CAMINHO DE SANTIAGO: AS CIDADES DO CAMINHO FRANCÊS - 1

AS CIDADES DO CAMINHO FRANCÊS - 1


Um trabalho compilado pelo peregrino Tácio Renato Pizzi Caputo





01 - Saint Jean Pied Port 

La Rue D'Espagne, início do Caminho Francês

Saint Jean Pied de Port, é uma belíssima localidade francesa, no sopé dos Pirineus Atlânticos onde confluem três das grandes rotas jacobeas dentro do território francês: a que partia de Paris, a que vem de Le Puy e a que procede de Vezelay.
Esta localidade de grande tradição peregrina conserva uma cidadela fortificada no alto de uma colina, tendo sido construída no ano de 1628, e possui uma cidade antiga situada aos seus pés que merece ser visitada. Conta hoje com não mais que 2.000 habitantes.Tem como rua principal a rue D’Espagne onde está a maioria das casas comerciais. É também o ponto de partida para os peregrinos, que deixam a cidade pela passando pela Porta D’Espagne (um arco), e cruzando a ponte sobre o Rio Nive, e tomando uma estreita estradinha asfaltada identificada como “Chemim de Compostela” ou “Route de Napoleón”.
A Oficina dos Peregrinos fica na rua de La Citadelle nº 44. Lá o peregrino poderá carimbar a sua credencial e obter um pequeno mapa para não se perder (tem gente que se perde…) na travessia dos Perineus, mas fundalmentamente para obter com maior precisão a previsão do tempo para fazer a travessia. O albergue de peregrinos fica no nº 39 e o da Madame Debril no nº 27. Há opções de hospedagem para varios tipos de preços. Desde albergues até hotéis. Exceto os albergues, na França tudo funciona mediante reserva.
Muitos peregrinos pernoitam em SJPP, mas hoje há a opção de pernoitar em uma casa rural em Huntto (5,2 km. já caminhando na direção de Roncesvalles) ou no albergue em Orisson (8 km depois de SJPP na direção também de Roncesvalles). Ambos também somente se pernoita mediante reserva prévia. Ambas alternativas tem sido a opção de muitos brasileiros para atenuar o primeiro dia de caminhada que é muito duro (caso saiam de SJPP).


02 - Roncesvalles

Real Colegiatta de Roncesvalles

Roncesvalles (em basco = Orreaga) fica na comunidade autônoma da Navarra dentro do país basco. Possuía no censo de 2007 apenas 24 habitantes. Sua importância histórica está diretamente associada ao massacre das tropas de Carlos Magno no ano de 778 em emboscada atribuída aos bascos nos bosques por onde atualmente o peregrino caminha.
Contudo está longe de ser um local abandonado e decadente. É um dos locais mais vivos e mais luminosos do Caminho. Aqui, de uma maneira única e mágica, ocorre um sincretismo histórico e mitológico em que se mesclam a imortal tradição jacobea da Espanha, com o inesquecível ciclo carolíngio da França. A presença de Carlos Magno dá força e prestígio ao culto de Santiago, enquanto a presença do apóstolo engrandece e santifica o imperador dos francos.
Um pouco antes, fica Valcarlos, o vale onde Carlos Magno acampou enquanto seus guerreiros combatiam em Roncesvalles. Na igreja de Valcarlos encontra-se a rocha partida ao meio por Rolando com a sua espada Durandal, e na baixada do vale está o Bosque de las Lanzas, que nos traz a lenda das cinqüenta mil donzelas que deram a vitória ao imperador dos francos.
No alto, em Ibañeta, de onde se avista a Espanha a Oeste, a França a Leste, e o "mar Britânico" ao norte, encontra-se a antiga Cruz de Carlos Magno. Diz a lenda que o imperador, à frente de seu exército, abrindo caminho pelas florestas dos Pireneus, aí chegando, ajoelhou-se em direção à Galícia e rezou a Deus e a Santiago. Os peregrinos, seguindo a tradição também se ajoelham, rezam ao apóstolo, e cravam uma cruz, onde já há com certeza muitas centenas delas. Embora a batalha de Roncesvalles tenha sido travada no ano 778, trinta e cinco anos antes da redescoberta do sepulcro de São Tiago, naquela época já era forte o culto ao santo que morreu na Galícia.
A veracidade da história pode talvez ser posta em dúvida, porém o caráter sagrado destas rochas banhadas pelo sangue dos guerreiros, e o peso histórico do lugar, fazem com que ao longo dos séculos as lendas permaneçam vivas no coração do peregrino. Pois por este passo nas montanhas atravessaram os povos da Idade do Bronze, as migrações celtas, os legionários romanos, as tribos bascas, as hordas de vândalos, de suevos e visigodos, os guerreiros indo à luta da Reconquista, os reis exilados de Pamplona, a artilharia de Luís XIV, os refugiados da Guerra Civil, e os eternos peregrinos em busca de Santiago.
Em Roncesvalles tudo é História. Aqui morreram Rolando, Oliveros, o rei Marsílio e quarenta mil guerreiros, mouros e cristãos. E aqui foi fundada em 1132 a Real Colegiata de Nuestra Señora de Roncesvalles. Em 1209 foi erigida a igreja, por iniciativa de Sancho, o Forte, que nela foi sepultado. O chamado Silo de Carlos Magno, com sua antiga cripta que serviu como ossário de peregrinos, remonta ao século XII. Assim, a velha cruz de pedra, do século XIV, parece "moderna" para os padrões de Roncesvalles.
Imperdível, independente da crença de cada cada um, a missa dos peregrinos as 20 horas na igreja da Collegiatta. Missa em latim com canto gregoriano, e benção ao peregrinos da mesma forma como era feita no século XII.
Após a missa jantar em uma das duas tabernas que existem nos dois hostais, com reserva previa, já que no albergue não há possibilidade de fazer comida. O albergue, um dos maiores em quantidade de leitos do Caminho - cerca de 130 camas e outros 20 colchonetes pelo chão - fecha suas portas religiosamente as 22 horas.


03 - Burguete

Burguete (Auritz em basco) situa-se no "território mais perversamente selvagem dos Pirineus", de acordo com Ernest Hemingway. É o primeiro “povoado” para aquele peregrino que vem de Roncesvalles depois de caminhar uns 2,5 km rumo ao alto do Erro. O escritor passava suas férias aqui para descansar das festividades de San Fermin em Pamplona.
A origem do Auritz / Burguete remonta ao século XII, quando começou como "aldeia" do hospital em Roncesvalles. 

Rua principal de Burgete

Caso o peregrino resolva ficar por aqui deve aproveitar as trutas típicas com presunto ou qualquer das delícias oferecidas pela cozinha de Navarra. 
Auritz / Burguete preserva velhas tradições com as fogueiras de São João, presentes em toda Navarra, tem nesta cidade uma grande raiz, como a feira de alimentos em setembro, originalmente do século XIV. 


04 – Zubiri

Zubiri é a primeira localidade após o peregrino atravessar as subidas e descidas do Alto do Erro. Encontra-se a 20 km. de Pamplona e dentro do seu município fica a indústria de Magnesita da Navarra a qual o peregrino tem que atravessar. Contava em 2008 com 423 habitantes.
O nome do povoado está associado a Ponte de la Rabia (ponte da raiva) sobre o rio Arga, uma vez que em basco Zubiri significa “povo da ponte”. Tal ponte é de estilo românico do século XII, e segundo a lenda, ao passar baixo seus arcos, os animais infectados por doenças ficavam milagrosamente curados. 
Há também um fonte de nome “batueco” que segundo dizem tem propriedades curativas. 
Durante a idade média teve nas suas terras um monastério beneditino que dependeu de Leyre por uma doação efetuada em 1040 pelo rei Garcia de Nájera. 

Albergue de Zubiri

Aqui o peregrino encontra boa acomodação nos albergues existentes, e algumas facilidades de alimentação. 


05 - Larrasoaña

Puente de los Bandidos, em Larrasoaña

É um típico povoado jacobeu que chegou a contar com três hospitais de peregrinos e devido a sua importância teve assento na corte real. A disposição dos casarios é uma característica das aldeias por onde atravessa o Caminho de Santiago. Possui várias casas blasonadas que confirmam sua origem medieval. Tem como monumento marcante uma ponte gótica – ponte dos bandidos –, ainda sobre o rio Arga, local em que salteadores no passado aproveitavam para assaltar peregrinos incautos e desprotegidos.
O albergue fica dentro do próprio “ayuntamento” (prefeitura) e é um dos menores e mal aparelhados do Caminho. Tinha um simpático hospitaleiro no passado – Sr. Santiago Zubiri que foi também o alcaide do povoado, que atendia muito bem os brasileiros. Tem também na localidade o Café e Bar Larrasoaña de propriedade de Alfonso Sangalo, um típico navarrês (basco) figura controversa e lendária do Caminho, onde pode-se fazer uma boa refeição. 


06 - Trinidad de Arre 


Após atravessar o valle de Esteribar e atravessar a ponte medieval de seis arcos sobre o rio Ulzama está Trinidad de Arre e Villava onde há um albergue administrado pelos padres maristas e uma ermita românica do século XI. É quase uma extensão de Pamplona, primeira grande cidade do Caminho.
Quem já ficou neste albergue garante que é um dos melhores do Caminho. Não há bares nem restaurantes. 


07 - Pamplona

Pamplona - Corrida de Touros, no dia de San Firmín

A chegada em Pamplona se dá pelo “passeo de Magdalena” e sobre a ponte do mesmo nome sore a o rio Arga, velho conhecido dos peregrinos. A entrada na cidade antiga e passagem obrigatória dos peregrinos é pela Porta de Francia, uma ponte elevadiça construída em 1553. Neste local já havia um antiqüíssimo povoado quando os romanos aí construíram uma aldeia fortificada no ano 75 de nossa era. A cidade foi fundada durante uma campanha militar, por Pompeu, o rival de Júlio César, e denominada Pompeiopolis ou Pompaelo. Foi quase abandonada após as invasões mouras, e foi invadida pelas tropas de Carlos Magno em 778. No início da Idade Média, a povoação havia se dividido em três burgos, cercados por muralhas independentes: Navarreria, habitado pela população local, San Cernín e San Nicolás, ambos habitados por francos e outros imigrantes. Em 1423 o rei Carlos III, o Nobre, rei de Navarra, demoliu seus muros e unificou os três no interior de uma só grande muralha. Em 1512 Pamplona foi invadida e incorporada ao reino de Castela pelo rei Fernando II, o Católico.
A cidade foi cristianizada por San Cernín ou São Saturnino de Tolosa. Sua catedral, românica, do século XII, foi reconstruída no século XV no estilo gótico e domina o centro histórico da cidade. Pamplona foi transformada em capital do reino de Navarra no início do século XI pelo rei Sancho III, e é hoje a capital da província de Navarra, na região basca da Espanha. A cidade é denominada Iruña no idioma basco. 
Embora a cidade tenha sofrido grande influência do Caminho de Santiago, sua festividade mais importante e famosa nada tem a ver com o apóstolo. É a festa de San Fermín (o primeiro bispo de Pamplona), em que touros bravos (da raça Miúra ou Santa Matilde) são soltos nas ruas, e a população corre na frente dos animais tentando com grande habilidade escapar de seus perigosos chifres. As comemorações duram uma semana, de 6 a 14 de Julho, e são uma concorrida atração turística. A cidade tem uma fortificação (cidadela em forma de estrela) bem próximo já a saída da cidade.
Cidade favorita do escritor Ernst Hemingway que se hospedava no Hotel La Perla (na esquina da Praça del Castillo) e bebia seu café sob as marquise do Café Iruña na mesma praça, onde também apreciava um dos pratos típicos do país basco (gaspacho).
O albergue fica na saída da cidade, (mas outras opções) onde há a Universidade da Navarra uma das mais respeitadas da Espanha e que para quem não sabe é administrada pela Opus Dei. 
dispõe de ampla estrutura para o peregrino . Destaca-se a catedral de Pamplona (Santa maria la Real) , a Plaza del Castillo, e a Cidadela - uma magnífica fortificação medieval - que poderá ser vista ou atravessada pois é passagem para o peregrino que vai rumo a Cizur menor. 


8 - Cizur Menor

Fica a 5 km. depois de Pamplona. Vila profundamente influenciada pelo Caminho de Santiago, que a cruza de oeste a leste. Pertenceu à Ordem de San Juan de Malta até ser confiscada por Mendizábal, no século XIX.
Possui bons restaurantes e albergues estando em um deles como hospitaleira Maribel Roncal que trata com muito carinho os brasileiros, sendo assim uma boa opção para pernoitar ao invés de Pamplona. Tem duas igrejas do século XII com belas portadas românicas. 
Foi sede desde o final do século XII do Hospitalários de San Juan de Jerusalém na Navarra. Quando Cizur deixou de ser via de passagem de peregrinos o Hospital de N. S. Del Perdón se converteu em 1772 em hospital de enfermos. 

Igreja de San Miguel Arcanjo, em Cizur Menor

Possui duas igrejas: a de San Miguel Arcanjo que fazia parte de um monastério Sanjuanista que possui uma bela portada românica, e a igreja de San Emetério e San Celidônio também de estilo românico do século XII. 
Entre o casario destaca-se a casa de Echeverría, que sofreu modificações desde sua construção em 1777. 



9 – Zariquiegui

Está distante 11,5 km. de Pamplona e fica aos pés do Alto do Perdão. Como monumento histórico apresenta a igreja de Santo André, de estilo românico tardio do século XIII.
A vila possui poucas casas ao redor de uma única rua e já na trilha rumo a travessia ao Alto do Perdão encontra-se a fonte de Gambellacos, mais conhecida como Fonte Reniega, cuja lenda conta que o demônio neste mesmo lugar ofereceu água a um peregrino sedento desde que renegasse a Deus, a Virgem Maria e a Santiago. O peregrino já moribundo desprezou a água e rezou até que o demônio desapareceu e em seu lugar apareceu a fonte jorrado água cristalina que saciou a sua sede. Já há albergue na localidade. 

Alto del Perdón

Povoado somente de passagem rumo ao Alto do Perdão. Para ver somente a igreja de San Andrés de estilo românico tardio. Não dispõe de albergue e nem de um bar para um justo e merecido descanso. 


10 – Uterga

É o primeiro povoado na descida do Alto do perdão. Como curiosidade observe o formato das pedras na descida do Alto do Perdão. A grande maioria delas tem o formato de um coração. É uma das poucas cidades do Caminho que é num plano inclinado. Na entrada da cidade estamos a 640 metros e na saída estamos a 430 metros. Tem 170 habitantes. 



Nesta pequena vila destaca-se a igreja gótica de La Assunción do século XVI e a basílica de San Salvador. Ao lado dela no século XIX existia uma casa cujo dono hospedava os peregrinos pobres. 
Dispõe de um albergue muito confortável inaugurado em 2003, assim como um hostal (casa rural) recentemente inaugurado (Ana Calvo Cano 948-344661 e 948-344598). 




11 – Muruzabal

Quarenta minutos depois de Uterga está Muruzabal ( 2,7 km.) povoado que é atravessado pela Calle Esteban Pérez (na maioria das vezes nos pueblos a rua chama-se Calle Mayor), onde está a igreja de San Esteban. 

Cidade de Muruzabal, com a igreja de San Esteban ao fundo

Pode também ser visto o palácio barroco do mesmo nome que atualmente é uma bodega. Possui uma casa rural, e uma modesta tienda para suprimentos básicos. È um daqueles povoados que chamamos “de passagem”.


12 – Obanos 

Igreja de San Juan Bautista em Obanos

Oficialmente, na praça do Ayuntamento junto a igreja de São João Batista é que se unem os Caminhos que vem de Somport com o que vem de Roncesvalles, embora no mundo peregrino tal fato seja reconhecido como sendo em Puente de la Reina. 
A igreja foi construída em 1912, restaurada em 2007 mas trouxe de uma antiga construção gótica a portada do século XIV, a torre, e a pia batismal. Detalhe para uma talha românica da Virgem de Arnotegui. Na cidade há albergue.
De Obanos o peregrino pode pegar um desvio de cerca de 2 km. e ir conhecer a magnífica igreja de Eunate, retomando o Caminho por outro atalho de 2,3 km. em direção a Puente de la Reina. Ou seja, quem for a Euntate não vai se desviar tanto assim do Caminho. É a única construção religiosa do mundo que tem o seu claustro do lado de fora da construção. 

Igreja de Eunate

Eunate em basco significa 100 portas, e tem sua planta octogonal similar a da Cúpula da Rocha na Terra Santa. É do século XII sendo sua construção atribuída aos Templários por diversos estudiosos.
Obanos ascendeu à categoria de Vila em 1665, e no século XIII foi sede da Câmara que reuniu grande parte da nobreza contra os abusos da monarquia. 
Obanos tem a honra de ser o guardião de uma das mais antigas instituições democráticas, uma vez que as datas do início do século XIII. Sancho VII, o Forte foi o único que reconheceu e ampliou seus conhecimentos no campo da justiça, criando a atribuição do Ministério Público para julgamento de criminosos. 
Desde 1965 é representada nesta cidade “O mistério de Obanos” produto de uma antiga lenda do Caminho ao qual o príncipe Guillermo de Aquitânia num momento de fúria matou a sua irmã Felícia, e arrependido peregrinou até Santiago para pedir perdão, e regressando se estabeleceu na ermita da virgem de Arnotegui onde levou uma vida de eremita até o fim de seus dias, chegando a ser santificado. 
Obanos tem albergues, casa rural e possibilidade de compra de mantimentos. 


13 – Puente de la Reina 

A famosa Puente de la Reina

Com 2.300 habitantes, o que é muito em se tratando de povoados ao longo do Caminho, está a 672 km de Santiago. Chamada de Gares pelos bascos, é cercada de um significado simbólico e profundo para o peregrino, pois é na prática onde "todos os caminhos a Santiago tornam-se um só", onde finalmente se fundem o Caminho Navarrês e o Caminho Francês. A partir daqui a rota é uma só até Santiago.
Puente La Reina, antigamente denominada Puente Regina, foi o primeiro centro urbano a crescer sobre o eixo da peregrinação. A majestosa ponte, com seus seis arcos de pedra cruzando o rio Arga, foi construída por ordem de Doña Mayor, esposa do rei Sancho, el Mayor, no século XI. A ponte foi construída especialmente para que os peregrinos a caminho de Compostela atravessassem com segurança o largo rio. Tinha também função estratégica e militar. Na ponte havia três torres defensivas que caíram no século XIX.
O afluxo de viajantes era tão grande que foram estabelecidas normas limitando sua estadia na cidade. Do século XII ao século XV a cidade foi governada pela ordem dos Templários, que receberam do rei Garcia VI também o dever de acolher gratuitamente os peregrinos que viajassem "guiados pelo Amor a Deus". 
Ainda hoje o peregrino pode ouvir ao cair da noite as tradicionais quarenta badaladas, lembrança do velho costume medieval de avisar aos viajantes que as portas da cidade seriam fechadas ao escurecer. 
Tem 3 albergues e hostais a disposição dos peregrinos. Alguma facilidade para aquisição de suprimentos e para alimentação. 
A cidade teve um palácio real com suntuosos jardins onde o rei de Navarra Carlos III passou no século XV grande temporadas. 
Logo na entrada da cidade está a igreja del Crucifijo (românica tardia) que foi obra dos cavaleiros templários que ao seu lado instalaram um hospital de peregrinos que hoje é o albergue (padres reparadores). 
Na Calle Mayor está a igreja de Santiago do século XII com sua magnífica portada românica com influência mourisca, que repete a arquitetura da igreja de San Pedro de la Rua em Estella. Como detalhe, no interior da igreja há uma imagem policromada do século XIV de Santiago que é única no Caminho – conhecida como Santiago “El Beltza” (negro em basco). 
Outro monumento de importância artística é a igreja de San Pedro, de origem medieval, reformada no século XVII a XIX, que conserva em seu interior una talha da Virgen del Txori, antigamente venerada em um nicho da ponte românica que atravessa a cidade . Contam os habitantes que de tempos em tempos, um txori (passarinho em basco) limpava o rosto da Virgem com o bico e quando isso acontecia era motivos de festas no povoado.
Pouco antes de Puente la Reina passa-se pela vila de Obanos, onde até hoje celebra-se a memória de uma antiga lenda. A princesa Felícia da Aquitânia, após fazer a peregrinação a Compostela, no retorno da viagem, decide aqui retirar-se do mundo. Seu irmão, o príncipe Guilherme, tentou em vão fazê-la mudar de idéia. Não o conseguindo, em um acesso de cólera, descontrolou-se e a matou. Para conseguir o perdão por seu crime, ele próprio decide peregrinar a Compostela. E, no retorno, mudou de vida e tornou-se um santo. A lenda de São Guilherme e Santa Felícia é uma das mais célebres do Caminho. 


14 – Mañeru 


Está a 5,2 km. após a saída de Puente de la Reina, onde há um lindo cruzeiro dando boas-vindas ao peregrino. 
O povoado somente dispõe de um modesto restaurante e uma casa rural, mas o conjunto urbano de Maneru tem uma planta irregular e típica de uma aldeia medieval. É organizado em torno de grandes espaços abertos como a Praça de São Pedro, onde fica a paróquia, e em um nível inferior, a Praça dos Tribunais onde começam suas ruas estreitas ou encontram com a rua Mayor. Nas ruas e praças de podem ser vistas casas de três ou mais pavimentos, construídos em pedras de cantaria com grandes blocos até mesmo nas molduras das janelas. 
Onde ainda se conservam os restos de uma igreja gótica era uma antiga estalagem dos monges hospitalários. A atual igreja de São Pedro Apóstolo é do século XVIII. Foi uma vila da realeza. Tais terras foram herdadas pelo monastério de Iranzu e pela Ordem Militar do Hospital de S. João de Jerusalém. Esta Ordem prometeu em 1290 não se desfazer dos seus agricultores. Mas a igreja se beneficiava da transferência de parte do dízimo pelo Bispo de Pamplona em 1351. Maneru escapou do domínio da Ordem Militar em 1555 ao pagar 800 ducados para o convento do Crucifixo de Puente la Reina. 


15 – Cirauqui 

A cidade de Cirauqui no horizonte

Cirauqui (ninho de cobras) é uma cidade fortificada em pleno Caminho de Santiago. Fica estrategicamente situada no alto de uma colina e convida o peregrino a caminhar por suas formosas ruas relembrando seu passado medieval. Suas muralhas, portas, igrejas e ruas sinuosas onde podem ser vistas casas blasonadas constitui um atrativo que merece ser explorado pelo peregrino. 
Tem dois albergues: um público e outro privado. Possui dois restaurantes mas nenhuma tienda para suprimentos. 
Devido a sua privilegiada locallização Cirauqui foi eleita desde cedo como um lugar para assentamento de um povoado. Sua história está vinculada à romanização, ao Caminho de Santiago e ao condado de Lerin e às guerras carlistas. 
A ponte medieval de somente um arco (puente caído) é um dos monumentos do Caminho pois é um trecho recuperado e conservado de uma antiga calçada romana onde foram encontrados 
abundantes restos de cerâmica nos arredores da cidade. 
Dois km. adiante há também um fato histórico. A passagem pelas margens do rio Salado, onde o Codex Calixtino do século XII registrava: "…., por la zona oriental, discurre el río llamado Salado: cuidado con beber en él, ni tú ni tu caballo, pues es un río mortífero!" 
Merece uma visita a igreja de Santa Catalina de Alejandria do século XIII e a igreja de San Roman que fica na parte mais alta do pueblo que conserva a primitiva construção do século XIII – românica mas com influência árabe – com um bela portada românica. 


16 – Lorca 


Mais um povoado típico do Caminho, onde as casas foram edificadas ao longo da Calle Mayor. 
Possui infra-estrutura básica ao peregrino, com padaria, tiendas, restaurantes e dois albergues. Para os biriteiros de plantão. Um dos albergues é um simpático albergue-restaurante-adega. Facilmente identificado porque tem na porta três barris de vinho. Um de cada lado da porta e um em cima dela. 
Neste povoado morreu o rei García Ramírez em 115 e no limite de suas terras com Villatuerta Gascón de Murillo fundou um hospital em 1175.
Foi desde o século XIII, sede da Ordem de San Salvador, dependente de Santa María de Roncesvalles. A paróquia de estilo românico rural tardía (sec. XII), está dedicada a San Salvador.


17 – Villatuerta 

Puente sobre o rio Iranzú, em Villatuerta

Tem em torno de 910 habitantes o que confere ao povoado um status de cidade grande pelos padrões normais das aldeias existentes ao largo do Caminho Francês. 
O núcleo urbano está dividido em duas partes, uma na margem direita do Rio Iranzu entre a igreja de La Assunción e a deteriorada ermita de San Román, e o outro na margem esquerda do rio, na parte mais baixa. 
A entrada do povoado é pela ponte románica sobre o rio Iranzú. Sabe-se que desde o século X havia aqui um monastério dependente de Leire, sendo que restou dele somente a emita de San Román. 
Villatuerta é um nome de origem romana e quer dizer tortuosa, sinuosa. A prova inconteste da presença romana foram descobertas nos arredores do pueblo. Uma delas, de origem funerária contém o seguinte texto em latim: “Octavia Prudentis filia annorun XXX" (Octavia filha de Prudente de 30 anos). Uma outra inscrição representa um caçador e dois cervos. Ambas se encontram no museu da Navarra, em Pamplona e provam a origem romana da cidade há dois mil anos atrás. 
O campanário da igreja de La Asunción é do século siglo XIII, e o resto do templo é do século XIV. Trata-se de uma edificação de estilo românico tardio que impressiona pela majestosa torre. 
Tem boa estrutura para o peregrino talvez já pela proximidade de Estella, sendo uma boa opção para fim de etapa. Tem um excelente albergue privado, um hostal, quatro bares e uma tienda. 

18 – Estella - a 648 km de Santiago


Situada às margens do rio Ega, Estela foi fundada em 1090 por Sancho Ramírez, para favorecer o assentamento dos franceses que faziam a peregrinação. No século XIX foi a sede do movimento carlista na Espanha. É hoje a sede da sociedade "Los Amigos del Camino de Santiago", a mais importante e mais ativa das instituições ligadas ao Caminho.
Em 1270, um humilde peregrino grego faleceu em Estela, em consequência dos males advindos da extenuante caminhada. Foi sepultado, como era costume, no claustro da igreja de San Pedro de la Rúa (construída no século XII), onde havia na época um cemitério para peregrinos. 

Igreja de San Pdro de la Rúa, em Estella

No entanto, misteriosos clarões atraíram a atenção das pessoas sobre seu túmulo. Ao se reabrir o sepulcro, descobriu-se que o anônimo andarilho era o bispo de Patras, que levava uma sagrada relíquia do apóstolo André, como doação a Santiago. Desde então, Santo André é o patrono de Estela, e a oferenda do bispo está até hoje guardada em um grande relicário de prata, nesta mesma igreja. No primeiro domingo de Agosto, são animadamente celebradas as festividades em honra a Santo André, consideradas de importante interesse turístico.
Pouco depois de Estela, o peregrino atravessa a aldeia de Ayegui, e chega ao Monastério de Irache, de Nuestra Señora la Real, nas encostas do Montejurra, um dos mais antigos mosteiros da Navarra. Sua origem remonta provavelmente à época visigótica, sendo um pouco mais recentes seu Hospital de peregrinos, do século XI, e sua igreja, do século XII.
Próximo ao mosteiro, estão suas "bodegas", que reservam ao peregrino uma das mais fantásticas surpresas desta viagem tão cheia de surpresas: a fonte de vinho. Sim, uma autêntica e real fonte, com duas bicas, uma das quais jorra água, enquanto a outra jorra um bom vinho navarrês, vindo direto da vinícola de Irache. 


Acima da fonte uma grande saudação: 
Peregrino! 
se quieres llegar a Santiago 
com fuerza y vitalidad 
de este gran vino echa un trago 
y brinda por la Felicidad. 
Ao lado da fonte a suave advertência: 
Normas de uso 
A beber sin abusar 
te invitamos com agrado. 
Para poderlo llevar 
el vino a de ser comprado. 

Impossível não se lembrar neste momento do maná que caiu do céu alimentando os que buscavam a Terra Prometida. Tomamos um copo de vinho e, revitalizados, continuamos a caminhada, rumo a Los Arcos.


19 - Azqueta 

Saindo de Estella o primeiro povoado que surge é Ayegui que no século XI aparece documentado como Aiegui, Agegi y Alhegi. Foi lugar do senhorio eclesiástico na idade média. Em 1069 por doação de Sancho IV passou formar parte da Abadía de Irache. Em 1845 passou a constituir município próprio. Hoje não passa de um bairro de Estella. 
Aos pés de Montejurra se ergue o monastério de Irache que precede da palavra basca “Iratze” que significa “helecho” (samambaia), que devia ser uma planta abundante no local onde no século XI. Os beneditinos iniciaram a construção do atual monastério construído sobre outro anterior do século VIII. No conjunto há edificações medievais renascentistas e barrocas. Atualmente conserva a igreja beneditina (séc. XII), o claustro plateresco, a torre de estilo herreriano e outras dependências construídas na época que abrigou uma universidade (1569-1824). 


Bem próxima ao monastério e na margem do Caminho há uma fonte que jorra vinho e água para deleite dos peregrinos. 

Pablito, de Azqueta

A seguir vem Azqueta uma diminuta aldeia que nada oferece ao peregrino a não ser um uma pequena conversa com Pablito, que vive na primeira casa do povoado e é um grande amigo dos peregrinos. É comum ele presentear aos peregrinos com um cajado artesanalmente preparado por ele com galhos de avelaneira. Em função disso é um povoado “de passagem”, sem albergue sem bares, e sem tiendas. 
De interessante para ser visto, somente a igreja de San Pablo de origem medieval (gótica tardia) mas restaurada no séc. XVI. 
O povoado foi incorporado a coroa em 1494 junto com os povoados de Labeaga, Villamayor de Monjardín e Urbiola. Perto há a fonte de La Peña, a 12 minutos fora do Caminho, que possuía águas medicinais, segundo já se falava em 1850. 


20 – Viilamayor de Monjardin 

O famoso Castelo de Monjardin

Monjardin em cujos pés se abriga Villamayor está coroado pelo Castelo de San Esteban, que era uma fortaleza do reino de Deyo-Pamplona no século XII/XIII. 
O povoado possui a igreja de San Andrés com uma majestosa torre barroca. Entre as jóias do templo destaca-se uma cruz românica de madeira coberta de prata do século XII que é a única na Navarra.
Muito próxima da entrada da aldeia bem ao lado do próprio Caminho há a fonte dos mouros, uma construção gótica do século XIII que sacia a sede dos peregrinos.
O castelo de Monjardín de Esteban de Deyo, de origem romana, desempenhou um importante papel, tanto na lenda que é apresentada por Carlos Magno conquistando-o, como no momento que foi tomado dos mouros por Sancho Garcés I (905-925). Seus restos se situam no lugar mais alto da colina (895 metros de altitude) com uma visão de 360 graus e foi construído no século IX e reconstruído no século XIV. 
Na localidade há dois albergues e dois restaurantes. 


21 – Los Arcos 

Basílica de Santa Maria em Los Arcos

Los Arcos ainda conserva traços de ser uma vila medieval, mas foi erguida sobre outra de origem romana denominada de Curnonium. Surgiu numa encruzilhada de Caminhos e por sua condição de localidade fronteiriça entre Castilla e Navarra pode gozar dos privilégios de ambos os reinos. Possui hoje cerca de 1.300 habitantes, tendo crescido obviamente por conta do Caminho de Santiago. 
Chegou a contar com três hospitais para peregrinos: Santa María de Roitegui, Santa Brígida e San Lázaro, sendo que este último acolheu numerosos peregrinos enfermos, sendo sua maioria leprosos. Esta época coincidiu com a construção da Basílica de Santa María. 
No testamento do rei Teobaldo II, ao final do século XII, é mencionado um hospital de peregrinos que ele mesmo sustentava. Atualmente somente existe o de Santa Brígida, do século XV. 
O edifício que mais se sobressai no povoado é a magnífica igreja Santa María com sua torre renascentista do século XVI inaugurada pelo rei Felipe II. De sua muralha medieval, unicamente se conserva o chamado chamado Portal del Estanco e o Portal de Castilla, sendo por este último por onde saiam os peregrinos ao retomar o Caminho.
Passeando pela vila poderá ser apreciado o portal de Santa Maria. No passado era uma das portas de acesso a Los Arcos. É um arco de meio ponto, e seu conjunto possui três partes como se fosse um retábulo. O painel central está decorado com motivos heráldicos com um frontal em forma de triângulo. 
É uma cidade que oferece bons serviços ao peregrino com hostais, albergues, restaurantes e tiendas. 


22 - Torres del Rio 

Cidade de Torres del Rio, com sua famosa igreja ao fundo

Em Torres del Río nos encontramos com uma das jóias arquitetônicas do Caminho de Santiago – a igreja octogonal del Santo Sepulcro - edifício românico com características funerárias evidentes. Cabe destacar a rica iconografía de seus capitéis. O tímpano da entrada está representado por una cruz patriarcal, símbolo da Ordem Militar del Santo Sepulcro. Alguns autores atestam que a igreja é de origem templária. A cúpula com uma complexa rede e enervaduras em forma de uma estrela de oito pontas denota uma forte influência árabe.
Não menos notável, embora bem mais moderna há a paroquial gótica-renacentista consagrada a San Andrés. De pequenas dimensões foi construída no século XVI tendo uma planta de cruz latina com três naves, e cabeceira octogonal.
Nas imediações do povoado existem vestígios de uma provável exploração agrícola romana. Teve um monastério que Jimeno Galíndez doou a Irache.
Na localidade há serviços básicos ao peregrino como albergue, hostal e um bar-restaurante. 


23 – Viana 

Pouco tempo após sair de Los Arcos, o peregrino já pode avistar Viana. Não por estar próxima, como pode parecer, porém por situar-se sobre uma alta colina que domina toda a região. Na verdade o peregrino deve enfrentar uma longa caminhada de algumas horas, por locais totalmente desertos e sem recursos. E, ao chegar a Viana, ficará na dúvida se compensa a penosa subida até a cidade, ou se é melhor continuar caminhando diretamente até sair da Navarra e chegar à cidade de Logroño, já na província de La Rioja. Na verdade Viana tem pouco a oferecer. Há restaurantes com boa comida, mas o albergue é (ou era) muito precário (é o único do Caminho que tem triliches) e o único ponto de interesse é a majestosa catedral gótica de Santa Maria, do século XIII. 
Viana foi fundada em 1219 por Sancho, o Forte, rei de Navarra, como baluarte na fronteira com o reino de Castela. Tornou-se tão importante que, no século XV, os herdeiros do trono de Navarra recebiam o título de Príncipe de Viana. 
A quem aprecia marco histórico, é interessante saber que nesta igreja está sepultado César Bórgia, uma das figuras políticas mais importantes e influentes da Renascença italiana. César nasceu em 1475, sendo irmão de Lucrécia Bórgia (a envenenadora), e filho do cardeal Rodrigo Bórgia, que mais tarde, em 1492, tornou-se o papa Alexandre VI. Sendo um militar competente, César ajudou seu pai a recuperar o enfraquecido poder dos Estados Papais na Itália e enfrentou as invasões francesas em território italiano em fins do século XV. Sua ligação com a Espanha provém do fato de ter se casado com Charlotte d’Albret, irmã do rei de Navarra. Quando seu pai, o papa, morreu em 1502, César foi preso e levado à Espanha, onde passou a servir no exército real. Morreu em batalha nos arredores de Viana, em 1507, combatendo os rebeldes que lutavam contra seu cunhado, o rei de Navarra. 
César Bórgia foi o modelo que inspirou Maquiavel a escrever "O Príncipe", e assim foi a origem da palavra "maquiavélico". Talvez por isso, seu túmulo hoje vazio (pois o corpo desapareceu) pareça tão perdido e deslocado em meio de um Caminho onde reina a paz e não as intrigas políticas.
Viana pode ser considerada uma cidade do Caminho, já que possui cerca de 3.600 habitantes, estando muito próxima de Logroño (9 km.). Recebeu o título de cidade em 1630 e possui o título de “muy noble e leal ciudad de Viana”. Foi uma importante cidade do antigo principado do reino da Navarra e conserva até hoje parte do conjunto amuralhado do século XIII e numerosas casas com brasões que é símbolo da burguesia, e importantes monumentos históricos. Foi fundada por Sancho VII para proteger o sul da Navarra contra invasões.
Tem somente um albergue, que fica ao lado das ruínas de um antigo cemitério, mas dispõe de alguns hostais e vários restaurantes e “tiendas” para pequenas compras de mantimentos. 
Como curiosidade a cidade tem quase uma semana de festas que começam no dia 22 a 24 de julho em homenagem a Santa Maria Magdalena emendando com o dia 25 de julho, dia de Santiago. 
Como monumentos históricos que merecem uma visita temos o Balcón de Toros cujos construtores foram os mesmos da Casa Consistorial de forte influência da arquitetura francesa. O balcão em si não existe mais, restando apenas o casario de formas austeras.O Hospital civil de. N. S. de Gracia é datado de 1487 mas falta-lhe unidade de estilo, prevalecendo o barroco. 

Igreja de San Pedro, em Viana

A igreja de San Pedro é o templo mais antigo da cidade. Seu aspecto denota sua primitiva função de fortaleza. Suas constantes ampliações a descaracterizaram mas ainda conserva trações da influência ciscertense especialmente na cabeceira da igreja. 
Já a igreja de Santa Maria é um edifício gótico cuja construção se iniciou depois da fundação de Viana por Sancho VII – O Forte, no século XIII e concluída no século XIV, sendo depois restaurada. 
A Casa Consistorial é um grande edifício de forma prismática onde se destaca as conservadas pedras que sustentam a construção. Transmite uma forte sensação de horizontalidade. Tem capitéis toscanos e belos balcões. 


24 - Logroño 

Logroño, com quase 146.000 habitantes (metade de toda a população da província de La Rioja) é um grande centro urbano o que a torna uma das mais populosas cidades do Caminho, às margens do rio Ebro. Aqui eram impressas as Indulgências que eram fornecidas aos caminhantes que chegavam a Compostela. Está a 600 km. de Santiago. 
Entra-se em Logroño pela antiga ponte de pedra construída no século XI, por ordem de Alfonso VI, rei de León e Castela, e posteriormente mantida e reformada por Santo Domingo (de la Calzada) e San Juan (de Ortega). 
Era tão importante estrategicamente que chegou a ter 12 arcos e 3 torres defensivas. As origens da cidade se perdem no tempo, mas é certo que foi recuperada das hostes muçulmanas no século X. Pouco antes da ponte, o peregrino é invariavelmente surpreendido por duas senhoras que ali residem e permanecem de prontidão durante todo o dia esperando os andarilhos com doces e frutas. Oferecem então um enorme livro de atas para que o peregrino ali registre suas impressões, comentários e emoções. Dentro de casa já há uma verdadeira "enciclopédia", com numerosos livros onde estão carinhosamente arquivados os registros de muitos anos de peregrinações. 

Catedral de Logroño

Nos arredores de Logroño, a apenas dezessete quilômetros da cidade, no sopé de uma colina sobre a qual ainda se avistam as ruínas de um antigo castelo, situa-se a pequena aldeia de Clavijo. Embora, situada fora da rota de peregrinação, foi ali que ocorreu um dos fatos mais importantes da história do Caminho. No ano 844, o rei Ramiro I, de León, derrotou o califa mouro Abdar-Rahman II, na famosa batalha de Clavijo.

Diz a lenda que esta vitória só foi possível porque São Tiago, em pessoa, ajudou as tropas cristãs, montado em um cavalo branco. Desde então nasceu o mito de Santiago Matamoros ("mata mouros") que rapidamente espalhou-se pela Europa. Todo dia 23 de Maio, aniversário da batalha, realiza-se em Clavijo uma pitoresca e folclórica romaria presidida pelas imagens de São Tiago e da virgem de Ten Tu Día. No domingo seguinte a esta festa, celebra-se a missa ao lado do castelo, acompanhada por uma representação alegórica da lenda das cem donzelas, com dançarinas vindas da vizinha aldeia de Albelda. 
Destaque (para os que dispõem de tempo e fígado) para a já lendária “trilha dos elefantes” (la senda de los elefantes) nas ruas Laurel e San Juan – um conjunto de bares onde cada um oferece um tipo de “tapa” (pinchos) para ser acompanhado de umas “cañas” ou umas “copas” de um bom vinho La Rioja. 
Entre as virtudes da cidade está a da cultura do vinho e a gastronomia com boa oferta de albergues, hostais, hotéis e restaurantes. 


25 – Navarrete 


Simpática cidade depois de 11 km. de Logroño. Conta com 2.100 habitantes e uma estrutura razoável para atender ao peregrino. Foi declarada como sendo um conjunto histórico-artístico pelo governo espanhol. 
Tem albergues, hostais, restaurantes e comércio em geral, e curiosamente até uma pensão com o nome de ”Carioca” e um bar de nome “Los Arcos” que já se chamou “Copacabana” (ao lado do albergue). 
Na entrada da cidade junto ao caminho de terra que leva até Navarrete recentes escavações resgatou os restos do antigo hospital de peregrinos de San Juan de Acre que foi construído ao final do século XII por María Ramírez. Suas janelas e sua bonita portada foram transladadas pedra-a- pedra no final do século passado e hoje estão no cemitério da localidade. 
A igreja de La Assunción de Navarrete é uma construção em pedra com três naves. Sua construção é “moderna” – de 1553 a cargo de Juan de Vallejo e Hernando de Mimenza e sua conclusão foi em 1645. 
Navarrete é um local famoso por suas numerosas batalhas entre castelhanos e navarros, assim como por seus numerosos artesãos em cerâmica. 


26 – Nájera 

Como lembrança do domínio muçulmano, Nájera conserva seu nome que, em árabe, significa "lugar entre rochas” que foi conquistada em 923 conjuntamente por leoneses e navarros. Antiga capital da província de La Rioja, Nájera já foi também sede da corte de Navarra, entre os anos de 918 e 1076. No século XI, por iniciativa de Sancho III, o Maior, rei de Navarra. Nájera foi incorporada no trajeto do Caminho de Santiago, que antes passava ao largo da cidade. Porém a partir de 1076, seu território foi incorporado ao reino de Castela pelo rei Alfonso VI. Com seus quase 8 mil habitantes está a 573 km de Santiago e oferece todos os serviços ao peregrino com bom comércio. Conta com dois bons albergues, alguns hostais e bons restaurantes. 
Nájera está situada na Rioja Alta e o rio Najerilla corta a cidade em duas partes: a esquerda o casco antigo com o bairro de Adentro com seus monumentos históricos, e a direita o bairro de Afuera com modernas construções e sob expansão industrial e estão se comunicando por duas pontes: uma peatonal e pela ponte de pedra que substituiu a que foi construída por Ortega. 
Em meados do século XI, Don García de Nájera, governador da região durante o reinado de Sancho III, saiu certo dia para caçar com seu falcão nos campos dos arredores. A ave, perseguindo uma pomba, penetrou então em uma gruta. Don García, indo atrás do falcão, ali encontrou uma imagem de Nossa Senhora com uma coroa de lírios a seus pés, iluminada por uma lâmpada na qual pousara a pomba. 

Mosteiro de Santa Maria da Real

Inspirado por este fato simbólico, construiu ali uma igreja, que é o Mosteiro de Santa María da Real, e fundou a Ordem de la Terraza, a mais antiga ordem de cavalaria da Espanha. Tanto a igreja, como a imagem de Santa María e a lâmpada bizantina, foram conservadas e podem até hoje ser vistas pelo peregrino. O mosteiro foi entregue por Alfonso VI, de Castela, aos monges beneditinos. Em seu Panteão Real estão sepultados os reis, rainhas e príncipes que ali viveram do século X ao século XII. Saindo de Nájera, o caminhante atravessa a Puente de los Peregrinos, sobre o rio Najerilla, construída pelo famoso San Juan de Ortega. 
Antes de cruzar o rio o peregrino passava pelo bairro de San Fernando, onde havia o hospital de La Cadena que antes foi o leprosário de San Lázaro. Do outro lado da ponte foi famosos o hospital da Abadia, também chamado de Imperador pelo apoio que prestou o rei Alfonso VII. 
Há ainda para ver o Monastério de Santa Elena (franciscano) – do século XVI que foi fundado por Aldonza Manrique, filha dos Duques de Nájera, de visitar. Pode-se visitar ao templo que possui um retábulo magnífico. 
Outro grande monumento é a igreja e o monastério de Santa Maria la Real construído por Don Garcia em 1052 grande rei de Nájera, filho de Sancho “El Mayor”. 
E para os que querem sair um pouco do Caminho devem conhecer San Milán de La Cogolla e Suso onde são famosos os manuscritos do século VI ao X, destacando-se por sua importância e beleza o "Códice Emilianense", pertencente ao século X. 


27 – Azofra 


Está situada sobre una pequena colina no centro do vale de Cañas. É uma típica vila riojana de origem árabe. Tem como atividade econômica o cultivo de uvas, cereais, beterraba e batatas.
O Caminho de Santiago marca de forma indelével as características de Azofra. A Calle Mayor coincide com o próprio Caminho, e leva o peregrino diretamente a sua igreja paroquial, onde até em passado recente em suas paredes e pilares ficava o modesto e espartano albergue de peregrinos administrado por uma senhora muito simpática – Maria Tobia. 
Sua tradicional hospitalidade vem de longe. Já no século XII em 1168, Dona Izabel fundou em Azofra um hospital de peregrinos, cuja igreja estava dedicada a San Pedro e dispunha de um cemitério para peregrinos que morriam no Caminho. 
A igreja do povoado de um pouco mais de 300 habitantes é dedicada a Nuestra Señora de los Ángeles e foi edificada entre os séculos. XVII-XVIII. Em seu altar maior composto de um retábulo de três partes. No primeiro está San José, San Roque e María Magdalena ao centro, como padroeira da vila. Na parte Na parte central: San Pedro, San Pablo, e Nuestra Señora de los Ángeles. E no terceiro está Santiago Peregrino, San Buenaventura e San Antonio de Pádua. 
Cidade hospitaleira com poucos serviços ao peregrino. Oferece o básico. Albergue (agora mais moderno), hostal e um modesto restaurante. 


28 – Santo Domingo de La Calzada 

Domingo nasceu no ano 1019, na pequena cidade de Viloria, na província de Burgos, a duas horas de caminhada da cidade que hoje leva seu nome. Levou uma vida de eremita, totalmente dedicada à manutenção e construção de pontes, e à abertura de veredas e novos trechos do Caminho, por toda esta região. Domingo, que posteriormente tornou-se Santo Domingo de la Calzada, teve como um de seus grandes colaboradores, Juan, que posteriormente tornou-se San Juan de Ortega. Também o rei Alfonso VI, de León e Castela, deu-lhe toda a ajuda e colaboração nesta sagrada missão. Santo Domingo viveu noventa anos, e no local em que morreu, foi erigida uma igreja, mais tarde transformada em catedral da cidade que floresceu a seu redor.
Duzentos anos mais tarde, no fim do século XIII, uma família de peregrinos, vindo da Alemanha, chegou a Santo Domingo de la Calzada. A filha do estalajadeiro encantou-se com o filho do casal, Hugonell, então com dezoito anos. Ele, porém, recusou o amor por ela oferecido. Resolvida a vingar-se da desfeita, a donzela escondeu um cálice de prata na mochila do jovem peregrino, e o acusou pelo roubo. O infeliz viajante foi então preso, condenado e enforcado. 


Algum tempo após o enforcamento, os pais do jovem receberam uma mensagem divina dando-lhes a convicção de que o filho estava vivo. Procuraram então o juiz, pedindo que perdoasse o rapaz, e os autorizasse a retirar o corpo ainda vivo que continuava pendurado na corda. O juiz, com sarcasmo, interrompeu seu almoço, e respondeu que era tão certo estar vivo o enforcado como aquela galinha que ele estava prestes a comer. Diz a tradição que a galinha levantou-se imediatamente do prato, cantou, e fugiu ante o olhar estarrecido do incrédulo juiz.

Desde então, há mais de setecentos anos, há uma enorme gaiola sobre o altar da catedral de Santo Domingo, onde são mantidos uma galinha e um galo brancos, como símbolos vivos do milagre ocorrido.
É indescritível e a experiência de estar sentado solitário no início da manhã, em um banco da igreja ainda deserta, meditando sobre o caminho percorrido e o longo caminho ainda percorrer, e ouvir subitamente o silêncio ser rompido pelo sonoro cantar do galo, ecoando pelas impassíveis paredes de pedra da velha catedral. Talvez o assombro do peregrino seja então tão grande quanto o do juiz que viu seu almoço escapar e dar origem ao tradicional refrão: 
"Santo Domingo de la Calzada, donde cantó la gallina después de asada". 
Santo Domingo de la Calzada está distante 549 km de Santiago e se levanta sobre uma planície as margens do rio Oja aos pés dos picos da Sierra de La Demanda. O nome da cidade ao contrário do que muitos pensam se deve ao seu fundador – Domingo Garcia, que construiu uma ponte, um hospital e uma albergue de peregrinos para facilitar a peregrinação pelo Caminho de Santiago na passagem pela localidade. 
Tem 6.200 habitantes e um fluxo muito grande de turismo face ao “milagre da galinha”. Conta com dois bons albergues, hostais, hotéis de categoria (paradores turísticos) e alguns bons restaurantes. 
Há muito para ser visto em Santo Domingo. O Monastério de N.Sra. de La Anunciación habitado por monjas cistercenses, o Convento de São Francisco, os restos da muralha de fortificação das quais restam ainda alguns torreões, a catedral de Santo Domingo que começou a ser erguida em 1158, a Casa Gótica onde morreu Enrique II em 1379, o museu da cidade, e o monumento à Santiago feito em pedra que mostra o santo como peregrino. 


29 – Grañon 

Os que querem fugir da badalação de Santo Domingo podem caminhar em torno de uma hora e repousar em Grañon, pequeno e simpático povoado que surgiu em uma colina (cerro Maribel), onde teve um castelo desde o século X, dois monastérios e dois hospitais para acolher peregrinos. Um dos albergues – da Ordem de San Juan Baptista ocupa atualmente aquele que foi um destes hospitais, que acolhe os peregrinos de forma peregrina bastante singular. Oferece janta comunitária e café da manhã preparados pelos hospitaleiros e a noite após a missa há uma benção aos peregrinos no coro da igreja. A vila foi fundada por Alfonso III neste mesmo século X. 

"La cruz de los Valientes"

Um pouco antes de chegar ao povoado o peregrino encontra ao lado do próprio Caminho uma grande cruz de madeira - La cruz de los Valientes – em memória de uma batalha por terras entre Granon e Santo Domingo, vencida por Granon, onde não faltam testemunhos peregrinos em forma de bilhetes e pedras empilhadas. 
A igreja de San Juan, (onde está o albergue) foi construída no século XIV, e possui um belo retábulo construído entre 1545 e 1556, por Natuera Borgoñón y Bernal Forment. 
Há no povoado um outro albergue, uma casa rural, e mercadinho para pequenas compras. 


30 – Redecilla Del Camino 

Redecilla del Camino é a primeira cidade da comunidade autônoma de Castilla e León e a primeira da província de Burgos. Povoado típico do Caminho, com uma só rua – Calle Mayor onde poderão ser apreciados um pequeno palacete com dois brasões e a igreja de Santa Maria (paróquia de N. S. de La Calle), parada obrigatória dos peregrinos.
Possui um albergue e um bar que também vende suprimentos primários para atender aos peregrinos. 
Segundo documentos a existência de Redecilla vem desde o ano 968, Seu desenvolvimento e história está muito vinculado ao Caminho de Santiago. Seu traçado urbanístico é uma característica do próprio Caminho pois a única rua está no exato sentido leste – oeste. 


O atual albergue é herdeiro do antigo hospital de San Lázaro. 
A igreja guarda uma relíquia e uma joia da arquitetura do Caminho – a pia batismal românica do século XII. Uma grande “copa” sustentada por oito colunas com detalhes em alto relevo. Documentos do arquivo paroquial revelam uma curiosa noticia de um peregrino Francês do século XVI chamado Jean que ali morreu. Para custear seu enterro suas roupas foram leiloadas, mas não apareceu nenhum pretendente tendo sido seu corpo enterrado as expensas do próprio município ao custo de 400 “maravedies”. 


31 – Viloria de la Rioja

O pequeno povoado fica a 16 km. de Santo Domingo de la Calzada e não aparece documentado até o ano de 1028, embora sua existência seja anterior a esta data. Historicamente nasce ao final do século IX. Reinava Alfonso III e estas terras da antiga província romana de Tarragona tinha um valor político-militar muito forte pelas pressões que exerciam sobre elas os árabes, navarros e castellanos. O conde Diego Rodriguez, fundador de Burgos em 884, recuperou Oca, sede episcopal e todo o território oeste da atual Sierra de la Demanda e as fontes do Tirón e Oja, estabelecendo um novo campo militar cujos bastiões eram Pancorbo, Cellorigo, Cerezo e Ibrillos. A ação militar foi acompanhada de uma colonização abundante fundando-se então a maioria do povoados que hoje existem como Viloria, e outros que não existem mais como Olmillos. 
Viloria conta com não mais de 100 habitantes, mas neste povoado nasceu em 12/05/1019 Santo Domingo de la Calzada tendo sido batizado na pia batismal que ainda hoje se conserva na igreja. A casa onde ele nasceu, não existe mais. 
A Santo Domingo de la Calzada se deve a reconstrução da calçada entre Nájera e Redecilla del Camino, que acabou por desviar o Caminho que era mais ao sul , fazendo com que o mesmo suba às mesetas pelos Montes de Oca, onde atuou seu discípulo San Juan de Ortega. 
Para ver neste pequeno povoado há a igreja de Virgen de la Assunción. Não tem estilo definido (aparentemente pela sua arquitetura é (ou era) gótica renascentista e vem do final do século XVI, embora recentemente tenha sido reformada. Sua planta apresenta uma nave retangular com dois quadrados e com uma cabeceira também quadrada, destacando-se a pia batismal. Um pequeno mosaico feito de azulejos comemora o nascimento de Santo Domingo neste pueblo. 


Todos os serviços básicos que o peregrinos precisarem podem recorrer ao Refúgio de peregrinos Acácio & Orietta, que dispõe de café, internet, banheiros, etc. além é claro de um pernoite em ambiente acolhedor com um janta comunitária. 


32 – Villamayor del Rio 


O que se destaca no povoado de 60 habitantes é que na margem da estrada há o hostal/restaurante El León que é famoso pelo seu "jamón".
O povoado é conhecido com “pueblo de las três mentiras”, já que não é uma vila, nem é maior, e muito menos tem um rio. 
No passado havia no local um hospital de peregrinos. Hoje além do hostal/bar/restaurante há um albergue que fica a menos de 100 metros fora do Caminho, em pleno campo. 
Os povoados anteriores Castildelgado e Viloria de La Rioja são similares, com poucos serviços e habitantes. Viloria foi o povoado onde Santo Domingo nasceu, mas a casa dele está completamente destruída. Há uma igreja em Viloria (San Andrés – gótica) onde dizem que ele foi batizado e um albergue. 


33 – Belorado 

A calle Mayor é parte da rota jacobéia em sua passagem por Belorado. É uma das cidades do Caminho com melhor infra-estrutura para acolher com dignidade ao peregrino. Destaque para sua Plaza Mayor de aspecto tipicamente castelhano, um espaço agradável com marquises e terraços. As igrejas de San Pedro (s.XVII) e Santa María (s.XVI), a ermita de Nuestra Señora de Belén, único vestígio do antigo Hospital de Peregrinos, o convento de las monjas Clarisas (s.XVI), e as Cuevas de San Caprasio, San Valentín y Santa Pía, assim como a ponte "El Canto" não devem passar despercebidas pelo peregrino. 
Com relação ao paladar seus guisados de cordeiro, javali e os derivados de porco são alguns dos pratos típicos da gastronomia desta zona conhecida como “Riojilla”. 
Possui cinco albergues sendo deles o paroquial, quatro hostais/pensões, três bons restaurantes. Dispõe ainda de várias tiendas e um bom supermercado, duas farmácias e bom posto de saúde e até mesmo um centro de Promoção Jacobéia que oferece informações valiosas do traçado do Caminho de Santiago sobre as 69 localidades que o peregrino percorre na comunidade de Castilla e Leon, e também sobre os principais monumentos da região. 

Belorado, uma das ruas da cidade

A origem de Belorado segundo os estudiosos é Celta como demonstra a arqueologia e epigrafia), embora se configure como na idade média sendo fronteira entre Castilla e Navarra. Era a passagem natural do Valle do Ebro para as Mesetas e para maior controle foi construído no começo da Reconquista, um castelo sobre um monte a cujos pés se mudou a população que originalmente morava do outro lado do rio na época romana. As ruas do casco antigo, estreitas e tortuosas, com típicos passadiços denotam a numerosa população que habitou dentro de suas muralhas. Foi praça forte do lendário El Cid – El Campeador, como dote de Fernando (primeiro rei castelhano), ao casar-se com Dona Jimena. Atualmente do castelo restou apenas uma muralha de onde se tem uma bela visão panorâmica.
Suas magníficas igrejas de Santa María e San Pedro, construídas nos séculos XVI e XVII, os hospitais de Nuestra Señora de Belén, de San Lázaro e de la Misericórdia; assim como os conventos de San Francisco e de Nuestra Señora de la Bretonera, dão o exato testemunho da importância da cidade.
Na saída da cidade a ponte medieval de El Canto sobre o rio Tirón que verte suas águas ao Ebro foi obra de Santo Domingo e melhorada por San Juan de Ortega. 


34 – Tosantos 


Não muito distante de Belorado está Tosantos, um diminuto povoado com não mais que 60 habitantes que foi fundado no ano de 940. 
Nele poucos serviços há para o peregrino. Uma modesta tienda e um albergue com boas e modernas instalações na casa paroquial próxima a praça da cidade atendem o peregrino. 
O destaque é a ermita rupestre da Virgen de la Peña, escavada na rocha. Dentro se venera uma imagem românica da virgem, do século XII. 
Há ainda uma simples igreja românica dedicada a N. S. de la Natividad. 


35 – Villambistia 

Mais um povoado com poucos habitantes e poucos serviços ao peregrino. Conta com um albergue e um bar-tienda que só abre o período da tarde. Tem uma fonte no meio do povoado que dizem operar milagres. 
Contam as lendas do Caminho que um peregrino cansado do duro trajeto desde Redecilla del Camino, debaixo de um sol inclemente teve sintomas de debilidade alguns quilômetros depois de Belorado. 

A famosa fonte de Villambistia

Reza a lenda que um ancião do lugar, ao vê-lo em tão precária situação lhe falou da tradição de Villambistia que consiste em molhar por completo a cabeça na fonte do povoado no trajeto do próprio Caminho. Este banho revigorante deu o ânimo necessário para o peregrino prosseguir sua jornada. 
O peregrino chegou quando chegou a Santiago comentou tal fato com seus amigos também peregrinos, que século a século, e de boca em boca, criou a tradição de Villambistia de passagem obrigatória para aqueles que querem chegar até Santiago em perfeitas condições físicas e de saúde. 
Na localidade pode ser visitada a igreja de San Esteban, um pouco maltratada pelos anos, mas ainda em serviço. 


36 – Villafranca Montes de Oca 

O povoado encontra-se aos pés do Porto de la Pedraja. Segundo os gastrônomos do Caminho aqui se come uma das melhores "ollas podridas" da região. Tal prato é composto de feijão e derivados de porco.
O povoado dispõe de um albergue, dois hostais, quatro bares/restaurantes, uma padaria (?) e um mini-mercado. 
Villafranca Montes de Oca foi a antiga sede episcopal de Auca (Oca, en latim), trasladada primeiro para Gamonal e posteriormente a Burgos por Alfonso VI no século XI.

Igreja de Santiago, em Villafranca Montes de Oca

A igreja paroquial de Santiago é uma construção remodelada, levada a cabo ao final do século XVIII, também teve um hospital chamado "El Hospital de la Reina", já que sua construção foi ordenada por Dona Juana Manuel, esposa de Enrique II de Castilla.

Pouco antes de chegar ao povoado, a direita do Caminho pode ser visto os restos da cabeceira do templo pré-românico de San Félix de Oca, lugar onde foi sepultado o fundador de Burgos – O Conde Diego Porcelos.
Pelo lado do vale se encontra a ermita da Virgem de Oca, lugar onde a tradição conta que junto a um manancial foi martirizado San Indalécio, que foi discípulo de Santiago. 


37 - San Juan de Ortega 

A localidade é uma das menores aldeias do Caminho com seus não mais de 30 habitantes.
Este fantástica edificação, que se ergue solitária no alto das montanhas, entre Belorado e Burgos, é muito mais que uma igreja. É um conjunto complexo formado por duas igrejas, dois mosteiros, um Hospital de peregrinos, e algumas residências. 
San Juan nasceu (com o nome de Juan Velázquez) em 1080 na pequena aldeia de Quintanaortuño, nesta mesma província. Tendo realizado a peregrinação a Jerusalém, ao retornar, decidiu dedicar-se a proteger os peregrinos que iam a Compostela. 
Retirou-se para um local denominado Ortega, nos montes de Oca, onde construiu uma ermida consagrada a San Nicola de Bari e o Hospital de peregrinos. Além disso, dedicou o resto de sua vida à manutenção, reconstrução e aprimoramento do Caminho de Santiago. Foi ele quem construiu todo o trecho que leva a Atapuerca, além de pontes em Nájera, Logroño e Santo Domingo de la Calzada. Morreu em Nájera em 1163, e foi enterrado na ermida que havia construído em Ortega. Apesar de reformada e ampliada, a velha ermida existe até hoje. São Juan de Ortega foi contemporâneo, companheiro e colaborador de Santo Domingo, o de la Calzada.
Sete anos após sua morte, o local passou a abrigar um mosteiro da ordem de Santo Agostinho, que a partir do século XV (1432) passou à ordem de São Jerônimo. Hoje em dia o conjunto abriga o mais amplo albergue de todo o Caminho, com capacidade para receber centenas de peregrinos.
No dia do equinócio um raio de sol, penetrando por um pequeno orifício, ilumina a imagem da Anunciação esculpida no capitel de uma das colunas da igreja. O fato reveste-se de um significado especial quando se recorda que o equinócio de primavera (21/22 de Março) ocorre nove meses antes do nascimento de Cristo, portanto na suposta data da real Anunciação.

Monastério de San Juan de Ortega
 
Embora ainda espartana, a hospitalidade em San Juan de Ortega é inesquecível. É o único refúgio no caminho que ainda conserva a secular tradição de o pároco oferecer sopa de alho ao peregrino que pernoita. Entre as inúmeras pessoas que marcam de maneira indelével a alma do peregrino, nenhuma encarnava de maneira mais viva o espírito do Caminho que o padre José María, que foi o responsável há muitos anos pelo local. É um digno sucessor do próprio San Juan. 
Foi para o Oriente Eterno em 24/02/2008 aos 81 anos. 
O único serviço que o povoado dispõe fora do albergue da igreja é o Bar da Marcela, uma pessoa encantadora, que com sua família administra o local, onde serve comidas simples a preços bem razoáveis. 
Para os querem um pouco mais de conforto pernoitando em San Juan de Ortega há um uma casa rural (La Henera – cujo e-mail para reserva é manuel@sanjuandeortega.es) 


38 - Ages 


Esta pequena vila fica a 3,7 km. depois de San Juan de Ortega, e é uma opção para quem quer um pouco mais de conforto e tranqüilidade para dormir. Só dispõe de um albergue que oferece além do pernoite jantar e café da manhã.
Tem uma igreja paroquial do século XVI, e segundo a tradição popular as entranhas do Rei Gracia da Navarra foram ali enterradas depois de derrotado e morto pelo seu irmão Fernando I na batalha de Atapuerca. Informações mais fidedignas indicam que o corpo está sepultado na basílica de Santa Maria de Nájera. 
Destaque no povoado par uma bela e refrescante fonte e na saída da aldeia uma ponte de pedra de um só arco cuja construção é atribuída a San Juan de Ortega. 


39 – Atapuerca 


É um pequeno povoado que o Caminho atravessa. Seu grande atrativo, que fica fora do Caminho, é a visita ao sítio arqueológico onde foi encontrado fossilizado o “Homo Antecessor” - o homem mais antigo da Europa - , que foi descoberto em 1976 pelo professor Trinidad Torres e os membros do Grupo de Espeleologia Edelweiss encontraram uma mandíbula e outros restos humanos. Tal material foi para avaliação de Emiliano Aguirre que montou um projeto científico desde 1991 estando atualmente sob direção de Juan Luis Arsuaga, Eudald Carbonell e José Maria Bermudéz. O sítio arqueológico de Atapuerca foi declarado Patrimônio da Humanidade em 30/11/2000.
As margens do Caminho pode ser visto um “menir” (marco) – “Fin de Rey” – que comemora o feito histórico da batalha de 1054 entre o rei de Leon e Castilla Fernando I, e Don Garcia da Navarra. 
Sua única igreja está dedicada a San Martin de Tours e foi construída entre os séculos XIII e XV. Atapuerca embora seja uma pequena aldeia oferece todas as comodidades ao peregrino, exceto serviços bancários. Bons albergues, casas rurais, restaurantes, tiendas e centro médico. Boa opção para os peregrinos que não desejam pernoitar em San Juan de Ortega. 


40 - Burgos - a 481 km de Santiago


A cidade de Burgos nasceu no ano 854 às margens do rio Arlanzón, como um pequeno povoado que cresceu ao lado de um antigo castelo. A vila desenvolveu-se sob a iniciativa do conde Diego Rodríguez Porcelos para defender a região da invasão moura, e já no ano 920, adquire o título de cidade. Um século depois, em 1035, Fernando I, rei de Castela, a torna capital de seu reino.
Burgos foi historicamente a cidade mais importante do Caminho, e chegou a contar com trinta Hospitais de peregrinos. Entre eles destacava-se o Hospital del Rey, o considerado o melhor Hospital da Espanha, situado ao lado do mosteiro de las Huelgas e de um antigo cemitério para peregrinos.
A catedral, uma das mais antigas construções góticas da Espanha (sua construção iniciou-se em 1221) abriga o sepulcro do herói nacional don Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido como El Cid, e sua esposa, doña Jimena. El Cid peregrinou a Compostela no ano 1064. Esta igreja é considerada pela UNESCO como "Patrimônio Cultural da Humanidade". 

Catedral de Burgos

Um monge clunicense francês, chamado Lesmes (ou Adelmo) fez a peregrinação a Compostela no século XI. No trajeto de volta, passando por Burgos, a rainha Constanza de Bragança, esposa do rei Alfonso VI de Castela, convenceu-o a permanecer na cidade para estabelecer ali a nova liturgia romana. São Lesmes foi a partir de então um grande protetor dos peregrinos, construindo mosteiros e Hospitais para acolher os caminhantes. Morreu em 1097, está sepultado na igreja de São Lesmes, em Burgos, e é o patrono da cidade. Em 1968, seu sepulcro foi aberto durante as obras de restauração da Igreja, e descobriram-se os restos do santo, intactos após quase novecentos anos. 


41 – Tardajos 


Este pequeno povoado se encontra nas proximidades da Puente de Arzobispo, nas margens do Rio Ubierna. Reza a lenda que um tropeço do cavalo do rei Alfonso VI nesta localidade quase lhe custou a vida. 
Tardajos foi erguida sobre um castro romano aos pés de uma via que ligava Clunia com Juliobriga (Reinosa). Teve um hospital de peregrinos e a singela igreja de La Magdalena fica já na saída da cidade, já no rumo de Rabé de La Calzada. 
Possui serviços básicos ao peregrino com albergue, hostal, bar, serviço de saúde, farmácia e uma tienda modesta para compra de comestíveis. 


42 – Rabé de la Calzada 

Eu, em 2004, passando pela cidade de Rabé de la Calçada

É tão próxima de Tardajos, que no passado ambos os povoados estavam unidos por um grande lodaçal como consequência das cheias do rio Urbel. Na região tem um ditado que diz: "De Rabé a Tardajos no te faltarán trabajos; de Tardajos a Rabé, ibéranos, Dómine!. 
O povoado foi doado por Alfonso VI ao grande Hospital de Burgos e hoje seu vestígio mais monumental mais antigo é a portada da Igreja de Santa Marina do século XVII. Atualmente perdura um monastério de Religiosas. 
Na saída do povoado há uma simples mas muito bem conservada ermita, que o peregrino encontra ao lado esquerdo do Caminho. 
Destaque para o albergue Santa Marina e Santiago que acolhe peregrinos (somente 8) como na antiguidade. Há ainda dois confortáveis hostais/casas rurais e um bom restaurante. Uma tienda com gêneros básicos atende os peregrinos. 


43 – Hornillos del Camino 

A rua principal de Hornillos del Camino

É exemplo clássico de um “pueblo camino” com uma única rua – para variar - a Calle Real (na maioria das vezes é Calle Mayor). 
Foi uma importante localidade na rota medieval. Teve um leprosário fundado em 1156 por Alfonso VII e outros hospitais deram atendimento a peregrinos enfermos. O mais conhecido era a Malateria de San Lázaro, cujos restos ainda podem ser vistos antes de entrar na vila. 
Sua igreja paroquial, gótica, dedicada a Santa Maria recebeu em 1360, de vários prelados de Aviñon e do bispo de Burgos, o privilégio de conceder aos peregrinos até 40 dias de indulgência em determinadas datas. Há no povoado duas pontes também medievais, uma sobre o rio Hormazuela e outra sobre um pequeno riacho que merecem destaque. 
Em 1936, foram descobertos sepulcros visigóticos, onde foram encontradas cerâmicas e metais de grande valor. A localidade em que pese sua singeleza tem dois albergues, duas casas rurais, e serviços básicos para o peregrino, como bar e restaurante. 


44 – Hontanas 

O nome do povoado provém da hospilataria “Villa de las fuentes”. Povoado típico do Caminho com uma particularidade. Enquanto que a maioria dos povoados está situado em colinas ou quando muito numa situação plana, Hontanas fica numa depressão de terreno, completamente imperceptível até que se chegue na entrada da vila.

Albergue de Hontanas
 
Ainda conserva como vestígio do esplendor do passado uma construção chamada de “Mesón de los Franceses”, antigo hospital de peregrinos atualmente um albergue confortável e remodelado. Possui também hostais, um restaurante que também supre as necessidades de compra de mantimentos básicos. 
Tem uma igreja, a paróquia da Imaculada Conceição, construída no século XIX. 
Seu principal atrativo é o Vitorino, um autêntico “bufón”. 
Convém também informar que poucos quilômetros antes há um albergue na localidade de San Bol. Um albergue de acomodações simplórias, onde os banhos são frios e não há banheiros para suprir as necessidades fisiológicas (dados de 2003). 


45 – Castrojeriz 

Castrojeriz é uma das cidades do Caminho Francês com maior volume de monumentos, em que pese a ruína parcial de alguns deles, como a Colegiata Virgen del Manzano ou as igrejas de Santo Domingo y San Juan.
Se crê que foi a antiga Castrum Sigerici, talvez fundada pelo Conde de Castilla Sigerico, irmão de Don Rodrigo Diaz de vivar – El Cid) em 760, que foi o repovoador de Burgos. Na sua rua principal tem varias igrejas e construções notáveis. Tem os resto do que foi um Castelo no alto de uma colina que domina a cidade que tem muita história. Foi construído pelo Conde Muño (Nuño ou Núñez), que defendeu a fortaleza aos finais do século IX contra os árabes. Antes foi uma fortaleza celta, depois romana e visigoda. Foi testemunha de varias batalhas,mas em 1131 Alfonso VII a fez definitivamente espanhola. 
A população de desenvolveu na costa sul do morro do Castelo e ao largo do Caminho, e em cerca de um quilômetro de extensão foram construídas igrejas, sete hospitais, restaurantes, e todo o tipo de comercio. 
Começando pela Colegiata de Nuestra Señora del Manzano, templo românico amplamente remodelado no século XVIII, continuando com as igrejas de Santo Domingo e Santiago de los Caballeros e o templo fortaleza da igreja de San Juan com seu formoso claustro do século XIV, onde se pode apreciar artesanato mudéjar, terminando pelo monastério de Santa Clara, e as evocadoras ruínas do convento de San Francisco, podemos dizer que Castrojeriz tem muito para se ver. 

Ruínas do Mosteiro de Santo Anton

Um pouco antes de se chegar a Castrojeriz o peregrino invariavelmente irá passar por Santo Anton, onde há um singelo albergue e nada mais. Diz a lenda que no século XI, o filho de um senhor importante foi acometido por uma grave doença, conhecida na época como "fogo de Santo Antônio" ou "fogo sagrado". Esta era uma moléstia que se espalhou pela Europa no século X, e manifestava-se com gangrena progressiva, bastante dolorosa, sendo muitas vezes incurável. Tendo invocado o auxílio de Santo Antônio, a doença logo desapareceu e seu filho curou-se rapidamente. 
A partir de então a ordem dos Monges de Santo Antônio, fundada no ano 1093, difundiu-se pela Europa e tornou-se muito conhecida. A ordem fundou em 1146 seu mosteiro espanhol nas proximidades de Castrojeriz, onde não só ajudavam os peregrinos, como curavam os enfermos portadores de "fogo de Santo Antônio". Um antigo peregrino francês nos deixou um relato informando que estes monges amputavam os braços e as pernas dos seus pacientes, e os penduravam nas portas do Hospital. 



Com a ampliação das dependências do mosteiro no século XIV, a estrutura de colunas e arcos que se apoiava em suas paredes, foi construída passando por cima da antiga estrada dos peregrinos. Entretanto o trajeto da estrada não foi alterado, e até hoje passa sob os gigantescos arcos em ruínas do que foi um dia o átrio ocidental da igreja já destruída. 
Desde que Carlos III, rei da Espanha, aboliu esta ordem em fins do século XVIII, o mosteiro foi abandonado. Hoje em dia nada mais resta que suas ruínas fantasmagóricas. O peregrino que cruza seus silentes arcos de pedra ao fim da tarde, sente um calafrio inexplicável. Apenas o assustador latir dos cães quebra o pesado silêncio. Pois se há algum lugar no Caminho em que o misticismo emana de cada arbusto e de cada pedra, este local é sem dúvida San Antón. 
A cidade de Castrojeriz mesmo não sendo tão grande como os grandes centros urbanos ao longo do Caminho é uma das cidades que oferece um conjunto de serviços ao peregrino muito diversificado, com bons albergues, bons hostais e restaurantes, serviços de comércio e bancários. É bom lembrar que o hostal e restaurante “La Taberna” funciona quase que como uma embaixada brasileira na Espanha, sob o comando de Tonho e sua família, e que um dos albergues da cidade que fica quase na saída da cidade trata o peregrino de forma diferenciada. Lá não são aceitos quem usa carro de apoio, ou outros meios de transporte que não sejam a cavalo ou bicicleta. Exige silêncio obrigatório para o repouso do peregrino tanto à noite como pela manhã onde todos são acordados com canto gregoriano. 


46 – Itero Del Castillo 


Itero Del Castillo fica logo depois de que desce a colina de Mostelares. É o último povoado da Província de Burgos. No passado foi uma população ribeirinha e fortificada, que defendia a fronteira do reino de Castilla e Leon. Das ruínas da antiga fortaleza restou somente a torre do castelo que deu o nome à cidade. A igreja paroquial do século XVIII está dedicada a San Cristóbal. 
Foi Alfonso VI quem ordenou a construção da ponte sobre o rio Pisuerga, também conhecida como ponte Fitero (a Pons Fiterei do Codigo Calixtino), que era o limite entre os reinos de Castilla e Leon. Um pouco antes da ponte se encontra o antigo hospital de San Nicolas que pertenceu a Ordem de San Juan, hoje restaurado e convertido na ermita de San Nicolas e no albergue de peregrinos em função do empenho da Confraternitá de San Jacobo de Perugia. 



47 – Ítero de la Vega 


É o primeiro povoado da província de Palência. Na entrada da cidade está a ermita de La Piedad, do século XIII, que mantém em seu interior uma talha de Santiago Peregrino. Segundo os habitantes da vila também existiu no local um hospital de peregrinos.
Além disso cabe registrar a igreja de San Pedro que é do século XVII mas tem uma portada gótica do século XIII. No centro do povoado há ainda um “rollo” (coluna) de justiça.
Dois albergues, um hostal, dois restaurantes e um supermercado (!!!) é a estrutura oferecida ao peregrino. 


48 – Boadilla del Camino

Na entrada de Boadilla existe uma fonte d’água única em todo o Caminho. Para beber da sua água refrescante o peregrina terá que girar uma engenhoca parecida com um timão de navio. Não há peregrino que não se refresque nas águas já servidas no lago que guarnece a fonte.
Mas o que chama a atenção do peregrino é o emblemático “rollo” jurisdicional (de justiça) adornado com motivos góticos e platerescos do século XV. Junto a esta coluna os réus eram amarrados e julgados e se fosse o caso devidamente justiçados. 

O "rollo" de justiça de Boadilla del Camino

Tal coluna, era o símbolo da autonomia concedida por privilégio de enrique IV ao povoado, que foi confirmada pelos reis católicos em 1482, deixando Boadilla de estar submetida ao direitos de jurisdição dos Senhores de Melgar e Castrojeriz. 
Menção especial há que se fazer a igreja de Santa Maria, considerada como monumento nacional, com suas 3 naves, tão largas como longas. Muita arte sacra está em seu interior, havendo inclusive um pia batismal do século XIII. 
O povoado embora pequeno tem todas as comodidades ao peregrino, como um bom albergue, restaurante, bar e tienda. Destaque para o albergue “En El Camino” onde o peregrino poderá conhecer um grande amigo dos brasileiros – O Dudu – simpático, e atencioso hospitaleiro do Caminho. Detalhe: o albergue tem até piscina, ideal para um bom descanso !!! 


49 – Fromista 

Chegando a Fromista a primeira construção que o peregrino encontra é a ermita de Santiago também chamada de “Del Otero”. Tem um núcleo populacional denso – mais de 1.100 habitantes, número que foge um pouco dos padrões dos povoados do Caminho. Tem todos os serviços ao peregrino, bons mercados, bons albergues, bons restaurantes e boa diversidade de hostais e pensões.


Igreja de San Telmo, em Fromista

Chama a atenção o conjunto de arquitetura do povoado, que começa com a estátua em homenagem a San Telmo padroeiro dos navegantes que nasceu nesta cidade. 
Há ainda a Fortaleza de Santa Maria Del Castillo, localizada na parte mais alta da vila que seguiu o estilo gótico mas com portadas renascentistas. Em 1980 roubaram o retábulo da igreja (!!!) que foi recuperado no ano seguinte em Bruxelas. A igreja de San Martin pertence ao monastério do mesmo nome foi construída em 1066 tendo sido fundada por Dona Mayor de Castilla, viúva de Sancho III da Navarra,. A igreja, que sucumbiu em um incêndio no século XV sendo totalmente recuperada é sem dúvida um dos mais belos exemplos do românico europeu. 
A igreja de San Pedro teve sua construção iniciada no século XV já em estilo gótico. O destaque é sua portada renascentista e as imagens dos apóstolos Pedro e Paulo também do século XV. 
Vários hospitais de peregrinos além do de San Martín teve Fromista. O Hospital de Santiago que ocupava o solar onde hoje se encontra o Ayuntamento (prefeitura), o dos romeiros, e o Hospital dos Palmeiros que é ó único que ainda se conserva, embora transformado em hostal desde 1971. 


50 - Poblácion de Campos 

O pequeno povoado que é dotado de serviços mínimos ao peregrino um albergue, um hostal e uma tienda, dispõe de tem três lindas igrejas que tem um passado bastante rico. 
A pequena ermita de San Miguel, do século XII, muito provavelmente do ano de 1227 a esquerda da estrada na sombra de uma pequena alameda com uma fonte dá as boas vindas ao peregrino na entrada do povoado pertenceu aos Cavaleiros da Ordem Militar de Malta. 

Igreja de Santa Maria Magdalena, em Poblácion de Campos

A igreja paroquial de Santa Maria Magdalena está situada na parte mais alta da vila é de estilo barroco e consta que é do século XIV e seu aspecto atual se deve a reformas efetuadas entre 1749 e 1753. Nela se destacam a sua pia batismal também do século XIV e a de água benta do século XV além de vários retábulos do século XVIII. 
Já saída da vila antes de atravessar a ponte sobre o rio Ucieza há outra ermita do século XII, a de N. Sra. Del Perpétuo Socorro é o único vestígio material de quase 700 anos de domínio Sanjuanista, titular de cinco priorados. 
Desde meados do século XII , Poblácion de Campos foi área da Ordem Militar de San Juan de Jerusalém. Há documentos que comprovam um privilégio concedido por Alfonso VII em Salamanca em 24/06/1140 entregando à Ordem a vila de Poblácion de Campos. O senhorio e a jurisdição dos sanjuanistas não tardou em estabelecer-se na localidade. 

51 – Villalcázar de Sirga

Depois de passar por Revenga de Campos e Villacálzar de Campos, dois pequenos povoados com pouca infra-estrutura ao peregrino, temos Villalcázar de Sirga também conhecida como Villasirga (Villa-camino),que pertenceu durante muito tempo a Ordem do Templo e posteriormente foi patrimônio privado de algumas famílias nobres. Este assentamento templário tinha como vocação a tutela e proteção do Caminho. Como restos das suas soberbas instalações sobrou a igreja-fortaleza de Santa Maria la Blanca, um templo românico de transição com suas torres e majestosos pórticos de excepcional riqueza arquitetônica. Há muitas peças de arte para destacar no seu interior, mas a mais impressionante é o sepulcro do Infante Don Felipe.

Igreja de Santa Maria la Blanca, em Villalcázar de Sirga
 
Diversos milagres se atribuem a Virgen Blanca de Villasirga. O rei Alfonso X lhe dedicou 14 milagres em suas cantigas. A cura de peregrino alemão que estava paralítico despertou uma grande devoção entre o mundo peregrino. 
Uma das belas construções a serem apreciadas, embora muito “moderno” para os padrões do Caminho é o prédio do Ayuntamiento que está localizado em palácio do século XVIII que pertenceu aos Condes de Villasirga e tem como curiosidade uma passagem secreta que se comunica com a igreja. 
Possui um bom e confortável albergue, hostais e alguns lugares para compra de mantimentos. 


52 – Carrión de los Condes

Carrión é uma das cidades que oferece melhor estrutura para o peregrino. Dispõe de 4 albergues, hotéis, hostais, bares e restaurantes, e farto comércio além de diversos bancos. Em um dos albergues, o das irmãs clarissas dizem que dormiu São Francisco de Assis e o Papa João Paulo II. 
Sua grandeza em relação com o Caminho de Santiago está expressa pela quantidade de hospitais que tinha para acolher o peregrino na idade média: uma dúzia, e em razão disso foi ponto de encontro político, religioso, cultural e sócio-econômico da Espanha medieval. 

Um das praças centrais de Carrión de los Condes

Tem uma das maiores e melhores bibliotecas jacobéias da Espanha. Chegou a ter no século XII mais de 14 mil habitantes, e hoje tem cerca de 2,5 mil, com doze paróquias. 
Um de seus principais hospitais foi fundado no século XIII por Don Gonzalo Ruiz Girón, mordomo do Rei, mais tarde conhecido como Hospital de la Herrada. Próximo do atual Monastério de San Zoilo, se diz que dele os peregrinos “recebian de mayo a octubre medio pan, y de noviembre a abril un pan entero". 
Ao entrar em Carrión e antes de alcançar seu recinto amuralhado está a ermita de la Piedad e um pouco mais adiante, também extramuros, o convento de Santa Clara recentemente restaurado. Das seis igrejas que restaram em pé, a de Santa María del Camino e a igreja de Santiago com uma impressionante portada, representando um Pantocrátor com os apóstolos sem dúvida são de grande beleza. 
Na saída da cidade está o Monastério de San Zoilo do qual se conserva um magnífico claustro renascentista. As demais dependências foram transformadas em hotel de luxo. 


53 – Calzadilla de La Cueza 


O povoado tem muito pouco a oferecer ao peregrino. Dispõe de infra-estrutura básica: um albergue, um hostal e um restaurante que pertence ao mesmo. 
O nome da cidade provém da Via Aquitânia (caminho romano) que passava por esta localidade muito antes do Caminho de Santiago. Na saída de Calzadilla, na única rua do povoado, existem restos do que foi um grande hospital e monastério da Ordem de Santiago conhecidos como Monastério de las Tiendas. 
Para ser admirado apenas há um retábulo do século XVI procedente do monastério de Santa Maria de las Tiendas, que se conserva na igreja paroquial presidida por San Martín. 


54 – Lédigos 


Pequeno povoado com também poucos serviços ao peregrino. Dispõe de dois albergues, e dois pequenos mercadinhos, que em caso de necessidade podem atender satisfatoriamente o peregrino. Doña Urraca no século XI doou a este povoado a construção da igreja de Santiago feita a base de tijolos de adobe (barro). Foi restaurada no século XVII. O fato marcante é que é uma das poucas igrejas existentes no Caminho que possui as três representações iconográficas de Santiago, ou seja, Santiago Matamoros, Santiago Peregrino, e Santiago Apóstolo, o que deixa os habitantes e seus vizinhos orgulhosos 


55 – Terradillos de los Templários 

Terradillos dependia na antiguidade de Villalcazar de Sirga, mas o povoado era dos Templários. No Arroio dos Templários estava situado o seu convento hoje inexistente. Uma das velhas lendas do lugar conta que em Terradilllos os templários remanescentes tinham um galinheiro onde guardavam a famosa galinha que punha ovos de ouro e que ao morrer foi aqui enterrada. 

A pequena e acolhedora Terradillos de los Templários

Teve duas igrejas: a de San Esteban e de San Pedro. Hoje só resta esta última. A cidade tem dois albergues bem confortáveis e uma tienda para compra de gêneros básicos. 


56 – Sahagun - a 357 km de Santiago 

Depois de passar por Moratinos e San Nicolas de Real Camino que pouco ou nada oferecem ao peregrino a próxima cidade é Sahagun, considerada como uma das “grandes cidades” do Caminho (3.300 hab.). 
É conhecida como sendo a capital do “Românico pobre” já que em suas construções era usado o barro e não pedras para a construção de suas igrejas, como por exemplo a de San Tirso. 
O curioso nome desta cidade, que era chamada Camata pelos latinos, deriva de San Facundo ou Sant Facund ou San Fagún, mártir cristão dos antigos tempos do Império Romano. 
Conta-se que aqui o imperador Carlos Magno combateu os muçulmanos comandados pelo rei Aigolando. Diz a lenda que os guerreiros francos, vitoriosos, fincaram as lanças dos soldados cristãos mortos ao lado de seus corpos caídos, "para glória do Senhor". No dia seguinte, neste local, às margens do rio Cea, as hastes de suas lanças haviam se tornado verdes e florescido. 

Arco de San Benito, em Sahagun

O Monastério dos santos Facundo e Primitivo foi fundado no ano 872 pelos monges de Cluny, por incentivo do rei Alfonso III Magno, de Castela. Este mosteiro sempre foi um dos mais importantes do Caminho e chegou a ser a principal abadia beneditina na Espanha. Aí está sepultado o rei Alfonso VI de Castela, um dos grandes protetores dos peregrinos.
Com jurisdição religiosa sobre toda a região, seu poder gerou também animosidades. O mosteiro acabou em ruínas e a cidade lentamente perdeu sua antiga grandeza. Sua entrada principal, entretanto, não foi demolida, nem mesmo quando foi construída a moderna estrada asfaltada.
As ruínas da antiga abadia ainda imponentes sobre a entrada da cidade, formando um enorme arco de pedra sobre a estrada, são consideradas "Monumento Nacional da Espanha".
Possui 3 albergues sendo o mais emblemático o albergue de Cluny, que funciona onde era a antiga abadia da Ordem de Cluny. Além disso dispõe de vários hostais, restaurantes e amplo comércio. 
Durante a idade média fixaram residência em Sahagun sábios, ricos, artesãos, burgueses e artistas procedentes da Espanha muçulmana, que aqui desenvolveram a arte mudejar. Com isso se mesclaram culturas e línguas com a convivência de mouros, judeus, franceses e castelhanos. 

Igreja de San Tirso, em Sahagun

Um conjunto de joias arquitetônicas existe na cidade: as igrejas de San Tirso (sec XII) e San Lorenzo (sec XIII) ambas de estilo românico-mudéjar; as de estilo neoclássico - La Trinidad (sec XVI) e de San Juan de Sahagún (sec XVII), junto com o santuário de la Virgen Peregrina (antigo convento franciscano )e o museu das Madres Beneditinas, formam um mosaico de rara beleza. 
Na saída da cidade após cruzar a ponte de Canto sobre o río Cea, construída em 1085 por ordem de Alfonso VI, há uma árvore bastante alta à direita onde a historia situa a batalha entre Carlos Magno e o rei mouro Aigolando, com milhares de mortos, cuja lenda conta que as lanças jogadas pelos cristãos floresceram ao serem cravadas no campo.