Home‎ > ‎Relatos Peregrinos - II‎ > ‎

Página do Diário


Auro Lúcio Silva (*)
PÁGINA DO DIÁRIO

No dia 7 de junho de 1999 passei por Manjarin, e, conversando com o Tomás (hospitaleiro), sobre o "ataque" feito à Cruz de Ferro (ela tinha sido serrada e roubada um dia antes da minha passagem por lá), fiquei sabendo que há propostas concretas de MERCANTILIZAÇÃO do caminho. Por isso fiz a brincadeira sobre a privatização, na página do Bill Puxos. Essa privatização já começou em Machu Picchu, onde vão construir um ... teleférico (?!) para "facilitar" o "turismo". Abaixo, o trecho do diário que fala disso.

07 de JUNHO

A noite foi fria, acordo encorujado dentro do saco de dormir. Com a prática, arrumar a mochila e cuidar da higiene matinal é coisa de poucos minutos. Em pouco tempo estou no refeitório para um rápido café da manhã.
Eu disse rápido café? O que encontro não é bem isso: as mesas estão arrumadas com toalhas limpas, pratinhos, taças e talheres elegantemente dispostos individualmente, na frente de cada cadeira. Bules de café, leite e chá à disposição, manteiga, geleias, e pães recém-saídos do forno!
Devo estar ainda dormindo e sonhando! Dormi em um refúgio de peregrinos e acordei em um hotel refinado, com direito a café da manhã! 
- Já sei, são aquelas tentações demoníacas! Estou sendo tentado a acreditar que tudo isso é que é a vida real, e que não vale a pena insistir naquela caminhada em busca do aprimoramento espiritual!
Pode ser miragem, mas esse cheiro de pãozinho saído do forno... e aquele francês, que chega a babar de apetite enquanto passa a geleia na torrada!... 
O que está acontecendo é uma demonstração da hospitalidade dos ingleses para conosco: todos os dias eles oferecem esse super café, com todo o carinho que estamos encontrando em quase todos os hospitaleiros voluntários do caminho.
Sem regatear, tomei um café-com-leite quentinho, pão com manteiga e geleia; ao final, levanto-me e vou levando a xícara para lavar na pia. A hospitaleira, delicadamente, pede que eu deixe tudo na mesa.
- Por favor, deixe-me ao menos lavar o que usei! - Insisto, meio sem graça.
- Nada disso, vocês já têm muito o que fazer por hoje. Deixe tudo aí, e que Deus o acompanhe!
Confesso: fiquei mesmo desarmado com o excesso de gentileza, pois há um bom tempo que venho cuidando de minhas necessidades e - como todos por aqui - perdi o hábito de ganhar uma pequena mordomia. Agradeci, e fui à recepção esperar alguns companheiros.
Enquanto aguardo, fico lendo o livro de Peregrinos e deixo alguns recados para alguns que, penso eu, estão vindo atrás de mim. Nesses livros, como já disse, sempre há recados e mensagens pessoais plenas de calor e emoção. Vale mesmo a pena aproveitar algum tempo para ler o livro, e deixar alguma forma de seu testemunho pessoal e incentivo para os que ainda vão chegar.
Coloco meu donativo na caixinha e, logo depois, chega aquela hospitaleira inglesa. Conversamos um pouco, e aproveito para dizer da importância do papel que eles desempenham em nossa jornada, e ela me dá uma notícia que anuncia como desagradável:
- Não sei se você sabe, mas há uns dois dias algumas pessoas vandalizaram a Cruz de Ferro!...
Temendo não ter compreendido bem a frase (estávamos falando em inglês), pedi que repetisse a informação. Era aquilo mesmo.
- Alguns vândalos cortaram o mastro de madeira e levaram a Cruz de Ferro! Creio que estão trabalhando por lá agora, para colocar uma nova. Espero que vocês não fiquem muito frustrados quando chegarem lá em cima.
Como eu estava com o livro de Peregrinos aberto, deixei escrita uma opinião pessoal sobre aquilo que acabara de ouvir, e fui para a frente do refúgio.
Ainda está meio escuro, o tempo é frio e há muita neblina. Faço os alongamentos matinais e, usando luvas, calça comprida e gorro de lã, inicio a subida em direção a Ponferrada, com passagem por Foncebadón, Manjarin e Molinaseca.
Saindo da cidade vejo um grupo que iniciou a marcha há alguns minutos, morro acima. Há claridade suficiente para a caminhada, a neblina branca dá uma luz difusa à paisagem primitiva dessa parte do caminho. Não sei se é impressão minha, mas parece que estamos seguindo quase em fila, e sempre há peregrinos no alcance visual para frente e para trás. Preocupação coletiva com Foncebadón?
Depois de um tempo andando pelo campo, chego a uma estreita estrada asfaltada, que continua sempre subindo. Ainda há muita neblina, a temperatura é de 5 graus, e o sol não consegue atravessar a nuvem de umidade.
Quase duas horas de caminhada, e uma placa anuncia Foncebadón. Ainda pelo asfalto, vou subindo e já posso ver as primeiras casas da vila abandonada.
O visual é mesmo impressionante: são casas de pedra, todas em ruínas, e o ar de desolação é aumentado pela névoa que envolve todo o lugarejo. Na entrada, uma placa conta um pouco da história do lugar, complementando o que se lê em quase todos os guias do caminho. Foncebadón já ocupou papel de destaque como centro de acolhimento de peregrinos, desde o estabelecimento do primeiro centro de acolhimento, há alguns séculos. A vila foi se desenvolvendo, principalmente graças aos incentivos e benefícios oferecidos pelos reis de Espanha, como forma de incentivar a proteção aos que peregrinavam a Santiago.
Segundo contou meu amigo tarragonês, Manuel, Foncebadón foi sede de um Concílio da igreja católica no ano 1000, o que mostra seu nível de importância à época. O que não se sabe exatamente é o porquê do êxodo gradual de seus moradores, até chegarmos ao que hoje existe: a Calle Real, outrora margeada de albergues e hospitais, parece um cenário de filme de suspense; é realmente um ambiente digno do episódio narrado no Diário de Coelho, cães sobrenaturais e sangue escorrendo pelo chão; paira no ar a impressão de que , a qualquer momento, vai acontecer alguma coisa supranormal.
Passeio pelas ruínas, entro nas casas abandonadas, faço uma foto junto ao cruzeiro na Calle Real e, sem qualquer expectativa tensa ou misteriosa, passa por mim a emoção de conhecer os monumentos abandonados do que foi outrora uma grande cidade.
A magia do ambiente é quebrada pela presença dos postes e fios elétricos que acompanham a rua principal, informando que os dias de cidade-fantasma de Foncebadón estão contados. Já posso ver, do lado direito, duas casas em reformas (as obras estão mantendo o aspecto primitivo externo, é claro), sendo que uma delas já ostenta o signo máximo dos nossos tempos: uma antena mini-parabólica fixada nas pedras seculares da parede. Não há necessidade de Legiões e outras formas assustadoras para simbolizar a presença das forças materiais e do poder econômico nessa longínqua Foncebadón: aquela panelinha de metal, apontada para algum satélite a 30 quilômetros de altura, não está lá dignificar o espírito humano ou trazer mensagens dos espíritos celestes. Muito pelo contrário.
Converso com alguns espanhóis, em frente à casa que está em reformas, e eles me dizem que está sendo construído um refúgio particular, e que deve ser o reinício da ocupação da vila. Acho que, daqui a algum tempo, vão oferecer passeios místicos pelas ruínas onde, por uma pequena taxa, o peregrino terá direito a lutar contra um Legião treinado (e devidamente desdentado, óbvio). Saudades da Ilha da Fantasia, Ricardo Montalban e do Tatoo...
Brincadeiras à parte, Foncebadón é um lugar que possui realmente sua magia particular. Quase ao sair, olho para trás e vejo o sol começando a surgir atrás das ruínas da velha igreja; essa igreja também está sendo reformada, mas o sol, ao aparecer por trás de suas paredes, desenha aos meus olhos o sombreado secular de seu formato; é impossível não voltar às considerações que eu fazia ontem à noite, e o nascer do sol em Foncebadón me trouxe um recado que coroou aqueles pensamentos sobre a eterna e repetida luta que travamos com nossos demônios: após cada disputa, ressurgimos plenos de luz, como esse sol atrás da igreja; nossa natureza humana - após o mergulho na noite dessas batalhas contra dragões e feras ameaçadoras - emerge cada vez mais próxima do grande objetivo: alcançar o inefável a partir de nossa estrutura humana, primitiva e propensa a cair em tentações.
Após Foncebadón continuo a subir, e o frio aumenta cada vez mais. Ao longe, a imagem da vila parece ainda mais ser pedaço de algum sonho passado, e ter caminhado por ela, vivenciando tudo que me foi permitido, foi - e está sendo - uma experiência espiritual poderosa. Lembro-me de todos os mitos de ressurreição: Jonas no ventre da baleia, Dante descendo aos infernos, o próprio Cristo vagando por três dias nos campos da Morte. Todas as civilizações possuem narrativas que, em última instância, representam o ciclo do herói: o abandono da segurança em busca de aventuras que sempre colocam em risco sua existência. Cada um de nós é um Teseu entrando no labirinto do minotauro que, apesar de parcialmente humano, ainda conserva a cabeça do Animal primitivo. Como escreveu Paulo Coelho, nós podemos adiar por muito tempo o confronto com nossos medos e forças que nos ameaçam, mas isso apenas fará com que o Monstro continue a andar do nosso lado. O mesmo Deus que nos coloca frente a frente com os perigos, nos dá as armas para que os vençamos: basta pedir e buscar em nossa própria alma, que lá está a representação completa Daquele de que fazemos parte.

À saída de Foncebadón, entrei numa neblina densa, o que abaixou ainda mais a temperatura. Quanto mais subo, mais esfria; agora estamos com 3 graus e tento andar mais depressa para esquentar o corpo. Em dez minutos alcanço dois colegas brasileiros, e seguimos comentando a passagem pela vila deserta. Cada um, é óbvio, teve uma impressão pessoal, mas ninguém passou por lá sem sentir alguma coisa especial, algum tipo de sensação profunda e estranha. Cada qual viveu, junto àquelas pedras cobertas de musgos, um momento todo particular de sua realidade. Foncebadón foi mais uma das estruturas, nesse estranho Caminho de Santiago, sobre as quais nos debruçamos para enxergar o que - para cada um de nós - é o mundo real. Cada um de nós constrói em si um Universo diferente, e por isso concordo com Fernando Dragó quando ele diz, sem meias palavras, que só existe uma realidade: a psíquica.
A neblina vai se esvaindo, e posso ver melhor a paisagem: a trilha corta gramados verdes, e há tufos de arbustos floridos em amarelo, branco e - novidade! - violeta.
Mesmo subindo sempre, ainda sinto bastante frio, e piso firme o chão de terra, respirando fundo e fungando bastante.
- O que eu esperava desse momento? - Tento organizar meus sentimentos (como se estivesse arrumando uma estante de bibelôs) - O que é a Cruz de Ferro? Por quê os peregrinos criaram essa pequena montanha de seixos!
Num flash back momentâneo, vi a gaveta da minha escrivaninha, em Águas de Lindoia, onde estava guardada a pedra que tinha planejado trazer para deixar aqui nesse local. Nos preparativos para a viagem, quis trazer para cá alguma pedrinha que tivesse significado especial para mim, algo que possuísse valor simbólico condizente com a - supunha eu - imponência do momento. Lembrei-me de algumas rochas que ganhei do meu primo Zezito, garimpadas no sítio de São Pedro do Turvo. Desde minha mais tenra infância fiquei encantado com aquelas pedras, existentes aos montes no sítio da tia Maria: rochas que, partidas, mostram em seu interior cristais translúcidos, de coloração violeta ou azulada! São daquelas pedras que encontramos em lojas de artigos para turistas, devidamente polidas e com preços em dólares. Mas lá, no sítio, estavam por todos os lugares, e eu, aprendiz de Indiana Jones, ficava horas recolhendo e admirando.
Pois bem, escolhi uma delas, pequena e com núcleo especialmente brilhante e de cor rósea, lavei carinhosamente, poli como pude as gemas e reservei para a a viagem. Eu lera em algum lugar que há uma tradição, pela qual o peregrino leva para a Cruz de Ferro uma pedra do lugar que ele nasceu; pois então, eu levaria o cristal rude da minha minúscula São Pedro do Turvo, onde pela primeira vez abri a boca (já com meus dois dentinhos) e iniciei uma série até aqui ininterrupta de berreiros e resmungos.
Na entrada de Logroño, quando D. Felisa pediu para nós uma pedra do Brasil, apalpei a pochete e descobri:
- A pedra não veio!
O Dalmo - sempre precavido - resolveu o problema, dando a ela uma pedrinha extra que trazia consigo. E eu continuei o caminho, sabendo que meu cristal não tinha embarcado comigo para a Espanha.

Depois de uma hora de ascensão pesada, vejo ao longe e acima a montanha de pedras, imortalizada em todos os livros que falam de Compostela. Destacando-se no alto de uma elevação, lá está o resultado do acúmulo das preces e desejos de cada peregrino que, nos últimos séculos, tem passado por aqui. Como já era esperado (e eu já tinha alertado meus companheiros para isso), o ápice do monte não exibia o coroamento que o imortalizou: o poste com a cruz de ferro no alto. Aliás, nem havia ápice, pois um trator (indecentemente estacionado ao lado do monte de pedras) havia escavado o centro do sistema e aberto um buracão bem onde fora serrado o poste original. Subindo nas pedras, eu vejo uma base de concreto recém-montada, onde será fixada a nova base da cruz.
O núcleo da área de obras está isolado por aquelas fitas plásticas amarelas que aparecem nos filmes americanos, toda vez que acontece um acidente ou homicídio. 
- Oi!...
Olho para trás, e lá está a Márcia, que deve ter chegado um pouco antes de nós. Sentada e desconsolada, olha para o espaço vazio do que seria o esperado monumento.
A pequena capela, um pouco acima do desarrumado monte de pedras, também foi "atacada" pelos vândalos: está toda grafitada e suja. Vamos ler as palavras:
- León solo! Autonomia para León!!!
Pelo que eu sei, ninguém ainda assumiu o, digamos, atentado ao monumento, mas os indícios apontam para um dos vários grupos separatistas que existem aqui na Espanha. Há algum tempo já venho notando dizeres semelhantes a esses, em placas e muros à beira do caminho, onde se percebe um tipo de "orgulho patriótico" pela própria terra.
Será que essa luta pela "independência e autonomia" justifica esses atos de afirmação de posição política, atos que vão desde ataque a patrimônios culturais (como esse que estou presenciando agora), a manobras mais violentas e radicais (sequestros, explosões em lugares públicos e mortes) ?
Nasci e vivo em um país que, embora geograficamente imenso e com diferenças culturais enormes, ainda se reconhece como um todo; da Festa do Círio de Nazaré aos churrascos das querências gaúchas, os brasileiros conseguimos criar uma identidade única no mundo, onde nossa diversidade étnica e cultural mesclou-se de tal forma, que constituímos (pela análise de antropólogos e profetas desse final de milênio) uma nação ímpar e voltada a uma nova forma de ser.
Essa luta me parece - assumindo claramente que não conheço a realidade das pessoas que a praticam - equivocada em seu mérito. Mesmo que se considere que a Espanha é um conglomerado de pequenas regiões que diferem entre si étnica e culturalmente, e que há séculos a união entre esses povos tem sido obtida - quase sempre - por uso de força política e militar, essas tentativas de criação de países minúsculos caminha em sentido contrário ao fluxo cósmico. Uma coisa, válida e meritória, é manter a luta pela autonomia cultural de seu povo e sua região; é exigir que governos centrais respeitem costumes, línguas e tradições regionais. Outra coisa é canalizar energia para processos que, do ponto de vista desse peregrino, tendem a baixar os pratos da balança para o lado do não. 
Quanto à luta pelos direitos da pessoa, acesso igualitário ao trabalho e aos bens e produtos da sociedade, a mim parece que isso é tarefa para cidadãos de qualquer país - independente do nome que figura na carta política da região. Em qualquer língua ou cultura, o acúmulo da riqueza nas mãos de uma minoria sempre foi - e será - agressão maior à porção humana daquilo que somos nesse planeta.
Se tenho dúvidas sobre a legitimidade do mérito dessas batalhas pela autonomia, posso afirmar que estou sendo atingido diretamente pelo método empregado dessa vez: 
- Cadê minha Cruz de Ferro! Bem na minha vez!...
O que eu esperava encontrar aqui? Qual a representação desse local, na minha expectativa de caminhante? Seria deixar aqui a pedra coletada em São Pedro do Turvo, e isso já está frustrado: esqueci a dita cuja no Brasil. Uma pedra do lugar onde nasci... olhando para o monte de pedras, todo desarrumado, vejo aquele mesmo gato da Alice, sorridente, que olha para mim e diz:
- Então pega uma!
Pegar onde? É claro, aqui! Em qualquer lugar! Aparecem duas imagens muito nítidas em minha mente, refletindo situações opostas: de um lado, toda uma motivação para que se definam novos limites geopolíticos entre países, como bombardeio em Kosovo, movimentos separatistas e nações poderosas massacrando economicamente as mais fracas; do outro lado, o astronauta russo olhando pela primeira vez a Terra, a partir do espaço e, iluminado por uma luz de esferas superiores, viu o nosso planeta e disse:
- A Terra é azul!
Não viu países, povos, mares ou continentes; não descreveu diferenças entre brancos, pretos, amarelos; nem mesmo percebeu a existência de capitalistas e comunistas - que era o "point" político da época. Só viu uma coisa:
- A Terra é azul!
E é dessa Terra que eu recolho uma pedra, na base do monte que está à minha frente. Retenho o mineral, quase esférico e um pouco menor que a minha mão, durante alguns segundos e, agradecendo a tudo que estava ocorrendo, aos companheiros de caminhada e aos ativistas do "León solo!", deposito carinhosamente a pedra no mesmo local de onde a tinha levantado.
Cumprido o ritual, vamos em frente. O débito para com o Monte de Pedras está cumprido.
- E a Cruz de Ferro? Qual é o papel dela aqui?
De acordo com o guia, esse é o ponto mais elevado do Caminho de Santiago; para ser mais preciso, relata que a antena de telecomunicações, localizada logo ali à frente, é apenas um pouco mais alta que esse lugar.
Olhando o perfil de todo o trajeto, de Saint Jean a Santiago, é nessa montanha que a Via Lactea - o caminho dos peregrinos refletido no céu, ou vice-versa - está mais próxima da Terra. Nesse lugar, há centenas de anos, a Cruz de Ferro vem sendo o pára-raios que absorve a energia das estrelas e a conecta com o planeta. Através do metal no qual foi moldada, a cruz integra o Caminho das Pedras ao Caminho das Estrelas. O debaixo une-se ao de cima, pois ambos são manifestação da Coisa Única, como dia a Tábua de Esmeralda, onde Hermes Trimegisto gravou - em linguagem obviamente hermética - os passos e a descrição dos processos mágicos que explicam o Universo.
A simbologia da cruz (o vertical em direção ao alto e o horizontal ao nível da terra) apresenta-se como o veículo físico - moldado em ferro - para esse casamento alquímico. As etapas físicas pelas quais passamos até agora (o barro, a água, o vento, o frio e outros) são agora amalgamados pela energia ígnea das esferas mais altas, que a nós vem trazida pela antena desenhada no signo da Paixão do Cristo.
Hoje, excepcionalmente, alguém retirou a cruz. O monte de pedras, ali edificado pelos peregrinos e que atua como elemento terra na absorção da energia dos astros, está descomposto. Somos nós, corpo físico de caminhantes que, do alto dessa montanha, elevamos os braços para os céus, e oferecemos a via de descida para que a ligação entre as esferas terrenas e celestes seja mantida.
Amanhã ou depois haverá uma nova Cruz de Ferro, e certamente as pedras voltarão a formar um cone (ou pirâmide ?) ao redor da base (com certeza de material mais resistente que a madeira), e o símbolo maior do cristianismo estará novamente no ápice do caminho de Santiago. Outros peregrinos depositarão, com suas pedras, pedidos, ofertas e expectativas sobre essa viagem, além de sonhos pessoais tão ou mais complicados do que esse que estou vivendo agora.
A Cruz de Ferro dos peregrinos não foi e nem poderia ser sequestrada daqui, pois não se pode confundir o símbolo com o objeto que o representa; a verdadeira cruz, a antena que liga o humano ao divino, está plantada em cada ser humano, imediatamente antes do ponto onde, "no corpo da alma de uma pessoa, se produz a palavra Eu" (com permissão do Caetano pela apropriação da maravilhosa imagem poética que ele usou em Drama). E o divino - ainda que simbolizado pela estrelas acima de nós - está verdadeiramente no interior de cada um.
E deixando mais um pouquinho do meu Eu ao lado daquela pedra, agora passo um pouco abaixo da tal antena de comunicações, onde uma casinhola das Forças Forças Armadas faz manutenção e evita qualquer vandalismo por arroubos separatistas. Mexer na antena simbólica do Caminho tudo bem, mas atrapalhar comunicações entre militares, empresas e consumidores, aí também é demais, não é verdade?...
Continuo subindo, há alguns companheiros atrás de mim e outros mais à frente. Em cada lado da trilha, arbustos floridos em violeta esfregam-se com força contra as coxas e pernas dos caminhantes. Felizmente, apesar do frio imenso, não há umidade na folhas, e minha roupa não fica encharcada por esse "lava-rápido" natural.
Um pouco mais de sobe-desce, e chegamos quase juntos a um lugar que eu já conhecia por fotografias: o refúgio de Manjarin. É inconfundível (e imperdível): logo na chegada encontro as placas de madeira onde, em letras coloridas, estão nomes de centros mundiais de peregrinação e suas respectivas distâncias a partir daqui.
- Machu Pichu, 9435 quilômetros... Jerusalém, 5000... Roma, 7475... e SANTIAGO, 222 QUILÔMETROS! Tô chegando!
Passando por um bando de gansos, fiéis guardiães do local, chego à choupana onde Tomás - por pura convicção pessoal - recebe e aloja os que querem pernoitar aqui. Entro, com os que chegaram comigo, para tomar um café e carimbar a credencial, e encontramos alguns peregrinos ainda se arrumando para levantar acampamento. 
Um toca-fitas enche o ambiente de música barroca, aumentando a sensação de que estou de volta aos meus tempos de "hipongo", nas viagens para Trindade e afins: vários colchões e mantas espalhados pelo cômodo rústico, objetos diversos pendurados nas paredes, símbolos, artesanato. A lareira acesa ameniza o frio, e tomo um bom copo de café com leite, quentinho e disponível sobre o fogão.
Apresento a credencial ao Ramón, hospitaleiro voluntário que faz companhia ao Tomás.
- Você viu o que fizeram à Cruz de Ferro? - perguntou-me enquanto abria meu documento.
- Sim, e quase todos ficamos decepcionados quando passamos por lá. Afinal, aquilo pertence um pouco a todos nós! - respondi com sinceridade.
Ramón interrompeu o gesto de carimbar a credencial, ficou um tempo parado e olhando para um ponto à sua frente. Olhou para mim e disse:
- Os que fizeram aquilo cumprem ordens do demônio. Mas nós vamos continuar a fazer nosso papel: vocês, peregrinos, tem a missão de levar, para o mundo novo que vai surgir, os valores elevados que Deus colocou em nós; é por isso que vocês todos estão fazendo essa caminhada até Santiago, mesmo que não percebam bem o que significa!
E - pof! - carimbou a credencial. Ruminei algo como "... sim, claro, de acordo...", e saí, ainda impressionado com a segurança e o clima que - pelo que pude entender e sentir - estava presente em suas palavras.
Moeda na caixinha de donativos, e vou para o lado de fora me preparar para a continuação da marcha. Enquanto me arrumo, converso com Tomás, e o assunto - como teria que ser - era o ataque e roubo da Cruz de Ferro.
- Não é a primeira vez que a Cruz é atacada, - esclarece o albergueiro - há um ou dois anos serraram o mastro, mas deixaram a cruz tombada no local. Agora fizeram o trabalho completo.
- Por quê estariam fazendo isso, Tomás? - pergunto, curioso para conhecer a opinião daquele que praticamente mora naquele lugar há vários anos.
- São mudanças dos tempos, - responde-me o espanhol, como se estivesse falando de um assunto já muito conhecido - pois o Caminho de Santiago é sempre o mesmo, mas a sociedade vai mudando ao redor dele. Podem fazer o que quiserem, mas o caminho continuará sempre aberto a quem queira fazê-lo!
- Deve ser difícil manter a tradição, - continuo o assunto - pois nós temos visto vários exemplos de interesses econômicos e políticos interferindo e modificando as características do caminho...
- E você nem imagina o que tentaram fazer, no ano passado!
Tomás me contou das tentativas feitas para abertura de licitação e instalação de uma lanchonete ao lado da Cruz de Ferro.
- Nós não permitimos, e - é claro - e não vamos permitir!
Antes que eu me fosse, Tomás me mostrou cópias de jornais, denunciando um falso peregrino que se infiltrava nos refúgios - equipado com todos os acessórios usuais da marcha - em busca de graças mais terrenas que as indulgências oferecidas pelas autoridades eclesiásticas.
- É preciso tomar cuidado!...
Um abraço, uma foto e deixo Tomás sorridente, a cruz vermelha de sua profissão templária destacando-se em sua blusa, acenando um adeus.
- Bom caminho, e Deus te acompanhe, peregrino!
A trilha agora desce quase abruptamente. Ainda faz muito frio, talvez abaixo dos 3 graus. Outros peregrinos seguem à minha frente, e vamos nós morro abaixo. Imagino o Tomás, lá de cima, vendo nosso grupo se afastando, e preparando a cabana para a chegada de novos caminhantes, ansiosos pelo ambiente cálido e café com leite idem. É fantástica sua dedicação ao atendimento dos caminhantes: no inverno, a cabana fica quase coberta pela neve, e só se mantém graças à ajuda da brigada do Exército, alojada ali perto. É um hospitaleiro especial, não apenas acolhe e incentiva, mas protege o Caminho e os caminhantes, cumprindo a missão aceitou para si.
O cavaleiro templário de hoje não precisa mais defender os peregrinos contra os mouros e salteadores da Idade Média; homens de terno e gravata, reunidos sob o ar condicionado e ao redor de mesas executivas, formam um exército muito mais devastador ao espírito da peregrinação do que centenas de adagas muçulmanas. O arroubo de ativistas políticos pode apenas fazer alguns arranhões no meio físico do caminho, mas o perigo real vem da própria estrutura do mundo atual, da desqualificação dos valores éticos e da priorização absoluta da riqueza e do poder em detrimento dos direitos básicos das pessoas à vida, à paz e à felicidade.
Esse momento, motivado pelo papo com o Tomás e com Ramón, lembra-me alguma coisa do Apocalipse de São João, mas cujas palavras não consigo recordar. Vou procurar na minha Bíblia, à noite.
Do alto do morro começa a aparecer um conjunto de telhados iguais, de cor cinza chumbo: é a cidade de El Acebo, a primeira da Província do Bierzo. Agora deveremos entrar em um vale fértil, famoso pela qualidade de seu vinho, e que termina de supetão, cortado pela súbita elevação das cadeias do Cantábrico. A beleza dessa região prepara o corpo e o espírito para a tradicional e temida subida d'O Cebreiro.
Já mais perto posso ver que os telhados são feitos de ardósia, a mesma pedra laminada que existe nessas montanhas, e brota nas margens e no solo do caminho nos últimos quilômetros que venho percorrendo. Entrando na vila, sigo pela rua principal e paro no bar Mesón Acebo: a quantidade de mochilas e cajados na porta denunciam que o mesmo local foi escolhido para o lancheda maioria dos que desceram de Manjarin.
De fato, uns quinze peregrinos - e entre eles sete ou oito brasileiros - tomam café, bocadilhos e outros petiscos, aproveitando o gostoso e quentinho ambiente do bar. Como o frio aguçou minha fome, incorporo-me ao grupo que pede sopa de alho e vinho: belíssima ideia! A tal sopa está diferente daquela que eu comi em Hospital de Órbigo, muito mais temperada e saborosa!
Ficamos quase uma hora conversando, trocando idéias sobre a passagem por Foncebadón e Manjarin. Na hora de sair, a rádio local fazia-nos ouvir, em alto e bom som, um pagode já muito conhecido de nossotros: En la boquita de la botella, com todo "segura el tchan!" que tem direito. Ai, ai, até aqui!... 
Saio por volta das 12:30, e em pouco tempo tenho o vale à minha frente. A silhueta de Ponferrada destaca-se contra a imagem dos Montes do Cantábrico; quase uma hora andando por belas trilhas e campos, e chego a um descampado fantástico, um gramado sombreado pelas enormes copas de três ou quatro castanheiras gigantescas! Alguns caminhantes conversam com dois velhotes espanhóis, outros estão descansando na grama. Por que não? Abro o saco de dormir e puxo uma palha gostosa, depois de tomar um suco de laranja...
Acordo meia hora depois, quase todos já se foram. Sem pressa ou ansiedade vou aproveitando o visual primaveril do Bierzo, em direção a Molinaseca. Dizem que os peregrinos costumavam banhar-se aqui em Molinaseca, e tentei seguir os trâmites: parece que a água vem diretamente de uma geleira recém-derretida! Vou entrando no rio, tão limpo quanto gelado, e as pernas chegam a ficar dormentes! Sem chance de banho completo, apenas uma molhadela simbólica e vamos em frente.
O frio da manhã, a neblina da montanha e - agora - o banho gelado provocam um pouco de coriza, mas nada de alarmar. Um pouco antes de Ponferrada encontro todo o grupo dos amigos gaúchos, e formamos um vultuoso exército Brancaleone em direção ao castelo templário que dá fama àquela cidade.
Ponferrada é uma cidade grande, parece que a última antes de Santiago. Depois daqui, apenas vilas e vilarejos menores. Bem na entrada do setor urbano de Ponferrada temos um grupo de uns seis caminhantes à nossa frente; enquanto eles param para pedir informações num quiosque, o Márcio - guia gaúcho - indica um atalho em direção ao refúgio.
De fato, em duas quadras chegamos ao sobrado, onde novos hospitaleiros voluntários fazem a honra da casa. Outros brasileiros já chegaram antes de nós: Marcelo, Angela e Rescala (que tinha dormido em Manjarin). Como gentileza do albergueiro, em deferência ao tamanho de nosso grupo, recebemos um quarto exclusivo para nós, brasileiros.
Um dos hospitaleiros me diz que eles acham normal a presença de alemães, belgas, franceses, suíços e outros europeus nesse trajeto, mas não compreendem o que leva um brasileiro a voar dez mil quilômetros para caminhar oitocentos, aqui na Espanha. Pois é, nós também não...
Durante o banho, continuo encasquetado com a conversa, pois êle tem razão: só hoje, e aqui, aqui, somos doze brasileiros! As motivações pessoais, a julgar pelo que conversamos entre nós, são as mais diversas possíveis; poucos há que estão vindo com objetivos bem claros e definidos: a maior parte está vindo mais ou menos como eu vim: sabemos que é importante estar aqui, e vamos ver se é possível saber o porquê.
À tardinha, o Rescala - mouro baiano - me convida para irmos visitar o castelo dos Templários, enquanto esperamos abrir o restaurante para o jantar. E lá vamos nós, roupa de passeio, marcha lenta e tranquila.
É uma visita que vale a pena, mesmo se você, peregrino, não estiver interessado nas histórias e no papel dos templários na formação do caminho de Santiago. A construção é imponente, e é gostoso apreciar as técnicas de construção usadas na Idade Média. Olhando a cidade, através das seteiras das torres do castelo, é fácil perceber o quão estratégica é sua posição: de cima podemos ver - e alcançar com flechas e lanças - a entrada da cidade e o curso do rio Boeza. Seria difícil a passagem de viajantes à revelia dos fiéis escudeiros templários, que tomavam como missão de vida a proteção dos peregrinos e do próprio caminho.
É esse o espírito da cavalaria provençal, a que me referi em Hospital de Órbigo: é a luta por um ideal sublime, pela defesa do que - para eles - era o direito de se chegar à cidade sagrada do Ocidente (uma vez que os caminhos a Roma e Jerusalém eram ainda mais complicados e perigosos). Essa profissão de fé teria que ser sustentada por uma estrutura física e econômica consistente, e assim foi com os templários: seu poder militar e econômico cresceu tanto que assustou os nobres franceses e espanhóis, assim como colocou pulgas atrás da orelha dos representantes da Igreja Católica.
Não que esses cavaleiros fossem exatamente anti-clericais, mas sua concepção espiritual não seguia à risca todos os dogmas da igreja romana, e seus rituais e objetivos espirituais não coadunavam com a tradição eclesiástica da época; somando-se a preocupação dos bispos com o estabelecimento de possíveis heresias (como a que "assolava" a região do sul da França) ao medo que o poder de guerra dos cavaleiros causou nos nobres espanhóis, a igreja colocou a Ordem fora da lei. Perseguições, torturas, confisco de bens, e os templários pulverizaram-se em outras formas de organização, espalhadas pelo mundo medieval, moderno e contemporâneo.
No castelo ficamos curtindo a cidade, conversando com seu Carol sobre civilizações clássicas, religiões, história de povos, e por aí afora.
Depois da visita, Rescala e eu fomos a um bom restaurante, onde degustei - prima volta! - um prato típico da região, o pulpo à gallega. Um cozido de polpudos pedaços de povo (chega de "p's"!), temperado com páprica picante - e põe picante nisso!
Antes de dormir, abro minha pequena Bíblia (presente de minha irmã) e procuro a passagem do Apocalipse que me veio à mente, quando Ramón me falou sobre as "mudanças", e Tomás e eu conversamos sobre o que representa o crescimento desmedido do poder econômico nos dias atuais. É esse aqui:
"E sobre ela (Babilônia) choram e lamentam os mercadores da terra; porque ninguém mais compra as suas mercadorias; mercadorias de ouro, e de prata, e de pedras precisas, e de pérolas, e de linho fino, e de púrpuras, e de seda, e de escarlata; e toda a madeira odorífera, e todo o vaso de marfim , e todo o vaso de madeira preciosíssima, de bronze e de ferro, e de mármore, e (...) cavalos e carros, e corpos e almas de homens". (...) Os mercadores destas coisas, que com elas se enriqueceram, estarão longe, pelo temor do teu tormento, chorando e lamentando. (18; 12-15).
Puxa vida, esse texto, com música do Zé Ramalho, no alto de Manjarin! Por outro lado, parece um comentário econômico sobre a crise do capitalismo...
Os colegas de quarto conversam e riem alto, e isso afasta as imagens nostradâmicas da minha cabeça: agora o Márcio põe o colchão no chão e o arrasta para perto da porta, porque o estrado da cama é mole demais; quando o barulho diminui, leio um trecho da "Investidura do Peregrino" , para embalar o sono dos ouvintes compulsórios.
Aos poucos entro num sono leve, incrementado pela ação do descongestionante que me obriguei a tomar: antes um pouco de medicação do que acordar de madrugada com nariz tapado e boca seca.
Bom, não adiantou: todos acordamos de madrugada, por causa do grito do Márcio. O Carol levantou-se para ir ao banheiro e, como não sabia que o Marcio tinha se deitado em frente à porta, pisou com tudo no pescoço de nosso guia. Foi um grito seco e curto, mas suficiente para mais meia hora de risadas e conversas na madrugada. 
Ao final, o cansaço venceu a todos.

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br