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O Caminho me escolheu


 
Inês Dutra (*)
O CAMINHO ME ESCOLHEU


O que me levou a deixar o marido, casa, cachorro, parentes, amigos e seguir por um caminho distante, que me acenava desde fins dos anos 80, quando lera "Diário de um Mago", de Paulo Coelho?

Que força essa, desconhecida, que me chamava a trocar o conforto de minha casa por uma mochila de 10 kg? Minha cama por um beliche? O colchão por um saco de dormir?
Foram dez meses de expectativas. Em agosto de 1999 resolvemos que iríamos, eu e uma irmã- Selma -, grande companheira de peregrinação. Nesse dia ELE nos escolheu. A partir daí, só respirávamos o Caminho. Aí começou o nosso Caminho.
O grande dia chegara: 19 de maio de 2000. Sete horas da manhã, um friozinho no ar e na barriga, sob o arco da Porte de Saint Jacques, em Saint Jean Pied de Port (França), rezando a Deus e Santiago que nos protegessem. Éramos peregrinas e Santiago nos aguardava e guardava.


Ultreya! (Avante!)

A cada amanhecer, com sol ou chuva, o Peregrino vai feliz pelos caminhos. Foram 30 dias andando por quase 800 km, às vezes junto a minha irmã, às vezes propositadamente afastadas, para que cada uma de nós pudesse ter seu momento de solidão, pois o Caminho é de introspecção, de reflexão.
Como em um filme, vemos a nossa vida passar, nossos erros e acertos. A cada dia vamos praticando o amor ao próximo, a humildade, fé e esperança. É um Caminho de paz. De silêncio. Ah, como o Caminho nos ensina a ouvir o silêncio! Como nos ensina a ouvir os sons da natureza, a respeitá-la e agradecê-la! O Caminho nos ensina a conversar com Deus, seja qual for o Deus de nossa crença.
É um Caminho sem pressa. Acorda-se cedo, por volta das 6 da manhã, com barulho de saco plástico (todos os pertences são assim guardados dentro da mochila, por causa da chuva) e dorme-se às 22h, quando as luzes dos refúgios são apagadas. Há de se ter disciplina. Nos refúgios, os Hospitaleiros trabalham de graça, por amor. Geralmente dormem 30, 50 pessoas em um salão. Normalmente um banheiro para l0 peregrinos, uma ducha para 15. Não há privacidade, mas há respeito.
O terreno que percorremos é muito acidentado e há casos de torções, tendinites. As botas e a umidade causam bolhas nos pés. O caminho nos ensina a parar, a ter paciência. O Peregrino caminha o quanto pode e não o quanto quer, e sempre há outro Peregrino pronto a ajudar. Há solidariedade e amor.


O importante é o caminho, não a chegada

Não há a possibilidade de se perder no Caminho. Êle é sinalizado por setas amarelas, pintadas em muros, no chão, nas árvores. Como na vida, temos que ficar atentos aos sinais, observar, compreender.
Inexplicavelmente, acorda-se com disposição, sem cansaço, para mais um dia. Um passo depois do outro, com otimismo, aprendendo a vencer os obstáculos, sem medo. Um renascer a cada dia. A cada região, a paisagem se modifica. São caminhos de pedras, asfalto, lama. Colinas, montanhas, vales bosques. Campos de trigo, cevada, aveia. Carvalhos, olmos, choupos, oliveiras, sobreiros, amendoeiras e aveleiras. Papoulas, flores do campo. Rios, arroios, corvos e pássaros de nomes por mim desconhecidos, mas que se tornaram companheiros de jornada, assim como as borboletas, cucos, ovelhas, vacas, cachorros, lesmas, caracóis e cegonhas.
Ah, aprendi muito com o Caminho. Voltei mais próxima de Deus e por isso, mais otimista em relação ao "Caminho da Vida".
Agradeço as lições de humildade, simplicidade, de perseverança, harmonia com a natureza e tanto mais que o Caminho nos proporciona.
Obrigada, meu Deus. Obrigada, Santiago.

Inês Dutra Serpa
(Peregrinação realizada em maio de 2000)

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br