde pequenas crianças até pessoas com mais de 70 anos, ciclistas, cavaleiros, pessoas com cachorros, até uma atleta peregrina que empurrava um tipo de carrinho com 3 rodas e levava dentro 2 lindas menininhas . Houve também um ancião belga com 66 anos, quase não conseguia caminhar, tinha o mal de Parkinson, disse-me que era a sua oitava vez, e que esta seria a última. Apareceu um peregrino todo estropiado que viajava na contramão, vindo de Santiago e indo para Roma, dizia que fora mercenário, só tinha um olho bom, um rim, sua voz era bem rouca, uma figura muito estranha.Passaram mais peregrinos voltando de Santiago e indo pra casa, alguns para bem longe, como Le Puy. Soube de um brasileiro que tinha ido a pé de Fátima a Santiago e agora voltava, indo para Roma e depois continuaria até Jerusalém, já estava atrasado no cronograma, pois não queria caminhar no inverno.

Uma das coisas mais admiráveis, são as pessoas de idade, que se aventuram pelo caminho. Algumas dão inveja pelo vigor e outras dão medo pelo estado físico em que se encontram, parece até que não vão conseguir subir os degraus da escada do albergue. O que será que leva essas pessoas a caminharem até se estropiarem, a ponto de não poder andar mais. Com o corpo todo arrebentado, ficam desesperadas porque querem continuar a todo custo. São tendinites, luxações, bolhas, etc., literalmente se arrastam até o albergue. Com a proximidade do verão apareceram também os falsos peregrinos, pessoas que usam os albergues para dormir e de dia procuraram trabalho na cidade.

Acho que o dia mais maluco foi quando apareceram 60 ciclistas ingleses, com carro de apoio e tudo. Um mês antes o Jesus havia recebido um telefonema da Inglaterra , não entendeu nada do que queriam, mas deu a entender que concordava com tudo, o resultado é que eles apareceram e tivemos que mandar metade ficar no albergue municipal. O almoço, jantar e café da manhã desse pessoal foi uma prova de fogo, suas refeições foram em duas baterias, muito tumultuado, isso sem contar as caixas e mais caixas de cerveja, refrigerantes e água mineral que eles beberam e ainda queriam mais... mas no fim, tudo deu certo!

Estevan, Guy Veloso e Jesus

Eu dormia no Palomar ( um pombal ?!? ) era um lugar junto à cumeeira do albergue, que do meio dia até as 9 da noite fazia um calor insuportável, por estar próximo ao telhado. Ficava em cima do teto dos banheiros e quando peregrinos madrugadores começavam a circular, era impossível dormir mais um pouco. Era um tal de bater porta e muita conversa, como se o albergue fosse só deles ! E isso tudo, pouco depois das 5 da matina ! Tenham dó do hospitaleiro !!! O Jesus dizia que quando tínhamos muitos peregrinos franceses a coisa ficava feia, era a pura verdade!

Eu até gostava da rotina, pela manhã acordar, ajudar no preparo do desjejum do pessoal, fazer o café, esquentar o leite, aquecer a água do chá, cortar o pão, arrumar e ir servindo as mesas. Depois ver quem queria enviar a mochila para o Cebreiro. Tinha também o momento da despedida dos novos amigos que iam embora. Como é que pode, em tão pouco tempo, a gente acabar gostando tanto de alguém ? Então era só esperar o último peregrino sair e iniciar a faxina nos dormitórios, depois nos banheiros e concluindo, com uma grande varrida na parte externa do albergue. Não era incomum já termos peregrinos esperando para se instalarem, era aquele pessoal que aparece milagrosamente cedo !?!

Depois da faxina e da arrumação geral, eu tomava meu banho matinal e dava início`as minhas atividades burocráticas: que era receber peregrinos, registra-los, aloja-los e também carimbar as credenciais dos que por ali passavam. Almoço ?...só lá pelas 3 da tarde, segundo a Maricarmen, só os pobres almoçavam antes !?! Sempre a família Jato fez questão de que eu fizesse as minhas refeições na mesa em que eles estavam e me tratavam como um igual. Houve um dia em que o Jesus estava injuriado, tinha levado o seu celular para a finca ( sitio ) e o deixou no chão, o cachorro encontrou-o e acabou enterrando-o em algum lugar, nunca mais foi encontrado.

A principal fonte de renda do Jesus vinha do trabalho como caminhoneiro e da venda das frutas e legumes de sua plantação ( tomates, pimentões, cerejas, etc ). A arrecadação do albergue mal dá para a manutenção do mesmo. Nos dias de verão tem muitos peregrinos , mas nos dias de inverno permanece aberto, mesmo que tenha somente um peregrino, tem que ter as refeições, se manter a calefação, ter água quente, etc. A rotina do Jesus era muitas vezes acordar de madrugada e dirigir um caminhão com uma carga de frutas e/ou legumes para Lugo, Santiago ou alguma cidade da costa do mar Cantábrico. Depois que voltava, ia para o sítio cuidar da horta, só vinha almoçar lá pelas 3 da tarde e então voltava para a horta novamente até escurecer. Muitas vezes vinha muito cansado, com a roupa suja e me dizia que o que mais queria era jantar e ir pra cama, nesses dias dificilmente havia a já tradicional “queimada” e muitos peregrinos que a esperavam ansiosamente, não entendiam o porque não haver...

Bastava o Jesus aparecer no albergue que sempre tinha alguém querendo que ele desse uma olhada no seu problema, que fizesse uma massagem, que cuidasse de uma tendinite, que desse uma atenção, enfim ele não tinha sossego. Muitas vezes de manhã cedo, ainda escuro, muitos peregrinos nos cercavam perguntando se ia chover ou não, alguns muito aflitos, dizer o que pra essa turma toda ?, o Jesus me disse que tínhamos que olhar para o horizonte e balançar a cabeça de um lado para o outro, fazer uma cara de quem está pensando e concordar com quem perguntava, talvez sim ou talvez não... e não é que a coisa funcionava !


Estevan no Refúgio de Jesus Jato

Tinha o serviço de levar a mochila até o Cebreiro, era um momento muito concorrido, pois vinham peregrinos de todos os lados e queriam ser atendidos rapidamente, tudo bem: - por volta do meio dia o carro levará as mochilas e a sua mochila estará no Cebreiro quando você chegar lá ! É garantido e nunca falha ! ( isto em todas a línguas possíveis). Incrível como variava o peso das mochilas, tem as peso pena – algo em torno de 5 ou 6 kg e as super pesadas – pra lá de 15 kg. Segundo o hospitaleiro do Monte do Gozo, a mochila mais pesada que ele viu, foi a de uma senhora colombiana, tentou levanta-la e quase que não consegue, perguntou se carregava pedras e ela disse que sim, eram 42 kg, quase tudo em pedras, era para pagar uma promessa. O pessoal exagera, carregam grandes livros, secadores de cabelo, barbeadores elétricos, bolsas enormes com material de higiene e limpeza, carregam muita comida, alguns calçados a mais e por aí vai.

Mas tinha o lado místico do Jesus, que é no mínimo uma pessoa singular, acredito que é sensitivo. Tive a oportunidade, junto com o Guy Veloso, uma peregrina sueca e outro peregrino brasileiro, de ver ele, com o uso de uma simples forquilha de madeira, medir a energia telúrica no portal da capela de São Miguel e depois no altar da mesma, causando espanto a todos que lá se encontravam, foi um momento inesquecível.

Acho que o Jesus é uma pessoa muito especial do caminho e se o peregrino tiver a sorte de encontra-lo em um dia favorável e com disposição, terá um dia inesquecível, tenho certeza !

Quando algum peregrino estava com alguma dificuldade e eu comentava com o Jesus ou esposa a resposta era sempre a mesma: poderá dormir e ter todas as refeições, sem ter que pagar nada. Algumas vezes ainda ganhavam um bocadilho para a viagem, sem contar com a carona até o Cebreiro para aqueles com alguma dificuldade física. E os que não podiam se locomover, podiam ficar quantos dias necessitassem, até que se restabelecessem.

Nunca vi ninguém cobrar pelo albergue ou pelas refeições, contavam com o bom senso e a consciência de cada peregrino, o que às vezes facilitava a vida dos “espertos” que queriam levar vantagem : comiam, bebiam e dormiam sem nada pagar.

Gratificante era quando ao se despedir, alguns peregrinos agradeciam por coisas que eu nem me lembrava de ter feito por eles.

Tenho saudades das cerejas, com certeza eu comi muitas, foi muito bom ! Matei a minha vontade !!!

Quanto a mim, quero voltar um dia ao caminho e depois é claro que quero ficar trabalhando em algum albergue do caminho, para sentir novamente a energia de quem passa por lá, se for brasileiro então é emoção dobrada...

Foi muito interessante a perspectiva de ficar parado e ver diariamente o caminho “passar” por mim.

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br