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J. Egídio a Morungaba - I


2020 – JOAQUIM EGÍDIO/SP a MORUNGABA/SP, via PICO DAS CABRAS - 25 quilômetros

Felizes são aqueles que sonham sonhos e desejam pagar o preço para vê-los realizados.” 



Localizado na antiga Fazenda Laranjal, latifúndio do capitão-mór Floriano de Camargo Penteado, o distrito de Joaquim Egídio é herança da mistura dos povos que imigraram para o país na época das grandes fazendas.

São africanos e europeus que ali se estabeleceram e fincaram raízes, sendo que a arquitetura de seu casario é tipicamente colonial.

Antes da construção da Rodovia Heitor Penteado em 1958, sua ligação com o centro de sua Sede era feita pelo Ramal Férreo Campineiro, com a locomotiva apelidada de “Cabrita”, que conseguia subir a Serra das Cabras para escoar a produção cafeeira local.

Para dar início à caminhada desse dia, eu tomei um táxi em Campinas que, após 20 min de viagem, me deixou na praça central de Joaquim Egídio de onde, às 6 h, ainda no escuro e sob intenso frio, temperatura ao redor de 10ºC, eu parti em direção à cidade de Morungaba/SP, e um pouco do que vivenciei no percurso, conto abaixo:


SOBRE A CIDADE DE MORUNGABA/SP


(...) a Conceição de Barra Mansa, do alto da serra, um recanto adorável, onde se chega pelo asfalto de uma estrada pitoresca e se divisa tudo o que o artista do universo desenhou de mais sublime em arquitetura natural.” (Profª. Maria José Barbosa Martins)

Morungaba – Wikipédia, a enciclopédia livre


Morungaba é um dos 12 municípios paulistas considerados estâncias climáticas pelo Estado de São Paulo, por cumprirem determinados pré-requisitos definidos por Lei Estadual.


Tal status garante a esses municípios uma verba maior por parte do Estado para a promoção do turismo regional.

Assentada nas colinas suaves de um vale situado ao pé da Serra de Cabras, o município é um convite à tranquilidade. Fundada em meados do século XIX com o nome de Conceição de Barra Mansa, foi mudado em 1919 para a denominação atual.

Em gleba de terreno ligeiramente acidentado e fertilíssimo, onde corre o Ribeirão dos Mansos, surgiram as primeiras casas do Bairro dos Mansos (sobrenome de provável família pioneira), formando um núcleo ao redor de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição.

Era no tempo em que a lavoura cafeeira expandia-se pelo Estado e com os cafezais chegaram os imigrantes italianos que aqui se fixaram, primeiro na lavoura e, em seguida no comércio, solidificando o pequeno burgo.

Em meados do século XX, as primeiras indústrias se instalaram, o distrito transformou-se em município apresentando sinais de indiscutível progresso, evoluindo até tornar-se a cidade que hoje é, pequena porém agradável, pujante e movimentada.

Na atualidade, ela começa a estruturar-se para se transformar num ponto de atração turística e potencial não lhe falta.

Localizada a 93 quilômetros da capital paulista, ela faz parte do Circuíto das Frutas e destaca-se pela produção de uvas, figo, laranja e pêssego.

Toponímia: Morungaba, do tupi-guarani, colmeia de morungas, abelhas produtoras de dulcíssimo mel.

Outra teoria, no entanto, defende que o topônimo Morungaba possui a seguinte origem: Murãng (bom, belo, formoso, agradável, aprazível) + aba (sufixo que exprime terra ou lugar”.

Morungaba, portanto, significa: terra boa, bela, agradável, aprazível.

População: 14 mil pessoas – Altitude: 765 m

Fonte: https://www.morungaba.sp.gov.br/


A MINHA SOLITÁRIA CAMINHADA

Esperamos muito do destino. A tarefa dele é apenas nos fornecer oportunidades. Abraçar ou deixar ir essas ocasiões cabe somente a nós.” (R. Pellico)




Parti às 6 h da praça central e deixando a minúscula povoação de Joaquim Egídio, logo acessei a rodovia SP-082, nominada de José Bonifácio de Andrade Coutinho, e por ela segui em leve e constante ascenso, enquanto o dia clareava.

Nesse primeiro tramo eu passei diante de inúmeras e bem-cuidadas chácaras, fazendas e quintas, num trajeto silencioso e hidratado.

Nos quilômetros iniciais eu cruzei com com vários veículos motorizados que demandavam à cidade e, a lamentar, apenas, que a estrada por onde eu caminhava não possui acostamento, portanto, se transforma num grande risco para pedestres desatentos.


Um pé de primavera florido me saúda no caminho..

De se ressaltar, no entanto, que embora o trecho inaugural do percurso seja feito sobre piso asfáltico, o entorno é iminentemente rural, pleno de ar puro e ermosidade, além de conter alguns trechos sombreados.


Estrada asfaltada mas com trechos sombreados...

No 8º quilômetro eu transitei diante da Fazenda Santa Mônica, uma das mais vetustas desse trajeto, cuja história sempre me encantou, já que muito de sua fama está ligada ao casal Wolfgang Schmidt e Anésia do Amaral Schmidt, os antigos proprietários dos 225 hectares dessa herdade localizada no distrito de Joaquim Egídio.


Entrada da Fazenda Santa Mônica.

Em 1924, o Sr. Schimidt emigrou para o Brasil, conhecia alguns amigos no Rio Grande do Sul, onde trabalhou no comércio, lá permanecendo até outubro de 1926, porém, nesse mesmo ano ele retornou à Alemanha para cuidar do pai, que estava doente.

Voltou ao Brasil em 1930, trabalhou em São Paulo, no comércio, e em 1933 casou com Anésia do Amaral.

No início da Segunda Guerra Mundial, deixou de trabalhar na área de exportação de madeiras comprando, em 1942, a Fazenda Santa Mônica, no distrito de Joaquim Egídio, no município de Campinas, SP.

Na época, a fazenda produzia café, algodão e cereais e, durante 26 anos, produziu leite do tipo "B".

Atualmente, produz milho, gado de corte em 55 alqueires de pasto plantado e tratado e produz mudas de árvores nativas para venda.

A maior parte de suas horas vagas, o Sr. Schmidt reservou aos estudos florestais, formando um arboreto de 160 espécies, distribuídas em 14 talhões experimentais, com mata mista e homogênea, de árvores nativas e "exóticas aclimatadas".

Em seus experimentos, o Sr. Schmidt pesquisou as espécies, formas de cultivo e manejo mais adequados para diversos fins.

Os 57 anos de observações e medições permitiram a ele fazer sugestões para futuras plantações visando à produção de madeira.

Na ECO 92, a ONU conferiu o prêmio "Global 500 Roll of Honour of the United Nations Environment Programme" a Sra. Anésia do Amaral Schmidt, em cujo nome está registrada a fazenda, reconhecendo a importância desse tipo de trabalho para a proteção e melhoramento das condições de meio ambiente.

O casal já faleceu a algum tempo, mas a Fazenda Santa Mônica persiste ativa em seu plantio e venda de mudas de árvores.


Transitando diante do Restaurante Feijão com Tranqueira.

Sem grandes atribulações, percorridos 10 quilômetros, eu transitei diante do restaurante Feijão com Tranqueira, ainda fechado naquele horário, ponto de encontro de várias “tribos” que frequentam essa região para pedalar, cavalgar, caminhar, etc.


Bifurcação na rodovia. À esquerda, segue em direção à Morungaba/SP. Eu prossegui à direita.

Então, no 13º quilômetro da rodovia, quando o piso asfáltico se findou, numa bifurcação, optei por seguir à direita, em direção ao Parque Pico das Cabras, um trajeto um pouco mais longo em relação àquele que segue à esquerda, pela estrada da Fazenda Bonfim.


Início da Estrada do Capricórnio: tudo plano e vegetação exuberante.

No trecho sequente, transitei por locais de maviosa beleza e, em alguns tramos, sob bastante sombra.


Sob agradável sombra...

Prosseguindo, passei diante do Sítio São Joaquim e, depois de percorrer 15 quilômetros e ultrapassar o ribeirão das Cabras por uma estreita ponte, o roteiro seguiu em forte ascendência e mais acima eu transitei diante da bela Fazenda São Pedro, onde girei à direita.


Trecho ascendente, mas sombreado..

Ainda em ascenso, percorridos 16 quilômetros, parei para fotografar um belo edifício de cor azul, que abriga a Rainha da Paz Turca – Chão de Estrelas, um templo de oração e louvor a Virgem Maria, mas, atualmente, fechado por conta da quarentena imposta na cidade.


Templo da Casa de Oração Rainha da Paz Turca.

Seguindo em frente, um quilômetros depois e ainda em ascendência, transitei diante do Parque do Pico das Cabras, temporariamente fechado, por conta da atual pandemia.

Instalado numa área de aproximadamente 400.000 m2, o complexo é composto por Museu de Astronomia, formigário, radiotelescópio, telescópio, planetário, celostato e jardim sensorial.



Parque Pico das Cabras. No momento, fechado.

Do lado esquerdo da estrada se encontra o Observatório de Campinas, o primeiro do gênero a ser implantado no Brasil, tendo sido inaugurado em 15 de janeiro de 1977 e recebe cerca de 12 mil visitantes e estudantes por ano.

Em 1992, foi acrescentado ao nome do Observatório o nome de Jean Nicolini (1922-1991), em memória ao entusiasta da divulgação da ciência astronômica no Brasil e fundador da sociedade civil Observatório do Capricórnio, entidade que utiliza o espaço físico do Observatório Municipal para atuação conjunta.

Possui quatro telescópios, com características distintas, sendo que o Telescópio de 0.5 m é muito utilizado para atividade com público e escolas devido a sua versatilidade no manuseio.


Entrada do Observatório Astronômico de Campinas. Também fechado...

Até ali eu havia caminhado 17 quilômetros, então, fiz uma pausa para hidratação e ingestão de uma banana, enquanto calmamente, observava o maravilhoso entorno, pleno de verde nas mais variadas gradações.

Eu estava no alto da serra, a 1000 m de altitude, então, o clima se mostrava fresco e ventoso, extremamente agradável para caminhar.

Um senhor se alongava próximo dali antes de iniciar sua caminhada matutina, então, ficamos por alguns minutos a dialogar e cotejar nossas experiências nesse mister.

Novamente animado, retomei minha “viagem”, seguindo adiante, ainda pela Estrada do Capricórnio que, nesse trecho, é orlada por imensos eucaliptais.


No horizonte, ao longe, a cidade de Itatiba/SP.

Em determinado local, quando o panorama se abriu, olhando do meu lado direito, eu podia ver ao longe, no horizonte, a progressista cidade de Itatiba/SP, então, fiz outra pausa, desta vez para fotografar.

Então passei a caminhar pelo interior de um imenso bosque, num trajeto deserto e ainda levemente ascendente, enquanto o calor já se fazia presente.


Trânsito pelo topo da serra, entre eucaliptais.

Percorridos 18.500 metros, num local situado entre frondosos eucaliptais, eu cheguei a 1.080 m de altitude, o ponto de maior altimetria nessa jornada.

Após passar pelo Observatório eu ainda não havia avistado pessoas, mas, cem metros depois, eu fui ultrapassado por um coeso grupo de uns 40 ciclistas, todos pedalando em forte performance, algo não muito usual nessas trilhas, pois normalmente o pessoal segue conversando amenidades e curtindo o visual.


Reencontro com a rodovia, junto à Torre da Embratel. Aqui eu prossegui à direita, em descenso.

Mais adiante, já em descenso, o cenário se abriu, passei a caminhar com pastagens pelo meu lado esquerdo, e pude avistar ao longe, no horizonte, situada a uns 25 quilômetros em linha reta, a cidade de Campinas.

Percorridos 20 quilômetros, eu acessei novamente à rodovia José Bonifácio Coutinho Nogueira, num local situado junto a uma grande torre da Embratel, sendo que à direita estava a cidade de Morungaba, situada a uns 5 quilômetros de distância.


Do topo do morro, vista, ao longe, da cidade de Campinas/SP.

Ali, fiz outra pausa para fotos e curtir o visual que se descortinava à minha frente, depois, enquanto me hidratava, troquei algumas informações com um grupo de ciclistas que também se preparava para reiniciar sua cicloviagem.

Então, eu fleti à direita e prossegui em frente determinado, agora em franco descenso, pois o sol já estava escaldando e eu não encontraria sombra nesse tramo final.


Em franco descenso, Ao longe, debaixo da neblina, o rio Jaguari.

Esse trecho derradeiro é sempre em forte declivência e agrega muitas chácaras nas laterais da estrada, por isso e se tratando de um sábado, encontrei um expressivo trânsito de veículos e, consequentemente, aspirei muita poeira.

Faltando 2.500 m para a chegada, eu passei diante do Cruzeiro fincado em um dos morros da Serra das Cabras, onde está a imagem do Cristo Crucificado, de cinco metros de altura, e as figuras da Mãe Dolorosa e de São João Evangelista, assentadas sobre duas pedras ali existentes.


Uma enorme pedra ladeia a estrada...

Segundo os antigos moradores, à época da sua inauguração, era um local estratégico, visível de todos os pontos do então distrito de Morungaba.

Do belvedere privilegiado, pode-se observar a conformação geograficamente denominada “mar de morros” movimentando a paisagem, ora verdejante de pastagens, ora densamente verde do arvoredo remanescente da Mata Atlântica, criando recantos pitorescos, e entre essas montanhas desliza o rio Jaguari, com corredeiras e remansos.


Entrada para o Cruzeiro de Morungaba.

A partir desse local eu passei a caminhar sobre piso asfáltico, já em zona urbana.

E, sem maiores atropelos, aportei diante da igreja matriz da cidade, cuja padroeira é Nossa Senhora da Conceição Aparecida que, infelizmente, se encontrava fechada, frustrando minha curiosidade de conhecer seu interior.

E ali, dei por encerrada minha bem-sucedida “travessia”, então, após bater algumas fotos do local, adentrei em um táxi e retornei ao meu lar.

Sobre a cidade de Morungaba, que me encantou pela sua limpeza e simpatia, chamou minha atenção o fato dela estar na lista

de 154 cidades do mundo que atualmente fornecem todo ou parte de seu transporte público de graça.

De acordo com a lista publicada num site especializado no assunto, ela é uma das cinco cidades do Estado de São Paulo a oferecer tal benesse, juntamente com Holambra, Paulínia, Agudos e Potirendaba.

Os morungabenses usufruem o serviço totalmente gratuito desde 2019 e passaram a contar com o conforto e a comodidade dos terminais que somaram ao serviço.


A igreja matriz de Morungaba, ponto final de minha caminhada.

Sobre minha trajetória nesse dia, diria que fui abençoado com um clima matutino propício, que muito me auxiliou no deslocamento, embora tenha vivenciado calor no final da jornada.

Ainda assim, só tenho a agradecer a Deus pelo dom da vida e minha disposição e saúde para arrostar os infortúnios e usufruir dos apanágios atinentes àqueles que se propõem a fazer uma caminhada de média ou longa distância.

E, ELE permitindo, em breve repetirei o percurso de Joaquim Egídio a Morungaba mas, desta vez, por um itinerário diferente e integralmente sobre terra.


FINAL

Os homens marcham aos confins do mundo por diferentes motivos. Alguns impelidos somente pelo desejo de aventura; outros sentem uma intensa sede de saber; os terceiros obedecem à sedutora chamada de uma voz interior, ao encanto misterioso do desconhecido que os afastam dos caminhos rotineiros de vida cotidiana.” (Shacketon)


Sozinho na trilha, só tenho a agradecer a Deus pelo dom da vida com saúde!


A ESTRADA DO BONDE E A CAPELA DE SANTA RITA DE CÁSSIA, EM JOAQUIM EGÍDIO



Capela de Santa Rita de Cássia, situada na Estrada do Bonde, em Joaquim Egídio.

Aos Andarilhos de Joaquim Egydio

Manhã de sol,

gotas de orvalho

penduradas

nas folhas,

nas flores,

parecem brincos

cintilantes

adornando

os caminhos,

a mata, 

as flores

exalam perfume,

cheiro da terra,

cheia de vida,

cantam os pássaros,

bailam as borboletas,

os riachos murmuram em risos,

pela manhã de sol,

uma benção.

no caminho a capela

da Santa Rita,

a oração,

o encontro alegre

com os Amigos,

outra benção.

Aqui o meu lugar

o nosso lugar,

Amém.

GRUPO TURMA DA ZAGAIA


Bom Caminho a todos!

Julho/2020