A HISTÓRIA DO CAMINHO DE SANTIAGO

A História do Caminho
Do Século I ao Século V

Diz a tradição que Jesus escolheu doze companheiros para serem seus discípulos mais próximos, segui-lo e com ele aprender uma nova filosofia que veio a ser o Cristianismo. Estes companheiros foram, após a morte de Cristo, chamados de apóstolos, palavra que em grego significa "enviados". Pois os doze foram enviados aos quatro cantos do mundo para transmitir os ensinamentos cristãos.

Entre estes doze apóstolos, havia dois com o nome Tiago. Um deles, filho de Zebedeu, é também chamado Tiago Maior (para distingui-lo do outro, filho de Alfeu, o Tiago Menor). Seis anos após a morte de Cristo, este Tiago, o Maior, viajou para a península Ibérica, onde passou vários anos divulgando sua mensagem, na região que hoje é a Galícia, talvez chegando até Zaragoza. Embora muito poucos dos habitantes locais tenham se convertido ao Cristianismo, Tiago deixou plantada nestas terras distantes a primeira semente, que viria a florescer pelos séculos futuros. Retornando a Palestina, o apóstolo morreu como mártir no ano 44, decapitado, por ordem do rei Herodes Agripa. Seu corpo insepulto, jogado aos cães por ordem do rei, foi recolhido por seus discípulos Teodoro e Atanásio.

Tiago havia manifestado o desejo de ser enterrado em terras ibéricas, e diz a lenda que seu corpo foi transportado por seus discípulos para a Espanha em uma nau de pedra guiada por anjos. É mais provável que tenha sido levado em um navio mercante comum, porém já em seu ataúde de pedra, daí ter nascido esta antiga crença. O apóstolo foi então sepultado na cidade de Iria Flavia (assim denominada em homenagem ao imperador romano Flávio Vespasiano), atualmente nos arredores da cidade de Padrón., próximo à costa ocidental da Galícia. Esta região era chamada pelos romanos de Finis Terrae, isto é, os confins da Terra, por ser o ponto mais ocidental da Europa, além do qual nada mais há que o Oceano.

Há evidências que sugerem ter havido peregrinações esparsas ao local desde os primeiros séculos da era cristã. Porém com as invasões bárbaras, a queda do Império Romano e, posteriormente, com as invasões muçulmanas, o túmulo acabou sendo "esquecido", ou perdido.


A história do Caminho
Do Século VI ao Século X

No ano 813, um monge chamado Pelayo, retirou-se para viver como eremita no bosque de Libredón na colina circundada pelos rios Sar e Sarela. Neste local havia duas antigas necrópoles (cemitérios) abandonadas, uma romana e outra visigótica. Avistando uma chuva de estrelas que parecia cair sobre um determinado ponto, e interpretando esta visão como um sinal divino, Pelayo foi examinar o local e ali encontrou o velho sepulcro. Informou então ao bispo galego Teodomiro o que havia achado em um "campo de estrelas", isto é, em um campus stellae, em latim, origem da palavra Compostela.

O bispo, pelas inscrições no sepulcro, confirmou que se tratava do túmulo do apóstolo Tiago que, segundo a secular tradição havia sido sepultado naquele local, a beira do rio Ulla, próximo a uma antiga estrada romana. Foram também identificados os túmulos de Teodoro e Atanásio, os dois discípulos, que estavam sepultados ao lado do mestre.

O rei de Astúrias, Alfonso II, o Casto, (791 – 842), ao tomar conhecimento da descoberta, nomeou São Tiago como patrono oficial da Espanha e ordenou a construção de uma capela de pedra sobre o sepulcro, o que foi realizado no ano 829. Os primeiros documentos históricos que relatam a existência de peregrinações ao "campo de estrelas" datam do ano 840, e o local aos poucos tornou-se um centro de devoção reconhecido pela Igreja.

Na batalha de Clavijo, no ano 842, as tropas cristãs de Astúrias e León, apesar de sua grande inferioridade numérica, derrotaram os árabes do reino da Andaluzia. Nasceu então a lenda de que São Tiago, montado em um cavalo branco, lutando bravamente, havia participado pessoalmente da batalha. O santo foi visto por muita gente, e a fama de Santiago Matamoros ("mata mouros"), com sua espada invencível, espalhou-se rapidamente por toda a Europa. O culto ao apóstolo passou a ser a partir de então o foco espiritual e o símbolo de resistência que deu energia à Reconquista (a luta contra os muçulmanos). Desde então, e até hoje, a espada com o punho em forma de cruz é um dos símbolos do apóstolo Tiago.

No ano 950 Gotescalco, bispo de Le Puy (na França), tornou-se a primeira grande autoridade a visitar Compostela como peregrino, dando um exemplo que foi seguido inúmeras vezes pelos séculos futuros.

O rei de Astúrias, Alfonso III, o Grande, (866 – 910), ordenou então que fosse construída no local uma igreja maior que a anterior. No ano 997 o antigo templo sobre o túmulo foi destruído e incendiado pelos mouros sob o comando de Abu Amir al-Mansur, conhecido pelos espanhóis como Almanzor, primeiro-ministro do Califado de Córdoba.  

A história do Caminho
Do Século XI ao Século XV

A partir do século X, com o progresso da Reconquista, e o crescimento dos territórios cristãos na península Ibérica dando origem a novos reinos que se unem em torno da causa comum, a peregrinação tornou-se mais segura e o número de estrangeiros dirigindo-se a Santiago gradualmente cresce.

Sancho III, o Grande, rei de Navarra (992 – 1035), trouxe para a Espanha a ordem de Cluny, e com ela a arte românica. Este estilo arquitetônico, com construções gigantescas representando o ideal cristão, está presente em numerosas igrejas do Caminho. Os monges ocuparam todo este território devastado por séculos de guerra, construindo mosteiros e hospitales (albergues) ao redor dos quais nasceram novos burgos. Ramiro I, o primeiro rei de Aragão (1035 – 1066), filho de Sancho III da Navarra, criou a infra-estrutura para a rota que vinha de Somport, denominado Caminho Aragonês. Alfonso VI, o Bravo, rei de Castela e León (1065 – 1109), forneceu também proteção real ao Caminho, dando todo apoio a Santo Domingo para conservar as estradas no território castelhano.

No ano 1064 Don Rodrigo Díaz de Vivar, El Cid, o herói da luta contra os mouros, chega a Compostela como peregrino. Onze anos depois iniciam-se as obras para a construção da atual catedral compostelana, terminada em 1128.

Em 1119 o papa Calixto reconheceu Compostela como um dos três centros cristãos de peregrinação. O primeiro Ano Santo, em que foi dado o perdão aos peregrinos, foi 1126. Os fiéis que iam a Roma eram denominados "romeiros" (de onde nasceu a palavra "romaria", o ato de ir a Roma), os que iam a Jerusalém eram os "palmeiros" por levarem uma folha de palma, símbolo de sua caminhada, e os que iam a Compostela eram chamados de "peregrinos", isto é, os que atravessam o campo (per + agro). Em 1179 o papa Alexandre III tornou permanente o Ano Santo

O sacerdote Aymeric Picaud, de Poitou peregrinou a Santiago em 1139, e com base em suas observações escreveu o primeiro guia do Caminho, conhecido como o "Codex Calixtinus", que foi, por muitos séculos e até hoje, a base de todos os outros guias.. Com o aumento no número de peregrinos, junto com os fiéis vieram também ladrões, salteadores de estradas e todos os tipos que, com sua esperteza, abusavam da boa fé dos andarilhos. Para manter a segurança do Caminho, criou-se em 1170, em Cáceres, a Ordem dos Cavaleiros de Santiago cujos cavaleiros eram encarregados da vigilância da rota através da Espanha. A Ordem dos Templários, um pouco mais antiga, e com a mesma finalidade de proteger os lugares santos, veio também mais tarde proteger o Caminho.

Nos séculos XIII, XIV e XV o fluxo de peregrinos chegou a atingir cerca de quinhentos mil caminhantes por ano. Entre estes vieram São Francisco de Assis em 1213, a princesa Ingrid da Suécia em 1270, Santa Isabel de Portugal em 1326, Alfonso XI de León e Castela em 1332, Santa Brígida da Suécia em 1340, o pintor holandês Jean Van Eyck em 1430, os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela em 1488, Hugo IV duque de Borgonha, Eduardo I da Inglaterra, Carlos I e Felipe II em 1554. Foi nesta época que a rota principal a partir de Puente la Reina, pelo grande número de estrangeiros (franceses ou vindo até este caminho através da França), passou a ser conhecida como Caminho Francês.

A história do Caminho
Do Século XVI ao Século XX

No século XVI decaiu o interesse pela peregrinação. Os exploradores portugueses e espanhóis viajavam por todo o mundo, descobrindo novos oceanos e novas terras. Atrás deles iam não só colonos, mas também comerciantes holandeses e corsários ingleses. E os corsários saqueavam não apenas as terras recém descobertas no Novo Mundo, mas também as costas da Europa.

Em 1589 ocorreu um episódio que veio romper a paz de Compostela. Sir Francis Drake, o mais famoso dos corsários britânicos sitiou a cidade de La Coruña. Os sacerdotes que cuidavam do túmulo de São Tiago, assustados com a notícia de que os ingleses já haviam desembarcado nas costas galegas, ocultaram cuidadosamente as relíquias sagradas. E o fizeram de tão secretamente que ninguém mais soube de seu paradeiro por quase três séculos.

Durante a realização de algumas obras no subsolo da catedral de Santiago em 1879, as relíquias do apóstolo foram reencontradas, e desde então permanecem expostas ao público. Entre 1946 e 1959, novas escavações descobriram o sepulcro do bispo Teodomiro, do século IX. Mais tarde foram descobertos os restos da antiga necrópole do século I, e as sepulturas de Teodoro e Atanásio, discípulos de Tiago.

Gradualmente o interesse pela peregrinação foi se reativando. Em 1982 o papa João Paulo II tornou-se o primeiro papa a peregrinar a Compostela. Três anos depois, em 1985, a UNESCO declarou Santiago de Compostela como "Patrimônio da Humanidade". Na mesma ocasião, o Caminho de Santiago recebeu o título de "Primeiro Itinerário Cultural Europeu".

Em 1988 o governo de Navarra passou a zelar oficialmente pelo Caminho, proibindo o tráfego de veículos motorizados na rota histórica, e a proibindo qualquer construção a menos de trinta metros do trajeto. O fluxo de peregrinos aumentou de maneira mais intensa nos últimos anos. Em 1989 o papa retornou a Compostela e, fazendo um apelo à juventude, conseguiu reunir quinhentas mil pessoas nos arredores da cidade.

Em 1990 foram 4.918 peregrinos, em 1991 foram 7.224. Este número subiu para 9.764 em 1992 e continua crescendo.

A origem do Ano Santo

No ambiente cultural e social da Idade Média européia, a consciência da realidade do pecado e a necessidade de liberar-se de sua culpa eram sentimentos bem mais concretos e presentes na mente da população do que hoje. Na época medieval eram concedidas indulgências, isto é, o perdão dos pecados, aos fiéis que participavam das Cruzadas, aos que ajudavam a construir um templo, e também a todos aqueles que peregrinavam a um santuário para cultuar as relíquias de um santo. Entretanto havia algumas bulas papais que davam permissão a que pessoas de classes mais altas enviassem alguém para peregrinar em seu lugar. Obtinham assim o perdão "por procuração", sem precisar realizar pessoalmente a caminhada.

O papa Calixto II elevou a cidade de Santiago de Compostela à dignidade metropolitana (sede de um arcebispado) e, em 1119, outorgou à Catedral de Santiago o privilégio do Jubileu Pleníssimo ou Ano Jubilar, mais conhecido como Ano Santo. Calixto II tinha fortes ligações com a Espanha: era cunhado de Dona Urraca, influente e poderosa rainha de León e Castela. Dona Urraca era filha do rei Alfonso VI, e mãe do rei Alfonso VII, dois monarcas espanhóis que muito apoio deram às peregrinações a Compostela.

Além de conceder o Jubileu, o papa declarou a Peregrinação Compostelana como uma das chamadas peregrinações maiores, juntamente com as de Roma e Jerusalém. O primeiro Ano Santo, no qual foi dado o perdão aos peregrinos, foi o ano 1126.

O papa Alexandre III, em 1179, decretou perpétuo o Jubileu de Santiago de Compostela. Seu objetivo foi prestigiar o santuário e proporcionar aos fiéis peregrinos um meio de obter o perdão de seus pecados. E em 1332 o papa João XXII, em Avignon, editou uma bula concedendo indulgência também às pessoas que ajudassem os peregrinos compostelanos com hospedagem ou esmolas.

É considerado Ano Santo Compostelano todo aquele em que o dia 25 de Julho, dia do martírio de São Tiago, cair em um domingo. Além destes, em ocasiões especiais, pode ser declarado um Ano Santo Compostelano extra, como ocorreu em 1885 e em 1938.

O Ano Santo Compostelano, portanto, não só é mais freqüente, como é mais antigo que o Ano Santo Romano, que foi decretado pela primeira vez no ano 1300. Tradicionalmente, durante o Ano Santo Romano estão suspensas todas as outras indulgências não ligadas diretamente à cidade de Roma, exceto o Ano Santo Compostelano.

Esta é a relação dos Anos Santos dos séculos XX e XXI:

1909 1915 1920 1926 1937 1943 1948

1954 1965 1971 1976 1982 1993 1999

2004 2010 2021 2027 2032 2038 2049

2055 2060 2066 2077 2083 2088 2094

O "Codex Calixtinus"

No século XII, o papa Calixto II, já reconhecendo a importância desta peregrinação e as dificuldades enfrentadas pelo viajante da época, encarregou o sacerdote francês Aymeric Picaud de escrever o primeiro guia do Caminho de Santiago. Este livro, surgido em 1131, tornou-se conhecido como Codex Calixtinus (por causa do nome do papa). Picaud descreve então, pela primeira vez, os detalhes da viagem, passo a passo. Tece comentários sobre as diferentes regiões, as cidades e o povos ao longo do Caminho, e orienta como superar os obstáculos e as dificuldades da peregrinação. Fornece-nos um rico relato que, após mais de oito séculos, continua sendo citado como um livro de inestimável valor histórico que pode ser lido pelo moderno leitor com prazer e curiosidade. A obra é até hoje a base de todos os outros guias publicados sobre o Caminho.

O livro é uma enorme, erudita e variada compilação, realizada em honra ao apóstolo Tiago. Para sua composição o autor reuniu todos os textos que encontrou, que tivessem algo a ver com o São Tiago, sua vida, seu martírio, seu culto, e seu templo em Compostela. A estes textos acrescentou muitos trechos de sua própria criação. A seguir, revisou e adaptou o conjunto resultante para transformá-lo em um texto uniforme, como se fosse obra de um só autor e não uma heterogênea coletânea.

O texto foi publicado sob a égide do papa Calixto II, e dedicado ao Arcebispo Diego Gelmírez, de Compostela, e ao patriarca Guillermo, de Jerusalém. Provavelmente a obra tenha sido encomendada pelo próprio arcebispo de Santiago. A construção da catedral, nesta época, encontrava-se quase terminada, e a obra de Aymeric Picaud buscava ir além da construção de um monumento arquitetônico. Seu objetivo foi estabelecer um corpo de doutrina que se constituísse em um monumento litúrgico e literário ao apóstolo, buscando assim fixar e enaltecer e imortalizar a devoção ao santo.

A obra foi preparada e composta entre os anos 1125 e 1130. Durante sua elaboração a idéia inicial ampliou-se, e o texto cresceu muito mais que o previsto. Sua publicação final e completa deu-se em 1160. Dela participaram os melhores escritores, teólogos, fabulistas, poetas, músicos e copistas da época, representando o mais seleto ambiente cultural da Espanha e da França.

Ao seu final a obra tornou-se conhecida como Liber Sancti Jacobi, isto é, "Livro de São Tiago". A primeira parte, mais extensa que todo o resto, é de caráter litúrgico e trata de todos os textos religiosos, ritos, orações, hinos e cantos relacionados às festas e ao Culto a São Tiago. A segunda parte é o "Livro dos Milagres" em que são relatados vinte e dois milagres ocorridos em várias regiões do mundo, atribuídos ao santo.

O Santo e seu Nome

O santo cultuado em Compostela, patrono da Espanha, é Tiago, filho de Zebedeu, também chamado de Tiago Maior. Nascido na Galiléia, Tiago foi desde o início um dos apóstolos mais chegados a Cristo. Foi o primeiro mártir cristão e o único apóstolo cujo martírio é relatado na Bíblia. Ele e seu irmão, o apóstolo João, eram cognominados boanerges, isto é, "filhos do trovão", talvez por seu inflamado fervor espiritual. Ele e João foram, com Simão (Pedro) e André, os quatro primeiros discípulos escolhidos por Jesus e os que mais de perto acompanharam todos os seus passos. Tiago foi decapitado por ordem do rei da Judéia, Herodes Agripa I, (descendente do rei Herodes que perseguiu Jesus logo após seu nascimento), no ano 44 de nossa era.

Entre os doze apóstolos de Cristo houve dois com o nome de Tiago. O segundo foi Tiago, filho de Alfeu, também conhecido como Tiago Menor. Este Tiago era também o pai de Judas Tadeu (outro dos apóstolos) e morreu como mártir, provavelmente na Pérsia.

Houve ainda um terceiro Tiago que também tornou-se um santo da Igreja Cristã, cognominado de "Tiago, o irmão do Senhor", talvez (segundo São Jerônimo) por ser primo de Jesus. Foi um dos líderes da Igreja de Jerusalém no século I e é considerado seu primeiro bispo. Morreu apedrejado no ano 62 por ordem do sumo-sacerdote judeu.

O nome Tiago encerra uma longa história, e talvez seja o nome masculino que mais variações apresenta nos diferentes idiomas dos países ocidentais.

De Jacob ou Jacó em hebraico, veio o nome Jacobus em latim. E da expressão latina Sanctus Jacobus, vieram os adjetivos jacobeo ou jacobeu, freqüentemente encontrados pelo peregrino em referências a aspectos ou características do Caminho de Santiago. Em latim as letras I e J tinham praticamente o mesmo som, e era muitas vezes indiferente o uso de uma ou de outra. Portanto o Jacobus transformou-se em Iacobus, que mais tarde virou Iago ou Yago. Da fusão da expressão Sanct’Iacobus ou Santo Iago, nasceu a palavra Santiago, que posteriormente quebrou-se em San Tiago, origem do nome Tiago ou Thiago. E o nome alterou-se também, ao longo dos séculos, em castelhano para Diego e, em português, para Diogo. Em italiano, idioma em que o J sempre transforma-se em G, o latim Jacobus transformou-se em Giacomo.

Na Inglaterra o nome Tiago alterou-se para James, posteriormente aportuguesado para Jaime, enquanto na França sua alteração foi para Jacques. Por este motivo, a concha do peregrino é tradicionalmente conhecida como coquille de Saint Jacques, isto é, "conchinha de São Tiago". Por estas variações no nome do santo, o peregrino que desejar consultar livros em inglês ou francês deve sempre lembrar-se de procurar referências a Saint James ou a Saint Jacques, respectivamente.

Se incluirmos nesta relação os apelidos Jim, Jimmy, Jack, os derivados Jackson, Jameson, os femininos Jacqueline, Jacobina, etc, a confusão sem dúvida aumentará ainda mais.

Vale recordar que os Jacobinos da Revolução Francesa receberam este nome pelo fato de suas reuniões serem realizadas em um antigo mosteiro dos dominicanos localizado na Rue Saint Jacques, em Paris.

As Diversas Rotas

O Caminho de Santiago termina geograficamente na cidade de Santiago de Compostela, porém não há oficialmente um ponto de partida, e o peregrino começa sua caminhada onde quiser. As diferentes rotas vêm de locais muito distantes Algumas têm origem na Europa Oriental, na Itália ou nos Países Baixos, atravessam a França e, como rios, vão lentamente confluindo, até se tornarem um só caminho. Há quatro rotas principais vindas da França, que se fundem em apenas duas, antes de entrar na Espanha.

A primeira é a Via Tolosana ou Caminho de Somport, vem de Arles, no sul da França, passa por Montpellier, Toulouse, Oloren, Somport, e continua-se na Espanha pelo Caminho Aragonês. Esta é a rota mais ao sul, e é a utilizada pelos peregrinos que vêm da Itália. A Segunda, a Via Podense, inicia-se em Le Puy, passa por Moissac e finalmente chega a Ostabat. É a utilizada pelos peregrinos que vêm da Suiça e da Áustria. A terceira, a Via Turonense, nasce em Vezelay e, passando por Saint-Amand, Limoges, Périgueux, atinge também Ostabat. Esta é a utilizada pelos peregrinos vindos da Alemanha. A última, a Via Limosina, mais ao norte, vem de Orléans, e passa por Tours, Lousignon e Bordeaux até unir-se às outras duas em Ostabat. Esta é a rota empregada pelos caminhantes que vêm de Paris, da Holanda e da Bélgica. De Ostabat todas continuam juntas até Saint-Jean-Pied-de-Port.

O Caminho Navarrês ou Caminho Real Francês deixa a França pela cidade de Saint-Jean-Pied-de-Port, a 14 km da fronteira, cruza os Pireneus e entra na Espanha na cidade de Roncesvalles, 8 km além da fronteira. A cidade de Puente La Reina, onde os caminhos Navarrês e Aragonês se unem, situa-se a 64 km. Esta é, por motivos históricos, a rota mais tradicional, e quase tudo o que se fala sobre o Caminho costuma ser referência a este trajeto.

O Caminho Aragonês, mais ao sul, continuação da Via Tolosana, vem da cidade de Somport, na fronteira entre a França e a Espanha. Bem mais longo que o ramo Navarrês, este caminho atinge Puente La Reina após 152 km de caminhada. É importante que o peregrino não se confunda esta com outra cidade com o mesmo nome, situada 100 km antes da que é ponto de encontro de ambas as rotas.

O Caminho Cantábrico, menos tradicional, vem de Bayonne, no sul da França, e cruza a Espanha paralelamente ao primeiro, porém seguindo a linha costeira, beirando o mar Cantábrico ou baía de Biscaya. É separado dos caminhos anteriores pela cordilheira Cantábrica, as montanhas que o peregrino tradicional avista do lado norte ao longo de todo o trajeto. Logicamente, o peregrino que vai pela costa avistará estas montanhas ao sul de seu caminho. Esta rota passa por Bilbao, Gijón e La Coruña antes de chegar a Santiago. Como alternativa o peregrino pode deixar o litoral na altura de Ribadeo, e unir-se ao Caminho Francês na cidade de Arzúa, a um dia de caminhada até Compostela.

Há duas outras rotas, menos conhecidas, ambas vindas do sul, e empregadas principalmente pela população local. Uma vem de Portugal, o Caminho Português, iniciando-se na cidade do Porto e, passando por Braga e Padrón, atinge Santiago chegando pelo Oeste e não pelo Leste como as outras. A outra, o Caminho de Salamanca, vem do oeste da Espanha, da província de Estremadura, inicia-se em Salamanca, passa por Zamora, ou entra em Portugal, passando por Bragança, antes de chegar a Santiago de Compostela.

Roncesvalles
a 736 km de Santiago

Esta pequena aldeia, chamada Orreaga pelos bascos, com não mais que um punhado de habitantes e escondida no meio dos Pireneus, está longe de ser um local abandonado e decadente. É um dos locais mais vivos e mais luminosos do Caminho. Aqui, de uma maneira única e mágica,ocorre um sincretismo histórico e mitológico em que se mesclam a imortal tradição jacobea da Espanha, com o inesquecível ciclo carolíngio da França. A presença de Carlos Magno dá força e prestígio ao culto de São Tiago, enquanto a presença do apóstolo engrandece e santifica o imperador dos francos.

Um pouco antes, fica Valcarlos, o vale onde Carlos Magno acampou enquanto seus guerreiros combatiam em Roncesvalles. Na igreja de Valcarlos encontra-se a rocha partida ao meio por Rolando com a sua espada Durandal, e na baixada do vale está o Bosque de las Lanzas, que nos traz a lenda das cinqüenta mil donzelas que deram a vitória ao imperador dos francos.

No alto, em Ibañeta, de onde se avista a Espanha a Oeste, a França a Leste, e o "mar Britânico" ao norte, encontra-se a antiga Cruz de Carlos Magno. Diz a lenda que o imperador, à frente de seu exército, abrindo caminho pelas florestas dos Pireneus, aí chegando, ajoelhou-se em direção à Galícia e rezou a Deus e a São Tiago. Os peregrinos, seguindo a tradição também se ajoelham, rezam ao apóstolo, e cravam uma cruz, onde já há com certeza muitas centenas delas. Embora a batalha de Roncesvalles tenha sido travada no ano 778, trinta e cinco anos antes da redescoberta do sepulcro de São Tiago, naquela época já era forte o culto ao santo que morreu na Galícia. A veracidade da história pode talvez ser posta em dúvida, porém o caráter sagrado destas rochas banhadas pelo sangue dos guerreiros, e o peso histórico do lugar, fazem com que ao longo dos séculos as lendas permaneçam vivas no coração do peregrino. Pois por este passo nas montanhas atravessaram os povos da Idade do Bronze, as migrações celtas, os legionários romanos, as tribos bascas, as hordas de vândalos, de suevos e visigodos, os guerreiros indo à luta da Reconquista, os reis exilados de Pamplona, a artilharia de Luís XIV, os refugiados da Guerra Civil, e os eternos peregrinos em busca de Santiago.

Em Roncesvalles tudo é História. Aqui morreram Rolando, Oliveros, o rei Marsílio e quarenta mil guerreiros, mouros e cristãos. E aqui foi fundada em 1132 a Real Colegiata de Nuestra Señora de Roncesvalles. Em 1209 foi erigida a igreja, por iniciativa de Sancho, o Forte, que nela foi sepultado. O chamado Silo de Carlos Magno, com sua antiga cripta que serviu como ossário de peregrinos, remonta ao século XII. Assim, a velha cruz de pedra, do século XIV, parece "moderna" para os padrões de Roncesvalles.

Pamplona
a 694 km de Santiago

Neste local já havia um antiqüíssimo povoado quando os romanos aí construíram uma aldeia fortificada no ano 75 de nossa era. A cidade foi fundada durante uma campanha militar, por Pompeu, o rival de Júlio César, e denominada Pompeiopolis ou Pompaelo. Foi quase abandonada após as invasões mouras, e foi invadida pelas tropas de Carlos Magno em 778. No início da Idade Média, a povoação havia se dividido em três burgos, cercados por muralhas independentes: Navarreria, habitado pela população local, San Cernín e San Nicolás, ambos habitados por francos e outros imigrantes. Em 1423 o rei Carlos III, o Nobre, rei de Navarra, demoliu seus muros e unificou os três no interior de uma só grande muralha. Em 1512 Pamplona foi invadida e incorporada ao reino de Castela pelo rei Fernando II, o Católico.

A cidade foi cristianizada por San Cernín ou São Saturnino de Tolosa. Sua catedral, românica, do século XII, foi reconstruída no século XV no estilo gótico e domina o centro histórico da cidade. Pamplona foi transformada em capital do reino de Navarra no início do século XI pelo rei Sancho III, e é hoje a capital da província de Navarra, na região basca da Espanha. A cidade é denominada Iruña no idioma basco.

Embora a cidade tenha sofrido grande influência do Caminho de Santiago, sua festividade mais importante e famosa nada tem a ver com o apóstolo. É a festa de San Fermín (o primeiro bispo de Pamplona), em que touros bravos são soltos nas ruas, e a população corre na frente dos animais tentando com grande habilidade escapar de seus perigosos chifres. As comemorações duram uma semana, de 6 a 14 de Julho, e são uma concorrida atração turística.

Puente la Reina
a 672 km de Santiago

Esta cidade, chamada de Gares pelos bascos, é cercada de um significado simbólico e profundo para o peregrino, pois é onde "todos os caminhos a Santiago tornam-se um só", onde finalmente se fundem o Caminho Navarrês e o Caminho Francês. A partir daqui a rota é uma só até Santiago.

Puente La Reina, antigamente denominada Ponte Regina, foi o primeiro centro urbano a crescer sobre o eixo da peregrinação. A majestosa ponte, com seus seis arcos de pedra cruzando o rio Arga, foi construída por ordem de Doña Mayor, esposa do rei Sancho, el Mayor, no século XI. A ponte foi construída especialmente para que os peregrinos a caminho de Compostela atravessassem com segurança o largo rio.

O afluxo de viajantes era tão grande que foram estabelecidas normas limitando sua estadia na cidade. Do século XII ao século XV a cidade foi governada pela ordem dos Templários, que receberam do rei Garcia VI também o dever de acolher gratuitamente os peregrinos que viajassem "guiados pelo Amor a Deus".

Ainda hoje o peregrino pode ouvir ao cair da noite as tradicionais quarenta badaladas, lembrança do velho costume medieval de avisar aos viajantes que as portas da cidade seriam fechadas ao escurecer.

Pouco antes de Puente la Reina passa-se pela vila de Obanos, onde até hoje celebra-se a memória de uma antiga lenda. A princesa Felícia da Aquitânia, após fazer a peregrinação a Compostela, no retorno da viagem, decide aqui retirar-se do mundo. Seu irmão, o príncipe Guilherme, tentou em vão fazê-la mudar de idéia. Não o conseguindo, em um acesso de cólera, descontrolou-se e a matou. Para conseguir o perdão por seu crime, ele próprio decide peregrinar a Compostela. E, no retorno, mudou de vida e tornou-se um santo. A lend de São Guilherme e Santa Felícia é uma das mais célebres do Caminho.

Estela
a 648 km de Santiago

Situada às margens do rio Ega, Estela foi fundada em 1090 por Sancho Ramírez, para favorecer o assentamento dos franceses que faziam a peregrinação. No século XIX foi a sede do movimento carlista na Espanha. É hoje a sede da sociedade "Los Amigos del Camino de Santiago", a mais importante e mais ativa das instituições ligadas ao Caminho.

Em 1270, um humilde peregrino grego faleceu em Estela, em conseqüência dos males advindos da extenuante caminhada. Foi sepultado, como era costume, no claustro da igreja de San Pedro de la Rúa (construída no século XII), onde havia na época um cemitério para peregrinos. No entanto, misteriosos clarões atraíram a atenção das pessoas sobre seu túmulo. Ao se reabrir o sepulcro, descobriu-se que o anônimo andarilho era o bispo de Patras, que levava uma sagrada relíquia do apóstolo André, como doação a Santiago. Desde então, Santo André é o patrono de Estela, e a oferenda do bispo está até hoje guardada em um grande relicário de prata, nesta mesma igreja. No primeiro domingo de Agosto, são animadamente celebradas as festividades em honra a Santo André, consideradas de importante interesse turístico.

Pouco depois de Estela, o peregrino atravessa a aldeia de Ayegui, e chega ao Monasterio de Irache, de Nuestra Señora la Real, nas encostas do Montejurra, um dos mais antigos mosteiros da Navarra. Sua origem remonta provavelmente à época visigótica, sendo um pouco mais recentes seu Hospital de peregrinos, do século XI, e sua igreja, do século XII.

Próximo ao mosteiro, estão suas "bodegas", que reservam ao peregrino uma das mais fantásticas surpresas desta viagem tão cheia de surpresas: a fonte de vinho. Sim, uma autêntica e real fonte, com duas bicas, uma das quais jorra água, enquanto a outra jorra um bom vinho navarrês, vindo direto da vinícola de Irache.

Acima da fonte uma grande saudação:

Peregrino!
se quieres llegar a Santiago
com fuerza y vitalidad
de este gran vino echa un trago
y brinda por la Felicidad.

Ao lado da fonte a suave advertência:

Normas de uso
A beber sin abusar
te invitamos com agrado.
Para poderlo llevar
el vino a de ser comprado.

Impossível não se lembrar neste momento do maná que caiu do céu alimentando os que buscavam a Terra Prometida. Tomamos um copo de vinho e, revitalizados, continuamos a caminhada, rumo a Los Arcos.

Viana
a 609 km de Santiago

Pouco tempo após sair de Los Arcos, o peregrino já pode avistar Viana. Não por estar próxima, como pode parecer, porém por situar-se sobre uma alta colina que domina toda a região. Na verdade o peregrino deve enfrentar uma longa caminhada de algumas horas, por locais totalmente desertos e sem recursos. E, ao chegar a Viana, ficará na dúvida se compensa a penosa subida até a cidade, ou se é melhor continuar caminhando diretamente até sair da Navarra e chegar à cidade de Logroño, já na província de La Rioja. Na verdade Viana tem pouco a oferecer. Há restaurantes com boa comida, mas o albergue é muito precário e o único ponto de interesse é a majestosa catedral gótica de Santa Maria, do século XIII.

Viana foi fundada em 1219 por Sancho, o Forte, rei de Navarra, como baluarte na fronteira com o reino de Castela. Tornou-se tão importante que, no século XV, os herdeiros do trono de Navarra recebiam o título de Príncipe de Viana.

A quem aprecia marcos históricos, é interessante saber que nesta igreja está sepultado César Bórgia, uma das figuras políticas mais importantes e influentes da Renascença italiana. César nasceu em 1475, sendo irmão de Lucrécia Bórgia (a envenenadora), e filho do cardeal Rodrigo Bórgia, que mais tarde, em 1492, tornou-se o papa Alexandre VI. Sendo um militar competente, César ajudou seu pai a recuperar o enfraquecido poder dos Estados Papais na Itália e enfrentou as invasões francesas em território italiano em fins do século XV. Sua ligação com a Espanha provém do fato de ter se casado com Charlotte d’Albret, irmã do rei de Navarra. Quando seu pai, o papa, morreu em 1502, César foi preso e levado à Espanha, onde passou a servir no exército real. Morreu em batalha nos arredores de Viana, em 1507, combatendo os rebeldes que lutavam contra seu cunhado, o rei de Navarra.

César Bórgia foi o modelo que inspirou Maquiavel a escrever "O Príncipe", e assim foi a origem da palavra "maquiavélico". Talvez por isso, seu túmulo hoje vazio (pois o corpo desapareceu) pareça tão perdido e deslocado em meio de um Caminho onde reina a paz e não as intrigas políticas.

Logroño
a 600 km de Santiago

Logroño, uma das mais populosas cidades do Caminho, às margens do rio Ebro, pouco oferece de interesse ao peregrino. Aqui eram impressas as Indulgências que eram fornecidas aos caminhantes que chegavam a Compostela.

Entra-se em Logroño pela antiga ponte de pedra construída no século XI, por ordem de Alfonso VI, rei de León e Castela, e posteriormente mantida e reformada por Santo Domingo (de la Calzada) e San Juan (de Ortega).

Pouco antes da ponte, o peregrino é invariavelmente surpreendido por duas senhoras que ali residem e permanecem de prontidão durante todo o dia esperando os andarilhos com doces e frutas. Oferecem então um enorme livro de atas para que o peregrino ali registre suas impressões, comentários e emoções. Dentro de casa já há uma verdadeira "enciclopédia", com numerosos livros onde estão carinhosamente arquivados os registros de muitos anos de peregrinações.

Nos arredores de Logroño, a apenas dezessete quilômetros da cidade, no sopé de uma colina sobre a qual ainda se avistam as ruínas de um antigo castelo, situa-se a pequena aldeia de Clavijo. Embora, situada fora da rota de peregrinação, foi ali que ocorreu um dos fatos mais importantes da história do Caminho. No ano 844, o rei Ramiro I, de León, derrotou o califa mouro Abd ar-Rahman II, na famosa batalha de Clavijo.

Diz a lenda que esta vitória só foi possível porque São Tiago, em pessoa, ajudou as tropas cristãs, montado em um cavalo branco. Desde então nasceu o mito de Santiago Matamoros ("mata mouros") que rapidamente espalhou-se pela Europa. Todo dia 23 de Maio, aniversário da batalha, realiza-se em Clavijo uma pitoresca e folclórica romaria presidida pelas imagens de São Tiago e da virgem de Ten Tu Día. No domingo seguinte a esta festa, celebra-se a missa ao lado do castelo, acompanhada por uma representação alegórica da lenda das cem donzelas, com dançarinas vindas da vizinha aldeia de Albelda.

Nájera
a 573 km de Santiago

Como lembrança do domínio muçulmano, Nájera conserva seu nome que, em árabe, significa "lugar entre rochas. Antiga capital da província de La Rioja, Nájera já foi também sede da corte de Navarra, entre os anos de 918 e 1076. No século XI, por iniciativa de Sancho III, o Maior, rei de Navarra, Nájera foi incorporada no trajeto do Caminho de Santiago, que antes passava ao largo da cidade. Porém a partir de 1076, seu território foi incorporado ao reino de Castela pelo rei Alfonso VI.

Em meados do século XI, Don García de Nájera, governador da região durante o reinado de Sancho III, saiu certo dia para caçar com seu falcão nos campos dos arredores. A ave, perseguindo uma pomba, penetrou então em uma gruta. Don García, indo atrás do falcão, ali encontrou uma imagem de Nossa Senhora com uma coroa de lírios a seus pés, iluminada por uma lâmpada na qual pousara a pomba.

Inspirado por este fato simbólico, construiu ali uma igreja, que é o Mosteiro de Santa María da Real, e fundou a Ordem de la Terraza, a mais antiga ordem de cavalaria da Espanha. Tanto a igreja, como a imagem de Santa María e a lâmpada bizantina, foram conservadas e podem até hoje ser vistas pelo peregrino. O mosteiro foi entregue por Alfonso VI, de Castela, aos monges beneditinos. Em seu Panteão Real estão sepultados os reis, rainhas e príncipes que ali viveram do século X ao século XII.

Saindo de Nájera, o caminhante atravessa a Puente de los Peregrinos, sobre o rio Najerilla, construída pelo famoso San Juan de Ortega.

Santo Domingo de la Calzada
a 549 km de Santiago

Domingo nasceu no ano 1019, na pequena cidade de Viloria, na província de Burgos, a duas horas de caminhada da cidade que hoje leva seu nome. Levou uma vida de eremita, totalmente dedicada à manutenção e construção de pontes, e à abertura de veredas e novos trechos do Caminho, por toda esta região. Domingo, que posteriormente tornou-se Santo Domingo de la Calzada, teve como um de seus grandes colaboradores, Juan, que posteriormente tornou-se San Juan de Ortega. Também o rei Alfonso VI, de León e Castela, deu-lhe toda a ajuda e colaboração nesta sagrada missão. Santo Domingo viveu noventa anos, e no local em que morreu, foi erigida uma igreja, mais tarde transformada em catedral da cidade que floresceu a seu redor.

Duzentos anos mais tarde, no fim do século XIII, uma família de peregrinos, vindo da Alemanha, chegou a Santo Domingo de la Calzada. A filha do estalajadeiro encantou-se com o filho do casal, Hugonell, então com dezoito anos. Ele, porém, recusou o amor por ela oferecido. Resolvida a vingar-se da desfeita, a donzela escondeu um cálice de prata na mochila do jovem peregrino, e o acusou pelo roubo. O infeliz viajante foi então preso, condenado e enforcado.

Algum tempo após o enforcamento, os pais do jovem receberam uma mensagem divina dando-lhes a convicção de que o filho estava vivo. Procuraram então o juiz, pedindo que perdoasse o rapaz, e os autorizasse a retirar o corpo ainda vivo que continuava pendurado na corda. O juiz, com sarcasmo, interrompeu seu almoço, e respondeu que era tão certo estar vivo o enforcado como aquela galinha que ele estava prestes a comer. Diz a tradição que a galinha levantou-se imediatamente do prato, cantou, e fugiu ante o olhar estarrecido do incrédulo juiz.

Desde então, há mais de setecentos anos, há uma enorme gaiola sobre o altar da catedral de Santo Domingo, onde são mantidos uma galinha e um galo brancos, como símbolos vivos do milagre ocorrido.

É indescritível e a experiência de estar sentado solitário no início da manhã, em um banco da igreja ainda deserta, meditando sobre o caminho percorrido e o longo caminho ainda percorrer, e ouvir subitamente o silêncio ser rompido pelo sonoro cantar do galo, ecoando pelas impassíveis paredes de pedra da velha catedral. Talvez o assombro do peregrino seja então tão grande quanto o do juiz que viu seu almoço escapar e dar origem ao tradicional refrão:

"Santo Domingo de la Calzada,
donde cantó la gallina después de asada".

San Juan de Ortega
a 502 km de Santiago


Este fantástico edifício, que se ergue solitário no alto das montanhas, entre Belorado e Burgos, é muito mais que uma igreja. É um conjunto complexo formado por duas igrejas, dois mosteiros, um Hospital de peregrinos, e algumas residências.

San Juan nasceu (como Juan Velázquez) em 1080 na pequena aldeia de Quintanaortuño, nesta mesma província. Tendo realizado a peregrinação a Jerusalém, ao retornar, decidiu dedicar-se a proteger os peregrinos que iam a Compostela.

Retirou-se para um local denominado Ortega, nos montes de Oca, onde construiu uma ermida consagrada a San Nicola de Bari e o Hospital de peregrinos. Além disso, dedicou o resto de sua vida à manutenção, reconstrução e aprimoramento do Caminho de Santiago. Foi ele quem construiu todo o trecho que leva a Atapuerca, além de pontes em Nájera, Logroño e Santo Domingo de la Calzada. Morreu em Nájera em 1163, e foi enterrado na ermida que havia construído em Ortega. Apesar de reformada e ampliada, a velha ermida existe até hoje. São Juan de Ortega foi contemporâneo, companheiro e colaborador de Santo Domingo, o de la Calzada.

Sete anos após sua morte, o local passou a abrigar um mosteiro da ordem de Santo Agostinho, que a partir do século XV (1432) passou à ordem de São Jerônimo. Hoje em dia o conjunto abriga o mais amplo albergue de todo o Caminho, com capacidade para receber centenas de peregrinos.

No dia do equinócio um raio de sol, penetrando por um pequeno orifício, ilumina a imagem da Anunciação esculpida no capitel de uma das colunas da igreja. O fato reveste-se de um significado especial quando se recorda que o equinócio de primavera (21/22 de Março) ocorre nove meses antes do nascimento de Cristo, portanto na suposta data da real Anunciação..

A hospitalidade em San Juan de Ortega é inesquecível. É o único refúgio no caminho que ainda conserva a secular tradição de o pároco oferecer sopa de alho ao peregrino que pernoita. Entre as inúmeras pessoas que marcam de maneira indelével a alma do peregrino, nenhuma encarna de maneira mais viva o espírito do Caminho que o padre José María, responsável há muitos anos pelo local. É um digno sucessor do próprio San Juan.

Burgos
a 481 km de Santiago

A cidade de Burgos nasceu no ano 854 às margens do rio Arlanzón, como um pequeno povoado que cresceu ao lado de um antigo castelo. A vila desenvolveu-se sob a iniciativa do conde Diego Rodríguez Porcelos para defender a região da invasão moura, e já no ano 920, adquire o título de cidade. Um século depois, em 1035, Fernando I, rei de Castela, a torna capital de seu reino.

Burgos foi historicamente a cidade mais importante do Caminho, e chegou a contar com trinta Hospitais de peregrinos. Entre eles destacava-se o Hospital del Rey, o considerado o melhor Hospital da Espanha, situado ao lado do mosteiro de las Huelgas e de um antigo cemitério para peregrinos.

A catedral, uma das mais antigas construções góticas da Espanha (sua construção iniciou-se em 1221) abriga o sepulcro do herói nacional don Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido como El Cid, e sua esposa, doña Jimena. El Cid peregrinou a Compostela no ano 1064. Esta igreja é considerada pela UNESCO como "Patrimônio Cultural da Humanidade".

Um monge clunicense francês, chamado Lesmes (ou Adelmo) fez a peregrinação a Compostela no século XI. No trajeto de volta, passando por Burgos, a rainha Constanza de Bragança, esposa do rei Alfonso VI de Castela, convenceu-o a permanecer na cidade para estabelecer ali a nova liturgia romana. São Lesmes foi a partir de então um grande protetor dos peregrinos, construindo mosteiros e Hospitais para acolher os caminhantes. Morreu em 1097, está sepultado na igreja de São Lesmes, em Burgos, e é o patrono da cidade. Em 1968, seu sepulcro foi aberto durante as obras de restauração da Igreja, e descobriram-se os restos do santo, intactos após quase novecentos anos.


Castrojeriz
a 439 km de Santiago

Castrojeriz foi fundada na época visigótica, nas encostas de uma colina isolada no meio da imensa planície, em cujo cimo ainda se vêem os restos do antigo castelo. O nome da cidade deriva de Castrum Sigerici, isto é, castelo de Sigerico, nobre que ali viveu no ano 760, época em que a região começou a ser repovoada pelos cristãos.

Diz a lenda que no século XI, o filho de um senhor importante foi acometido por uma grave doença, conhecida na época como "fogo de Santo Antônio" ou "fogo sagrado". Esta era uma moléstia que se espalhou pela Europa no século X, e manifestava-se com gangrena progressiva, bastante dolorosa, sendo muitas vezes incurável. Tendo invocado o auxílio de Santo Antônio, a doença logo desapareceu e seu filho curou-se rapidamente.

A partir de então a ordem dos Monges de Santo Antônio, fundada no ano 1093, difundiu-se pela Europa e tornou-se muito conhecida. A ordem fundou em 1146 seu mosteiro espanhol nas proximidades de Castrojeriz, onde não só ajudavam os peregrinos, como curavam os enfermos portadores de "fogo de Santo Antônio". Um antigo peregrino francês nos deixou um relato informando que estes monges amputavam os braços e as pernas dos seus pacientes, e os penduravam nas portas do Hospital.

Com a ampliação das dependências do mosteiro no século XIV, a estrutura de colunas e arcos que se apoiava em suas paredes, foi construída passando por cima da antiga estrada dos peregrinos. Entretanto o trajeto da estrada não foi alterado, e até hoje passa sob os gigantescos arcos em ruínas do que foi um dia o átrio ocidental da igreja já destruída.

Desde que Carlos III, rei da Espanha, aboliu esta ordem em fins do século XVIII, o mosteiro foi abandonado. Hoje em dia nada mais resta que suas ruínas fantasmagóricas. O peregrino que cruza seus silentes arcos de pedra ao fim da tarde, sente um calafrio inexplicável. Apenas o assustador latir dos cães quebra o pesado silêncio. Pois se há algum lugar no Caminho em que o misticismo emana de cada arbusto e de cada pedra, este local é sem dúvida San Antón.


Sahagún
a 357 km de Santiago

O curioso nome desta cidade, que era chamada Camata pelos latinos, deriva San Facundo ou Sant Facund ou San Fagún, mártir cristão dos antigos tempos do Império Romano.

Conta-se que aqui o imperador Carlos Magno combateu os muçulmanos comandados pelo rei Aigolando. Diz a lenda que os guerreiros francos, vitoriosos, fincaram as lanças dos soldados cristãos mortos ao lado de seus corpos caídos, "para glória do Senhor". No dia seguinte, neste local, às margens do rio Cea, as hastes de suas lanças haviam se tornado verdes e florescido.

O Monasterio de los Santos Facundo y Primitivo foi fundado no ano 872 pelos monges de Cluny, por incentivo do rei Alfonso III Magno, de Castela. Este mosteiro sempre foi um dos mais importantes do Caminho e chegou a ser a principal abadia beneditina na Espanha. Aí está sepultado o rei Alfonso VI de Castela, um dos grandes protetores dos peregrinos.

Com jurisdição religiosa sobre toda a região, seu poder gerou também animosidades. O mosteiro acabou em ruínas e a cidade lentamente perdeu sua antiga grandeza. Sua entrada principal, entretanto, não foi demolida, nem mesmo quando construiu-se a moderna estrada asfaltada.

As ruínas da antiga abadia ainda imponentes sobre a entrada da cidade, formando um enorme arco de pedra sobre a estrada, são consideradas "Monumento Nacional da Espanha".


León
a 303 km de Santiago

Há mais de dois mil anos, em 79 a.C., aqui, na confluência dos rios Bernesga e Torio, situava-se o acampamento militar dos legionários romanos pertencentes à Legio VIIa Gemina Pia Felix. Ao redor do acampamento a o centro urbano foi crescendo ao longo dos séculos, e de legionis, nasceu seu nome León. A região tornou-se subitamente despovoada com as invasões muçulmanas. Porém, com a Reconquista, o rei Ordoño I, repovoou a região, e no ano 914, o rei Ordoño II elevou a cidade a capital do reino de León. Apesar da rivalidade com o reino vizinho de Castela, pois "León teve vinte e quatro reis, antes que Castela tivesse leis", os dois reinos se uniram definitivamente em 1230.

Sobre os restos de um templo romano dedicado ao deus Mercúrio, ergueu-se a antiga igreja de Santo Antônio, que depois converteu-se no Panteón Real, Esta construção está unida à milenar abadia conhecida como Real Basílica de San Isidoro. Neste local estão sepultados trinta e cinco reis, rainhas e infantes, e pará lá foram levados também, há mil anos, os restos de São Isidoro, trazidos de Sevilha em 1063, por iniciativa do rei Fernando I.

Em 1161 foi fundada em León a Ordem dos Cavaleiros de Santiago de la Espada. O mosteiro de São Marcos, cuja construção iniciou-se em 1513, foi sede da Ordem, cujos cavaleiros tinham a missão de cuidar do Caminho de Santiago e defender os viajantes. Em sua fachada, sobre a porta principal, há uma imponente escultura de Santiago Matamoros. Posteriormente o mosteiro transformou-se em um Hospital de peregrinos, e hoje é um luxuoso hotel cinco estrelas.

Hospital de Órbigo
a 269 km de Santiago


A ponte de Órbigo, construída no século XIII, na entrada da vila denominada Hospital de Órbigo tornou-se famosa pelo episódio tradicionalmente conhecido como "Passo Honroso". Em 1434, ano santo compostelano, o legendário cavaleiro leonês Don Suero de Quiñones peregrinou a Compostela com mais nove heróicos companheiros. Com a autorização do rei Don Juan II, de Castela, os dez cavaleiros postaram-se sobre a ponte para desafiar aqueles que por ela desejassem passar.

Don Suero, apaixonado por uma dama e querendo mostrar seu valor e a força de seu amor, colocou um colar de ferro ao redor de seu pescoço, e afirmou ao rei antes de partir: "É justo e razoável que prisioneiros e pessoas privadas de seu livre poder desejem a liberdade. E, como sou seu vassalo e estou na prisão de uma senhora há longo tempo, em sinal da qual trago em meu pescoço este ferro, estabeleci como meu resgate trezentas lanças rompidas por mim e por estes cavaleiros."

A partir do dia 10 de Julho daquele ano, cada um deles enfrentou uma justa (combate a cavalo) por dia. Combateram às vezes contra cavaleiros peregrinos que aceitaram seu desafio, porém mais freqüentemente contra valorosos cavaleiros espanhóis, portugueses, franceses, alemães e italianos, que vieram de longe especialmente para tentar vencê-los. Lutaram durante trinta dias e derrotaram trezentos cavaleiros, obrigando a cada um deles a reconhecer a superioridade de sua amada.

Cumprindo a façanha, libertou-se enfim dos grilhões de ferro, e cavalgaram todos a Compostela. Chegando a Santiago, ofereceram ao apóstolo um cinturão de ouro, que lá se encontra até hoje. O episódio tornou-se tão famoso que é citado com admiração até por Don Quixote, na obra de Miguel de Cervantes.

Astorga
a 254 km de Santiago


A antiga povoação pré-romana foi denominada Asturica pelos latinos, e cognominada Augusta pelo primeiro imperador romano, Augusto, no século I. Centro de comunicações da região norte da península Ibérica, de Asturica Augusta partiam nove estradas romanas. Nesta época a cidade era cercada por uma grande muralha, parte da qual ainda é hoje visível.

Desde os primórdios do Cristianismo, aproximadamente no século III, Astorga tornou-se sede episcopal. Atualmente o fantástico palácio episcopal, construído há cem anos pelo arquiteto catalão Gaudí, foi transformado em Museo de los Caminos e é um monumento que vale a pena ser visto.

A catedral, em estilo gótico, foi construída no século XV ao lado da catedral mais antiga, do século XI, que estava quase desabando. Em seu interior vale a pena observar a imagem de São Tiago vestido como peregrino. Em seu exterior chamam a atenção as cegonhas desafiando os fortes ventos em seus ninhos construídos sobre as pontiagudas torres góticas da catedral.

Em Astorga unia-se ao tradicional Caminho Francês, a antiga rota de peregrinação conhecida como Via de la Plata. Na época áurea das peregrinações, a cidade chegou a contar com vinte e dois Hospitais para acolher os peregrinos.

A proximidade de três monumentos gigantescos, a muralha, a catedral e o palácio, lado a lado, em estilos arquitetônicos tão diversos, representando três épocas tão diferentes da história do Caminho, faz cair sobre o peregrino, de uma só vez, dois mil anos de História.

Foncebadón
a 228 km de Santiago


Cinco quilômetros antes de Foncebadón o peregrino passa por Rabanal del Camino, antigamente denominada Raphanellus. Esta cidade tornou-se famosa por Ter sido o local do casamento da filha de um rei mouro com o cavaleiro andante Anseis de Cartago, da corte de Carlos Magno. O fato foi imortalizado ao ser contado e cantado no poema épico medieval "Crônica de Anseis".

Do antigo povoado de Foncebadón, que já foi importante e famoso durante a Idade Média, nada mais resta que uma cidade-fantasma, montes de ruínas abandonadas, e o antigo cruzeiro de ferro.

Aqui começa a região conhecida como El Bierzo, transição entre as províncias de León e Galícia.. Desde o século VI, em El Bierzo floresceu o maior foco de eremitismo e monasticismo da Espanha, sob a inspiração de São Fructuoso, natural desta região.

Em fins do século XI, um monge eremita chamado Guacelmo fundou aqui uma igreja, um hospital e um refúgio para os peregrinos que atravessavam esta deserta e inóspita região. Em reconhecimento por sua dedicação e seu esforço, o rei Alfonso VI, de Castela e León, concedeu ao monge o "senhorio" do lugar.

No alto do monte Irago, a dois quilômetros de Foncebadón, sobressai no fundo azul do céu o alto cruzeiro de ferro plantado por Guacelmo para orientar os peregrinos que se perdiam nas montanhas durante as nevadas. A cruz de ferro, já oxidada, ergue-se sobre um poste de madeira com cinco metros de altura. Cada peregrino que se dirige a Santiago, e cada caminhante galego que por ali passa, atira uma pedra ao pé da cruz. Ao longo dos séculos, os milhões de pedras ali aremessadas formaram uma colina artificial com alguns metros de altura, que continua crescendo até hoje.

Ponferrada
a 202 km de Santiago


Pouco antes de Ponferrada, o peregrino passa por El Acebo, uma das poucas aldeias que ainda não se tornou fantasma nesta abandonada região. Esta pequena aldeia foi privilegiada durante muito tempo por ajudar os caminhantes. Pois seus habitantes eram isentos do pagamento de impostos desde que mantivessem cravadas durante o inverno quinhentas estacas ao longo do Caminho, para assinalar ao andarilho o trajeto através das montanhas cobertas de neve.

Há sinais arqueológicos de que a região de Ponferrada era habitada desde a época pré-romana. O local havia sido um centro de mineração de ferro. Porém os primitivos aldeamentos haviam sido abandonados há muito tempo quando em 1185, Fernando II, rei de León, repovoou a vila e a entregou à Ordem dos Templários. Naquele tempo o local era ocupado apenas por uma secular floresta de carvalhos

Nesta mesma época, em fins do século XII, o bispo Osmundo, de Astorga, construiu sobre o rio Sil a pons ferrata ou puente ferrada, isto é, a "ponte de ferro", que deu nome à cidade e substituiu a antiga ponte de madeira. Na região de Ponferrada as cruzes que indicam a rota do peregrino são todas de ferro.

Os cavaleiros Templários e sua ordem militar foram banidos em 1312, porém a gigantesca fortaleza por eles construída permanece inalterada até hoje. É um monumento imponente e impressionante, que domina a parte alta da cidade. Suas muralhas com ameias, suas torres, a ponte levadiça, tudo recorda ao peregrino as antigas histórias dos cavaleiros andantes da Idade Média. Na verdade o castelo é própria imagem viva do modelo que imaginamos como corte do rei Arthur com sua távola redonda.

Em 1498 os reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, fundaram o famoso Hospital de la Reina para acolher os peregrinos que chegavam a esta cidade.

O Cebreiro
a 152 km de Santiago


O Cebreiro, no alto das montanhas que separam as províncias de León e Galícia, foi um dos primeiros refúgios a acolher os peregrinos que se dirigiam a Compostela. Seu templo é do século IX, e pode ser considerado "moderno", se comparado às palhoças de pedra e sapé, que são muito anteriores à Era Cristã. Este local é povoado desde 1500 a.C.

No ano 1072, o rei Alfonso VI, de León e Castela, entregou seu Hospital do Cebreiro aos cuidados dos monges da abadia de Saint Geraud d’Aurillac. O local esteve sob o controle dos beneditinos por oito séculos, até que estes o abandonaram em 1854.

A história do Santo Milagre do Cebreiro é uma das mais famosas do Caminho. No início do século XIV, um modesto camponês da aldeia de Baixamaior subiu as montanhas para assistir a missa no Cebreiro. A missa foi celebrada por um monge de pouca fé, que, apesar de ter sido um dia de fortes ventos e chuvas, despreza o sacrifício do camponês. O sacerdote, ao vê-lo chegar, murmurou "Que burrice! Fazer esta caminhada com este clima, só por causa de um pouco de pão e de vinho." Porém, sob o olhar admirado de todos os presentes, no momento da consagração, a hóstia transforma-se em carne, e o vinho em sangue. Não em sentido simbólico, mas de maneira real e concreta. Os peregrinos que assistiram o milagre com presteza incumbiram-se de divulgá-lo. O fato, séculos mais tarde, inspirou um dos trechos da ópera Parsifal de Wagner.

O cálice em que ocorreu o milagre é uma peça de arte românica do século XII, e encontra-se exposto na igreja do Cebreiro até hoje. Ao seu lado o peregrino pode ver o relicário que foi doado pelos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, quando fizeram sua peregrinação a Compostela em 1488.

Todo dia 9 de Setembro, por ocasião da festa do Santo Milagre, milhares de fiéis de toda a região reúnem-se no Cebreiro para as festividades religiosas.

Triacastela
a 130 km de Santiago


Seu nome, de origem latina, significa "três castelos". A cidade cresceu ao redor de um mosteiro fortificado, dedicado a São Pedro e São Paulo, construído no século IX, nas encostas do monte Seiro, pelo conde Gatón, de El Bierzo.

Triacastela ainda conserva intacto o antigo cárcere de peregrinos em cujas paredes podem ser vistas inscrições e desenhos de galos feitos pelos prisioneiros de origem francesa.

Durante a Idade Média os peregrinos que passavam por Triacastela levavam uma grande pedra calcária, mineral abundante nesta região, porém raro no resto da Galícia. Esta pedra era carregada até Castañeda, a cerca de quarenta quilômetros de Santiago, onde estavam situados os fornos de cal que forneciam material para a construção da Catedral de Compostela. Eram os chamados peregrinos petríferos.

Pouco além de Triacastela encontra-se a milenar Basílica de Samos, uma das mais famosas do Caminho. Foi fundada no século VI, quando a região era dominada pelos suevos, e seus monges seguiam as regras de São Fructuoso. No século IX aqui passou sua infância e adolescência o rei de Astúrias, Alfonso II, o Casto, e na época o mosteiro acolheu os monges fugidos da Andaluzia invadida pelos árabes. No ano 934 a importância da abadia foi renovada sob os monges beneditinos trazidos pelo rei Ordoño II, de León. Logo tornou-se um dos maiores centros culturais da Europa medieval, e estendia seu poder a centenas de vilas e aldeias.

O mosteiro incendiou-se em 1558, e novamente em 1951, e em ambas as ocasiões perderam-se manuscritos e documentos antigos de valor inestimável.

Após passar por Samos, chegando a Sarria, ali morreu o rei Alfonso IX, de León, quando ia fazendo sua peregrinação a Compostela em 1230.

Portomarín
a 89 km de Santiago

Nos tempos do Império Romano o local era denominado Pons Minei (Ponte do Minho) ou Portus Minei (Porto do Minho). Nas crônicas dos séculos IX e X, já assume o nome de Locum Portomarini. A antiga ponte que cruzava o rio Minho foi destruída por Doña Urraca, de León e Castela, em suas lutas contra o ex-marido Alfonso I, o Batalhador, rei de Aragão e Navarra. Pouco tempo depois, em 1120, a ponte foi reconstruída por Pedro, o Peregrino, sobre o qual nada se sabe. Os principais marcos históricos de Portomarín são a igreja de San Pedro, consagrada em 1182, e a igreja de San Juan, também do século XII, construída no velho estilo românico conhecido como igreja-fortaleza. Nos arredores da cidade está o mosteiro de Vilar de Donas, onde eram sepultados os Cavaleiros de Santiago. Na margem esquerda do rio erguia-se o antigo mosteiro de Santa Cruz de Loyo, dos cavaleiros templários, de cujos vinhedos se obtém o tradicional aguardente de Portomarín. No domingo de Páscoa era celebrado o "dia do aguardente", ocasião em que a bebida era destilada na praça central, até o anoitecer.

Em 1962 a cidade histórica foi inundada pelas águas represadas do rio Minho. Porém, antes que isto acontecesse, as igrejas de San Juan e de San Pedro, os palácios do Conde de la Maza (do século XVI) e dos Pimenteles (do século XVII), e a capela da Virgen de las Nieves, foram demolidos cuidadosamente, suas pedras numeradas uma a uma, e a seguir reconstruídos, em um trabalho de paciência infinita, pedra por pedra, onde hoje está situada a cidade nova, em um ponto mais alto da margem do rio. Quando as águas baixam ainda se vêem as casas da antiga cidade, os tocos das antigas vinhas e os restos da velha ponte secular.

Saindo de Portomarín, o peregrino chegará a Palas de Rei ou Palas del Rey, denominada Pallatium Regis pelos romanos, isto é, "palácio do Rei". Provavelmente seu nome é referência ao rei visigodo Witiza (701 - 709), que ali viveu há 1300 anos.

Santiago de Compostela

A chegada à catedral de Santiago se dá pela Avenida de los Concheiros, onde antigamente os concheiros, ou seja, os artesãos que fabricavam conchas de prata ou de latão, vendiam suas mercadorias aos peregrinos. O trajeto continua até a Puerta del Camino ou Porta Francigena, que tem este nome por causa dos peregrinos franceses, e chega ao Crucero de Bonaval, local em que um peregrino medieval, que iria ser enforcado por seus delitos, invocou Nossa Senhora suplicando que sua morte fosse rápida e sem sofrimentos. Imediatamente o peregrino caiu morto, escapando assim do enforcamento.

Chega-se finalmente à Puerta Santa, no fundo da Catedral, datada de 1611, e que só é aberta no Ano Santo. Esta é uma das sete portas menores da catedral, e era chamada antigamente de Puerta de San Paio, depois Puerta de los Perdones, e atualmente Puerta Santa. É a única que mantém sua originária função. Abre-se no dia 31 de Dezembro que antecede, e permanece aberta até o dia 31 de Dezembro que encerra o Ano Santo. Embora não seja necessário passar por ela para se obter a indulgência, este é um antigo costume que se mantém até hoje.

No altar maior da catedral o peregrino encontra, lado a lado, três imagens de São Tiago que ilustram as três facetas do culto ao apóstolo: Tiago, o Mestre, Tiago, o Peregrino e Tiago, o Cavaleiro.

Caso a Puerta Santa esteja fechada, entra-se pela frente, pelo Pórtico de la Gloria, verdadeira obra-prima da arte românica, esculpida pelo Maestro Matteo (1168 - 1188). Segundo uma tradição cujas origens perdem-se no tempo, o peregrino que chega a Santiago deve colocar a mão direita no pilar central do Pórtico da Glória para agradecer o sucesso da longa viagem. Este pilar representa esculpida a árvore genealógica de Cristo e é o símbolo da origem humana de Jesus. Sobre seu capitel há uma imagem de São Tiago e, em sua base, uma face esculpida, que acredita-se ser um "auto-retrato" do próprio Maestro Matteo. Tradicionalmente o peregrino deve aí encostar sua cabeça, para assim iluminar seus pensamentos.

Neste pilar, no local em que milhões de mãos peregrinas tocaram a coluna expressando sua fé, ao longo dos séculos formou-se a impressão de uma mão, em que se encaixam perfeitamente os dedos do peregrino. Estes infinitos andarilhos que com seus pés esculpiram o Caminho e com seu suor esculpiram a História de todo o norte da Espanha, com seus dedos e com a força de seu espírito até hoje continuam escavando a forma de uma mão na rocha deste pilar.

A Tradução da Compostella

O peregrino que chega a Santiago, ao completar sua caminhada, recebe seu certificado na Oficina de Peregrinos da Catedral. Este "diploma", conhecido como Compostella, é escrito tradicionalmente em latim.

Por este motivo muitos peregrinos guardam com carinho seu certificado, e apesar disto, ficam sem saber o que nele está escrito.

É esta sua tradução:

"O capítulo desta Venerável Igreja Apostólica e Metropolitana Compostelana, guardião do selo do Altar do Bem-aventurado Apóstolo Thiago, que a todos os Fiéis e Peregrinos vindos de todo o Orbe terrestre, por sentimento de devoção ou por motivo de promessa, à morada de Nosso Apóstolo Patrono e Protetor dos Espanhóis, São Thiago, fornece autêntico certificado de visitação, a todos e a cada um que vier examinar esta presente, faz saber que ....................... visitou devotamente este sacratíssimo Templo por motivo de fé. A ele confiro o presente documento como testemunho, munido do selo desta mesma Santa Igreja.

Data de Compostela, dia ... do mês de .... do ano do Senhor .... .

Secretário Capitular"

E no selo do documento está escrito:

"Selo do Capítulo de São Thiago de Compostella"

 

409 - Os suevos e vândalos invadiram a península Ibérica. Os suevos fundaram o reino da Galícia e os vândalos o da Vandaluzia, atual Andaluzia.
410 - Alarico, rei dos Visigodos saqueou Roma.
415 - Ataulfo, chefe visigodo, cunhado de Alarico, invadiu a Espanha.
711 - Os muçulmanos invadiram a Espanha.
O líder visigodo Pelayo venceu os mouros em Covadonga, iniciando a Reconquista (nas Astúrias)


Extraído do site:  www.geocities.com/Athens/Cyprus/3024/historia.htm

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