IV - OS 22 MILAGRES DE SANTIAGO


IV - OS 22 MILAGRES DE SANTIAGO

 


O livro II do Códex Calixtinus é a parte mais conhecida e talvez a mais antiga. Ele apresenta os 22 milagres de São Tiago, precedidos de uma introdução atribuída ao Papa Calisto, e dá testemunho da veracidade de 18 dos milagres, assegurando terem sido alguns por ele próprio presenciados.

- O primeiro milagre teria ocorrido no século XI, uma vez que faz referência ao Rei Afonso de Leão e Castela. Registra que Santiago foi o primeiro apóstolo martirizado, e destaca que as inumeráveis provas de seus milagres se prestam para extirpar a aspereza dos povos. Diz respeito aos 20 homens que o Apóstolo libertou do cativeiro dos moabitas, onde diante do perigo e invocação pelos fiéis ao santo, houve uma aparição e libertação da situação do sofrimento, com abertura das correntes e da prisão, com miraculosas aberturas de portas ao sinal da cruz e condução pelo apóstolo dos fiéis ao castelo de cristãos e, ainda, a sua peregrinação ao sepulcro jacobeu para agradecimento e divulgação do ocorrido na festividade de 30 de dezembro.

- O segundo milagre é o mais antigo, e reporta-se aos tempos do bispo Teodomiro de iria Flavia, o descobridor do sepulcro apostólico, cerca de 830 DC. O seu tema encontra-se relacionado a um dos milagres de S. Gil, pelo qual se apega a escrita do pecado mais grave de Carlos Magno, que numa cédula o havia escrito.  De forma análoga, isto ocorre no milagre jacobeu onde um pecador italiano é orientado por seu pároco, a quem confessara uma falta gravíssima, a ir a Santiago de Compostela, onde no dia do apóstolo, 25 de julho, arrependido pede perdão a Deus e a Santiago. O bispo Teodomiro, encontrando no altar a cédula onde o pecado fora escrito, indaga sua origem e o pecador se apresenta, confessando sua terrível falta e a orientação que recebera de seu pároco. No entanto o bispo ao abri-la, nada encontra escrito. Ensina-se dessa forma que todos os contritos que de longes terras buscam o auxílio de Santiago na Galícia para obtenção do perdão do Senhor, o alcançam.

- O terceiro milagre ocorreu em 1108 com um francês cuja mulher não conseguia engravidar, e pela intercessão de Santiago invocado em seu sepulcro, consegue ter um filho, ao qual dão o nome de Tiago em reconhecimento a graça alcançada. Aos quinze anos, o jovem vai em peregrinação a Compostela com os pais e parentes, mas adoece e morre no Caminho perto dos Montes de Oca. A mãe enlouquecida, invoca o apóstolo para ressuscitá-lo, ameaçando enterrar-se viva se tal não ocorresse. O rapaz então volta à vida, por vontade de Deus, louvando as glórias da vida celestial junto a Santiago, que com ele sempre estivera enquanto morto. E completa sua peregrinação seguindo a vontade do apóstolo. O narrador exalta o modo como o santo, já morto, ressuscitara um outro morto, significando isto que o apóstolo vivia para todo o sempre em Deus, e com isto apregoa-se o galardão dos justos após a morte.

- O quatro milagre teria sido registrado por um certo cônego Humberto, da Igreja de Santa Maria Madalena de Besanson. Nele se comprova o ensinamento do Eclesiástico (5,10) - Sê firme em teu sentimento e seja uma a tua palavra, ou segundo a versão do Codex: Melhor é não fazer promessas, que depois de fazê-las voltar atrás. Narra o exemplo que trinta cavaleiros lorenenses no ano de 1080 se dispõem a visitar o santo sepulcro jacobeu e juram manter a fidelidade entre si, exceto um deles. Mas na Gasconha abandonam um companheiro que havia adoecido e é justamente o que não prometera solidariedade, o único a ficar com o enfermo, que acompanha até a morte. Encontrando-se em local ermo e perigoso com o defunto, atemorizado invoca o apóstolo, que lhe aprece a cavalo, conduzindo-o e ao morto a Compostela, para que o cadáver pudesse ser enterrado, vencendo em uma noite um percurso de doze dias. Retornando, e encontrando os companheiros desleais, fala-lhe do desagrado de Santiago a mando deste, e eles se penitenciam sob a orientação do Bispo de leão e concluem a peregrinação.



- O quinto milagre ocorrera no ano 1090 com peregrinos alemães vitimados pela cobiça de um hospitaleiro em Toulouse. Este, para ficar com os seus bens, coloca uma taça de prata em uma das bolsas dos seus hóspedes adormecidos. Culpabilizados pai e filho a quem a mesma pertencia, o filho é enforcado, assumindo a pena para dela livrar seu genitor. Este completa sua peregrinação até o túmulo do apóstolo. Voltando 36 dias após, encontra vivo na forca o filho. A população local percebe então a injustiça cometida e leva à forca o hospitaleiro. Através deste exemplo, ensina-se como tratar os peregrinos: com compaixão e benigna piedade e não com fraudes. E documenta-se a banalização do maravilhoso á época, uma vez que o fato de o enforcado estar vivo após tantos dias não causa espanto maior à população.

- O sexto milagre também é contrário aos hospitaleiros desonestos e propugnador da necessidade de serem doadas esmolas às igrejas e aos pobres. Ocorreu no ano de 1100, com cavaleiro poitevino, que fugindo da peste que assolava sua região, com a mulher e os dois filhos, parte em peregrinação. Mas a mulher morre em Pamplona e o injusto hospedeiro o espolia dos bens, inclusive da égua. Partindo a pé com os filhos para Compostela, empresta-lhe um asno um honorável senhor, que não é outro senão o Apóstolo. Revelando-se ao fiel na sua igreja, empresta-lhe de novo o asno para o regresso à casa e anuncia a iminente e terrível morte do hospitaleiro desonesto. Isto é comprovado no Caminho de regresso pelo peregrino. E ao chegar as portas da sua casa, o asno se desvanece miraculosamente.

- O sétimo milagre teria ocorrido em 1001, e relaciona a peregrinação jacobeia à Jerusalém. Fala de como um marinheiro, encontrando-se em um barco que rumava para Jerusalém, fora atacado pelos sarracenos, caíra no mar durante a luta. Embora vestido pesadamente com sua armadura e escudo, é salvo pela intermediação de Santiago. Após o milagre, a nau é conduzida com segurança ao porto desejado, enquanto que a dos sarracenos periga em meio a tempestade. Não sem antes o apóstolo tentar demover os muçulmanos da perseguição aos cristãos, estes em aparente desvantagem. E o marinheiro salvo, após visitar o sepulcro do Senhor, parte para a Galícia para orar no sepulcro apostólico. Destaca-se pois os dois principais centros de peregrinação com objetivos místicos, uma vez que Roma não é mencionada e se configura mais como centro político da cristandade.

- O oitavo milagre remonta ao ano de 1102 e também se inscreve na rota de peregrinação à Terra Santa. Refere-se a um prelado que voltando de Jerusalém e encontrando-se sentado na borda de um barco cantando com o saltério aberto, é lançado ao mar por uma enorme onda, junto com outros passageiros, mas invocando a Santiago são todos devolvidos secos á embarcação, e o prelado ainda como o Códice aberto. Então, para agradecer ao apóstolo, vai em peregrinação a igreja compostelana onde entoa hinos ao santo. Merece destaque o detalhe do saltério, que acentua ainda mais o caráter espantoso do milagre.

- O nono milagre, também inserido no contexto da peregrinação a Jerusalém, remonta a 1103, e fala de como um fidalgo de origem francesa prometera visitar o sepulcro jacobeu se o apóstolo o ajudasse a derrotar os turcos. Isso acontece, mas ele se esquece do prometido e fica mortalmente enfermo. É salvo pelas insígnias de um peregrino (o báculo e embornal bento), remédio indicado pelo apóstolo ao seu escudeiro - com o que se revitaliza a tradição dos objetos mágicos do maravilhoso pré-cristão, partindo em direção a Galícia, a nave em que se encontra enfrenta uma terrível tempestade e novamente o apóstolo é invocado pelos viajantes com a promessa de visita ao seu sepulcro e doações em dinheiro para sua basílica, recolhidas pelo citado cavaleiro. Então o mar é apaziguado e a nave é conduzida pelo próprio santo, de aparência deslumbrante, e concluída a peregrinação em sua basílica são depositadas as doações recolhidas para as obras da mesma. Este relato dá, portanto, uma ideia de como eram arrecadados os enormes fundos necessários para a construção da catedral, bem como a exemplo do que ocorrera no quarto milagre, pune exemplarmente aos que não cumprem as promessas feitas.



- O décimo milagre remonta a 1104 e fala de como um peregrino que regressava de Jerusalém, ao se encontrar defecando na borda da embarcação - atente-se para o grotesco da situação, que coloca em cena o baixo corporal, fato tão comum na cultura popular da idade média - cai nas profundezas do mar, e invocando o apóstolo, é salvo. Então, amparado por este, nada por três dias e três noites na rota da nau, chegando incólume ao porto desejado, dando testemunho do ocorrido. Este é o quarto milagre a relacionar Jerusalém a Santiago de Compostela, confirmando que estes pontos são os mais procurados pelos  fiéis, e não Roma.

- O décimo primeiro milagre reporta-se ao ano de 1105, quando um cavaleiro fora aprisionado por seus inimigos num castelo na Itália e libertado pelo santo que, invocado, o faz saltar de uma altíssima torre sem lesão alguma, a qual subira também milagrosamente com seus pesados grilhões, e lhe indica que visite a Galícia.

- O décimo segundo milagre, ocorrido em 1106, refere-se também a um cavaleiro que adoecido da garganta, que ficara então terrivelmente inchada, sem que nenhum médico o curasse, confiado em Santiago ficou curado pelo toque de uma concha - novamente a revitalização do objeto mágico - das que usam os peregrinos retornados de Compostela, conseguida com seu vizinho. Dirige-se então ao sepulcro da Galícia em agradecimento.

- O décimo terceiro milagre, de 1135, fala de como um cavaleiro que golpeara impiedosamente um seu colono, fiel de Santiago, é castigado caindo retorcido e desmaiado com o braço quebrado. Mas, apelando à clemência do agredido, e por intermédio dele, à do apóstolo e de Deus, recobra o seu estado anterior. Interessa observar que, a modo da cadeia da vassalagem feudal, também aqui a hierarquia é mantida: a intervenção se dá do crente para o santo e deste para Deus.

- O décimo quarto milagre, de 1107, é um exemplo da exploração a que os senhores feudais sujeitavam os mercadores. Refere-se a certo mercador enganado por um senhor feudal, a quem pedira proteção para ir a uma feira na sua propriedade. Este, ao invés de proporcionar-lhe a proteção ajustada, o encarcera e confisca seus bens. Mas o mercador invoca Santiago e este lhe aparece e o conduz ao alto de uma torre que se inclina até tocar o chão, para que saia sem dano. Em testemunho do milagre, leva as correntes com que estivera preso a igreja compostelana, colocando-as diante do altar do apóstolo. Observa-se nessa narrativa a tendência à concretização própria da arte medieval, através da espantosa inclinação da torre. 

- O décimo quinto milagre remonta a 1110, e fala de como um cavaleiro italiano, fugindo da batalha em que sua hoste fora derrotada, perseguido pelos inimigos, invoca o apóstolo prometendo-lhe visitá-lo com seu cavalo, seu mais querido bem. Protegido por Santiago é salvo e cumpre a sua promessa, peregrinando a Compostela e entrando na igreja a cavalo, apesar da proibição dos guardas, para dar testemunho do milagre.



- O décimo sexto milagre tem sua escrita atribuída a São Anselmo, que foi arcebispo de Cantuária. Dotado de certa complexidade narrativa, enaltece a caridade e solidariedade entre os peregrinos. Diz respeito a um cavaleiro leonês que em peregrinação a Compostela, ajuda uma peregrina carregando-lhe o embornal de suprimentos dos quais ela se servia quando necessário. Encontrando posteriormente um enfermo impossibilitado de caminhar, cede-lhe o próprio cavalo e continua a viagem a pé, carregando a mochila da mulher e o bordão do mendigo. Abatido pelo sol quente e pelo cansaço, adoece e perde a fala. Mas a recobra e dá testemunho aos companheiros dos sofrimentos a que fora submetido no plano espiritual por demônios que o torturavam e o emudeciam e de como apareceu-lhe Santiago com o embornal da mulher e o bordão do mendigo que ajudara, expulsando os demônios. Pedindo um sacerdote para dar-lhe a extrema-unção, em seguida tem uma boa morte, não sem antes advertir os amigos para que não continuassem servindo ao seu mau senhor, que embora avisado em sonho, não se emendou e teve uma trágica morte, traspassado por uma espada do cavaleiro que acabara de golpear mortalmente. Dessa forma, os bons são recompensados e os maus punidos, marcando-se a exemplaridade da narrativa, bem como a familiaridade com o sobrenatural à época. 

- O décimo sétimo milagre tem também sua redação atribuída a Santo Anselmo, dotado de uma narrativa ainda mais complexa que o anterior, apresentando vários episódios encadeados, é na verdade um milagre mariano, muito difundido, sendo Santiago apenas um intercessor pelo seu devoto junto a mãe de Jesus. Dentre suas versões mais conhecidas podemos citar 3 em linguas-romance do século XIII, inseridas nas coletâneas de milagres marianos em verso: 1 - em francês arcaico de Gautier de Coincy, 2 - em castelhano medieval de Gonzalo de Berceo, e 3 -  em galego ou galego-português de Afonso X, rei de Leão e Castela. Também no Brasil milagre parecido se perpetuou no romanceiro nordestino, recolhido e reapresentado por Ariano Suassuna no seu "Auto da Compadecida".

- A versão do Liber Sancti Jacobi fala de como um jovem leonês (Gerardo de Cluny, na versão francesa e castelhana, anônimo na versão galega e no Codex) que peregrinava anualmente a Santiago de Compostela, é induzido a cortar as partes pudentas e ao suicídio pelo demônio, que se faz passar por Santiago. Isto porque havia fornicado às vésperas da peregrinação, embora levasse uma vida muito casta. Mas ressuscita e dá testemunho do que ocorrera após morrer: o demônio que o tentara, junto a uma multidão de companheiros malignos, arrebatara sua alma. Dirigindo-se a Roma, são interceptados por Santiago, que os obriga a item a uma etérea planície próxima a igreja de São Pedro em que se realizava uma assembleia presidida pela formosíssima Mãe de Deus. Advogando pelo morto, o apóstolo narra á Virgem o modo como fora enganado, e esta repreendendo  severamente aos demônios, faz com que a vítima seja ressuscitada. Tendo suas feridas cicatrizadas, no lugar da genitália forma-se uma verruga, por onde urinava. E divulga por muitos lugares a insólita ocorrência, registrando que inclusive o reverendíssimo Hugo, abade de Cluny, o vira com os próprios olhos. Santo Anselmo termina a narrativa dizendo ter ordenado que no dia 3 de outubro se festejasse este grandioso milagre, bem como os demais do apóstolo. Hoje a festa dos milagres não consta mais do calendário litúrgico, permanecendo apenas as que se relacionam ao seu martírio e ao seu traslado, este comemorado a 25 de julho, que é também o dia da pátria galega.

- O décimo oitavo milagre remontaria ao século XI, uma vez que se refere ao Conde Poncio de Tolosa (1037-1060), que indo em peregrinação a Santiago de Compostela com o seu irmão, encontra cerrado o oratório onde jaz o corpo do apóstolo e não consegue que o sacristão o abra, por já ser noite, horário em que permanecia fechado. Desejoso de neste local fazer suas orações, ao chegar a hospedaria conclama os demais peregrinos a acompanharem-no a igreja, pois que se fosse desejo de Santiago, as portas do oratório sepulcral seriam abertas. Diante das ardorosas súplicas dos seus cultores, que portavam tochas acesas para a vigília, o apóstolo aquiesce e as portas são miraculosamente abertas, comprovando-se assim a bondade com que recebe os peregrinos. Firma-se, pois nesse exemplo uma das suas três representações: sedente, anfitrião (as outras são o caminhante apóstolo e o cavaleiro matamouros).



- O décimo nono milagre corrobora a tradição de Santiago cavaleiro, matamouros. Um venerável homem chamado Estevão, tendo abandonado a dignidade do bispado da Grécia, vai para Compostela, pedindo aos guardiães da catedral que lhe dessem nela um cantinho, de onde avistasse o altar do santo apóstolo, para dedicar-se à oração, jejuns e vigília em santa vida. Entretanto, certo dia, repreende duramente uns aldeães, que em data festiva invocavam ao santo como cavaleiro, ensinando-lhes que deviam referir-se a ele como pescador, conforme as escrituras. Mas à noite o apóstolo se lhe apresenta como cavaleiro de Deus na luta contra os sarracenos portando chaves, que explica serem para abrir a cidade de Coimbra, dominada pelos mouros e há muito tempo cercada pelos cristãos (desde janeiro de 1064). Na manhã seguinte, contou aos clérigos seculares o ocorrido. e posteriormente comprovou-se que no mesmo dia e hora (9/7/1064) , a dita cidade fora conquistada aos muçulmanos pelas tropas de Fernando I de Castela. Continuou o santo homem a sua casta vida na basílica, onde veio a falecer, sendo aí honrosamente enterrado. Portanto, o exemplo valoriza a intuição popular, em detrimento da erudição, e o coração em detrimento ao intelecto, nas coisas da devoção.

- O vigésimo milagre refere-se ao modo como um cavaleiro, feito prisioneiro de um conde provençal, possivelmente entre 1100 e 1110, invocando o apóstolo e a sua forma de morte, é salvo do degolamento e de ser traspassado pelo gume da espada. É conduzido da prisão pelo próprio Santiago, que aparece em resplendor no castelo, ofuscando os guardas e fornecendo uma amostragem do Paraíso através do seu aroma agradável e luz claríssima. O cavaleiro, no dia em que se festeja a trasladação do santo corpo apostólico, foi ao sepulcro para dar fervoroso testemunho de tal maravilha.

- O vigésimo-primeiro, situado na época do próprio redator, o Papa Calixto (sec. XII), fala de como um peregrino borgonhês, paralítico desde os quatorze anos, obedecendo a um sonho que tivera, permaneceu orando na basílica até ficar curado, aparecendo-lhe Santiago na terceira noite e pondo-o de pé. Após a cura, velou por mais treze dias, dando testemunho do milagre.

- O vigésimo-segundo é um exemplo de como um pedido deve ser completo, visando a salvação total do crente. Passado no ano 1100, se refere ao peregrino barcelonês que pedira a S. Tiago que o libertasse do cativeiro dos inimigos, se viesse a cair em seu poder. Então ele é aprisionado e solto por diversas vezes, até que o apóstolo lhe aparece e lhe diz que as sucessivas prisões que lhe aconteciam, era porque pedia apenas a libertação do corpo, não a salvação da alma. A partir de então, portou sempre um pedaço de corrente contra a proteção dos perigos (novamente aqui aparece a presença do objeto mágico) e testemunho das suas muitas prisões. O papa Calisto diz ter muitas vezes encontrado esse homem na basílica apostólica, sempre com os pés desnudos e esfolados e portando em suas mãos a cadeia; dele também ouvira esses fatos. Concluindo a narrativa desse milagre, que é também o último do livro, enfatiza a importância de se pedir a salvação da alma e não apenas ao que concerne ao proveito do corpo, para o qual só o necessário deve bastar. Para a vida da alma, para que seja "coroada nas moradas siderais", importam "as virtudes como a fé, esperança, caridade, paciência, temperança, hospitalidade, liberalidade, humildade, obediência, paz, perseverança e outras semelhantes". 



Esses 22 milagres são referidos em um dos cânticos do Apêndice atribuído a Aimeric Picaud. Aliás, alguns milagres que não fazem parte do livro II, são apresentados em outras composições, como o do menino ressuscitado (Liber Sancti Jacobi, 1998, p. 594) e o da deformação do mau filho de um visconde, por castigo (Liber Sancti Jacobi, 1998, p. 595), etc.

Colaborador: Tácio Renato (AACS-Brasil)

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