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O Carrinho Jacobeu


Sergin Castanheira (*)

O Carrinho Jacobeu

Muito frio, Dezembro.

Não faz tanto frio na Espanha há vinte cinco anos.
“Sao todos locos, los vascos e los brasileños, en Brazil e vacaciónes.”
Neve e gelo, caminhar é difícil, uma poça d’água vira pista de patinação, “presta atenção é gelo”.
Tombo.
Muchos albergues cerrados en invierno.
O de Belorado está em reforma, a saída é procurar o cura em sua casa. Existe um anexo onde guardam material de construção. Não faz mal, a primeira lição do Caminho é nunca reclamar do que lhe é oferecido.
Dentre as muitas tralhas, havia o resto de um carrinho de bebê, com suspensão e molejo, deveria ser de uma família muito rica.
Dormi com o carinho na cabeça.Bem cedo pela manhã vejo que a parte de baixo se separa do resto das ferragens. Ficam as rodas e um gradeado que é para colocar fraldas.
É agora ou nunca.
Tenho que sair cedinho senão o cura pode aparecer, ainda está escuro, ponho a mochila em cima ,amarro uma corda de ráfia, que havia achado, e... “Rumo a Santiago”.
Poucos peregrinos caminhando, controlava pelos livros de entrada dos albergues,dizem que no verão as pessoas não andam: Correm para encontrar um sitio para ficar.
Entrando em um pueblo...
-¿ Señor, por favor, donde hay setas amarillas?
O velho se assusta, arregala os olhos, e diz gesticulando:
- No ha. Por acá no ha setas amarillas.
Sigo pela mesma calle em que o velho vinha e logo encontro a seta amarela.
Tem algo estranho.




Chegando a Burgos a albergueira me agarra me abraça e me beija.
-¿Que passa?
É Maria. A simpatia em pessoa. Una albergueira brasileña. Se me recordo é de Fabriciano, Vale do Aço, pertinho de Belo Horizonte.
O albergue de Burgos esta sempre cheio, deve ser pelo calor humano, uns estavam voltando, outros com tendinite.
Comento com Maria o fato ocorrido com o velho.
Caíram na minha pele.
Mico total.
Um peregrino sujo cansado com os lábios rachados pelo frio e puxando um Carrinho, havia perguntado a um pacato velhinho; onde havia “cogumelos amarelos”
Seta em espanhol é cogumelo. Se habla flechas.

Encontrando com peregrinos pelo Caminho sempre comentava sobre coisas que havia visto ou fatos acontecidos.
Uma formação de nuvens, uma ermida ou um belo castelo Templário em cima da colina.
Os comentários eram sempre os mesmos; não vi, não percebi ou não observei.
Aquilo me intrigava...
Mais a frente percebo que os europeus caminham com o corpo arqueado, olhando para as pedrinhas do chão, por causa do peso de suas belas Mochilas cargueiras de 90 litros, que deveriam pesar por volta de 15 kilos.
O que será que eles carregam?

Com a mochila sobre do Carrinho, eu tinha o mundo pela frente.

O natal está chegando
Passo o natal em Carrión de los Condes,com o padre José Mariscal, e sua irmã, Señora Margarida.
Após a missa do galo, onde fui assediado por um bando de freiras, entre elas uma que havia morado em São Paulo, o padre e dona margarida deixam no albergue, uma torta e uma garrafa de sidra para ceia.
Boas lembranças.




Ano novo em Ave-Fenix com o druida Jesus Jato.
Villafranca del Bierzo estava em festa.
Alguns franceses e alemães que Jato buscou em outros albergues para a festa.
Bandeirinhas, apitos, muita comida e muita bebida.
Tudo preparado para meia noite quando jato prepara uma queimada especial. A primeira do ano.
Que sorte eu tive em passar a navidad com o padre Mariscal, e um año nuevo pagão com Jato e sua família.

A Galicia.
Terra celta. Onde há verde, onde as roseiras florescem no inverno, onde se mata porco nas ruas, onde as mulheres desbocadas, como no norte de Portugal, falam caralho e puta merda com a maior naturalidade.
E o Carrinho Subindo e descendo os cerros de O Cebreiro com os senderos cobertos com ouriços de castanha.
Como chove na Galicia.
Enfim, do monte Gozo, avisto Santiago coberto em bruma.
Após cumprir todos os rituais como ir a Oficina do Peregrino, assistir a missa do meio dia, tirar fotos do Carrinho na praza do Obradoiro, descubro que o Hostal dos Reis Católicos
Oferece desayuno, almuerzo e cena grátis por três dias, aos dez primeiros peregrinos que chegarem.
Pequei uma senha na garagem e subi para a cozinha onde o cozinheiro me serviu, em uma copa só para peregrinos, o melhor prato que os Hóspedes podem escolher e uma botella do mejor vino.
Durante todo o Caminho comi apenas lentejas, pan e jamon cozido. Estava magro e debilitado.
Era o paraíso.
Mais o Caminho não acabou.
Meu vôo de volta estava marcado para sair de Lisboa no dia 15 de janeiro, meu dinheiro estava acabando e eu teria que alquilar um sitio em um hostal por nove dias. Como eu não estava ali para fazer turismo...
Vou para o fim da terra.

Finisterre.
O grande final.
A pontinha da Europa. O último lugar conhecido à oeste até o século XIV.
Uma pequena cidade que vive da pesca artesanal, encravada em um cabo que avança sobre o Mare Tenebrosum.

Que vista tenho da baia, olhando pelas janelas do Bar Galeria.
Centenas de barquinhos coloridos iluminados pelo sol que se põe no Atlântico.
Um bar onde se encontra bebidas, conversas e o grande amigo Roberto velay, que recebe cada freguês dublando um peixe mecânico, desses chineses de lojas de 1,99, com voz de Franc Sinatra.
O bar vem abaixo.
Ponto de encontro de gente bonita e de intelectuais do lugar, tem paredes entulhadas de fotografias e no teto apetrechos de pesca.
Para cada caña Roberto oferece um tapa, pequeno regalo preparado por ele.
Passeando pelo porto, encontro Pepe, um carpinteiro de ribeira, restaurando um pequeno barco.
Bom de papo, me diz que havia morado no Brasil na década de cinqüenta.
Passo todas as minhas tardes no estaleiro conversando com Pepe, mesmo porque era o único que trabalhava na hora da siesta, de uma as quatro da tarde a cidade fica deserta.




Esta na hora de ir ao faro, que fica na ponta do cabo.
Conta a lenda, que os habitantes de Finisterre quando avistavam um navio cargueiro desligavam o farol para o navio naufragar e saquear a carga.
Um dos mais perigosos pontos para navegação. É chamada a Costa da Morte.
Logo abaixo do farol existe um local onde se cumpre o ritual de queimar as roupas com que se fez o Caminho.

Além das roupas, queima também um companheiro.

Ele que me aliviou do fardo, ouviu quieto o meu esbravejar de mau humor com as ampollas ardendo.
Ouviu-me Blasfemar quando as pernas doíam nas Calzadas que nunca findavam.
Ele que me ajudou a caminhar quando na decida da Cruz de Ferro em Manjarín ia à frente me puxando, como que querendo dizer; “anda rápido que o Caminho e longo.”
Cumpriu o seu Caminho.
Como Yacobe, pediu para ser queimado em Finisterræ.

Amigo Carrinho.

Dedico a você minha Compostelana.

Agradeço a: EUGÊNIO, ADRIANO e FERNANDA, que me fizeram cruzar o Atlântico.

A todos que ficaram ou seguiram o Caminho.

VERNA. África do sul
EDUARDO HAYATO. São Paulo, Brasil
MARCOS ILLESCAS. São Paulo, Brasil
SANTIAGO GUTIÈRREZ. Valladolid, Espanha
FABRICIO MATTOS. Florianópolis, Brasil
ANNA GRÜTTE. Alemanha

Aos Bruxos Magos e Druidas que cuidam do Caminho.

SANTIAGO ZUBIRI. Larrasoaña
Senhora FELISA. Logrono
MARIA. Burgos
Padre JOSE MARISCAL e sua irmã, Dona MARGARIDA. Carrión de los Condes
TOMÁS. Manjarin
JESUS JATO. Villafranca del Bierzo
ROBERTO VELAY. Bar Galeria. Finisterre
PEPE. carpinteiro de ribeira. Finisterre

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br