III - A HISTÓRIA DO CAMINHO DE SANTIAGO


III - A HISTÓRIA DO CAMINHO DE SANTIAGO

 


Do Século I ao Século V

Diz a tradição que Jesus escolheu doze companheiros para serem seus discípulos mais próximos, segui-lo e com ele aprender uma nova filosofia que veio a ser o Cristianismo. Estes companheiros foram, após a morte de Cristo, chamados de apóstolos, palavra que em grego significa "enviados". Pois os doze foram enviados aos quatro cantos do mundo para transmitir os ensinamentos cristãos.

Entre estes doze apóstolos, havia dois com o nome Tiago. Um deles, filho de Zebedeu, é também chamado Tiago Maior (para distingui-lo do outro, filho de Alfeu, o Tiago Menor). Seis anos após a morte de Cristo, este Tiago, o Maior, viajou para a península Ibérica, onde passou vários anos divulgando sua mensagem, na região que hoje é a Galícia, talvez chegando até Zaragoza.

Embora muito poucos dos habitantes locais tenham se convertido ao Cristianismo, Tiago deixou plantada nestas terras distantes a primeira semente, que viria a florescer pelos séculos futuros. Retornando a Palestina, o apóstolo morreu como mártir no ano 44, decapitado, por ordem do rei Herodes Agripa. Seu corpo insepulto, jogado aos cães por ordem do rei, foi recolhido por seus discípulos Teodoro e Atanásio.

Tiago havia manifestado o desejo de ser enterrado em terras ibéricas,  e diz a lenda que seu corpo foi transportado por seus discípulos para  a Espanha, em uma nau de pedra guiada por anjos. É mais provável que tenha sido levado em um navio mercante comum, porém já em seu ataúde de pedra, daí ter nascido esta antiga crença. O apóstolo foi então sepultado na cidade de Iria Flavia (assim denominada em homenagem ao imperador romano Flávio Vespasiano), atualmente nos arredores da cidade de Padrón, próximo à costa ocidental da Galícia. Esta região era chamada pelos romanos de Finis Terrae, isto é, os confins da Terra, por ser o ponto mais ocidental da Europa, além do qual nada  mais há que o Oceano.

Há evidências que sugerem ter havido peregrinações esparsas ao local  desde os primeiros séculos da era cristã. Porém com as invasões bárbaras, a queda do Império Romano e, posteriormente, com as invasões muçulmanas, o túmulo acabou sendo "esquecido", ou perdido.

 


Do Século VI ao Século X 

No ano 813, um monge chamado Pelayo, retirou-se para viver como  eremita no bosque de Libredón na colina circundada pelos rios Sar e  Sarela.

Neste local havia duas antigas necrópoles (cemitérios) abandonadas,  uma romana e  outra visigótica. Avistando uma chuva de estrelas que parecia cair sobre um determinado ponto, e interpretando esta visão como um sinal divino, Pelayo foi examinar o local e ali encontrou o velho sepulcro.

Informou então ao bispo galego Teodomiro o que havia achado em um "campo de estrelas", isto é, em um "campus stellae", em latim, origem da palavra Compostela. O bispo, pelas inscrições no sepulcro, confirmou que se tratava do túmulo do apóstolo Tiago que, segundo a secular tradição havia sido sepultado naquele local, a beira do rio Ulla, próximo a uma antiga estrada romana. Foram também identificados os túmulos de Teodoro e Atanásio, os dois discípulos, que estavam sepultados ao lado do mestre.

O rei de Astúrias, Alfonso II, o Casto, (791 - 842), ao tomar conhecimento da descoberta, nomeou São Tiago como patrono oficial da Espanha e ordenou a construção de uma capela de pedra sobre o sepulcro, o que foi realizado no ano 829. Os primeiros documentos históricos que relatam a existência de peregrinações ao "campo de estrelas" datam do ano 840, e o local aos poucos tornou-se um centro de devoção reconhecido pela Igreja.

Na batalha de Clavijo, no ano 842, as tropas cristãs de Astúrias e León, apesar de sua grande inferioridade numérica, derrotaram os árabes do reino da Andaluzia. Nasceu então a lenda de que São Tiago, montado em um cavalo branco, lutando bravamente, havia participado pessoalmente da batalha. O santo foi visto por muita gente, e a fama de Santiago Matamoros ("mata mouros"), com sua espada invencível, se espalhou rapidamente por toda a Europa. O culto ao apóstolo passou a ser a partir de então o foco espiritual e o símbolo de resistência que deu energia à Reconquista (a luta contra os muçulmanos). Desde então, e até hoje, a espada com o punho em forma de cruz é um dos símbolos do apóstolo Tiago.

No ano 950, Gotescalco, bispo de Le Puy (na França), tornou-se a primeira grande autoridade a visitar Compostela como peregrino, dando um exemplo que foi seguido inúmeras vezes pelos séculos futuros.

O rei de Astúrias, Alfonso III, o Grande, (866 - 910), ordenou então que fosse construída no local uma igreja maior que a anterior. No ano 997 o antigo templo sobre o túmulo foi destruído e incendiado pelos mouros sob o comando de Abu Amir al-Mansur, conhecido pelos espanhóis como Almanzor, primeiro-ministro do Califado de Córdoba.

 


Do Século XI ao Século XV 

A partir do século X, com o progresso da Reconquista, e o crescimento dos territórios cristãos na península Ibérica dando origem a novos reinos que se unem em torno da causa comum, a peregrinação tornou-se mais segura e o número de estrangeiros dirigindo-se a Santiago gradualmente cresce.

Sancho III, o Grande, rei de Navarra (992 - 1035), trouxe para a Espanha a ordem de Cluny, e com ela a arte românica. Este estilo arquitetônico, com construções gigantescas representando o ideal cristão, está presente em numerosas igrejas do Caminho. Os monges ocuparam todo este território devastado por séculos de guerra, construindo mosteiros e hospitales (albergues) ao redor dos quais nasceram novos burgos. Ramiro I, o primeiro rei de Aragão (1035 - 1066), filho de Sancho III da Navarra, criou a infra-estrutura para a rota que vinha de Somport, denominado Caminho Aragonês. Alfonso VI, o Bravo, rei de Castela e León (1065 - 1109), forneceu também proteção real ao Caminho, dando todo apoio a Santo Domingo para conservar as estradas no território castelhano.

No ano 1064 Don Rodrigo Díaz de Vivar, El Cid, o herói da luta contra os mouros, chega a Compostela como peregrino. Onze anos depois se iniciam as obras para a construção da atual catedral compostelana, terminada em 1128.

Em 1119 o papa Calixto reconheceu Compostela como um dos três centros cristãos de peregrinação. O primeiro Ano Santo, em que foi dado o perdão aos peregrinos, foi 1126. Os fiéis que iam a Roma eram denominados "romeiros" (de onde nasceu a palavra "romaria", o ato de ir a Roma), os que iam a Jerusalém eram os "palmeiros" por levarem uma folha de palma, símbolo de sua caminhada, e os que iam a Compostela eram chamados de peregrinos", isto é, os que atravessam o campo (per + agro). Em 1179 o papa Alexandre III tornou permanente o Ano Santo. 

O sacerdote Aymeric Picaud, de Poitou, peregrinou a Santiago em 1139, e com base em suas observações escreveu o primeiro guia do Caminho, conhecido como o "Codex Calixtinus", que foi, por muitos séculos e até hoje, a base de todos os outros guias. Com o aumento no número de peregrinos, junto com os fiéis vieram também ladrões, salteadores de estradas e todos os tipos que, com sua esperteza, abusavam da boa fé dos andarilhos. Para manter a segurança do Caminho, criou-se em 1170, em Cáceres, a Ordem dos Cavaleiros de Santiago, cujos cavaleiros eram encarregados da vigilância da rota através da Espanha. A Ordem dos Templários, um pouco mais antiga, e com a mesma finalidade de proteger os lugares santos, veio também mais tarde proteger o Caminho.

Nos séculos XIII, XIV e XV o fluxo de peregrinos chegou a atingir cerca de quinhentos mil caminhantes por ano. Entre estes vieram São Francisco de Assis, em 1213, a princesa Ingrid da Suécia, em 1270, Santa Isabel de Portugal, em 1326, Alfonso XI de León e Castela, em 1332, Santa Brígida da Suécia, em 1340, o pintor holandês Jean Van Eyck, em 1430, os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela, em 1488, Hugo IV duque de Borgonha, Eduardo I da Inglaterra, Carlos I e Felipe II, em 1554. 

Foi nesta época que a rota principal, a partir de Puente la Reina, pelo grande número de estrangeiros (franceses ou vindo até este caminho através da França), passou a ser conhecida como Caminho Francês.

Colaborador: Tácio Renato (AACS-Brasil)

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