II - A FORMAÇÃO DO MITO JACOBEU


II - A FORMAÇÃO DO MITO JACOBEU

 

A peregrinação a Santiago de Compostela é um dos fenômenos universais mais intrigantes, pela sua permanência no correr dos séculos e acentuada voga na atualidade. Praticada ora com maior, ora com menor intensidade, com finalidades fundamentalmente místico-existenciais, tem hoje adeptos de seitas esotéricas e outros, sem, no entanto, deixarem de ser predominantes os católicos, que não põem dúvidas quanto a ser do apóstolo Tiago, um dos mais diletos discípulos de Jesus e o primeiro deles a sofrer o martírio na Palestina, o sarcófago sobre o qual foi construído o altar-mor da magnífica basílica da capital da Galícia.

Dentre as muitas reflexões que essa "peregrinatio" tem suscitado, destaca-se a do poeta brasileiro Murilo Mendes que no poema "Caminho de Santiago" assim se expressou:

Santiago de Compostela isolada no campo,

Mas na tua direção marchou a Europa

Pesquisando paralelos Corpo e Estrela....

O poeta referia-se maravilhado, dessa forma, ao isolamento do lugar que tamanha importância espiritual assumiria no cenário europeu medieval. De fato, Santiago de Compostela situava-se junto ao local que para os romanos era o Finisterrae, no pequeno reino da Galícia, que terminou sendo incorporado à coroa de Leão.



Mas o que movia as multidões, de poderosos reis, eclesiastas e senhores feudais a humildes servos da gleba, era a busca do corpo santo - o de São Tiago - por um Caminho iluminado e orientado pela via Láctea, após a "revelatio" do túmulo do apóstolo no século IX.

Da contribuição estelar (via láctea) decorreria uma origem, possível, mas questionável (Machado, 1984, p. 438) do topônimo Compostela - campus stellae, isto é campo da estrela. Xesus Ferro Ruibal (1992 - p. 206) refere-se ainda a outros significados como: "escombros de ferro" remontando a um possível composto céltico (comboros + steel); ou nome de mulher "feitinha, bem composta", sentido que se encontra no Codex do século XII. Outro sentido por ele apontado é o de "terra composta e formosa”, se levada em consideração a sua plausível derivação de “compositum tellus", que se registra no Cronicón Iriense, dos séculos XI-XII e na crônica de Sampiro do século XII. Ou ainda "lugar de enterramento" levando-se em conta a acepção de "compositum" registrada em Vírgílio. Este último significado tem encontrado respaldo da arqueologia já que a partir de escavações feitas no final do século XIX, (Andrade Cernadas, 1995, p. 44) , concluiu-se que a cidade compostelana se desenvolvera a partir de uma igreja construída sobre um túmulo românico.

Habitado desde a época pré-romana, o lugar teve três nomes (Ferro Ruibal, 1992, p. 206):

1 - Libredón: que alguns identificam com o sentido céltico "castro do caminho" e outros com o latino "livre concessão dum terreno" (liberum donum);

2 - Arcis Marmoricis - entre os séculos IX e X, indicando lugar de arcos ou arcas de mármore, geralmente túmulos;

3 - Compostella - no século XI ampliando o subúrbio Compostella, isto é, parte da vila, do século X.

Neste mesmo século XI ser-lhe-ia acrescentado o termo "Santiago", por ordem do Papa Urbano II. E alcançaria o apogeu na chamada Era Compostelana, no século XII, graças sobretudo à ação de Diego Xelmirez, seu primeiro arcebispo.



Por essa época, para a Cidade Santa de Santiago de Compostela - a terceira da cristandade, ao lado de Roma e Jerusalém - chegaria a acorrer anualmente cerca de meio milhão de pessoas.

Deixaremos de lado as lendas pré-históricas, como as que mostram o "Caminho das estrelas" findando não no lugar que hoje é a catedral de Santiago, mas junto ao mar, no Finisterrae, onde se realizariam cultos de adoração ao sol. Ou, ainda, a hipótese de ser o culto a Santiago e a São Milão, uma cristianização do culto aos Dióscuros Castor e Pólux, da mitologia greco-romana, que também se representavam montados em cavalos brancos combatendo os inimigos.

No entanto, a representação do apóstolo tornado padroeiro da Espanha, ocorre não apenas como cavaleiro matamouros, mas como peregrino e anfitrião, sábio mestre e intercessor, figurando por isso tripticamente nas várias imagens: a cavalo, caminhante ou sentado.

Também não nos deteremos na sedutora hipótese segundo a qual o túmulo românico sobre o qual fora construída a igreja guardaria os restos mortais, não de Santiago, mas de Prisciliano (340-385), bispo reformista de Ávila, decapitado em Tréveris (Alemanha) por ordem do imperador Máximo, sob a questionável acusação de heresia. Muito influente na Galícia, para ali o seu corpo teria sido trazido através do mar, e enterrado em ignoto lugar, daria hipoteticamente origem a um culto sepulcral.

A seguir vamos nos deter, então, a seguir na reflexão sobre a formação do mito jacobeu.

Tiago maior foi um dos mais diletos discípulos de Jesus, juntamente com seu irmão João Evangelista, filhos de Zebedeu e Salomé, além de presenciarem a ressurreição da filha de Jairo e observarem a agonia de Jesus em Getsêmani, apenas ele, a seu irmão e a Pedro o Senhor levou ao monte Tabor, onde se transfigurou. E chamou aos irmãos de "boanerges” (filhos do trovão - Marcos 3-18), uma vez que poderosa como o som do trovão foi a pregação de ambos, ressoando espantosamente pelos confins da terra. De pescadores de peixes em Cafarnaum, no mar da Galileia, tornaram-se pescadores de alma, atendendo ao convite do Messias.

Segundo o registro da Bíblia (Atos dos Apóstolos 12, 1-4), Tiago foi degolado por ordem de Herodes Agripa I, rei da Judeia, no ano de 44, antes da Páscoa, tornando-se o segundo cristão, após Estevão, e o primeiro dos apóstolos a sofrer o martírio. O pensamento racional impõe a partir daí, uma primeira desconfiança quanto a ser efetivamente de São Tiago o túmulo encontrado tantos séculos mais tarde na Galícia, onde teria sido enterrado por ter sido o evangelizador da Espanha, já que era costume os apóstolos serem sepultados no local em que predicaram. A lenda fala de uma trasladação miraculosa pelo mar. Documentos da igreja buscam preencher o silêncio de séculos, existindo mesmo uma carta falsamente atribuída ao Papa Leão, do século V, que, largamente divulgada no século IX, incentivou a peregrinação.



As mais antigas notícias acerca da pregação de Tiago Maior nos limites do ocidente, nos primórdios do Cristianismo, fazem parte da cultura oral da cristandade hispânica e se chocam com as informações dos textos gregos dos Catálogos Apostólicos, segundo os quais “a evangelização de São Tiago fora circunscrita apenas à Samaria e à Judeia "(Singul, 1999, p. 17)". Isto pode estar relacionado ao fato de que a adoção do cristianismo na Espanha não fora hegemônica de início. Ocorreria paulatinamente, com o declínio dos cultos pagãos autóctones enriquecidos pelos superstratos oriundos dos conquistadores romanos, que, no entanto, não impuseram aos galegos os seus rituais de culto às divindades clássicas.

A dispersão apostólica conta com o testemunho coevo de São Paulo (Romanos, 10, 18), entretanto, pela terra inteira correu sua voz, até os confins do mundo as suas palavras (Bíblia de Jerusalém, 1984, p. 1484). Esses "confins de mundo", o ocidente, se encontrariam justamente na Espanha, à qual o próprio Paulo, entre os anos 63 e 67, visitaria, após Tiago, que aí teria predicado entre os anos 33 e 42 (Singul, 1999, p. 19). A predicação jacobeia nessa região seria mais explicitada em documentos posteriores -  em textos de Dídimo, o cego, de Alexandria (310-398) e de São Jerônimo (348-457), a Espanha é mencionada literalmente.

Outro fato pode ter contribuído para a não divulgação da evangelização hispânica nos primórdios do Cristianismo é que para a igreja de Roma interessava manter a primazia da Sé fundada por São Pedro, o primeiro bispo de Roma, sendo as bases do papado estabelecidas por Calisto I (217-222). Inocêncio I (401-417) na sua epístola a Decêncio, bispo de Gúbio (416), rejeita "a veracidade de qualquer tradição apostólica nacional", destacando que todas as igrejas do Ocidente tem sua origem em São Pedro e seus sucessores" (Perez de Urbel, 1977, p. 87). Até porque o momento era de "grave perigo para a cristandade e de clara debilidade do poder imperial, depois do ataque e saque de Roma por Alarico" (410) (Singul, 1999, p. 22).

Também a versão oficial da igreja romana sobre o martírio de Santiago, largamente difundida a partir da segunda metade do século V, por não fazer referência á pregação de Tiago na Espanha, muito contribuiu para a não aceitação da mesma. Mas, em contrapartida, o papa Leão Magno (440-461), na sua Carta aos povos vândalos, odos e romanos, que em meados do século V habitavam a península ibérica, confirmava a prédica de apóstolo na Espanha, ao mesmo tempo em que se colocava abertamente contra o Priscilianismo.

A partir do século VI, os registros sobre a pregação de Santiago se tornam mais constantes. Para isso contribuiu a conversão de Recaredo ao Cristianismo (587), tornando-o a religião oficial do reino hispano-visigodo (589). O bispo Máximo de Zaragoza, falecido por volta de 606 (Singul, 1999, p. 24) na parte da sua crônica relativa ao ano de 571, refere-se de forma ligeira, como se fosse um dado bastante conhecido, a fundação de um templo dedicado á Virgem por Santiago.

Confirmava, dessa forma, a presença do apóstolo em uma das áreas mais romanizadas da península ibérica.

No final do século VI é composto o "Breviarium Apostolorum", escrito com o objetivo de "defender uma origem apostólica direta de algumas das principais comunidades cristãs do ocidente" (Andrade Cernadas, 1995, p. 42). Amplamente difundido nos séculos VII e VIII, nele se apresentavam notícias biográficas sobre os apóstolos, inclusive os lugares da sua pregação e do seu sepultamento. Com relação a São Tiago, registra que fora ele o evangelizador da parte ocidental da Espanha, isto é, a antiga província romana "Gallaecia", e que por isto estaria aí enterrado, num misterioso lugar denominado de "Ahaia Marmorica".

Corroborada a noticia por Santo Isidoro, bispo de Sevilha (570/636) no "De ortu et obitu patrum", obteve larga propagação, sobretudo, por monges irlandeses, ativos propagandistas da obra isidoriana. Beda - o venerável - monge, teólogo e historiador inglês da maior autoridade (672/735), teve decisivo papel na localização da edícula apostólica em terras galegas. Como frisa Francisco Singul, "o mais importante das noticias de Beda é a referência, nada menos - um século antes do descobrimento do sarcófago apostólico - à localização na Galícia do sepultamento de São Tiago" (Singul, 1999, p. 31). Na Homilia XCII, Beda fala do traslado do corpo santo da Palestina à Espanha. E no "martirológio" de Beda, a informação se torna mais completa indicando que, após um segundo traslado em terras hispânicas, fora "escondido nos seus últimos limites frente ao mar britânico". Também do século VIII, valeria ser destacado o "poema de Aris", do monge inglês Santo Adelmo (650/709) abade de Malmesbury e bispo de Sherbone a partir de 705. Com base nas fontes encontráveis nos mosteiros da época, inclusive bizantinas, realizou a primeira versão poética sobre a missão evangelizadora de Tiago na Espanha.

Na península ibérica, a crença se consubstancia paulatinamente, sendo inclusive consagrada ao apóstolo uma igreja no século VIII - a de Santiago de Meilán - e invocado em hino litúrgico: o Dei Verbum, como padroeiro da Espanha. Este hino foi composto na época do rei Mauregato (783-788) e ficou conhecido como Hino de Mauregato, por apresentar um acróstico do nome deste rei. Seu autor, um monge de Liébana, conhecido como Beato, em 776, escrevera um "comentário ao Apocalipse". Aí, acrescentando dados geográficos à predicação hispânica do apóstolo, situa-se, em um mapa mundi, a "Achaia Marmorica" em terras galegas, meio século antes da descoberta da tumba apostólica. Tal prefiguração seria hoje corroborada pela arqueologia, que a partir dos restos encontrados, concebeu a ideia de um sepulcro rústico no exterior, contrastando com um suntuoso interior composto de arcos e arcas de mármores, que tornava possível a identificação metonímica desse "locus arcis marmoricies" com a enigmática "Achaia Marmorica" (Andredade Cernadas, 1995, p. 42). Importa salientar que as ideias do beato - da localização do sepulcro em compostela e do patronato hispânico de Santiago - foram acolhidas com entusiasmo pela igreja asturiana, que tinha em suas origens apostólicas, assim como Roma, na defesa da ortodoxia católica e no seu antiadocionismo combativo, a oportunidade de reforçar a sua autoridade doutrinal na Espanha cristã (Singul, 1999, p. 33).

No século IX, o bispo Teodomiro, de Iria Flávia, identifica no bosque de Libredón, na sua diocese, a mais ocidental e periférica do então reino das Astúrias, na beira do Mar Britânico, um túmulo miraculoso como sendo o do apóstolo. Este fora anunciado ao ermitão Pelágio por umas luzes misteriosas, também testemunhadas por outros fiéis. Comunicado o fato ao prelado, este, no local, após vários dias de jejum e oração, alcança a "revelatio". A data dessa "revelatio" não é clara, possivelmente ocorrera entre 820-830. Mas alguns historiadores (Lopez Pereira, 1993, p. 26) situam tal acontecimento, não sem veementes contestações (Andrade Cernadas, 1995, p. 42) antes da morte de Carlos Magno em 814. No entanto, a "Concordia de Antealtares" de 1077, documenta que o miraculoso achado se dera na época do bispo Teodomiro de Iria Flavia, e não do bispo contemporâneo  de Carlos Magno, Quendulfo. Além do mais, as escavações arqueológicas da década de 1950, feitas no subsolo do cruzeiro meridional da basílica compostelana revelaram o sarcófago do bispo Teodomiro, indicando o seu falecimento em 20/10/847 (Singul, 1999, p. 41 e Ferro Buibal, 1992, p. 501).

Mas, segundo a lenda, inclusive recolhida no livro IV do Codex Calixtinus, Carlos Magno lutara pela defesa do santo sepulcro contra os muçulmanos. Estes, sob o comando de Almanzor, no século X, destruíram a cidade, tornada líder espiritual e controle eclesiástico do reino asturiano. Também fora destruído seu templo, concluído no século anterior por Afonso III. No entanto, respeitaram a tumba inaugural, diante da qual estaria orando um ancião.



Reconstruída sobre a arca, a igreja é consagrada em 1003, depois é transformada em fortaleza (1037-1066), e em 1075 inicia-se a atual basílica, "cume da arte das igrexas de peregrinación", na justa apresentação de Filgueira Valverde (1993, p. 14).

Voltando ao século IX, em seus meados, na França, obras escritas difundiram pela Europa a informação sobre o apostolado e o enterramento de Tiago na Galícia, bem como o culto dos habitantes dessa região ao seu túmulo recém-descoberto. Como aventa Francisco Singul, é possível que no século IX se estivesse assistindo à "ressurreição" de um culto sepulcral muito antigo, esquecido durante o século VIII, por causa da destruição causada pela invasão islâmica e pelo desaparecimento do Estado visigodo.

E, cita Singul ".... os trabalhos arqueológicos feitos no subsolo da Catedral de Santiago, nas décadas de 1940 e 1950, provaram a existência de uma importante necrópole altomedieval anterior ao descobrimento, que tem a tumba de Santiago como referência para sua ordenação."

Paulatinamente intensifica-se a peregrinação, que atinge o seu apogeu no século XII. O "locus jacobi" é neste século transformado em arcebispado, e o seu primeiro arcebispo - Diego Xelmirez - toma importantes medidas político-administrativas e culturais para fomentar a peregrinação e para embelezar a catedral e a cidade, com o beneplácito da poderosa abadia borgonhesa de Cluny. Da sua época, chamada de era compostelana, são a "História Compostelana" e o "Liber Sancti Iacobi", que ficaria sendo conhecido como Codex Calixtinus, por atribuir-se  a sua autoria ao papa Calixto II (1119-1124). Desse, possivelmente o Livro V - Guia Medieval do Peregrino - teria sido feito em co-autoria com o chanceler Aimeric Picaud. O interesse do Papa por Santiago de Compostela justifica-se até por ter sido ele irmão do Conde de Galícia - Raimundo de Borgonha, e tio de Afonso VII, rei de Galícia (1111) e posteriormente de Castela e Leão (1135).

Colaborador: Tácio Renato (AACS-Brasil)

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