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O Encontro

Sérgio França (*)


O Encontro





Estava me aproximando do monastério de San Juan de Ortega quando avistei um homem a beira da estrada oferecendo água aos peregrinos que por ali passavam. Parei para tomar um pouco d'água e descansar um pouco. O homem sorriu e foi logo enchendo um copo para mim.

Senti uma calorosa acolhida em seu olhar que era talvez sua natural e terna feição. Estendeu seu braço e apertou minha mão com suas duas mãos numa demonstração de simpatia e honestidade. Sua afabilidade fez-me sentir confortável com sua presença e decidi me apresentar. Seu nome era Jonas e disse-me que passava algumas horas do dia à espera de peregrinos para lhes oferecer-lhe água.

Olhou para minha mochila, que embora grande estava bem mais leve e disse "vejo que vem de um longo caminho, peregrino". Perguntei a Jonas se ele havia visto os peregrinos com quem eu havia caminhado junto na primeira semana do Caminho. Respondeu-me dizendo que "passaram por aqui há alguns dias, mas não estavam indo a lugar nenhum". Jonas perguntou-me então o motivo de eu fazer a peregrinação. Há duas semanas que havia iniciado o Caminho e percorrido duzentos e quarenta quilômetros, mas era a primeira vez que alguém me perguntava sobre meus motivos. Respondi-lhe que era uma descoberta espiritual.

Jonas inclinou-se para pegar um cigarro de palha que estava sobre a mesa. Enquanto o enrolava deu um sorriso sem ao menos mostrar os dentes e disse "descoberta espiritual?" retrucou ele, e continuou "já faz muitos anos que eu estou nesse lugar à espera por peregrinos e sempre ouço a mesma resposta. Vêm de todas as partes e procuram pela mesma coisa". "E isso não é verdade?" Indaguei a ele. "Não seria paz de espírito a solução para os problemas que nos afligem?". Jonas respondeu "e acreditam que, quando chegarem à tumba do apóstolo, suas graças serão alcançadas e seus problemas estarão resolvidos. E há ainda aqueles que somente querem chegar a Santiago de Compostela e esquecem da aventura de viver enquanto estão viajando. Não prestam atenção ao silêncio, um raro convite à meditação, e falam o tempo todo".

'Haveria algo além de paz de espírito que pudesse ser alcançado?' perguntei a Jonas. "Sim, peregrino, a resposta está no Criador. O erro maior que as pessoas cometem é querer fazer tudo sozinhos. Mas é somente através de Deus que nos tornamos uno com a vida e alcançamos a harmonia perfeita". "Peça, e vos será dado, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á".

"Mas, não seria isso falta de responsabilidade? querer que Deus faça as coisas por nós?" perguntei a ele, e continuei dizendo " a única coisa que eu o peço é que Ele ilumine o meu caminho, que eu mesmo o percorrerei. Se houvesse um ponto na linha da vida, minha maior tarefa seria chegar a esse limite, e a partir daí peço por Sua intercessão.

Era deleitoso passar aquela manhã entretido com um homem sábio. Parei apenas par tomar um gole d'água, e em alguns instantes estava falando a um estranho o que pensava sobre a vida. Sabia que estava diante de uma alma avançada e decidi contar-lhe uma estória que eu mesmo escrevi.

Jonas, disse eu " certa vez um pescador ao terminar seu dia de trabalho, voltaria para casa, como de costume, se não fosse pelo fato do motor do barco não funcionar naquele final de tarde. O pescador, acostumado a improvisações em sua experiência, quando navegando sozinho em alto-mar, não se deixou aborrecer pelo problema que aparentava ser simples. Não sabia ele que estava diante de uma de suas maiores experiências de vida.

O conserto do motor não fora tão simples quanto ele julgava ser no princípio. Passaram-se dias sem nenhum sucesso com a reparação, o que começou a preocupar o pescador que estava ficando sem água e comida.

O pescador tinha esperança em seu retorno para a família. Lembrou da importância da fé dum citado jamais esquecido "se tiveres fé, mesmo como um grão de mostarda, dizei a esse monte "vá daqui a acolá" e o monte irá, e nada lhe será impossível".

Ainda que alimentado pela esperança de rever sua família e sustentado por uma fé inabalável de partir daquele lugar, não fora o suficiente para o pescador compreender o motivo de tanta incerteza e sofrimento.

Quando a água e a comida começaram a faltar o pescador sentiu-se abandonado à sua própria sorte e começou a duvidar da existência de um Deus justo e bondoso. Com a falta de alimento e um estado de espírito agoniado, o pescador não via outra alternativa senão aceitar a situação. Olhou para o céu desta vez sem replicar por sua situação e desfaleceu em seguida.

Dois dias após, tentou o pescador mais uma vez dar partida no motor que dessa vez inexplicavelmente funcionou. Iniciou, então, sua jornada de volta ao porto, do qual havia partido seis dias atrás para encontrá-lo, dessa vez, totalmente destruído. Naqueles dias uma tempestade varreu por completo casas e barcos naquela região. Ironicamente o barco do pescador fora o único a ser salvo da tragédia.

O pescador entendera finalmente o porquê de sua ausência no porto. E dentro de si havia uma forte convicção de que havia sido poupado da catástrofe que tantos outros lamentavam".

Olhei para Jonas que tão pouco se mostrava comovido com minha estória sobre a fé. Havia lhe revelado o dilema de minha vida e tudo que ele tinha como resposta era um semblante imperturbável e um estranho brilho nos olhos. E continuei "talvez o pescador tivesse que ficar ali, no meio do oceano, até aprender a maneira pela qual as coisas acontecem e que em nenhum momento ele duvidasse que ele se salvaria, e quando finalmente aprendesse isso, o barco funcionaria e ele teria subido mais um degrau em sua evolução espiritual".

Fiquei um tanto quanto perturbado com seu silêncio e sorriso ingênuo e continuei dizendo "saí por este mundo afora para aprender as lições que preciso aprender e, de repente, encontro um homem no meio do caminho que passou toda sua vida naquele lugar, no meio do nada dizendo a mim que as coisas não são bem assim como eu penso". Dessa vez não diria mais nada. Se ele não quisesse falar estava também pronto para partir.

Jonas se levantou e se aproximou de mim, colocando sua mão em meu ombro, pude ver agora de perto que havia em seus olhos uma profunda paz e uma bondade que refletida em sua face terna e meiga. E falou num tom tranquilo e firme " peregrino, somos todos únicos, especiais em tudo que fazemos o que torna cada pessoa uma raridade nesse mundo inteiro.Porém, confrontamos ilusões em comum, imperfeições a serem superadas, lições a serem aprendidas, o que nos torna iguais perante um ao outro. Mas, acima de tudo Deus não testa ninguém. O homem é livre para realizar seus mais ousados sonhos, porém, iludido em sua imensa liberdade e vaidade, é sucumbido por sua própria cobiça, que o destrói. Cedo ou tarde há de aprender que tudo é tão simples quanto o pôr-do-sol. Ele o mostrará mil maneiras de conhecê-lo e em todas essa maneiras Ele estará esperando por ti assim como sempre esteve. Basta abrir teu coração e consentir e tudo será teu amigo, e em tudo que fizeres, sentirás uma certeza no coração. Vá em paz peregrino ".


Naquela estrada esguia havia um homem
à esperar e oferecer água.
Abaixei a cabeça e continuei caminhando
tão simples, tão fácil
uma lição de humildade :
a estrada esguia…doçura na vida
o homem à esperar…o amor pelo próximo
água…de sabedoria e generosidade.
Maneira mais feliz de viver.
Abaixei a cabeça ainda mais. 
Chorando, continue caminhando.

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br