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J. Egídio a Morungaba - II


2020 – JOAQUIM EGÍDIO/SP a MORUNGABA/SP, via BOCAINA + MALABAR + GIROLÂNDIA - 29 quilômetros

É apenas na aventura que algumas pessoas conseguem se conhecer – encontrar-se.” (André Gide)




A “travessia” entre o distrito de Joaquim Egídio e a cidade de Morungaba/SP, a pé ou de bicicleta, até onde eu conheço, pode ser realizada, no mínimo, por 4 caminhos diferentes: Via Fazenda Bonfim, através do Pico das Cabras, pelo trajeto que ultrapassa o rio Jaguari na Ponte Queimada ou, como derradeira opção, transitando pela Trilha da Bocaina, Fazenda Malabar e Fazenda Girolândia.

Já conhecendo de sobejo as três primeiras alternativas, resolvi afrontar o percurso mais longo, via Fazenda Malabar, cuja parte final me era inédita.

Isto resolvido e para dar início à minha caminhada, eu tomei um táxi em Campinas que, após 20 min de viagem, me deixou na praça central de Joaquim Egídio de onde, às 6 h, ainda no escuro, eu parti em direção à cidade de Morungaba/SP.

Um pouco do que observei e vivi no solitário trajeto que percorri, conto abaixo:     



SOBRE A CIDADE DE MORUNGABA/SP

Integrante do Circuito das Frutas, a localidade é muito conhecida por seus doces artesanais.

Muitos deles, como bananada, cocada com abacaxi, laranjada e goiabada cascão, podem ser provados na confeitaria Doces David.

Do outro lado da rua, a Companhia das Ervas produz e vende cinco tipos de molho de pimenta, flor de sal, conservas, geleias e uma variedade de temperos, incluindo especiarias como cardamomo e zimbro. 


Seu vizinho, o Empório da Cana, vende cachaças de diversas regiões do Brasil, mas o xodó da casa é um licor à base do destilado que demorou dois anos e mais de 80 receitas até ficar no ponto.

A cidade também incentiva a prática de esportes: enquanto os cavaleiros frequentam centros equestres, motoqueiros e ciclistas desbravam as trilhas da zona rural.

A charmosa estância climática, atualmente, com 12 mil habitantes, oferece aos visitantes várias opções de lazer, com belas paisagens das colinas aos pés da Serra das Cabras.

Localizada a 110 quilômetros de São Paulo e 40 quilômetros de Campinas, é um ótimo destino para quem procura passar um dia diferente, com muito ar puro e clima acolhedor.


A MINHA SOLITÁRIA CAMINHADA

Através de provas, aprendemos as lições da vida. As provações não assomam para nos destruir: elas surgem para desenvolver nosso poder. Elas fazem parte da lei natural da evolução e são necessárias para avançarmos de um nível baixo para outro mais acima. Você é muito mais forte que todos os seus tormentos.” (Paramahansa Yogananda) 




Parti às 6 h da praça central e deixando a minúscula povoação de Joaquim Egídio, logo acessei a rodovia SP-082, nominada de José Bonifácio de Andrade Coutinho, e por ela segui, aproximadamente, 700 metros.

Então, dobrei à direita e prossegui por uma larga estrada de terra que segue em direção à Usina Salto Grande.

Logo no início eu enfrentei um forte ascenso, que fui vencendo sem pressa, enquanto lentamente meus músculos se aqueciam e o dia clareava.

O clima se apresentava frio e hidratado, temperatura ao redor de 14ºC, ótima para caminhar. 


No topo da primeira elevação, com o dia raiando...

Três quilômetros acima, já no topo do morro, situado a 780 m de altura, eu detinha uma visão privilegiada de todo o entorno à minha frente, até onde findava o longínquo horizonte.

Ali os eucaliptais se faziam presentes e impregnavam o ambiente com seu aroma peculiar, enquanto eu podia notar, observando à esquerda, os píncaros da Serra das Cabras, bem ao longe. 


Caminho fresco e solitário.

Então principiei a descender em desabalada carreira e, percorridos 5 quilômetros, passei a caminhar entre frondentes cercas vivas naturais, extremamente bem-cuidadas.

E logo caminhava pelo meio do Guariroba Golfe Clube, visto que esse empreendimento se estende pelos dois lados da estrada, um local belíssimo e bem cuidado, muito elogiado pelos amantes desse nobre esporte, praticado pela elite do mundo todo. 


Vista parcial do Guariroba Golfe Clube.

Pude visualiza “greens” imensos, com aparagens de diversas alturas, divididos por um regato artificial que desemboca diretamente no rio Atibaia, esse emparedado, na margem oposta, por um monte de rala vegetação e de um verde mais escuro do que o do campo.

Embora seja um ambiente elitizado e artificial, não há como não enaltecer o zelo e a maestria com que são cuidados esses palcos esportivos, e os seus recantos gramados que se acostumaram, historicamente, com a delicadeza de refinados sapatos italianos.

Seguindo em frente, pela estrada belíssima e de piso socado, caminhados mais 1.500 m, transitei diante da entrada da Fazenda Guariroba, que se assenta num local plano, amplo e verde, cuja história, também, é bastante interessante. 


Uma das portas de acesso à Fazenda Guariroba.

Localizada próxima à Usina Salto Grande, a Guariroba é uma das fazendas mais antigas do distrito de Joaquim Egídio, posto que seu início deu-se do final do século XVIII e ela sempre se caracterizou pela produção de café.

Trata-se de uma das fazendas mais bonitas da região, com palmeiras imperiais com mais de dez metros de altura, campo de golfe e casarões do período imperial.

Além de servir como cenário de comerciais, sua beleza natural foi utilizada para as filmagens da “Bela Adormecida” em 1985, estrelada por Maitê Proença, Edson Celulari e Grande Otelo, dentre outros.

A fazenda foi também “refúgio” de artistas nos últimos 30 anos, como Gilberto Gil, Fábio Jr e Patrício Bisso e, posteriormente, a modelo Adriane Galisteu esteve hospedada nesse local para escrever seu livro.

No início de 1996, ela foi adquirida por Carlos Pires Oliveira Dias, um dos herdeiros da Construtora Camargo Corrêa S/A., sendo que ela pertencia, desde 1985, ao ex-vice-presidente do Bradesco, Antonio Carlos de Almeida Braga.


Uma igrejinha abandonada do lado esquerdo da estrada...

Continuando pela mesma estrada, passei diante de uma antiga capela abandonada, de feição assombrosa e, em seguida, topei com a Usina Hidrelétrica de Salto Grande, recentemente tombada como patrimônio cultural de Campinas.

Até aquele local eu havia caminhado 8.500 metros.

A casa das turbinas, construída em pedras, mescla o passado, notável em sua arquitetura, e o presente, visto em seus modernos motores de refrigeração externos. 


Vista da Usina Salto Grande.

Recebe três imensos tubos de ferro, provenientes da barragem, pelo qual a água do rio Atibaia corre, em declive, rumo às turbinas que geram energia desde a primeira década do século XX.

Figura entre as dez primeiras usinas hidrelétricas do país, instalada em uma cidade pioneira em iluminação urbana.

Como última lembrança do lugar, observei a presença de um besouro, cuja carapaça de um vermelho vívido, subia, pelas gramíneas, em direção às rochas por onde eu prosseguiria na sequência.


Trânsito à beira do rio Atibaia.

Então, após vencer um empinado, mas curto aclive, prossegui pelo interior de um bosque, tendo o rio Atibaia a me acompanhar pelo lado direito, num percurso ermo e hidratado, pois nesse trecho caminhei um bom tempo sob a fronde da Mata Atlântica que, nesse nicho específico, está integralmente preservada.

Nesse intermeio boscoso, onde transitei durante quase uma hora, encontrei alguns aclives e descensos de média intensidade, além de trechos com muitos obstáculos, como pedras e poças d’águas, tornando o percurso bastante desafiador.

De boa lembrança, foi avistar próximo da entrada de uma fazenda, num pé de amora temporão, alimentando-se dos frutos já maduros, um bando de, aproximadamente, sete saguis-de-tufos-pretos. 


Trajeto matoso e bastante ermo.

Foi impossível fotografá-los, pois se movimentavam muito rapidamente, caminhavam sobre os galhos e se escondiam entre as folhagens, tornando o simples ato de focar a câmera incrustada em meu aparelho celular, num exercício de paciência.

Fica, contudo, meu registro desse ser que habita diversos tipos de vegetação, como o cerrado e a mata atlântica, mas que também subsiste, como o onipresente urubu-de-cabeça-preta, em locais desfigurados pelo homem.

O mesmo que muitas vezes o aprisiona e o vende ilegalmente, escravizando-o e apresentando-o à solidão, a qual não está habituado, por viver em bandos enormes, com mais de dez indivíduos. 


Quase saindo na Estrada da Bocaina...

Em algumas ocasiões no trajeto, eu fui ultrapassado por ciclistas madrugadores como eu, visto que essa trilha é uma das frequentadas pelos bickers.

Foi um intermeio aprazível e, praticamente, todo deserto e silencioso que, após 11 quilômetros de caminhada, me levou a ultrapassar a divisa dos municípios de Campinas e Morungaba. 


Trilha Malabar, dotada de grandes estirões retilíneos.

Na sequência, quinhentos metros adiante, após enfrentar outro pequeno ascenso, desaguei na Estrada da Bocaina, onde girei à direita e prossegui caminhando entre bosques nativos, já na nominada Trilha Malabar.

Foi outro percurso extremamente boscoso, agradável e, praticamente, todo plano.

Por ele transitei entre imensas pastagens e por bucólicos locais arejados, de onde eu detinha ampla visão do horizonte. 


Trecho da Malabar, aberto e arejado.

Em determinado local eu passei diante da Fazenda Malabar, que se localiza no município de Itatiba/SP e dá o nome a essa Trilha.

A Fazenda Malabar é um projeto que nasce da vontade de se plantar mudas de mudança no mundo. Como utopias são verdades prematuras, aí vamos nós, cuidar para que as verdades plantadas madurem bem, ao sol, com água boa, terra fértil, mãos e pés firmes e cuidadosos. Para que da terra possamos não apenas tirar o sustento, mas também colocar sustância, suspiros, suor, canções, cirandas. Enfim, dar vida ao que nos mantém vivos.

Nos idos de 1940, Louis Bromfield, escritor e fundador da Fazenda Malabar no EUA já se propunha a fazer de sua fazenda um centro de referência na pesquisa de uma agricultura que pudesse conservar o solo. Vindo para o Brasil, ele fundou com o mesmo intuito a Fazenda Malabar do Brasil, a qual depois de muita historia, está na vida desses 2 irmãos, entusiastas da agricultura orgânica e que estão se propondo a seguir o sonho traçado por Bromfield e fazer da Malabar um exemplo de Fazenda sustentável, onde tenhamos um solo cada vez mais fértil, um ambiente sempre mais abundante e com as pessoas envolvidas cada dia mais felizes!


Transitando defronte à Fazenda Malabar, lado direito da trilha.

Que seja chão de se plantar sonhos para colher realidades. Que não seja solo de solidões. Mas sim solo de muitas solas. Muitos pés. Mangueiras, amoreiras, jabuticabeiras, bananeiras, piruetas, cambalhotas e malabares.

Que seja MALABAR, espaço de trocas e aprendizados, sempre.

Como toda jornada começa com o primeiro passo, decidimos que a primeira atividade da Fazenda será a produção de orgânicos. Escolhemos uma área de mais ou menos um hectare, onde daremos início à uma horta. Para tanto, já temos alguns pares de mãos e pés, assim como algumas cabeças e corações. Umas mais cascudas, outras mais delicadas, uns mais brutos, outros mais suaves, uns cheios de calos, outros nem tanto, uns mais ao céu, sonhadores, outros mais à terra, realistas, firmes.

É chegada a hora de conectarmos mais fios nessa teia.

Fonte: https://www.fazendamalabar.com.br/



Um espesso e fresco bosque de eucaliptos.

Depois de caminhar ao lado de um fresco bosque de eucaliptos eu cheguei diante do Condomínio Residencial Sete Lagos Itatiba.

Até ali eu havia percorridos 16.500 m, então, observando a sinalização, eu fleti radicalmente à esquerda e prossegui caminhando sobre terra, em íngreme mas curto ascenso. 


Entrada da Fazenda Girolândia.

Depois a estrada voltou a ficar plana e percorridos 18 quilômetros, eu fiz uma pausa para fotos e descanso diante de um grande lago existente no interior da Fazenda Girolândia que, por sinal, dá o nome a essa trilha.

Ali, nadando placidamente, vi alguns frangos d'água e patos que, naquele momento, ficaram um tanto ressabiados com a minha presença.

Acocorados sobre os postes de madeira e cercas brancas que ladeiam a represa, avistei alguns carrapateiros, um falconídeo comum nas zonas rurais de São Paulo e Minas Gerais.

Aproveitei, ainda, para ingerir uma banana e me hidratar, enquanto admirava o entorno, que me propiciava uma paz incomensurável.


Um grande lago existente no interior da Fazenda Girolândia

Prosseguindo, o caminho se empinou e prosseguiu dessa forma pelos próximos 4 quilômetros.

Inicialmente, eu caminhei por uma área aberta e arejada, porém, um quilômetro acima a estrada se bifurcou e obedecendo a sinalização, eu segui à direita.

Então, adentrei em uma imensa plantação de eucaliptos, por onde segui com um cuidado cirúrgico, porque encontrei áreas em processo erosivo e crateras perigosas, assoreadas e com bordas lisas, face às chuvas recentes, um perigo para os caminhantes. 


Em ascenso pelo interior de extenso bosque de eucaliptos..

Na verdade, os grandes responsáveis por essa degradação são os mototrilheiros que frequentam esse local com assiduidade e sou testemunha disso, pois fui ultrapassado por vários grupos, pilotando sempre com o escapamento aberto e em alta velocidade, ocasionando um barulho insuportável para a natureza circundante e levantando muita poeira nas trilhas.

Também encontrei ciclistas, esse um grupamento bem mais educado e atencioso, que interage com nós caminhantes com muito mais respeito e atenção. 


Trajeto ascendente, mas extremamente ermo e silencioso.

Por um bom tempo eu segui integralmente solitário pelo silencioso e frondente bosque, enquanto aproveitava para reflexionar sobre aqueles indeléveis momentos que eu vivenciava.

Ainda em ascenso, no 23º quilômetro eu abri, ultrapassei uma porteira de arame, depois tornei a fechá-la e, na sequência, passei a caminhar por locais abertos e arejado, situados entre pastagens e no cimo de um morro. 


A cidade de Itatiba/SP aparece no horizonte..

Dali eu podia avistar, do meu lado direito, a cidade de Itatiba, muito próxima no horizonte. 


A me ladear, paisagens surreais...

Finalmente, depois de vencer outro alcantilado aclive, cheguei diante da entrada da Fazenda Boa Esperança e ali girei 90 graus à direita, e prossegui em franco e agradável descenso.
 

Já no trecho final, um grande descenso em meio a natureza.

Um quilômetro adiante eu contornei um grande condomínio residencial e segui ainda em forte descenso, agora já sobre piso asfáltico.

Quando, finalmente, o caminho se aplainou, eu me encontrei com a SP-360, e depois de mais 1.500 quilômetros percorridos à beira da rodovia, cheguei diante da igreja igreja matriz de Morungaba.

Ali, após agradecer a Deus pela minha saúde perfeita e bater algumas fotos, dei por encerrada minha odisseia domingueira.

Então, após contatos telefônicos, adentrei num táxi e retornei ao meu lar doce lar. 


Defronte à igreja matriz de Morungaba/SP, final de minha caminhada nesse dia.

Sobre a plácida Morungaba, que me encantou por seu asseio e venusticidade, me surpreendeu saber que ela foi a cidade do Brasil que mais vendeu para o exterior itens de vestuário esportivo, entre janeiro e maio de 2020, posto que o município exportou US$ 609.240 FOB (Free On Board) nesse período.

O tipo de indumentária mais comercializada enquadra-se na categoria: “Fatos de treino para desporto, fatos-macacos e conjuntos de esqui, maiôs, biquínis, calções (shorts) e slips, de banho, de malha”.

Dentre os municípios brasileiros que mais sobressaíram nesse mister, durante o período, estão: São Paulo-SP, em segundo lugar, que exportou US$ 559.421 (FOB) e, em terceiro lugar, Petrópolis-RJ, que exportou US$ 488.744 (FOB). 


Trilha da Girolândia, por onde eu caminhei na parte final de meu trajeto desse dia.

Sobre o itinerário que percorri nessa data, diria que fui abençoado com um clima propício de manhã, que muito me auxiliou no trajeto, de bucólica magnitude e beleza impar.

Necessário ressair, contudo, que o percurso é um tanto longo e nele subsistem duas aclividades razoáveis: uma logo no início, e a outra a partir do 19º quilômetro, quando a estrada se torna erma, com 4 quilômetros de extensão.

No global, diria que essa trilha é bastante frequentada por ciclistas, que a percorrem em ambas as direções, assim, o caminhante precisa ficar atento, mormente, nos declives, quando as bicicletas descendem em alta velocidade.


FINAL 

O homem é uma criatura contraditória. Através de sua história ele procura freneticamente segurança, bem-estar, e abundância. E no entanto, quando consegue alcançar estas graças, ele logo se torna inquieto e descontente. Fundo na sua natureza, existe um anseio pela estrada dura e perigosa, pelas dificuldades e perigos que testam sua perícia e coragem.” (Eric Shipton) 


Sozinho na trilha, em meio à vibrante natureza e sob céu azul, hora de comemorar e agradecer a Deus!


CAMINHAR...” 

(Autor: Isaías Ribeiro

Depois da caminhada, 

A contemplação e admiração, 

Desta natureza esplendorosa, 

Que revigora o corpo e a alma, 

Respirando o ar puro da manhã, 

Sentindo nos poros os primeiros raios do sol, 

No rosto uma brisa agradável, 

No horizonte um céu azul, 

Que reflete no espelho das águas, 

Deste rio maravilhoso, 

Como querendo a nos ensinar que são nestas pequenas coisas, 

Que estão o verdadeiro sentido da vida.” 


Bom Caminho a todos! 

Julho/2020