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1º dia: MOGI DAS CRUZES a GUARAREMA – 28 quilômetros


1º dia: MOGI DAS CRUZES a GUARAREMA – 28 quilômetros


"Não estou sozinho nessa jornada, Deus é o guia da minha caminhada.” (Yohan Nambar)


A jornada desse dia, conforme está dito no site oficial da Rota da Luz, seria de 26 quilômetros, uma extensão razoável para a primeira etapa.

Porém, independentemente da conotação numérica, como me é peculiar, resolvi sair bem cedo e às 4 h já estava em pé, me preparando para o trajeto do dia.

O café da manhã no hotel somente seria servido após as 6 horas, de forma que ingeri uma fruta e uma barra de chocolates, depois já me sentia saciado e pronto para partir.

Assim, exatamente, às 5 h 30 min, deixei o local de pernoite e segui por ruas vazias e frias da simpática urbe, em direção ao centro cívico da cidade, localizado próximo de onde está o marco inicial desse novel roteiro.

Depois de caminhar pouco mais de dois mil metros, quando ali cheguei, já encontrei a peregrina Sônia me aguardando.


A primeira flecha que encontramos na Rota da Luz/SP.

Rapidamente, fizemos singela oração pedindo proteção no caminho, depois partimos em frente.

O roteiro segue pela Avenida Francisco Rodrigues Filho que é, na verdade, a rodovia SP-066, que liga Mogi das Cruzes a várias cidades.

Para tanto, caminhamos por calçadas laterais e, na falta delas, seguíamos pelo acostamento da rodovia, com bastante cuidado, pois embora estivéssemos em horário matutino, ela já apresentava expressivo tráfego de veículos.

Nesse trecho, em determinado local, por uma ponte, ultrapassamos o rio Tietê, que apresentava ínfimo volume líquido, por estar ainda muito próximo de sua nascente, localizada no município de Salesópolis.

Dois mil e quinhentos metros à frente, obedecendo a sinalização, adentramos à direita, na Avenida Ricieri José Marcatto, e prosseguimos transitando por bairros periféricos.

Infelizmente, como já é hábito em grandes centros urbanos, encontramos muito lixo nas calçadas e inúmeros cães vagueando a esmo pelas ruas, porém, nenhum deles fez menção de nos atacar.

Esse primeiro trecho é bastante povoado e, por isso mesmo, desgastante para o peregrino, mas, ainda que lentamente, estávamos deixando a civilização e o barulho que lhe é peculiar.


Trecho ainda em asfalto, mas arborizado.

Aproximadamente, 5 quilômetros percorridos em bom ritmo, findaram-se as residências e passamos a transitar por locais arborizados.

Com o dia já claro, a Sônia, mais comedida, foi ficando à minha retaguarda, e pude prossegui em meu ritmo usual de caminhada.

Finalmente, percorridos 11 quilômetros sobre piso duro, adentrei em terra e meus pés, de pronto, agradeceram.


Depois de 11 quilômetros, início da estrada de terra.

O dia se apresentava nublado e fresco, temperatura na casa dos 15 graus, agradável para caminhar.

Logo teve início leve garoa que logo se findou.

Quinze quilômetros vencidos, transitei pelo distrito de Sabaúna, cuja sede é Mogi das Cruzes.


Transitando pelo Distrito de Sabaúna.

Seu nome deriva da palavra Tamba Una em tupi-guarani e significa Concha Preta, tipo de concha muito comum no ribeirão Guararema, que corta o distrito.

Conta atualmente com 14.511 habitantes e está trabalhando para se tornar um pólo turístico.

Possui boa qualidade de vida, poucos habitantes, e inexpressivo tráfego de veículos, o que atrai moradores da capital paulista para ali residir.

Abriga hoje várias fazendas e um bom setor industrial, sem contar que o bairro de Botujuru faz parte também do distrito.

Ali há variado comércio com bares, padarias e mercadinhos.

Assim, se eu estivesse necessitando me prover de água ou víveres, encontraria tudo ali com certeza.


Estação Ferroviária situada no Distrito de Sabaúna.

Mais abaixo, passei diante de sua estação ferroviária recentemente revitalizada e com pintura nova.

Prosseguindo, logo acessei uma estradinha situada entre árvores nativas e tudo mudou para melhor.


Trecho fresco e arborizado.

Pássaros gorjeavam e, afora isso, tudo o mais era silêncio.

Em determinado trecho, cercado por muito verde, fiz uma pausa para ingerir uma fruta e me hidratar.


A sinalização, como um todo, se manteve excelente.

Depois segui adiante, curtindo a beleza da trilha e, sem dúvida, foi esse o trecho mais bonito da jornada.

Por sinal, foi nele que eu aproveitei para colocar minhas orações em dia.


Trecho plano, retilíneo e arborizado.

O clima prosseguia fresco e tudo levava a crer que o sol nesse dia não apareceria, como de fato ocorreu.

Mais quatro quilômetros vencidos sem grande esforço, passei pelo distrito de Luís Carlos que já pertencente a Guararema e que me surpreendeu positivamente pela beleza de suas casas, todas com pintura recente e nas mais variadas cores.


Distrito de Luís Carlos: belíssimo!

Ali há uma estação ferroviária que também foi recentemente revitalizada.

Inaugurada em novembro de 1914 e tombada pelo município, seu nome deriva do Dr. Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros, chefe do 2º Distrito Ferroviário da Central do Brasil, e que era engenheiro civil e poeta.

À época, foi ele que autorizou sua construção, pois os imigrantes que povoavam a região necessitavam embarcar a produção da lavoura para o Rio de Janeiro e São Paulo.

Carioca, exerceu a função de chefe da Estrada de Ferro do Central do Brasil e em paralelo a esta função, publicou quatro livros e chegou a ocupar a cadeira 18 da Academia Brasileira de Letras.

Hoje, restaurada, a estação tem de volta suas características arquitetônicas e principalmente sua história, e representa a formação do bairro.

A estação é o destino do Passeio Turístico Estação Guararema – Estação Luís Carlos, realizado com a locomotiva Maria Fumaça 353.


Igreja de São Lourenço, situada no Distrito de Luís Carlos.

Transitando calmamente pelo local, mais abaixo, passei diante de uma singela ermida.

Segundo li, trata-se da Igreja de São Lourenço, que faz parte da história do povoado.

Seu telhado foi também recentemente restaurado e, as paredes externas foram pintadas nas cores do padrão azul antigo.

Construída no ano de 1906, famílias tradicionais de Mogi das Cruzes fizeram doações financeiras para a capela.

Seguindo em frente, passei a transitar entre grandes fazendas de gado leiteiro.

O piso prosseguiu em terra batida, excelente para caminhar.


Trecho agradável, plano e com mata nativa.

O entorno seguiu interessante, embora eu tenha encontrado algum trânsito de veículos nesse intermeio.

Mas, nada que pudesse empanar minha alegria de estar novamente em contato com a natureza.


Um pé de manacá da serra florido, enfeitava a Rota nesse trecho.

A sinalização, diga-se de passagem, está excelente, e embora eu estivesse me orientando pelo aplicativo Wikiloc instalado em meu aparelho celular, dificilmente me perderia se estive apenas atento às flechas amarelas.

Então, depois de 20 quilômetros, enfrentei o único ascenso importante dessa jornada.

Já no topo, pude admirar a paisagem circundante, que abrangia até onde o horizonte se findava.


Bela visão, desde o cimo do morro.

Então, teve início terrível descenso, que venci com tranquilidade, pois um pequeno vacilo poderia redundar em terrível queda.

E quando acessei o local plano, passei a caminhar em zona urbana, transitando por bairros periféricos.

Mais dois quilômetros vencidos sem maiores dificuldades, adentrei em Guararema, minha meta para esse dia.

Ali me alberguei na Pousada Guararema, onde paguei R$70,00 por um sofrível quarto individual.


O local onde fiquei hospedado e, em frente a ele, o restaurante da Lica.

Embora o atendimento dispensado pelos funcionários aos hóspedes seja de primeira qualidade, sem dúvida, nota-se que o decrépito estabelecimento precisa de urgentes reformas.

A cidade conta com várias opções de hospedagem e eu não retornaria a este local para pernoitar.

Para almoçar utilizei os serviços do restaurante da Lica, situada defronte à Pousada, este sim de excelente qualidade.

Nele paguei R$39,90 o quilo da refeição, servida no sistema Self-Service.


Estação Ferroviária de Guararema/SP

No ano de 1608, Gaspar Vaz obteve uma sesmaria em Mogi e, três anos mais tarde, o próprio fundou o aldeamento da Escada, para onde foram levados índios já catequizados.

Em 1734, com a vinda dos franciscanos para a região, ergueu-se um alojamento anexo que passou a funcionar como convento.

Construído em taipa de pilão, o conjunto, representativo da Arquitetura Colonial Brasileira, foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em janeiro de 1941.

A capela recebeu o nome da Nossa Senhora da Conceição e logo passou a chamar-se Nossa Senhora da Escada.

Há várias hipóteses para a mudança do nome.

O fato mais provável talvez seja este: "Reza a tradição popular que os indígenas tinham por hábito colocar sobre a sepultura de seus mortos um fardel cheio de alimentos e uma escada para que a subida da alma até o reino de Tupã se realizasse de maneira tranquila. Conhecedores deste fato, os padres teriam tratado de esculpir degraus ao redor da Virgem, com o objetivo de estabelecer uma ligação entre as crenças pagãs e a religião adventícia, de modo a facilitar a catequização”.


O "Calçadão" coberto de Guararema/SP.

Em 1875, Dona Laurinda de Souza Leite, a fim de auxiliar uma ex-escrava, Maria Florência, fez-lhe doação de um quinhão de terra situado às margens do rio Paraíba, em lugar plano, distante 3,5 quilômetros do Arraial da Escada, pouco acima da foz do ribeirão Guararema.

Levada por sentimentos religiosos, Maria Florência deliberou construir numa parte do terreno recebido uma capela para o santo de sua devoção, São Benedito.

Com o auxílio de outras pessoas e algumas economias suas, Maria Florência em pouco tempo conseguiu terminar a construção da Capela de São Benedito.

Aos poucos foram se estabelecendo outros moradores nos arredores da capela, formando-se um vilarejo que recebeu o nome de Guararema (do tupi-guarani - Pau D’Alho), devido à abundância dessa árvore nesta região.

Em julho de 1876, inaugurou-se o trecho da EFCB - Estrada de Ferro Central do Brasil, entre Mogi das Cruzes e Jacareí com a passagem da estrada de ferro pela Vila: esta se desenvolveu rapidamente e por Decreto n.º 8 de 08 de janeiro de 1890, a sede do Distrito de Paz da Escada foi transferida para o povoado de Guararema, que foi elevado à categoria de Município pela Lei n.º 528, de 03 de junho de 1898.

População atual: 26 mil habitantes.

Suas principais atrações são: Distrito de Luís Carlos, Estação Central, Igreja Nossa Senhora da Ajuda, Igreja Nossa Senhora da Escada, Ilha Grande, Maria Fumaça, Memorial “Origens de Guararema”, Pedra Montada, Portal Terra Guararemense e Recanto do Américo.



Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Guararema/SP.

Mais tarde, após profícuo descanso, fui visitar e fotografar a igreja de Nossa Senhora da Ajuda, que foi construída por Manuel Pinto do Rego, por volta de 1682, em uma colina, às margens do Rio Paraíba.

Para alcançá-la é necessário escalar 81 degraus.

Trata-se de uma das construções coloniais mais antigas no Estado, contudo, não existem informações exatas sobre a sua edificação.

Antigamente, ela foi núcleo religioso das fazendas próximas, servindo também de cemitério, enterrando-se os senhores no interior do templo e os escravos à sua retaguarda. 


O altar-mór da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Guararema/SP.

Em 1927, José Benedito da Cruz, um artista sacro, pintou o forro da capela com a figura de Nossa Senhora rodeado por 11 querubins.

A ermida possui uma imagem de Nossa Senhora D'Ajuda, em terracota, provavelmente, de origem portuguesa.

Em 24 de setembro de 1984 a capela foi tombada como monumento de interesse Histórico - Arquitetônico pelo CONDEPHAAT.


Igreja matriz de Guararema/SP.

Em seguida, fui até o centro da cidade para visitar e fotografar sua igreja matriz, cujo padroeiro é São Benedito.

Já o nome da Paróquia, curiosamente, é “Paróquia de São Benedito e Nossa Senhora da Escada”. 


O altar-mór
 da Igreja matriz de Guararema/SP.

Para os leigos no assunto, como eu, o Direito Canônico define Paróquia como “a comunidade de fiéis submetida a um presbítero (padre), que recebe o título de pároco”.


Cidade de Guararema/SP. Gostei muito!

A cidade de Guararema, como um todo, me agradou imensamente, por sua beleza plástica e limpeza nas ruas.


Prédio que abriga a Estação Literária de Guararema/SP.

O povo local também se mostrou hospitaleiro e respeitoso com os pedestres, mormente os motoristas que trafegam pelas ruas dessa simpática urbe.


Sinalização da Rota da Luz em uma das avenidas de Guararema/SP.

RESUMO DO DIA:

Tempo gasto, computado desde o Hotel Marbor, localizado em Mogi das Cruzes/SP, até a Pousada Guararema, localizada em Guararema/SP: 6 h 31 min.

Clima: frio e chuvoso de manhã, nublado o dia todo, com temperatura variando entre 13 e 21 graus.

Pernoite na Pousada Guararema: Apartamento individual sofrível – Preço: R$70,00 - (Casal: R$130,00)

Almoço no Restaurante da Leia - Excelente! – Preço: R$39,90 o Kg, no sistema Self-Service.


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de razoável extensão, com piso asfáltico e expressivo trânsito de veículos, até o distrito de Sabaúna. O trecho sequente se mostrou ermo e silencioso. O ponto alto da jornada, sem dúvida, foi a passagem pelo belíssimo povoado de Luís Carlos, recentemente revitalizado. No geral, uma etapa sem maiores dificuldades altimétricas, mas com bastante asfalto, tanto no início quanto no final da jornada. Quanto ao local de pernoite em Guararema, diria que foi sofrível e decepcionante, pelas precárias condições que encontrei em meus aposentos.