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Trilha da Bocaina - JE


2020 – TRILHA DA BOCAINA - (JOAQUIM EGÍDIO) – 27 quilômetros

Todos os dias o Sol nasce e te diz “Bom dia!”. E em teu caminhar há sempre o vento a beijar-te o rosto e uma nova descoberta a te esperar. Viver e aproveitar estas coisas só depende de ti.” (Augusto Branco)




As caminhadas, todos sabemos, são um dos exercícios preferidos de quem quer manter a forma, aliviar o estresse, reduzir as tensões e relaxar.

Em Joaquim Egídio, distrito que integra uma Área de Proteção Ambiental, a APA de Campinas, há bons roteiros de caminhadas para quem quer aproveitar o contato com a natureza e admirar paisagens rurais.

Nesse sentido, priorizando o cenário ideal para a prática de “trekking”, intimei meu amigo Demétrius (Dedé) para percorrer a Trilha da Bocaina, que contempla aclives e descensos acentuados, além de trechos com muito obstáculos, como pedras e poças d’águas, que a tornam uma vereda bastante desafiadora.

Infelizmente, o Dedé declinou do meu convite, por conta de uma forte gripe, conjugada com febre e preocupantes dores musculares.

Assim, integralmente solitário, parti de Joaquim Egídio às 5 h 30 min, com o dia quase clareando, e um pouco do que vivenciei no percurso, conto abaixo:


O DISTRITO DE JOAQUIM EGÍDIO

Quem visita Joaquim Egídio, distrito de Campinas, encontrará o típico clima de cidade pequena do interior, com moradores andando a pé pelas ruas de terra e paralelepípedo e as donas de casa sentadas em frente aos portões.

A produção agropecuária é a atividade econômica principal, sendo que os cultivos de café e culturas de subsistência, a criação de gado e a piscicultura são largamente desenvolvidos.

Turismo e boa gastronomia também são uma importante fonte de renda.

Nele que está localizado o Observatório Municipal de Campinas Jean Nicolini.

Os importantes mananciais hídricos responsáveis pelo abastecimento do município encontram-se nesse distrito com os rios Jaguari e o Atibaia. 


A antiga Estação Ferroviária de Joaquim Egídio/SP.

A paisagem natural compreende remanescentes da Mata Atlântica.

O Decreto Municipal de número 11.172, de maio de 1993 criou as Áreas de Proteção Ambiental (APAs) de Sousas e Joaquim Egídio, estabelecendo critérios e normas legais para o uso e a ocupação do solo, além de proteção e recuperação do patrimônio existente no local.

A APA de Sousas e a de Joaquim Egídio (Campinas-SP) abrangem uma área de 223 km2 e representam aproximadamente 28% da área do município de Campinas.

Estão localizados na APA de Campinas, de fato, alguns dos recursos naturais mais importantes do município e região (caso do rio Atibaia), onde ocorre a captação de mais de 90 ٪ da água consumida em Campinas.

Também estão na APA mais da metade das áreas de matas nativas remanescentes no município e que constituem o habitat de cerca de 250 espécies de aves, 68 de mamíferos, 45 de anfíbios e 40 de répteis .

Essa região possui 48% dos remanescentes vegetais do município de Campinas, onde podemos encontrar espécies importantes da flora e fauna brasileira.

Fonte: https://www.campinasvirtual.com.br/


SOBRE A TRILHA

A trilha da Bocaina tem seu início e término em Joaquim Egídio.

Sua entrada está no início da SP-81, Estrada das Cabras, sentido Usina Salto Grande.

Todo o circuito, com saída e chegada na Estação Ambiental, possui aproximadamente 27 quilômetros, sendo 9 sobre asfalto e 4 de acesso restrito a veículos convencionais.

Possui ascensos e declives acentuados, trechos com muitos obstáculos, como pedras e poças d’águas, que a torna uma trilha bastante desafiadora.


A MINHA CAMINHADA

Deixei a praça principal de Joaquim Egídio às 5 h 45 min, envolto em uma temperatura fria, algo em torno de 15°C, no entanto, apesar do desconforto térmico, eu estava extremamente animado.

Segui pelo leito da rodovia Heitor Penteado, porém, ao abandonar o arraial e se findar a iluminação urbana, liguei minha lanterna e prossegui sobre asfalto pela rodovia José Bonifácio Coutinho Nogueira, que segue em direção à cidade de Morungaba/SP.


Início da Estrada da Bocaina.

Sem maiores problemas, em ótimo ritmo e sempre em lento ascenso, depois de percorrer 9 quilômetros, cheguei diante do acesso à Estrada da Bocaina, então, fleti à direita e passei, finalmente, a caminhar sobre terra.

O dia já estava claro, o sol apontando, assim, prossegui caminhando entre fazendas, onde o forte é a criação de gado.


Em ascenso, pela Estrada da Bocaina.

Então, após percorrer 10.400 metros, teve início um severo ascenso que, em seu topo, no 11º quilômetro, me levou a altitude de 842 m, o ponto de maior altimetria desse bucólico circuito.


Trecho em forte e perene descenso, ainda na Estrada da Bocaina.

Depois, passei a descender com rapidez, porém, pelo interior de frondosa e fresca mata nativa, um dos trechos mais belos e agradáveis do trajeto.


Estrada da Bocaina, locais belíssimos e frescos.

Nesse intermeio, encontrei dezenas de ciclistas que percorriam essa espetacular trilha, mas no sentido contrário, e muitos me saudaram com um prazeroso “Bom dia Amigo!”.


Depois da bifurcação, entrei à direita e logo passei a caminhar próximo do rio Atibaia.

Já no plano, passei diante de algumas chácaras e percorridos, aproximadamente, 15 quilômetros, numa bifurcação, girei à direita e passei a ter o rio Atibaia a me acompanhar pelo lado esquerdo, num percurso ermo e hidratado, pois nesse trecho caminhei um bom tempo sob a fronde da Mata Atlântica que, nesse nicho específico, está integralmente preservada.


Trânsito por locais ermos e silenciosos..

Foi um intermeio aprazível e, praticamente, todo plano que, após 18 quilômetros de caminhada, me levou a enfrentar outro pequeno ascenso, onde a dificuldade maior se resumiu em enfrentar locais pedregosos e bastante assoreados em seu leito, em face das chuvas recentes.


Um dos vários trechos pedregosos existentes na trilha..

Superado esse obstáculo, passei a descender e logo transitei diante do acesso à Usina Hidrelétrica Salto Grande, cuja história remonta ao ano de 1904:

“Campinas já tinha iluminação em 1886, cuja energia a vapor era produzida por dínamo e que chegou primeiro aos prédios da ferrovia, onde hoje está a Estação Cultural, as oficinas e ruas próximas da estação.


O encanamento que leva água à Usina Santo Grande.

Em 1904, houve um projeto para a instalação de uma hidrelétrica, quando a empresa Cavalcanti, Byinton e Cia comprou áreas próximas ao Rio Atibaia onde, mais tarde seria construída a Usina de Salto Grande.

As obras tiveram início um ano depois e, em 1906, ela passou a fornecer energia para a iluminação dos distritos de Sousas e Barão Geraldo, as cidades de Itatiba e Pedreira, sendo que a eletrificação pesada de Campinas começou em 1912.


Pausa para foto defronte à entrada da Usina Salto Grande.

A Usina Salto Grande, em Joaquim Egídio, foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) e integra um conjunto de duas outras usinas hidrelétricas da cidade que estão em processo de tombamento: Jaguari e Macaco Branco.

A Salto Grande está entre as primeiras usinas hidrelétricas do país, além de produzir energia até hoje, sendo que teve tombado todo o seu conjunto arquitetônico, além do enclave formado por 15 casas, antigas residências de funcionários.”

Prosseguindo, já sob sol intenso, caminhados mais 1.500 metros, passei diante da entrada da Fazenda Guariroba, que se assenta num local plano, amplo e verde, cuja história, também, é bastante interessante.


A entrada principal da Fazenda Guariroba.

“Localizada próxima à Usina Salto Grande, a Guariroba é uma das fazendas mais antigas do distrito de Joaquim Egídio, posto que seu início deu-se do final do século XVIII e ela sempre se caracterizou pela produção de café.

Trata-se de uma das fazendas mais bonitas da região, com palmeiras imperiais de mais de dez metros de altura, campo de golfe e casarões do período imperial.

Além de servir como cenário de comerciais, sua beleza natural foi utilizada para as filmagens da “Bela Adormecida” em 1985, estrelada por Maitê Proença, Edson Celulari e Grande Otelo, dentre outros.

A fazenda foi também “refúgio” de artistas nos últimos 30 anos, como Gilberto Gil, Fábio Jr e Patrício Bisso e, posteriormente, a modelo Adriane Galisteu esteve hospedada nesse local para escrever seu livro.

Historicamente, sabe-se que o fazendeiro Floriano de Camargo Penteado transferiu sua propriedade para a sua neta Maria Cândida Novais de Camargo em 1885, com 180 mil pés de café, máquina de benefício a água e terreiros atijolados.

Em 1900 a fazenda produzia sete mil arrobas de café por ano, e em 1914 ela possuía 220 alqueires de terra e 165 mil pés de café.

A família Camargo vendeu-a, depois, para Ipólito Vargas, que a transferiu para Evaristo de Almeida e Silva, parente do último proprietário.

No início de 1996, ela foi adquirida por Carlos Pires Oliveira Dias, um dos herdeiros da Construtora Camargo Corrêa S/A, que pagou R$9 milhões, à vista, pela transação.

Ela pertencia, desde 1985, ao ex-vice-presidente do Bradesco, Antonio Carlos de Almeida Braga, atual proprietário da Icatu Seguradora, do Rio de Janeiro.”

Fonte: http://libdigi.unicamp.br


Vista parcial do Guariroba Golfe Clube.

Prosseguindo, logo passei pelo meio do Guariroba Golfe Clube, visto que esse empreendimento se estende pelos dois lados da estrada, um local belíssimo e bem cuidado, muito elogiado pelos amantes desse nobre esporte, 

face sua irrepreensível formatação, com 18 buracos, que contempla bosques, gramados, riacho e açude. 

No entanto, embora ele esteja vinculado à Federação Paulista de Golfe, trata-se de um atrativo de cunho particular, sem estrutura de clube, e os hóspedes só podem utilizá-lo se receberem um convite da família dos 

proprietários.


Sol forte, trajeto agradável...

Seguindo em frente, logo teve início empinado ascenso que, face ao sol crestante e o adiantado da hora, fui superando passo a passo, sempre olhando à direita e observando os locais por onde eu havia passado.

No final, ao acessar o topo do morro, situado a 780 m de altitude, tinha uma visão maravilhosa do que ficara à minha retaguarda.


Trecho final, bastante sombreado..

Os 3 quilômetros finais foram vencidos em forte descenso, sobre um piso empoeirado e pedregoso, mas sob a sombra de eucaliptais, até que me enlacei novamente com a rodovia SP-081.

Ali, fleti à esquerda, e retornei caminhando até a praça central do distrito, onde adentrei num veículo e retornei à minha residência.

Foi, sem dúvida, uma jornada silenciosa, abençoada, solitária, agradável e de grande superação física, pois caminhei sempre num ritmo forte mas uniforme, como sempre faço nas trilhas que percorro.


PARA REFLETIR...


Eu gosto de animais soltos, jamais presos, por isso detesto apartamentos. 

Sempre preferi morar em casa, com quintal. 

Gosto do sol e do céu estrelado. 

Agrada-me a amplitude da natureza, pois é onde me sinto bem, em saber que posso ir a qualquer lugar. 

Para chegar a alguns deles, é preciso deixar o conforto de lado, botar uma mochila nas costas e pegar uma trilha. 

Quanto mais urbanizado o mundo fica – e esse é um processo que avança rapidamente –, mais longe é preciso ir para encontrar a natureza em seu estado mais puro. 

Nas cidades, nossas sensações ficam mais restritas, o horizonte se encontra logo ali, e os ruídos são mais altos. 

Nessas condições, é quase impossível perceber a si mesmo. 

Por isso me realizo tanto caminhando. 

O que vale é que, ao ar livre, fico mais próximo de minha essência.” 



FINAL

O espírito de qualquer Caminho pressupõe viver o prazer intenso, ousar, arriscar, superar. Mas é também entrar em sintonia com a natureza. É viver a experiência da auto-estima, da solidariedade e da espiritualidade. Experimentar as manifestações fundamentais da vida, como o vento, o sol, o frio, o ar puro. É entender a vida como algo maior. É aproximar-se de Deus, porque lá também é a casa DELE.


Trilha da Bocaina: um trajeto espetacular!

Fazer um “trekking” ou pedalar pela região de Souzas/Joaquim Egídio é uma verdadeira aula de história sobre a cidade de Campinas, porquanto, esses distritos são remanescentes do ciclo cafeeiro e abrigam construções do século XIX, com ruas de paralelepípedos, pontes férreas, armazéns e estações de embarque do antigo RFC (Ramal Férreo Campineiro - 1889-1917), casarões e imponentes sedes de fazendas, enfim, um clima extremamente bucólico.

Muitas dessas antigas edificações foram transformadas em bares e restaurantes típicos, tornando esse enclave um roteiro turístico obrigatório e que atrai centenas de entusiastas nos finais de semana.

No entanto, a região vai além e surpreende o visitante com um cenário verde de mais de 200 km2, declarados como Área de Proteção Ambiental (APA).

Muitas serras e morros situadas entre as estradas de terra atraem também os ciclistas, trilheiros, jipeiros e caminhantes nos finais de semana.

O local é um verdadeiro ponto de encontro de dezenas de grupos de “bikers”, que ali se reúnem para apreciar e percorrer os diversos roteiros mapeados, e um de seus principais destino é a Trilha da Bocaina, situada em Joaquim Egídio.

Essa senda possui diversos nichos de mata Atlântica, que margeiam o rio Atibaia, alguns trechos acidentados, poças de água que dificilmente secam (mesmo no inverno) e pontos que exigem bastante técnica do “biker” para pedalar por entre as pedras que afloram no local.

Na minha modesta opinião, a Trilha da Bocaina é um dos melhores e mais belos Circuitos de Campinas, não só para ciclistas, mas, também, para caminhantes.


Bom Caminho a todos!

Maio/2020