I – CONTEXTUALIZAÇÃO


I – CONTEXTUALIZAÇÃO

 


A designação “Santiago” é forma mais usual que conhecemos do nome do apóstolo Tiago. No passado era denominado de Sant’Iago ou San Jacob. “Iago” ou “Yago” é uma derivação que vem do idioma grego citado no Novo Testamento (Iacobus), que por extensão vem do hebraico “Iacob” como o patriarca Jacob. A etimologia da palavra se perde no tempo, mas afirmam alguns escritores e pesquisadores eruditos que provém de “Ya’Aqobel” (que Deus o proteja).

No Novo Testamento existem dois Tiagos: um é filho de Zebedeu (o maior) e outro filho de Alfeo (o menor). Ambos eram discípulos de Jesus e compunham o grupo dos doze. O Santiago, a quem nos referimos diretamente é o filho de Zebedeu e Salomé, que foi uma das mulheres que havia seguido Jesus desde a Galiléia e que encontramos ao pé da cruz. Era ele irmão de João, o apóstolo e, seguramente mais velho que este, já que historicamente o nomeiam antes que seu irmão João.

Vindos de Betsaida, habitavam nas cercanias de Cafarnaún, trabalhando na pesca nas margens do lago Genesaré e eram associados aos irmãos André e Pedro. Deste círculo de pescadores Jesus então levou seus primeiros quatro discípulos: Pedro, André, Santiago, e João. Salomé os acompanhou.

Estes irmãos, sócios e amigos, seguiram imediatamente ao chamado de Jesus enquanto estavam imersos no trabalho, e dentre todos os discípulos que o acompanharam, Jesus instituiu o grupo dos “doze” – uma ação simbólica e profética – que representava a antiga estrutura das doze tribos de Israel.

A tradição conservou quatro registros com os nomes dos doze. Estes dados foram conservados com extremo cuidado e precisão: em cada registro há três grupos de quatro nomes, e cada quarteto está presidido pelos mesmos apóstolos: Pedro, Felipe, e Santiago.



Além de pertencer ao grupo dos doze, Santiago tinha papel destacado perante Jesus fazendo parte de um grupo mais reduzido que era o “grupo íntimo de Jesus” que teve especial relação com Pedro, Santiago e João, uma vez que frequentemente Jesus levava este pequeno grupo em momentos cruciais na qualidade de testemunhas excepcionais e exclusivas, como na ressurreição da filha de Jairo, na sua própria transfiguração e na sua agonia no horto.

Em outras ocasiões a este trio de confiança se une André. Posteriormente estes quatro acompanham Jesus na sua jornada de Cafarnaún,  indo até a casa de Pedro e tendo se interessado pelos projetos futuros de Jesus e pela ruína de Jerusalém.

A análise mais acurada da personalidade de Santiago revela ser ele um apaixonado, aventureiro, ambicioso e decidido, tendo sido denominado por Jesus como “Filho do Trovão” (Boanerge), seguramente por seu arrojo e decisão, razão pela qual Santiago aparece como uma pessoa exaltada, capaz de colocar tudo em jogo, como uma pessoa que segue seus impulsos e que não se detém em calcular e medir consequências. 

Politicamente Jesus aparecia com um líder capaz de conseguir um reino com dimensão social-político-econômico. Um reino que reivindicasse a autonomia de Israel e entrasse num processo revolucionário contra o poder estrangeiro. Por isso esse pequeno grupo o seguiu decididamente. Mas também por esse motivo não o entenderam perfeitamente e ficaram claros os desajustes entre o pensamento do projeto de Jesus e as expectativas de Santiago.

Uma vez morto Jesus, encontramos Santiago citado em algumas das experiências do encontro com o Senhor Ressuscitado, e devemos aqui supor a sua presença nos encontros pascais com os outros onze apóstolos. Neste ponto se dá a verdadeira mudança de expectativa e da compreensão definitiva do projeto de Jesus.   

A partir daqui, Santiago forma parte do grupo básico da Igreja Primitiva de Jerusalém, com o grupo dos doze em meditação e oração. Não existem documentos sobre a sua atuação nesta igreja, mas deve ter tido papel importante pelo simples fato de ter sido escolhido por Herodes Antipas I, assim como a Pedro como figuras representativas para menosprezar a comunidade cristã e contentar os judeus.



Após a crucificação de Jesus pouco se sabe sobre o que aconteceu com os apóstolos. Tudo leva a crer que se espalharam pelos quatro cantos do mundo ansiosos para disseminar a palavra de Deus. Há uma forte crença que Tiago tenha seguido para a Espanha, depois de passar um tempo pregando na Samaria e na Judéia. A Espanha era uma província do Império Romano e havia um bom tráfego comercial. Para Tiago, a Espanha era uma terra estranha e um convite ao seu espírito aventureiro e impetuoso.

A tradição diz que ele desembarcou na Galícia e seguiu pelas calçadas romanas até Zaragoza, lá fundando a devoção da “Virgen del Pilar”, segundo documentos do século XIII. Ninguém sabe ao certo quantas pessoas conseguiu converter ao cristianismo. Uns falam em nove, outros em sete e até mesmo de apenas duas conversões. E, por conta desse fracasso, tenha decidido voltar para a Terra Santa. Embarcou em dos portos do Levante acompanhado de seus dois discípulos – Teodoro e Atanásio – dando por encerrada sua pregação na Espanha, após uma permanência de sete anos.

Ao chegar de volta a sua terra, Herodes o faz decapitar com a espada nos idos dos anos 41 – 44 D.C. O fato teria ocorrido na festa de Páscoa entre março e abril. Pouco tempo depois morria subitamente Herodes Agripa I, no ano 44 da era cristã. Os restos do apóstolo foram atirados para fora dos muros da cidade tendo sido recolhidos por Teodoro e Atanásio que partiram em segredo da Jaffa, levando o corpo de volta à Espanha, A viagem teria durado sete dias, e reza a lenda que o barco que os levou era conduzido por anjos.      

Desembarcaram na Galícia, num lugar que atualmente é chamado de Padrón, às margens do rio Ulla. Os discípulos pediram permissão à rainha local para sepultar o corpo do Apóstolo nas terras galegas. A rainha Loba, ou Lupa a princípio não permitiu, mas uma sucessão de milagres acabou por convencê-la, e Tiago foi enterrado num bosque chamado Libredón. Mais tarde Teodoro e Atanásio foram também enterrados ali.

Colaborador: Tácio Renato (AACS-Brasil)

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